Arte para todos

interatividade com esculturas permite que crianças com deficiência se aproximem da linguagem artística
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A artista Sandra Guinle (fotos: Wilton Montenegro)

Nasci no interior de São Paulo, em uma cidadezinha chamada Monte Mor. Na terra vermelha, que desconhecia asfalto, desenhei muitas amarelinhas. Na beira dos riachos, acompanhava minha mãe e outras mulheres que, lavando roupas, entoavam cantigas que tenho ainda frescas na memória. Ali, meu primeiro contato com o barro. Passava horas de cócoras perguntando à minha mãe o que é que ela queria que eu fizesse com o punhado de terra molhada que estava em minhas mãos. Enquanto isso, ela, com quatro agulhas de bambu, tecia uma trama linda e dizia: “Faz aquela lavadeira ali e, depois, faz você nos braços da mamãe”.
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Calorias e preconceitos

Reza a lenda que Calorias são seres minúsculos, praticamente invisíveis, que se escondem nos armários (têm preferência pelos femininos) e trabalham a noite toda, apertando as roupas. Já os Preconceitos são seres com características semelhantes de tamanho e invisibilidade, que formam uma família grande, mas com um traço comum: a violência moral ou física.

Alguns Preconceitos circulam livremente à luz do Sol, pois não têm medo de serem vistos. Acham que têm razão e, por isso, se mostram. São truculentos e valentões. Massacram quem não concorda com seus pontos de vista, pois não têm argumentos que resistam à reflexão ou à comprovação. Reproduzem-se de forma exuberante, especialmente em algumas épocas do ano e em diferentes lugares. Basta lembrar da prima Eugenia, que reinou absoluta na Alemanha nazista; dos primos Apartheid, da África do Sul; nos diversos momentos de escravidão, que se apoiaram no ramo do racismo. Na geração mais jovem, o Bullying está na crista da onda, mas, na verdade, ele esteve sempre por aí. Apenas modernizaram seu nome e, por isso, hoje é mais conhecido.Continue lendo >

Criar uma escola para todos

É possível mudar verdadeiramente o olhar? Quebrar padrões dentro de nós? Permitir que a singularidade e a subjetividade dos alunos, e também dos professores, encontrem espaço para uma experiência transformadora? Somos capazes de criar uma escola para todos? Perguntas como essas têm nos ajudado a fazer e a pensar o programa plural da Associação Rodrigo Mendes1

O Programa Plural da Associação Rodrigo Mendes – ARM tem como objetivo colaborar com a inclusão por meio da Arte. Com a intenção de multiplicar o aprendizado acumulado nos doze anos de existência da ARM, o trabalho de formação de professores nasceu em setembro de 2005, com o Curso Plural 1. O curso começa com o resgate da memória de infância dos professores em relação à deficiência e à arte.

“Tive uma colega com paralisia infantil e ninguém sentava perto dela.”2

“No meu bairro, tinha um menino deficiente que a gente tinha medo, falavam que ele era perigoso.”

“Meu pai tinha uma deficiência e a minha experiência é de conviver com um exemplo de grande superação.”

“Ia ter um irmão, estava muito feliz. Quando nasceu, todos só falavam que era Síndrome de Down. Então perguntei: – Não era Jorge o nome dele?”Continue lendo >

O direito à diferença na Educação Infantil

Uma situação vivida em uma creche da cidade de São Paulo desencadeia a reflexão sobre o que é tratar de forma igual crianças diferentes
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Ilustrações a partir da obra de Martha Simões

Diante da eminente entrada de uma criança com algum tipo de transtorno, questiona-se sobre a antecipação de suas necessidades específicas, o que corresponderia a uma preparação para recebê-la; questiona-se a formação e conhecimento necessários para essa recepção, e diz-se, em uníssono: a criança com necessidades especiais deve ser tratada igual às outras! Tratar igual? Continue lendo >

A heterogeneidade na sala de aula

Lidar com as diferenças na sala de aula sempre foi um desafio para os professores. O desejo de classes homogêneas tem sido constante nas escolas e agora a ordem é incluir. É preciso apoiar os professores nessa nova atitude
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Ilustrações a partir da obra de Martha Simões

Vivemos um momento na Educação em que a ordem é incluir. Continue lendo >

À imagem e semelhança

A elaboração dos bonecos
Fotografei digitalmente algumas crianças muito queridas do Centro de Convivência Infantil do Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, creche onde desenvolvi com as educadoras o projeto O Ambiente Físico e Objetos que Educam. Trabalhei as imagens no computador – no programa Photoshop –, primeiro transformando-as em preto-e-branco e aumentando o contraste e brilho para realçar o volume. Distorci livremente para que ficassem um pouco mais gráficas e menos realistas. Adeqüei o tamanho das imagens para uma folha de papel A4 e imprimi. Escolhi uma de menino e outra de menina para servir de referência para meu desenho.

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Com fita adesiva, fixei-as uma a uma numa chapa de eucatex um pouco maior e, sobre elas, coloquei uma folha de papel vegetal fino, onde desenhei, com lápis counté, primeiro nas cores marrom claro e escuro e depois em preto, destacando e transformando detalhes para realçar e acentuar as sombras. Assinei e copiei o resultado com o scanner. Com um toque a mais de sombreado no computador, as imagens ficaram prontas para serem impressas na quantidade requerida.

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Profissional das artes
A artista visual Beatriz Bianco orienta oficinas de artes plásticas para formação de professores, educadores de creches e cursos projetados especialmente para escolas, empresas, instituições e eventos.

(Beatriz Bianco, educadora e artista plástica, E-mail: [email protected])


Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #23 de julho de 2005. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

Só não enxerga quem não quer: racismo e preconceito na Educação Infantil

São pequenos gestos, situações cotidianas, uma palavra aqui outra ali, um material apresentado ou a falta dele e diariamente as crianças negras sofrem situações de discriminação na escola e muitas vezes já nos centros de educação infantil. Pouco se discute sobre o assunto. Na maioria das vezes paira um silêncio revelador da desigualdade de tratamento oferecido às crianças brancas e negras
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Brinquedos para valorizar a imagem dos afro-descendentes (foto: Marco Antonio Sá)

Temos uma amiga negra, a Ba, que ainda hoje, aos 40 anos, lembra-se da primeira vez em que a diferença de cor foi motivo de tratamento discriminatório. No jardim da infância que freqüentava, uma criança branca perdeu sua pulseira de ouro e sua mãe foi à escola reclamar exigindo conversar com a mãe de Ba. Nossa amiga não esteve presente e nunca conversou sobre isso com a sua mãe, mas sabe que o conteúdo da conversa foi uma acusação de roubo. Na época, Ba intuiu que estava sendo acusada por ser a única menina negra da classe. Muitos anos se passaram até que ela conseguisse falar sobre a situação sem ficar tomada pela emoção.
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Nenhum a menos*

Inclusão na escola e democratização do acesso à cultura letrada é, sem dúvida, uma das prioridades da educação em nosso país. No município de embu, são paulo, um esforço coletivo de professores e formadores garante a aprendizagem de todas as crianças, incluindo-as na cultura escrita

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O título deste artigo, inspirado na produção cinematográfica de mesmo nome, reflete o espírito do projeto educacional desenvolvido pelo município de Embu. No filme, uma jovem novata no ofício de lecionar, ao ter que substituir o professor titular numa escola de precárias condições, segue as orientações que recebeu de seu antecessor: “Quando eu voltar quero encontrar todos os alunos, não quero nenhum a menos”. O desafio lançado ajuda-a a perceber que é preciso empenhar-se para que os alunos não desistam de estudar, abandonando a escola.Continue lendo >

Desafios da inclusão escolar

Vivemos um momento na educação em que o tema da inclusão escolar está muito presente. A elaboração e regulamentação de leis federais e estaduais que obrigam as escolas a receber alunos com necessidades especiais coloca em cena as dificuldades enfrentadas pelos professores. Por isso, a reflexão sobre o assunto é sempre muito importante

Desde a década de 1950, diversas ações contribuíram para a discussão acerca da inclusão escolar, como por exemplo A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948; a Declaração dos Direitos da Infância, de 1959; a Declaração dos Direitos do Deficiente Mental, de 1971; as conferências de Jomtien, em 1990, e de Salamanca, em 1994, ambas organizadas pela UNESCO e que preconizaram a promoção de políticas que favorecessem uma escola para todos, independentemente de suas condições pessoais1.

O que significa incluí-los?
Historicamente, crianças com necessidades especiais nem sempre tiveram garantido o acesso à escola regular. Inicialmente segregadas, essas crianças ficavam restritas aos seus lares ou depositadas em instituições que as acolhessem sem que nenhum trabalho de inclusão fosse realizado. Na verdade, a intenção era o oposto: estimulava-se a segregação. A criação de escolas especializadas para a educação de crianças com necessidades especiais foi um avanço em relação à simples segregação, uma vez que havia um ensino apropriado às condições de cada criança. Ainda assim, pensar apenas em escolas especiais significava homogeneizar tanto esses espaços destinados a essas crianças, quanto as escolas regulares, na medida em que estas não recebiam crianças portadoras de necessidades especiais.Continue lendo >