Brincadeiras e Jogos no Parque

Os espaços lúdicos ao ar livre estão presentes na maioria das instituições de educação infantil, mas nem sempre fazem parte do projeto pedagógico. Refletir sobre o tempo dedicado às brincadeiras de parque, os materiais e equipamentos oferecidos, a formação dos grupos e as formas de interação das crianças com o ambiente, entre si e com os adultos, pode contribuir para que a utilização do espaço seja permeada de intencionalidade educativa. Nesta matéria, vamos discutir como planejar o uso do espaço lúdico ao ar livre através de soluções criativas e de baixo custo, que valorizam a brincadeira

desenho menino com pipa

“a brincadeira é um comportamento socialmente construído, que ajuda a criança a entender a si mesma e ao universo cultural em que está inserida”

Os espaços de parque sempre existiram nas instituições de educação
infantil, mas suas funções e objetivos têm conotações diferentes em função da evolução das propostas pedagógicas e do lugar que a brincadeira ocupa no desenvolvimento da criança.
Durante muito tempo, a brincadeira no parque esteve associada à
necessidade de a criança extravasar energias contidas na sala de aula ou descansar do trabalho pedagógico. A utilização do espaço externo acontecia à margem do processo educacional, por isso não exigia um planejamento de ações, mas apenas o controle da segurança e da disciplina.

Hoje, sabemos quantos conhecimentos, atitudes e habilidades a criança
é capaz de aprender quando participa de um jogo de amarelinha,
de uma brincadeira de casinha, ou quando interage com um balanço,
por exemplo.

Entendemos que a brincadeira é um comportamento socialmente construído, que ajuda a criança a entender a si mesma e ao universo
cultural em que está inserida, podendo ser mais ou menos rica em função dos materiais, tempo, espaço e parceiros de que dispõe. Este novo olhar sobre o brincar mostra a importância de planejarmos ambientes lúdicos adequados às necessidades e interesses da criança.
A intencionalidade educativa pode estar presente desde a concepção
inicial do espaço até sua transformação por meio de materiais
criativos e de baixo custo, como tecidos, cordas, elementos sonoros e
visuais, pinturas e brinquedos, que podem criar surpresas, desafios e
brincadeiras variadas.

Analisar e planejar intervenções no uso dos equipamentos, pisos, volumes, elementos naturais e brinquedos do parque possibilita que a estruturação do ambiente esteja conectada aos objetivos gerais da instituição e dos diferentes eixos de trabalho da educação infantil.
Para tanto o ideal é que o planejamento do parque envolva tomadas
de decisões tendo em vista diferentes caminhos. Este processo pode
ser facilitado quando seguimos alguns passos:

1.Definição de metas e objetivos

  • relacionar os objetivos gerais da instituição às atividades exercidas no parque;
  • definir as possibilidades de brincadeiras, projetos e seqüências de atividades ao longo do ano.

2.Avaliação qualitativa do espaço

  • observar os brinquedos, suas formas, cores e texturas, sons e cores, tipos de piso, relevos e elementos naturais; pesquisar locais de iluminação e sombra;
  • levantar problemas: locais em que as crianças se machucam, dificuldades do professor, existência de conflitos entre as crianças;
  • verificar se existem cantos estruturados com diferentes atividades conforme o interesse das crianças: brincadeiras de faz-de-conta, jogos tradicionais, brincadeiras com materiais.

3. Observação do uso do espaço pelas crianças

  • listar as brincadeiras mais presentes, observar se há estímulos para as brincadeiras de faz-de-conta e para a ampliação do repertório de movimentos e brincadeiras;
  • verificar se os materiais de manipulação, como brinquedos tradicionais, caixas de papelão ou de plástico, tecidos, fantasias etc, que permitem a construção de ambientes e brincadeiras pelas próprias crianças, estão realmente acessíveis a elas e sejam seguros e ao mesmo tempo desafiadores;
  • observar a variedade de movimentos, individualmente ou em
    cooperação, proporcionados pela organização do espaço.

4. Definição de horários, grupos e momentos da rotina

  • decidir se vai para o parque uma classe por vez, duas ou mais;
    decidir como será a composição do grupo que vai brincar, todos da
    mesma idade ou de várias idades;
  • pensar em quanto tempo para cada grupo e em que momentos
    da rotina.

5. Seleção de materiais e formas de utilização

  • pesquisar, adquirir e/ou confeccionar materiais estruturadores de
    ambientes (tecidos, pneus, redes de balançar, cordas…), brinquedos
    tradicionais (pião, bolinha de gude, corda, sapato de lata, vai e
    vem, pipa, bolas, bambolês, giz para desenhar…) e materiais de
    faz-de-conta (brinquedos de areia, elementos para casinha, fantasias, espadas de jornal…);
  • definir modos de organização e oferta dos materiais;

pensar em formas de conexão entre os elementos industriais
(equipamentos) e os elementos da natureza (árvores, aclives e
declives), criando vínculos entre os espaços, a criança e a brincadeira.

desenho jogando bola de gude

o professor deve saber como intervir em situações de conflito e sugerir desafios e brincadeiras

6. Definição de regras e atitudes do professor

  • o professor deve saber como intervir em situações de conflito
    ou de perigo e, ainda, como sugerir desafios e brincadeiras;
  • além disso, o adulto que acompanha as crianças no parque também
    deve dividir com as crianças as responsabilidades em relação �
    oferta de materiais.

Exercício de planejamento

Procuramos idéias simples, capazes de transformar um parque tradicional em um espaço repleto de estímulos para brincadeiras tradicionais e de faz-de-conta, desafios de movimento e descobertas sensoriais. A intervenções aqui propostas devem ser feitas em conjunto por educadores e crianças:

Cabanas de pano

A cabana de pano é um recurso simples que pode enriquecer brincadeiras de faz-de-conta e escondeesconde, as crianças também podem utilizá-las como piques para brincadeiras de pega-pega.

desenho de criança brincando em árvore

Utilizando as árvores e o trepa-trepa, podemos armar uma cabana apenas com um grande pedaço de tecido colorido e algumas tiras de barbante

  • Opção 1: Utilizando as árvores e o trepa-trepa, podemos armar uma cabana apenas com um grande pedaço de tecido colorido e algumas tiras
    de barbante. A cabana pode ser pequena, para brincadeiras de esconder, ou maior, se o objetivo é criar um ambiente de casa, castelo etc.
  • Opção 2: Junto à caixa de areia e aproveitando o muro, podemos armar uma estrutura de tubos de metal ou bambus cobrindo-a com tecido
    resistente. Essa cabana torna o ambiente mais aconchegante e sombreado para brincadeiras de casinha, com areia, panelinhas, pás e baldes. Os panos laterais podem ser recortados em diferentes desenhos, formando janelas que favorecem sua integração aos outros espaço do parque. Essa cabana não precisa ser montada e desmontada diariamente.

Intervenções no balanço

Para descobrir o espaço de circulação próximo ao balanço, podemos propor ao grupo uma experiência: amarrar no balanço uma garrafa cheia de areia colorida, furada na tampa, de ponta cabeça. A área
coberta pela cor mostra para a criança o espaço no chão que o movimento do balanço percorre, definindo limites em que a circulação deve ser evitada.

  • Descobrir o movimento de balançar e a possibilidade de ajudar e ser ajudado: oferecer o primeiro impulso para a criança balançar ,
    explicar o movimento e estimular que uma ajude a outra são ações simples que podem facilitar a interação da criança com o brinquedo.

    desenho de crianças no balanço

    Podemos propor que as crianças amarrem objetos que se movimentem com o vento ou produzam sons quando alguém balança…

  • Amarrar objetos que se movimentem com o vento ou produzam sons quando a criança balança.

Labirinto de tiras

O labirinto é um recurso interessante para a construção
de relações espaciais. Neste exemplo, a trama integrada ao trepa-trepa surpreende a criança criando caminhos mais sinuosos que no brinquedo tradicional. Pode ser instalado nas arvores, através de amarrações simples ou a ganchos e argolas fixadas no piso ou na parede.

Pintura no piso

A pintura é um recurso de fácil aplicação e execução, que pode sugerir brincadeiras coletivas ou individuais, como diferentes tipos de amarelinha, jogos de ludo, da velha ou de damas e tradicionais como futebol, mãe da rua e queimada.

desenho de amarelinha

Pintura no piso é um recurso de fácil aplicação e execução, que pode
sugerir brincadeiras como a amarelinha

Trepa-trepa

  • Máscaras: podem criar brincadeiras de esconder ou surpreender o amigo, ao mesmo tempo, limitam as passagens para o topo, criando novos desafios para a escalada; podem ser confeccionadas com papelão,
    madeira, tecido ou E.V.A. (um tipo de borracha, leve, maleável e fácil de recortar), a partir de temas de projetos.
  • Redes: os vãos do trepa-trepa podem ser limitados com trançados de
    tiras de pano, elástico, cordas ou mangueiras de plástico bem finas e
    maleáveis, essas redes criam locais para sentar e labirintos.
  • Elementos sonoros: pendurar sinos e chocalhos nos vãos e no topo,
    para que a criança possa tocá-los, descobrir e comparar seus sons.
  • Bandeirolas, cata-ventos, pipas ou birutas: transformam o trepa-trepa de um equipamento “sisudo” num brinquedo leve e divertido, sugerindo um castelo, um forte, uma árvore, além de serem objetos que se movimentam ao sabor do vento, instigando as crianças a observá-los.

Brincadeiras tradicionais com regras

Acontecem, geralmente, nos espaços abertos. É interessante observar o repertório que as crianças apresentam, procurando enriquecê-lo através da intervenção direta: relembrando regras, ajudando a resolver conflitos, chamando a atenção para estratégias que determinadas crianças adotam ou oferecendo materiais.

Intervenções no escorregador

  • Esconderijos: o espaço embaixo do escorregador é muito utilizado pelas crianças para brincadeiras de faz-de-conta e conversas que exigem um ambiente aconchegante. Utilizando tecido ou E.V.A, fechamos as passagens laterais, deixando apenas alguns orifícios ou janelas.
  • Brincar de escalar amarrando-se uma corda no topo do brinquedo.
  • Propor desafios: que as crianças escorreguem de diferentes maneiras, sozinha ou com o colega

Brinquedos tradicionais e materiais de manipulação

A oferta sistemática de materiais como: bolas, cordas, bolinhas de gude, sapatos de lata, boliches, raquetes, piões, bambolês, etc. enriquece o repertório de brincadeiras das crianças

desenho de futebol

A oferta sistemática de materiais como: bolas, cordas, bolinhas de gude, sapatos de lata, boliches, raquetes etc enriquece o repertório de brincadeiras

O material deve ser oferecido de forma organizada e acessível às crianças, em caixas espalhadas pelo parque, por exemplo. Os locais em que as caixas são dispostas devem ser pensados no sentido de estruturar cantos para determinadas atividades, por exemplo: na área cimentada, brincadeiras com bola; embaixo da árvore está sempre um professor batendo corda; os brinquedos de areia perto da cabana. Este esquema não precisa ser fixo, podendo sofrer alterações em
função dos interesses das crianças e dos educadores.

Isabel Porto Filgueiras1 e Adriana Freyberger2

1Isabel é professora de educação física na
escola Criarte e assessora pedagógica na
área de movimento. Tel.: (0XX11) 3731-6243.
e-mail [email protected]

2Adriana é arquiteta especializada em espaços
lúdicos e no espaço do brincar, designer de
objetos e mobiliários para crianças.
Tel.: (0XX11) 5589-6450.
e-mail [email protected]

Dicas do Professor

Transformar o parque é um projeto que permite colocar a criança como projetista, autora e construtora do ambiente lúdico em parceria com a comunidade.

O interessante numa proposta de transformação do parque é que o ato do brincar e construir o espaço tornamse partes de um mesmo processo. A criança pode tornar realidade um espaço imaginado por ela. As etapas do projeto são:

1.Investigar como é a percepção do espaço do ponto de vista das crianças, educadores, pais e funcionários, através de desenhos, entrevistas e construções de maquete;

2.Analisar quais são os pontos de vista e os aspectos que diferem entre os adultos e as crianças;

3.Montar painéis e exposições com o trabalho dessa primeira etapa para que todos conheçam e considerem as diferentes formas de uso e percepção do espaço;

4.Propor que crianças, pais, educadores e funcionários dêem sugestões de intervenção no espaço através de textos, desenhos e maquetes;

5.Montar uma maquete coletiva com as várias intervenções selecionadas pelo grupo, para que as crianças possam brincar com objetos e bonecos em miniatura, registrando as brincadeiras e situações imaginadas, os jogos e diálogos que surgem e que mais tarde
poderão ser transportados para a realidade do parque;

6.Pesquisar junto à comunidade, a um arquiteto ou outros profissionais especializados, materiais e a melhor forma para viabilizar e executar as intervenções propostas pelas crianças e demais pessoas da comunidade;

7.Construir a intervenção, convidando os pais, educadores, crianças e funcionários da instituição;

8.Registrar todas as etapas do trabalho e avaliar comparando o resultado final às idéias iniciais do projeto.

Circuitos no parque

A possibilidade de explorar espaços ricos por meio da percepção e da coordenação de movimentos permite que a criança desenvolva noções de profundidade, formas, direções e planos, importantes nos processos de estruturação do espaço e construção de habilidades motoras. Uma boa opção para trabalhar estes conteúdos é propor diferentes tipos de circuito no parque, por meio da junção de bancos, cordas, pneus, pedaços de madeira etc. aos brinquedos fixos.

Os circuitos podem propor novos desafios corporais ou ser construídos em função de uma brincadeira de faz-de-conta, em que as
crianças exploram uma floresta, com rios para pular, pontes para
se equilibrar, árvores e montanhas para escalar.
É interessante, após algum tempo da atividade, variar o sentido dos deslocamentos exigindo da criança novas adaptações.
Com as crianças de 5 e 6 anos podemos trabalhar, utilizando o
desenho, a representação da atividade e a idealização de novos circuitos. Outro exercício interessante é a construção de um circuito
a partir do desenho de outro grupo de crianças.

Como materiais para usar no circuito, veja as seguintes sugestões:

• Tecidos de diferentes texturas como algodão, chitão, filó, tule,
estopa, etc. nas diferentes cores e estampas como bolinhas, listras, xadrez, floridos, etc.;

• Bambus de diferentes alturas e espessuras, cabos de vassoura,
para servir de hastes para cata-ventos ou suportes para cabanas;

• Tintas para o piso como látex colorido ou látex com pó xadrez, para pintar o chão com amarelinhas, rocamboles, etc.;

• E.V.A. (placas de borracha coloridas), papelão, eucatex, compensado, etc., para fazer máscaras no trepa-trepa;

• Bambolês, cordas, barbantes, sisal, pneus, cabos de vassoura, colchonetes, bancos, tecidos, etc. para criar obstáculos para circuitos.

Para saber mais

  • A Cidade e a Criança. Mayumi W. de Souza Lima. Ed. Nobel, São Paulo,1989, Tel.: (0XX11) 876-2822. A autora faz uma análise das relações entre concepções educativas e a organização do espaço escolar, discutindo a construção social dos espaços para as crianças e a necessidade de envolvê-las na transformação e criação dos espaços escolares.
  • A Arte Lúdica. Elvira Almeida. EDUSP, São Paulo,1997, Tel.: (0XX11) 813.8837, 813. 3222. O livro reúne experiências da autora na idealização de espaços lúdicos, que buscam no repertório popular sua
    principal fonte de inspiração. Na construção dos brinquedos (esculturas lúdicas) utiliza-se madeira reciclada e objetos do cotidiano, propondo novos conceitos para o espaço do brincar.
  • Espaços Lúdicos ao ar livre na Educação Infantil. Isabel Porto Filgueiras. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Educação da USP, 1998. A pesquisa analisa o uso dos espaços lúdicos por educadores e crianças nas EMEIs da região do Butantã, utilizando referenciais da psicologia genética, da pedagogia, da arquitetura e de propostas de
    educação motora.
  • O Espaço do Brincar. Adriana Freyberger. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, 2000. O texto questiona a organização do espaço lúdico ao ar livre em quatro instituições de Educação Infantil, dois parques públicos e duas instituições de educação não-formal, propondo novos valores para o planejamento
    arquitetônico.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #5 de janeiro de 2001. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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