Interferências gráficas como apoio para o desenho infantil

As interferências gráficas constituem referência para a construção do percurso criativo nos desenhos
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Desenhos feitos pelas crianças da Escola Criarte, de São Paulo

O desenho é uma marca tão presente da ação humana nos espaços e ambientes em que vivem os homens que, muitas vezes, podemos tomá-lo como espontâneo ou inato. Porém, a história e a evolução de diferentes percursos artísticos nos indicam que esta é uma atividade aprendida, que envolve ações, reflexões e pesquisas que influenciam os caminhos desta aprendizagem. Na Escola Criarte, entendemos o desenho como uma importante forma de experimentação, interação e comunicação.

Por esta razão, diferentes propostas e oportunidades de apropriação e diálogo com esta linguagem são proporcionadas aos nossos alunos em todos os grupos da escola. O desenho tem espaço garantido em diversos momentos de nossa rotina, e acompanha o desenvolvimento das crianças em toda a sua escolarização. A proposta desta série de trabalhos que ora apresentamos é acompanhar as produções de crianças de diferentes idades frente a uma mesma interferência: como reagem a este estímulo? Que condutas adotam? Que caminhos trilham? A interferência proposta foi um círculo branco sobre um fundo colorido.

Produções iniciais – Grupo G21

Inicialmente, ao desenhar, a criança registra seus gestos e movimentos no papel. A experiência de poder imprimir marcas, produzir algo mais permanente do que uma ação fugaz é muito significativa para os pequenos. Este exercício promove importantes avanços na compreensão que as crianças têm do universo que as cerca, das pessoas, dos materiais e em relação ao efeito de suas ações.

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A interferência é rapidamente notada pelas crianças do G2, que desenham dentro dela. Acompanham seu formato circular, ou criam e representam a partir de interferências propostas

Produções – Grupo G3

Gradativamente, percepções registradas no G2 se ampliam, conferindo às crianças novas possibilidades em relação à linguagem gráfica. O controle motor, a consciência sobre os traçados e a crescente intencionalidade nas produções marcam as fases posteriores de um rico e interessante processo. Cada nova conquista e mudança no traçado são percebidas e valorizadas por professores atentos aos seus alunos, que atuam no sentido de ampliar e apoiar este percurso, acompanhando-o por meio de intervenções pontuais e cuidadosas. Esta postura demanda conhecimentos práticos e teóricos acerca dos desenhos das crianças e, principalmente, um olhar investigativo e interessado em relação a essa linguagem.

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No G3 as garatujas começam a dar lugar às primeiras representações, e as interferências apóiam estas importantes pesquisas. Também no G3 os esforços se voltam para a conquista da figura humana, e é notável quanto as interferências sustentam esta etapa do processo criativo das crianças

O uso de interferências gráficas
As interferências gráficas são intervenções do professor capazes de modificar o percurso criador da criança. Elas têm o objetivo de viabilizar o diálogo dos pequenos com suas possibilidades e habilidades, promovendo avanços no processo de desenhar

Produções – Grupo G4

Boas interferências pressupõem a análise das produções das crianças e o amplo conhecimento de seus percursos. As propostas devem atingir os objetivos de alimentação e apoio ao desenvolvimento da linguagem em questão: maior intencionalidade, controle e consciência são adquiridos, novos elementos são percebidos, importantes saberes e referências se constroem.

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No G4, o controle e a consciência sobre os traçados mostram-se mais disponíveis para as crianças, que criam e representam a partir das interferências propostas

Produções – Grupo G5

A cada etapa, interferências específicas são propostas, com o objetivo de ampliar e alimentar a imaginação e o pensamento das crianças, o que resulta em novas idéias, projetos, escolhas e pesquisas. Num primeiro momento, no trabalho com as crianças menores, as interferências têm como principal objetivo a observação e consciência dos traçados. Interagindo com materiais ou elementos selecionados especificamente para este fim, as crianças são convidadas a buscar maior controle sobre suas ações, dirigindo-as e modificando-as a partir dos estímulos oferecidos – que podem ser papéis de diferentes formatos ou tamanhos, elementos como caixinhas, palitos ou barbantes colados ao suporte, ou ainda podemos variar os meios a serem utilizados nesta produção como giz, lápis de diferentes texturas e tamanhos, canetas, entre outros.

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No G5, as interferências norteiam e alimentam os desenhos, oferecendo novas possibilidades de cenários, figuras, imagens

Posteriormente, as crianças ampliam sua pesquisa gráfica e começam a trabalhar com a intencionalidade de seus traços e a conquistar a figuração. Neste período, as interferências revelam-se grandes aliadas, sustentando esta nascente estruturação dos desenhos.

Produções – Grupo G6

Em uma próxima fase, as interferências conversam com as produções das crianças no sentido de ampliar e diversificar os desenhos. Elas inauguram caminhos ainda não percorridos, alimentando a criatividade e oferecendo novas possibilidades de representação. É importante ressaltar que acompanhar e documentar o trabalho das crianças permite identificar como estão acontecendo as intervenções pedagógicas, avaliar e acompanhar o efeito delas em cada grupo. Este olhar nos permite compreender os processos de aprendizagem das crianças, aprimorando nossas ações. Para empreender esta busca, é necessário desenvolver uma postura específica, que combina o diálogo e a reflexão constante sobre as crianças e suas produções com a formação cotidiana do educador e da equipe da escola.

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As crianças do G6 desenham com maior autonomia e liberdade de criação. As produções dialogam com as interferências em interessantes e inusitadas soluções

Produções – Pré 1º Ano

Variados usos, questões e soluções podem ser observados nestes desenhos. Em cada momento do percurso, as crianças apresentam traçados característicos, relacionando-se com as interferências segundo suas habilidades e possibilidades de traçar e pensar o desenho. Percebem-se algumas regularidades e inúmeras particularidades que ajudam a compreender o rico e instigante universo de criação infantil. As interferências nos ajudam, assim, a identificar e apoiar o percurso criativo de nossos alunos, garantindo que cada um desenvolva suas próprias idéias, interpretações e significações sobre o fazer artístico.

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No pré 1º ano, as interferências se integram aos desenhos das criancas em ricas e elaboradas produções que revelam o resultado deste importante processo, que se inciou no G2

(Daniela Pannuti, que na época desse projeto, era coordenadora pedagógica da Escola Criarte, localizada na cidade de São Paulo – SP)

1G2, crianças de 2 anos, G3, crianças de 3 anos e assim sucessivamente.

Ficha técnica

Escola Criarte
Rua Vahia de Abreu, 696 – Vila Olímpia
São Paulo – SP. CEP: 04549-003
Tel.: (11) 3842-7277
E-mail: [email protected]

Para saber mais

Formas de pensar o desenho: o desenvolvimento do grafismo infantil. Edith Derdyk. Ed. Scipione (11) 3990-1788


Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #33 de janeiro de 2008. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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