Observar para conhecer e documentar

O poder do olhar informado por uma concepção de criança potente e capaz muda a forma de registrar e documentar as ações educativas

As creches municipais de Teixeira de Freitas (BA)1 reconhecem a importância da brincadeira na infância e contemplam em sua rotina atividades permanentes que envolvem essa linguagem: cantinhos de atividades diversificadas, atividades com água e misturas variadas, circuitos para incentivar diferentes tipos de movimentos e brincadeiras de faz de conta, o tão imprescindível jogo simbólico.

Nesse sentido, o desafio para a formação dos gestores em 2011 não era mais a implantação do brincar na rotina das creches, mas identificar pontos que precisavam de investimento e aprimoramento. Analisado o resultado do diagnóstico acerca do brincar, nós, formadoras locais do Programa Formar em Rede, constatamos que ainda existiam fragilidades quanto à qualidade da interação entre educadores e crianças, uma vez que o processo educativo ainda era muito centrado no adulto.Continue lendo >

Proposta de alfabetização estético-visual em museus

Museus e escolas podem ser excelentes parceiros desde que se saiba como aproveitar melhor as especificidades de cada um

Segundo Mirian Celeste Martins:

A arte é importante na escola, principalmente porque é importante fora dela. Por ser um conhecimento construído pelo homem através dos tempos, a arte é um patrimônio cultural da humanidade e todo ser humano tem direito ao acesso a esse saber1.

Comendo com os olhos, Sem título, de Sofu Teshigahara (desenho Henrique Yuji Ueno)

Comendo com os olhos, Sem título, de Sofu Teshigahara (desenho Henrique Yuji Ueno)

Entender a Arte como conhecimento significa articular a criação/produção, a percepção/análise e o conhecimento da produção artístico-estética da humanidade, compreendendo-a histórica e culturalmente. Foi pensando em garantir experimentações sensíveis e estéticas com o patrimônio artístico e cultural da cidade de São Paulo, do povo brasileiro e de outros povos por meio da mediação educativa que nasceu a proposta “Para comer com os olhos: uma proposta de alfabetização estético-visual a partir de contatos acumulativos mediados em museus”.

O legado da humanidade, construído ao longo de séculos por homens e mulheres em tempos e lugares diversos, é um bem simbólico que nem sempre tem sido respeitado e valorizado. Integrá-lo ao conjunto de saberes na Proposta Curricular de Arte possibilita abordar esses valores.

Nos museus, temos contato com a memória, a criação estética, as elaborações artísticas, a própria Arte, que se estrutura como um sistema simbólico, registrando e expressando experiências estéticas e estésicas3 como manifestações humanas.Continue lendo >

Observar para aprender o mundo

Crianças de quinto ano revelam sua trajetória como leitoras e a importância de alguns influenciadores: escola e família
Curiosos, os alunos descobrem mais sobre o caranguejo de água doce Foto: divulgação Escola Santi

Curiosos, os alunos descobrem mais sobre o caranguejo de água doce (Foto: divulgação Escola Santi)

Propor situações de estudo de Natureza e Sociedade para crianças de dois anos é um grande desafio. Em 2007, nós, educadores da Escola Santi, em São Paulo (SP), reavaliamos o que estávamos propondo para os alunos dessa faixa etária. Constatamos que um dos focos era organizar um estudo que possibilitasse aos alunos uma primeira aproximação com a observação científica, conteúdo procedimental essencial das Ciências Naturais.

Para crianças de dois anos, o contato direto com o objeto de estudo é fundamental para mantê-las envolvidas. No jardim da escola, temos dois jabutis – Inácio e Martin – que são cuidados e alimentados pelos alunos do T2 todos os dias da semana. Aproveitando-nos dessa situação, organizamos um projeto de observação e comparação entre os jabutis e outros animais trazidos por alunos de outras séries da escola. Por meio da observação e do convívio, nosso objetivo era que as crianças pudessem perceber as características físicas, hábitos alimentares e alguns cuidados básicos, além de estabelecerem comparações quanto a semelhanças e diferenças entre os jabutis e os animais que seriam trazidos à escola.Continue lendo >

Pensar e representar

A representação de uma vitória-régia impulsiona trabalhos que envolvem o raciocínio matemático, artes e muita interação entre crianças de pré-escola

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No fim do primeiro semestre de 2006, ao sairmos de férias, eu e a professora auxiliar Rebeca Schneider Mesquita já sabíamos que no reinício das aulas entraríamos em contato com a comunidade de Portel1, da Amazônia, para trocar informações sobre os modos de vida e aspectos da natureza. Assim, pensamos em desenvolver com o grupo 5 (crianças entre 4 e 5 anos), da Escola Vera Cruz, em São Paulo – SP, uma proposta que proporcionasse troca de experiências e permitisse o contato com outras culturas do País. Nesse contexto, e diante do intercâmbio cultural que iríamos desenvolver, aproveitei o momento para contar em sala as lendas amazônicas. Entre elas, estava a da vitória-régia. A partir da narrativa, todos ficaram muito interessados em conhecer a flor que era mencionada no texto. Começamos, assim, a coletar informações a respeito da região. Em uma das pesquisas, ficamos sabendo sobre o tamanho da folha e mais curiosidades, como o fato de ela medir até 2 metros de diâmetro e suportar o peso de uma pessoa. Em uma das fotos selecionadas pelas crianças na internet, vê-se a planta com sua flor e um bebê sentado sobre ela.
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Dinossauros ajudam a pesquisar, ler e escrever

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Produção feita pelas crianças do Colégio Santo Américo

No Colégio Santo Américo, na cidade de São Paulo, os dinossauros contribuíram para um trabalho sobre textos informativos. Através da construção de um jogo tipo Super Trunfo1, diversos tipos de textos passaram a fazer parte do cotidiano da sala de aula. Isso possibilitou às crianças ampliarem seus conhecimentos e repertório, apropriando-se assim da linguagem específica de cada texto, estabelecendo um vínculo prazeroso com a leitura e a escrita.

Os textos informativos propiciam às crianças vontade de ir à busca de conhecimentos, pesquisar e ampliar a aprendizagem através da curiosidade. Dinossauro é um tema pelo qual as crianças mostram interesse. É a ponte entre o real e o imaginário. Continue lendo >

Dinossauros alimentam o brincar

Um projeto bem direcionado possibilita a criança desenvolver pensamento investigativo, aprendendo a se perguntar e a procurar respostas

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No primeiro semestre tínhamos em nossa classe alguns dinossauros de brinquedo, e embora não fosse esse o tema dos estudos, percebíamos que, nas brincadeiras, as crianças demonstravam já possuir informações sobre esses animais. Integravam esses conhecimentos à ficção, construíam “casas” para os dinossauros, havia o pai, a mãe, o filho; separavam os animais em carnívoros e herbívoros, criavam diálogos. Observávamos, também, que elas buscavam entender a extinção dos dinossauros (atualmente, sabemos que não foram totalmente extintos, pois as aves são seus descendentes), se referiam a seus hábitos alimentares, aos diferentes tamanhos e ao ambiente em que viviam.

Quando, naquele semestre, pensamos em uma proposta para o evento do Sábado de Atividades com os pais do Jardim 2 – classe em que somos professoras de crianças de 5 anos, achamos que a construção de um ambiente para os dinossauros na areia seria uma proposta adequada para o nosso grupo. Pensamos que os pais, juntamente com seus filhos, poderiam modelar dinossauros e vulcões de argilas além de confeccionar plantas, rios e cachoeiras, criando um ambiente para os dinossauros. O evento aconteceu e deixou marcas. No segundo semestre encontramos os “fósseis dos dinos” e iniciamos o projeto.Continue lendo >

Por dentro da moda

As roupas, os sapatos e acessórios contam muito sobre uma cultura e um tempo histórico. Por isso, constituem um rico material de investigação para as crianças de todas as idades
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Caixas de leite viram sapatos (fotos do desfile das crianças: Flávia Cunha Lima)

O mundo natural e social é campo de investigação para os cientistas, mas, sobretudo, para as crianças, que têm o frescor da dúvida, da inquietação, da curiosidade, do desejo de conhecer. As crianças pequenas possuem muito interesse acerca do mundo em que vivem, portanto, é preciso que a escola corresponda às expectativas infantis e dê respaldo às suas inquietudes e investigações.

As situações de aprendizagem devem proporcionar um caldo cultural fértil, capaz de aguçar ainda mais o desejo das crianças de construir explicações para o mundo. Na Educação Infantil, a aproximação das crianças com alguns procedimentos investigativos próprios das ciências naturais e sociais traz ótimos frutos1. Portanto, é necessário auxiliá-las na formulação de perguntas e explicações sobre o universo a ser conhecido; na utilização de diferentes fontes de informação; na busca por conhecimento em locais específicos, tais como bibliotecas, museus; na leitura e interpretação de registros, como desenhos e fotografias.

Além disso, fazer com que a criança aprenda a registrar informações (utilizando desenhos, textos orais ditados ao professor, comunicação oral registrada no gravador etc.) contribui para que ela valorize o conhecimento. Esses procedimentos são ferramentas importantes para a formação desses pesquisadores mirins, que têm um jeito muito particular de ver o mundo, repleto de relações criadas segundo sua ótica, que é simbólica e lúdica por natureza.Continue lendo >

Quando a Educação Física vira brincadeira do corpo

Novos princípios e atividades ajudam a reinventar a prática tradicional da educação física. O brincar, o conhecimento do corpo e do espaço passam a ser os conteúdos em ação

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A Educação Física, durante muitos anos, sofreu a influência de várias linhas de pensamento e de abordagens diversas. Já foi instrumento de formação militarista, da homogenia e da instituição de um padrão do movimento. Caracterizou-se também, em muitos casos, como uma área que buscava um indivíduo com grande capacidade e performance atlética. Por muito tempo, preteriu indivíduos “menos hábeis” em detrimento de perfis mais promissores.

Porém, nos últimos tempos, a Educação Física na escola vem buscando um novo caráter de atuação, repensando seus princípios e alinhando novos objetivos a serem desenvolvidos. Falamos de uma Educação Física que privilegia o indivíduo e suas capacidades, que pode enxergar em cada um competências motoras e conhecimentos; que reconhece a importância da diversidade dentro do grupo como fator gerador de novos conhecimentos para todos os seus integrantes; e que pode aceitar que diferentes indivíduos cheguem de formas diversas, e a seu tempo, nas expectativas de aprendizagem traçadas.
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O que nos contam as caveiras

Ao aproveitar o interesse das crianças pelas horripilantes histórias de caveiras e esqueletos, professoras de são paulo encontram maneira criativa de pesquisar e vivenciar o corpo humano
Desenhos feitos pelas crianças da Escola de Educação Infantil Recreio e retirados da Revista Avisa Lá, nº 15, junho/2003

Desenhos feitos pelas crianças da Escola de Educação Infantil Recreio e retirados da Revista Avisa Lá, nº 15, junho/2003

O projeto Caveiras Imaginárias, Esqueletos Científicos foi desenvolvido ao longo do 2º semestre de 2006 com crianças de cinco anos, na Escola de Educação Infantil Recreio, na cidade de São Paulo. Ao longo deste texto, relataremos nosso percurso, explicitaremos os objetivos e compartilharemos alguns frutos colhidos ao final da trajetória.

Antes de se configurar como um tema de estudos, o esqueleto humano despertava grande interesse no grupo, associado às “horripilantes” histórias de terror, bastante requisitadas pelas crianças! O livro Contos de enganar a morte, de Ricardo Azevedo, reinava soberano em nossas rodas de história, trazendo caveiras em suas ilustrações, além da temática recorrente do moço esperto que não quer “bater as botas” e, para tanto, inventa criativas estratégias para enganar a “marvada” e adiar sua partida “desta para melhor”.

Desmistificando a associação do esqueleto humano com histórias de terror, fantasmas e assombrações, propus às crianças a idéia de estudarmos o corpo humano de maneira científica. Um desafio e tanto, que logo contou com a adesão animada do interessado grupo de crianças.
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Uma flor para a borboleta ficar

Como as crianças pequenas constroem significado sobre os seres vivos a partir de conhecimentos mediados por adultos? Em busca desta compreensão, duas pesquisadoras da USP acompanharam e analisaram conversas e desenhos produzidos por uma turma em atividade

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Este artigo nasce de uma investigação que buscou compreender como as crianças pequenas constroem significados sobre os seres vivos, quando elas estão em interação social, acessando diferentes conhecimentos mediados por adultos. Para realizar esta pesquisa, estivemos durante quatro meses na Creche Oeste, localizada no campus da Universidade de São Paulo, na capital paulista. Acompanhamos um grupo de crianças com quatro anos de idade durante as atividades do projeto “Pequenos Animais”, cuja finalidade era possibilitar que as crianças conhecessem um pouco mais sobre os animais de jardim e, em especial, sobre as borboletas.

As atividades propostas pela educadora Cristiane Domingos de Souza foram bastante diversificadas. Ela escolheu materiais informativos ricos em imagens, de modo que as crianças – ainda não leitoras – pudessem fazer suas apreciações e interpretações. As imagens eram apresentadas pela educadora (que lia as legendas e textos complementares) e depois discutidas pelas crianças nas rodas de conversa. As informações eram extraídas de revistas, livros paradidáticos, literatura infantil, poesias e pinturas, além de observações de um viveiro com lagartas mantido na sala de aula, de passeios ao jardim da creche e a um bosque localizado nas imediações.

A educadora criou situações Continue lendo >