Cuidados compartilhados – Um planejamento para acolher os pais

Ninguém mais duvida da importância que tem o acolhimento das crianças ao chegarem à escola (avisa lá nº 2). Tão importante quanto ele é o trabalho com as famílias. É comum que os pais alimentem uma expectativa de que seus filhos sejam cuidados, na instituição de educação, da mesma forma individualizada como são cuidados em casa. Na maioria das vezes, sabem pouco sobre as relações e o cotidiano em ambientes coletivos. A desinformação aumenta as dúvidas, gera ansiedade e insegurança, que acabam sendo transferidas aos filhos. Esta atmosfera tensa dificulta a entrada das crianças e o trabalho dos educadores que mediam a passagem de casa para a instituição educativa. Para cuidar desta relação tão delicada, duas creches planejaram o acolhimento aos pais buscando formas de compartilhar os cuidados e a educação das crianças. É o que vamos ver nesta matéria.

“As famílias, tendo o direito de compartilhar a educação dos filhos, devem ter suas dúvidas, angústias e ansiedades acolhidas pela instituição”
– diz o RCNEI1. Esta orientação é ainda mais importante na ocasião do ingresso de uma criança pequena a uma instituição de educação, pois os pais exercem uma influência marcante sobre as reações e emoções de seus filhos durante o processo de adaptação (veja texto abaixo).
Nesse sentido, apoiar e tranqüilizar os pais é uma forma indireta de ajudar também as crianças. A presença deles não atrapalha, como já se pensou. Ao contrário, os pais são as pessoas que mais conhecem as crianças, e por isso podem facilitar o relacionamento com outros adultos. Essa tem sido a perspectiva adotada por muitas instituições na hora de planejar o acolhimento.

Os berçários que atendem os funcionários da empresa de cosméticos Natura2, por exemplo, integram a família desde o momento da recepção das mães até a adaptação das crianças. As mães, em geral, não têm muito tempo, e de fato é difícil comparecer à creche quando têm a pressão de uma jornada de trabalho a cumprir. Por isso, o berçário da Natura aproveita os três últimos dias da licença- maternidade da mãe: num dia ela vem confirmar a vaga pretendida, informar-se sobre a documentação que deve ser trazida e tirar as dúvidas mais comuns como, por exemplo, quantas e quais roupas e fraldas são suficientes, como deve ser as mamadeiras, etc. Nesse primeiro encontro, a coordenadora pedagógica acompanha a mãe numa visita ao berçário, fazendo as apresentações das educadoras, lactarista, etc.
Depois das apresentações, vem o momento da entrevista de matrícula,
destinado a esclarecer as dúvidas das mães, dar outras explicações, apresentar a proposta pedagógica. Foi assim durante alguns anos, até que Fátima Regina Meneguello, coordenadora de uma das unidades, acompanhando as mães de perto, se deparou com um problema que exigiu uma reflexão e uma ação para melhor atender as crianças e suas famílias. É o que ela nos conta:

Como as mães se sentem ao deixar seus filhos na creche

“Por mais que nós, coordenadoras, conversássemos na entrevista, sobre todos os pontos que sabíamos ser conflitantes, difíceis e por vezes dolorosos – separação do bebê, inclusão em um ambiente coletivo e o desejo de atendimento individual, novo ritmo de sono, novos hábitos de banho, alimentação, etc. –, era visível que nem sempre as mães saiam seguras deste encontro. Eu me perguntava se as mães, mesmo tendo escolhido o berçário como melhor opção para seu bebê, mesmo tendo boas referências com relação à qualidade de nosso trabalho, tinham condições de realmente compreender, durante a entrevista, todos os sentimentos e inquietações que surgiriam neste processo inicial, e que poderiam ser resolvidos mais facilmente se estivessem explícitos. Era difícil, para elas, identificar os conflitos, pois muitos surgiam só depois da entrevista, vivendo o cotidiano. Mas mesmo quando isso acontecia, não era explicitado. Este jeito de lidar com as emoções mostrava a necessidade de passar uma imagem de tranqüilidade, equilíbrio, segurança, para a coordenação e para as educadoras, talvez firmadas na crença de que quanto menos indagações e dificuldades mostrassem, melhor seu filho seria recebido.

Diante de tudo isso, pensei: se a mãe passasse por uma experiência
parecida com a de seu bebê, entrasse em contato com um novo ambiente,
sem nenhuma informação prévia, será que ela teria um contato direto
com seus conflitos, medos e angústias, identificando-os mais facilmente?
E, ainda, se ela fosse recebida por uma educadora que a acompanhasse
mais atentamente, estabelecendo com ela um vínculo mais estreito, será que essa mãe ganharia mais confiança, podendo facilitar, conseqüentemente, o processo de adaptação de seu bebê? Achava que sim. Apostando nessas hipóteses, realizei a primeira modificação no processo.
No primeiro dia de adaptação, uma educadora receberia a mãe e a acompanharia, respondendo às dúvidas imediatamente. Ela continuaria junto também na entrevista inicial com a coordenação. É claro que todas as educadoras do berçário atenderiam a seu bebê, mas aquela que a acompanhou no início estaria oferecendo uma ajuda mais direta.”

As mães trazem quase sempre as mesmas dúvidas

Fátima, então, propôs que as mães ficassem com seus bebês nas salas, por três horas, observando tudo. Todas as impressões, dúvidas, medos, etc., deveriam ser trazidos para a entrevista de matrícula, no dia seguinte. Dessa forma, ela e a educadora do berçário puderam apresentar o projeto pedagógico em função das perguntas. Algumas são mais recorrentes, Danielle Cristina Wolf, diretora das creches, identifica as mais comuns:

– Por que a criança chora tanto ?

– É sempre assim na hora do almoço? Por que a educadora não dá
sempre a comida na boca de todos os bebês? Por que ela deixa os bebês
se sujarem com a sopa?

– As educadoras ouvem quando os bebês choram? Se meu filho acordar,
ela vai ver? Ela vai escutar ele chorando? Será que ele não vai sofrer? Vai demorar muito para ser atendido?

– Não tem poucas educadoras para o número de crianças?

Essas perguntas traduzem o conflito proveniente da passagem do atendimento individual para o coletivo.
É preciso esclarecer às mães que os bebês não têm, certamente, o
mesmo atendimento que tinham em casa porque, num ambiente coletivo,
se estabelecem outros tipos de relações muito diferentes da relação entre mãe e filho. Porém, há outros ganhos. A inserção no coletivo traz vantagens para sua formação como, por exemplo, a possibilidade de conviver com pessoas diferentes, de conquistar maior autonomia e de aprender a resolver problemas que só são impostos por uma realidade diferente da familiar. Mas não resta dúvida: quando as crianças precisam, são sempre atendidas, porque as educadoras, que conhecem muito sobre a faixa etária, sabem distribuir o colo para quem precisa mais ou menos.

Além do mais, as salas também são acolhedoras: berços personalizados, tapetes, cantos com brinquedos de diversas categorias, que estimulam a inteligência, a imaginação e os movimentos, objetos mais familiares, às vezes trazidos de casa, almofadas, colchonetes, etc., compõem um ambiente bastante agradável que ajuda a cumprir, simbolicamente, parte da função do colo, que não estará disponível a todo momento.
Outro motivo de insegurança é a higiene e saúde no berçário. As mães perguntaram, por exemplo:

– Vocês lavam esses brinquedos? Se todas as crianças pegam, põem na boca, não vai passar doença de uma criança para outra?

– E o chão? As crianças ficam o tempo todo no chão? Não vão ficar doentes?

Para compreender, as mães precisam saber sobre as diferenças entre o ambiente educativo e o hospitalar, limpeza e esterilização, a rotina de lavagem dos brinquedos, do chão, da areia, etc. Essas informações ajudam a compreender que um ambiente coletivo não é asséptico, como os berçários de hospitais, mas é limpo, absolutamente saudável e próprio para um bom desenvolvimento das crianças.
No terceiro e último dia, depois de toda essa conversa, mãe e bebê já estão mais tranqüilos, mais familiarizados com o espaço, com a nova rotina e melhor preparados para enfrentar a separação. Hoje se constatam outros ganhos trazidos pela mudança, conta Danielle: “o fato de não ter muitas informações prévias promoveu um tipo de aproximação que permitiu à mãe, muito mais à vontade, perguntar outras vezes, sempre que quisesse”.

O que fazer quando os pais não têm tempo

Mas nem sempre é possível planejar o acolhimento nas condições ideais, pois muitas mães não podem acompanhar os filhos nos momentos em que a instituição gostaria. Como resolver neste caso? A criança ingressa sozinha e adapta-se como pode?

As creches da Natura insistem na presença da mãe, planejando momentos que sejam possíveis para ela. Um dia de integração com as famílias e as crianças num sábado, por exemplo, já se mostrou uma boa iniciativa, num momento delicado em que muitas mães tinham dificuldades em conciliar o tempo de trabalhar e de ficar com o filho. As mães do berçário puderam conhecer o novo espaço, a equipe de profissionais, participar de algumas das atividades que são propostas no dia-a-dia, contextualizando-as no projeto de educação infantil.
Um delicioso lanche finalizou a agradável tarde. Esse encontro representou o primeiro contato com a creche, uma oportunidade de familiarizar-se e de preparar-se para o período de adaptação que se iniciaria na semana seguinte. Outra possibilidade encontrada foi o acompanhamento apenas nas primeiras horas do dia, num período de 2 a 3 horas, durante a primeira semana, somente. Caso houvesse necessidade de mais tempo, a educadora poderia chamar a mãe por meia hora, aproximadamente, durante o dia. Para que isso fosse possível, a equipe da creche precisou entrar em contato com os respectivos chefes das funcionárias mães, evitando assim maiores transtornos.

As creches que atendem à comunidade em geral, não apenas aos filhos de funcionários de uma determinada empresa, têm outras necessidades pois a chegada das crianças não depende do fim da licença-gestante, e sim do preenchimento de vagas que são abertas. É o caso da creche Nair Bozzi3. A cada ano ingressam crianças de diferentes idades, ocupando as vagas remanescentes de algumas salas, e muitos bebês que ocuparão vagas do primeiro berçário, inteiramente renovável a cada ano. O trabalho é, então, planejado de acordo com esta necessidade, bastante diferente das creches da Natura.
No dia da entrevista, Teresa Rodrigues Amaro, coordenadora pedagógica da creche, consulta sobre as possibilidades de a mãe fazer a adaptação e, em último caso, não sendo possível de forma alguma, ela ajuda a escolher um substituto, alguém que tenha um bom vínculo com a criança, que se responsabilize, que saiba responder sobre ela e que tenha disponibilidade para ficar na creche durante algum tempo.

Em geral funcionam como substitutos o pai, as avós ou os irmãos mais velhos.
Para a mãe que está longe saber que alguém de sua confiança acompanha seu filho pode ser fator determinante para tranqüilizá-la.
Para não tumultuar os primeiros dias – o que acaba atrapalhando o acolhimento às crianças e suas famílias –, a creche promove uma escala,garantindo que nunca se passe da marca de cinco crianças novas por semana, por sala, número possível naquela estrutura, proporcional ao quadro de educadores que a instituição pode mobilizar no momento. O adulto que vai acompanhar as crianças na fase de acolhimento permanece com elas durante um período da rotina. Num momento determinado, eles se separam: as crianças vão para as salas, acompanhadas por suas professoras, e os familiares, então, se encontram numa sala especialmente preparada para eles, onde esperam o final do período, conversando sobre seus filhos, sobre a creche e suas expectativas, aproveitando um informal cafezinho. A coordenadora pedagógica que os acompanha durante todo o tempo se dispõe a esclarecer dúvidas, contar um pouco sobre as atividades, apresentar a instituição e a proposta pedagógica.

Como as mães se sentem e o que esperam

A troca de informações e a conversa alivia muito a ansiedade e a insegurança. Para ajudá-los a verbalizarem o que estão vivendo naquele momento, Teresa oferece papéis, tesouras, lápis e tinta, para que escrevam cartas que seriam lidas para as crianças mais tarde, nas rodas, com suas professoras. Cartas atenciosas, bonitas, otimistas. Palavras que comunicam sentimentos, expectativas, intenções e promessas de futuro, como as que foram escritas por algumas mães, no início do ano de 2000. Em um ou outro caso, enfrentando mais ou menos dificuldades, cada creche conseguiu, a seu modo, pensar do ponto de vista das famílias ao organizar o trabalho no início do ano. Ambas confirmam que um bom planejamento do período de acolhimento garante um processo mais tranqüilo para as crianças, suas famílias, os educadores e todos os demais que acompanham essa fase tão importante na vida da criança pequena. Com esse saber e mais a experiência desses anos, elas estão, a essa altura, preparando-se para mais uma vez receber e acolher quem chegará em 2001.

1 Referencial Curricular Nacional de Educação Infantil, volume introdutório.

2 Creche Natura, unidade Santo Amaro, Rua Amador Bueno, 491, Sto. Amaro, 04752-900, Tel.: 5694-7305 CEDUC, Rua do Retiro, 2172, 24 / 24 Vila das Hortências, Jundiaí, 13209-002, Tel.: 4522-5532

O acolhimento às famílias começa na recepção

Quando os pais vão pela primeira vez à creche ou à pré-escola, conhecer a instituição ou fazer uma inscrição, precisam ser recebidos com profissionalismo pois, como diz o ditado, a primeira impressão é a que fica. Vale a pena observar o seguinte:

  • há uma pessoa preparada para dar todas as informações necessárias aos pais?
  • no caso de uma espera, como é a sala destinada a eles? É acolhedora? Visualmente bonita e agradável? Contém informações sobre o trabalho realizado ou é um local asséptico, frio, que afugenta em vez de acolher?
  • existe algum impresso com informações básicas sobre a instituição e os procedimentos de matrícula, adaptação, ou os pais precisam memorizar tudo?
  • os pais ou responsáveis pela criança podem visitar o ambiente se assim o desejarem?
  • ocorre uma entrevista de matrícula com a coordenação que serve também para que se combine a rotina do período de adaptação?
  • agenda-se uma reunião de ambientação dos pais novos para que conheçam a proposta pedagógica da escola, esclareçam suas dúvidas sobre ela, sejam apresentados a toda a equipe? É preciso, ainda, reservar um tempo para esclarecer sobre a estrutura administrativa, organizacional e pedagógica, para que todos saibam a quem recorrer quando precisarem resolver um problema ou tirar alguma dúvida. É importante que os professores estejam presentes nesse encontro, para que os pais possam conhecê-los, esclarecer dúvidas sobre o processo de adaptação das crianças e entender a necessidade dos cuidados iniciais próprios deste período.

(Cisele Ortiz, psicóloga, coordenadora de projetos do Crecheplan)

O que a insegurança da mãe pode provocar

“A mãe que verdadeiramente sente que o jardim da infância será bom para seu filho transmite essa mensagem através de seu comportamento. Ela deixa o filho, em seu primeiro dia de escola, sem muita hesitação, e ele logo participa alegremente das atividades com seu professor e as outras crianças.
Mas a história é muito diferente se há dúvidas íntimas quanto a deixar seu filho; ela transmite isso ao demorar, ao fazer um movimento de ir embora só para voltar imediatamente ao primeiro sinal de desconforto por parte da criança. Esta logo percebe que sua mãe acha que deixá-la não é uma coisa boa, começando, portanto, a chorar e agarrar-se a ela. Assim que as outras crianças observam isso, também ficam em dúvida quanto a estarem na escola e põem-se a gritar por suas mães, embora até esse momento estivessem brincando felizes.”

(Bruno Bettelheim, Uma vida para seu filho, p.36. Ed. Campus)

Para saber mais

  • Uma vida para seu filho, Bruno Bettelheim. Ed. Campus.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #5 de janeiro de 2001. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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