Planejar para ler melhor

A leitura em voz alta pelo professor pode ser muito proveitosa para as crianças, mas, para tanto, é necessária a escolha prévia do texto a ser lido e o preparo cuidadoso da atividade
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Imagens retiradas dos livros de Ricardo Azevedo

Nosso encontro aconteceu na Escola Alto do Maracanã1, pois sua coordenadora, que faz parte do Programa Além das Letras, organizou, em parceria com as professoras, uma sala temática para a leitura de contos de Ricardo Azevedo2. Consideramos que seria uma ótima oportunidade para reflexão e aprendizado sobre o que vínhamos discutindo até então. Combinamos com as outras coordenadoras pedagógicas (CPs), que gostaram muito da idéia, e fomos à inauguração da sala temática. A sala para leitura recentemente organizada pela escola (ainda não há biblioteca) estava muito bem decorada, com os elementos do conto “A tartaruga e a fruta amarela3”, lembrando um agradável ambiente de floresta. Sobre o chão, onde cada turma que chegava se sentava para ouvir a leitura da história, por sua professora, havia muitas folhas espalhadas, compondo a atmosfera. Nas paredes, os personagens e também um cartaz com uma foto ampliada do autor, com um breve resumo sobre a sua vida, destacando sua competência de escritor e ilustrador.

Depois de ouvirem uma explanação da CP, apresentando-os a Ricardo Azevedo, como também situando-os em relação ao que iria acontecer naquele espaço, a professora iniciava a leitura. Todas as turmas se mostraram atentas, envolvidas, participando para falar pequenos trechos do texto que se repetiam várias vezes. Dependendo da qualidade da leitura que era feita (com mais ou menos entonação, desenvoltura) a participação delas era maior. Mas todas as crianças foram incentivadas a conhecer outros contos do autor, e algumas turmas lembravam até que já conheciam uma história dele de outro livro, História de bobos, bocós, burraldos e paspalhões, apresentada pela mediadora de leitura, que havia trabalhado anteriormente com eles já na nova sala.

Acrescentamos que nós também conhecíamos um livro deste autor, intitulado Contos de bichos do mato, com histórias bem engraçadas, como aquela que hoje havia sido lida para eles. Dissemos que havia uma história de que gostávamos particularmente, “O filho da filha do bicho preguiça”, e que iríamos enviá-la para a escola, para que a conhecessem. Entre uma turma e outra, aproveitávamos para ouvir os comentários das CPs que assistiam ao trabalho e também para fazer as mediações que julgávamos necessárias.

Para ler bem
Tivemos a impressão de que essa experiência valeu por vários encontros por mostrar, por um lado, que era possível criar diferentes situações de leitura em voz alta para os estudantes (fato que havia levantado senões por parte de algumas pessoas em encontros passados) e, por outro, por evidenciar claramente o efeito que essa prática pode ter sobre alunos e professoras. Surpreendeu-nos verificar que a atividade realizada foi um grande desafio para as professoras, mais que para os alunos. Elas se permitiram participar da atividade proposta sem maximizar o que para elas se constituía um limite. Ficar exposta à observação de um grupo não foi uma condição tão fácil, mas sem dúvida extremamente rica como elemento de reflexão sobre a própria prática.
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Foi possível indicar os ajustes que precisavam ser feitos para o trabalho com a leitura em voz alta pelo professor, o que serve de referência para quem está se preparando para realizar experiência semelhante. Foram levantados os seguintes aspectos:

  • Não ter pressa ao conversar com as crianças, senão acabamos por falar demais, e deixamos de incentivá-las a pensar. Ex: apresentar com mais calma o livro, seu título, os outros contos que dele façam parte, as ilustrações; ativar conhecimentos prévios; provocar antecipações sobre a história que vão ouvir, explorando o título e a ilustração, bem como o cenário criado; provocar possíveis inferências durante a leitura.
  • Relaxar com as crianças: deixá-las falar, sugerir, olhar, tocar, expressar seus sentimentos ou idéias a respeito do que ouviram, pois esses são comportamentos naturais de um leitor tocado pela leitura de um texto.
  • Utilizar-se de questões problematizadoras para melhor explorar os conceitos de autoria/ilustração/contos de origem (que foi o caso do conto lido e mencionado pela coordenadora).
  • Identificar como foi a atuação das professoras nessa atividade: participaram de seu planejamento? Tiveram acesso ao livro antes, podendo ler com antecedência a história a ser lida para os alunos?
  • Considerar como objeto de discussão com as professoras o tema ”como desenvolver competências na leitura em voz alta”. Uma delas, após ter lido para seus alunos, comentou: Eu gaguejei muito, não foi? Há tanto tempo que eu não leio histórias! Desde que meus filhos eram pequenos. Aproveitamos para lhe dizer que isso era algo que poderia ser retomado a partir do momento em que começasse a ler na sala diariamente, que levasse seus alunos para a sala de leitura mais vezes, que discutisse o assunto com suas colegas e coordenadoras nos encontros do Além das Letras.

Como essa atividade foi filmada, destacamos que seu sentido só se concretiza quando juntas pudermos vê-la e discutirmos sobre o que nela está posto. Combinamos, então, editar a filmagem e pretendemos que ela seja o tema da discussão de nosso próximo encontro, juntamente com as experiências de outras duas coordenadoras, já registradas por meio de escrita e de fotos. Estas experiências constam da criação de um evento com cantinhos de leitura para as crianças na escola (com a pretensão de que sejam mensais) e de uma sala temática.

Acreditamos que refletir e discutir sobre todas essas questões com as coordenadoras pedagógicas, a partir das imagens sobre a própria prática, será uma boa oportunidade de crescimento e um avanço nos resultados do nosso trabalho. Como desdobramento dessa ação, a mesma atividade será realizada nos encontros das CPs com as professoras. Dessa forma, já se delineia nossa pauta para o 5º encontro, tendo como objetivo analisar a própria prática e aprofundar todas essas questões levantadas, o que possibilitará redirecioná-la com vistas a contribuir para o desenvolvimento de uma comunidade leitora.
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Comentário da consultora:

Olá Márcia e Jujú,
Já estava pensando em vocês. Abro o relatório e encontro este registro simples, mas tão significativo. Foi muita rica a ação de vocês: conseguiram transformar teoria em prática, socializaram, mais que isso, tematizaram esta prática e agora pretendem voltar a ela com outros CPs na linha de frente. Do ponto de vista da formação, creio ter sido bastante eficiente a escolha. Ao que pude perceber, o conteúdo central da discussão era o comportamento leitor. Deixei grifados os trechos que me levaram a esta conclusão. Pensei na possibilidade de discutir a organização do espaço, mas, para isso, precisaria de fotos. Portanto, me enviem, assim que puderem.

Com relação ao encaminhamento, me pareceu muito adequado. Lendo o Subsídio 44, é possível observar que todos os aspectos lá listados como importantes na construção do comportamento leitor estão presentes na condução do professor. Fiquei muito entusiasmada porque no relato de vocês consigo ver tanto os aspectos voltados à formação que envolvem vocês, os CPs e os professores como os voltados para a aprendizagem, ligados às crianças. Indicação de livros, atenção, envolvimento na leitura, comentários, tudo presente. Se por acaso conseguirem me mandar uma cópia, eu adoraria… Tentar expandir isso para os outros CPs, sem dúvida, é uma excelente idéia. É importante que estejam atentas a todo o grupo, como reagem, o que falam, enfim, que tentem analisar a demanda de intervenção para cada um. Temos que incluir a todos.

Vamos falar um pouco de seqüência de conteúdos. De acordo com o nosso quadro, me parece que ainda não demos conta de colocar em discussão: o que vem antes, durante e depois da leitura, critérios de seleção de livros, diferença entre ler e contar, a leitura como atividade permanente. O fato de ressaltarmos estes conteúdos como importante, e indicar a necessidade de tomá-los para o estudo, não significa que tenham que fazer como indicamos. Só ressalto que para uma formação mais completa é importante que os CPs reflitam acerca destes conteúdos e também levem aos seus professores. Vou enviar os subsídios para que analisem e, então, aprofundaremos as reflexões. Débora Rana

(Márcia del Guerra e Maria de Jesus Vasconcelos de Araújo, educadoras da equipe pedagógica da SME de Esporte e Lazer de Recife-PE)

1Escola Alto do Maracanã – Recife-PE.
2Ricardo Azevedo é escritor, ilustrador e pesquisador.
3Veja, ao final deste artigo, as referências de todos os livros citados.
4Confira, na página seguinte, o subsídio citado.

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Recife, Pernambuco

Leitura em voz alta feita pelo professor

Para o desenvolvimento do projeto de formação sobre leitura em voz alta feita pelo professor elaboramos uma seqüência de conteúdos, considerando a necessidade de se discutir mais sobre a língua portuguesa e sobre a metodolo- gia de formação. Iniciamos nosso trabalho com os coordenadores/orientadores/supervisores das escolas, compartilhando o conteúdo do projeto de formação, de modo a construir o problema coletivamente. Com isso, iniciamos também uma discussão sobre o papel deste educador como formador de professores.

Dando continuidade ao trabalho, discutimos qual a finalidade da situação didática: leitura em voz alta feita pelo professor. Nossa intenção era a de discutir o que os alunos aprendem quando participam desta situação. Trabalhamos, então, com os propósitos da leitura. E para a continuidade da discussão sobre o papel de formador, focamos a leitura em voz alta como estratégia de formação. Em seguida, discutimos comportamento de leitor, ressaltando as diferenças de procedimentos didáticos, de acordo com o que se quer desenvolver nos alunos. Ao mesmo tempo discutimos o papel leitor dos coordenadores e professores como sendo algo intencional na formação de leitores.

Agora é a vez de discutirmos os critérios para a seleção dos textos que serão lidos em voz alta pelo professor, ao mesmo tempo em que discutimos com os formadores de professores como qualificar suas práticas de formação. Para isso, este quarto instrumento de orientação para a elaboração da pauta de trabalho inicia-se com algumas questões:

  • Qual é a função da situação problema dentro do contexto de formação?
  • Como a situação pode ajudar a ativar os conhecimentos prévios e a ajudar a avançar no processo de compreensão do conteúdo?

O Capítulo 4, Princípios da Formação, do livro Bem-Vindo, Mundo!, ed. Peirópolis5, e o texto “Problematização”, do Guia de Orientações Metodológicas, do MEC, já nossos conhecidos, nos ajudarão na condução desta discussão, uma vez que um de nossos objetivos é avançar na reflexão sobre a concepção de formação do Programa. Como estamos lidando ao mesmo tempo com a formação de formadores e de professores, desta vez também iremos fazer diferente com vocês. Em vez de lhes encaminhar uma sugestão de pauta já com a seqüência organizada, vamos discutir algumas possibilidades de encaminhamento para a condução do trabalho com este conteúdo.
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Assim, esperamos retomar algumas discussões feitas e avançar nossa reflexão sobre como construir pautas formativas. Acreditamos que isso, além de ser formativo para vocês, possa servir como possibilidade de discussão sobre o papel de formador junto aos coordenadores de escola. Vamos lá?!! Estão lembrados que discutimos sobre a organização de pautas formativas em nosso Seminário deste ano? Neste momento, discutimos o que deve conter na organização de uma pauta de reunião formativa (momentos de investigar os conhecimentos prévios do grupo, momentos de ampliar seu conhecimento sobre o conteúdo em questão, momentos em que possam reorganizar os seus saberes…). Discutimos também a função de cada atividade dentro da seqüência que organizamos, além de discutirmos a necessidade de planejar o tempo dedicado para cada discussão.

Pois bem, acreditamos que, com base naquela discussão e na experiência que já vocês já têm na organização e desenvolvimento das pautas do Programa até o momento, terão condições de organizarem, com seus parceiros dos municípios pautas mais ajustadas às reais necessidades de seus grupos, apoiadas, é claro, nas sugestões que seguem. Já que teremos como tarefa organizar a pauta da reunião, vamos primeiro listar o que já sabemos que devemos organizar:

Selecionar um texto para ser lido em voz alta para o grupo: pensar no que já foi lido, lembrar se prometeu alguma leitura em especial para o grupo, verificar se tem o livro…

Objetivos: Sabemos que os conteúdos envolvidos neste encontro são os seguintes: critérios para escolha de livros e discussão da situação- problema no contexto da formação: como a situação pode ajudar a ativar os conhecimentos prévios e a ajudar a avançar no processo de compreensão do conteúdo. Por isso, é preciso pensar o que se pretende discutir a partir deles, o que se espera que os participantes aprendam.

Seleção de materiais úteis: de antemão, já sabemos que os seguintes materiais podem nos ajudar nesta discussão. Vale lembrar que devemos pensar se temos outros materiais disponíveis e se estes são necessários para o uso na reunião:

– O Capítulo 4, “Princípios da formação”, do livro Bem-Vindo, Mundo!, ed. Peirópolis.
– O texto “Problematização” do Guia de Orientações Metodológicas, do MEC.
– O texto “Quem conhece pode escolher melhor”, de Virginia Gastaldi, Revista Avisa lá, no 7.

Organizar a seqüência didática: se nossa proposta é organizar uma pauta formativa, não cabe elaborarmos uma aula expositiva sobre os conteúdos propostos. Por isso temos que pensar numa seqüência de atividades que ajudem os participantes a avançarem no seu conhecimento sobre o que está sendo discutido. Apresentaremos aqui algumas sugestões de atividades que, acreditamos, possam ser úteis nesta discussão, lembrando que elas estão sendo expostas numa seqüência que deverá ser utilizada na reunião. A proposta é a de que se apóiem nelas para organizar suas pautas:
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Trabalho com o texto “Quem conhece pode escolher melhor”
Possibilidade 1 – Leitura do texto, guiada por uma questão;
Possibilidade 2 – Leitura compartilhada do texto e ao final, em grupos discutir algumas questões;
Possibilidade 3 – Antes da leitura do texto, propor que o grupo realize a atividade sugerida por Virgínia; cada um deve trazer para seus grupos alguns dos livros que tem lido e discutir os critérios utilizados na seleção dos textos. Depois, ao final, propor a leitura do texto e comparar com a situação vivida pelo grupo.

Trabalho com o texto “Princípios da formação”
Possibilidade 1 – Propor a leitura exploratória do texto e focar a discussão sobre o trecho: situação problema;
Possibilidade 2 – Propor a leitura do texto guiada por alguma questão.

Trabalho com o texto “Problematização”
Possibilidade 1 – Propor a leitura compartilhada do texto e ir discutindo trecho a trecho, à medida que a leitura avança.
Possibilidade 2 – Propor que leiam o texto em grupos, apoiados por uma questão. Por exemplo: como lidar com a problematização em nossos grupos de formação de professores?

Papel específico

  • Planejar uma situação de leitura de duas versões da mesma história (uma boa e uma ruim) e propor que comparem as apreciações, que discutam qual é a melhor para esta situação didática e justifiquem suas opções.
  • Organizar uma bancada com livros diversos, usando o acervo da escola, e propor que os coordenadores escolham aqueles que leriam para o grupo de professores e justifiquem suas escolhas, considerando o que sabem sobre a escolha dos livros.

(SUBSÍDIO 4 DO PROGRAMA ALÉM DAS LETRAS)

5Veja, ao final desse artigo, as referências sobre os textos citados.

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Ficha técnica

Programa Além das Letras
Coordenadora: Beatriz Gouveia
Consultora: Débora Rana
Responsabilidade técnica: Instituto Avisa Lá
Realização: Secretaria Municipal de Educação Esporte e Lazer de Recife-PE
Av. Cais do Apolo, 925 – 4o Andar – Recife-CE – CEP: 50030-230. Tel.: (81) 3232-5962
Site: www.recife.pe.gov.br
E-mail: [email protected]
Diretora de ensino: Ester Calland de Souza Rosa
Educadoras da equipe pedagógica: Marcia Maria del Guerra e Maria de Jesus Vasconcelos de Araújo

Para saber mais

  • Bem-vindo, mundo! Criança cultura e formação de educadores. Sílvia Pereira de Carvalho, Adriana Klisys e Silvana Augusto (orgs). Ed. Peirópolis. Tel.: (11) 3816-0699.
  • “Problematização”, In Guia de Orientações Metodológicas, MEC, págs. 146-149. Arquivo disponível no endereço eletrônico http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/guia_orient.pdf
  • A tartaruga e a fruta amarela, Ricardo Azevedo. Ed. Ática. Tel. 0800-115152.
  • História de bobos, bocós, burraldos e paspalhões, Ricardo Azevedo. Ed. Projeto. Tel.: (51) 3346-1258.
  • Contos de bichos do mato, Ricardo Azevedo. Ed. Ática. Tel. 0800-115152.
  • “O filho da filha do bicho preguiça”, Ricardo Azevedo, In Contos de bichos do mato. Ed. Ática. Tel. 0800-115152.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #33 de janeiro de 2008. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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