Desenhando a imaginação

As gravuras da artista paranaense Denise Roman revelam um universo lúdico, povoado de personagens que flutuam, cenários de fábulas e imagens sobrepostas. Com figuras que parecem ter saído do faz-de-conta infantil, sua obra é um inspirador ponto de partida para trabalhar o desenho de imaginação na sala de aula
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Serão as aranhas que encantam os pássaros ou os pássaros que encantam as aranhas – Denise Roman

A obra de Denise Roman é um convite a olhar para o mundo infantil com seu livre trânsito entre realidade e imaginação. Seu traçado busca liberdade, brincando com os meios e suportes. Atual orientadora de litografia do Museu da Gravura da Cidade de Curitiba, Denise iniciou sua trajetória nas Artes Plásticas na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, em Curitiba. Em 1981, começa a usar a transparência em seu desenho. Mistura uma figura na outra e gosta de descobrir o que nasce desta junção. Esta superposição de imagens só é possível no plano da ficção, da fantasia, ingrediente fundamental de seu desenho. O desenho – caminho das linhas ou de pontos em suportes variados – carrega em si possibilidades infinitas e se presta muito bem à representação tanto do mundo real como da imaginação.
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“Era uma vez” para crianças pequenas

Desde os primeiros meses de vida, as histórias podem fazer parte da vida infantil. Ao ler ou contar histórias para bebês e crianças pequenas, os professores abrem caminhos para uma interação surpreendente com o mundo da leitura e da escrita

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Leitura de histórias no berçário


Cada vez que um adulto lê para uma criança pequena, é como fazer um convite para que ela ingresse no universo mágico da linguagem. Uma experiência que apresenta personagens divertidos, leva a lugares curiosos, oferece novos conhecimentos e permite inventar outras “realidades”. O encantamento provocado pela narrativa e pela relação que o contador ou leitor cria com a criança favorece o interesse e a participação dela nessas situações.

Podemos considerar o contar e o ler histórias momentos privilegiados de interação das crianças com a linguagem. Neles, um parceiro mais experiente lingüisticamente utiliza as histórias – um tipo de narrativa que facilita a aproximação e o fortalecimento dos vínculos afetivos – para estabelecer uma situação comunicativa com a turma.  As crianças aprendem a partir de sua interação com o meio material e social. E, no caso da aprendizagem da língua falada e escrita, não é diferente: as crianças aprendem por meio dos intercâmbios sociais gerados nas diversas situações comunicativas, com diferentes parceiros.
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E depois de ler, fazer o quê?

Trocar idéias, confrontar opiniões, conversar com as crianças… Parece simples, mas muitos professores ainda têm dúvidas do que fazer depois da leitura de histórias.
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Cerimônia para Oxalufã Artista: Carybé

Aleitura de histórias em sala de aula tem sido uma atividade permanente na Educação Infantil, mas com resultados nem sempre satisfatórios e produtivos, tanto para os educadores como para as crianças. Ainda dominam encaminhamentos que objetivam fixar o texto ou verificar sua compreensão – a conhecida interpretação de texto, herança de uma visão da leitura como passível de apenas uma interpretação.

De modo geral, esta orientação tem sido aceita quase como a seqüência natural da atividade de leitura. Os professores, pela dificuldade de acesso a novos conhecimentos ou pela escassa intimidade com o ato de ler, ou mesmo pela falta de orientações e oportunidades para construir significados sobre a leitura, acabam fazendo deste encaminhamento uma prática automatizada, sem nenhuma reflexão.

O que fazer então? Continue lendo >

Comparando diferentes versões de Pinóquio

A presença regular e intencional de situações em que o professor lê livros de literatura infantil para os alunos é recomendável por uma série de motivos. O principal deles refere-se ao propósito de formar leitores competentes, criando condições para que os alunos possam participar de uma comunidade de leitores e inserir-se no mundo letrado
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Ilustrações da coleção colorida “trópico” pinocchio – livraria martins editora S. A.

A seqüência de atividades de leitura1 explicitada a seguir pretende auxiliar o aluno a ampliar sua competência enquanto leitor, por meio da interação com os livros, com o professor e os colegas. Essa ação tem a intenção de contribuir para a descoberta do valor da leitura de textos literários, assim como para o desenvolvimento do gosto pessoal do leitor.

A seqüência de atividades propõe a leitura e a comparação de diferentes versões2 de uma narrativa clássica da literatura infantil: Pinóquio3. As situações que compõem a atividade são as seguintes: leitura feita pelo professor (em várias sessões) da versão original da história; leitura feita pelo professor de uma segunda versão; reescrita em grupos de um fragmento do texto da segunda versão lida; leitura pelos alunos de outras duas versões; acompanhamento de uma versão filmada.
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Nenhum a menos*

Inclusão na escola e democratização do acesso à cultura letrada é, sem dúvida, uma das prioridades da educação em nosso país. No município de embu, são paulo, um esforço coletivo de professores e formadores garante a aprendizagem de todas as crianças, incluindo-as na cultura escrita

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O título deste artigo, inspirado na produção cinematográfica de mesmo nome, reflete o espírito do projeto educacional desenvolvido pelo município de Embu. No filme, uma jovem novata no ofício de lecionar, ao ter que substituir o professor titular numa escola de precárias condições, segue as orientações que recebeu de seu antecessor: “Quando eu voltar quero encontrar todos os alunos, não quero nenhum a menos”. O desafio lançado ajuda-a a perceber que é preciso empenhar-se para que os alunos não desistam de estudar, abandonando a escola.Continue lendo >

O que fazer após ler uma história para as crianças

Essa é uma questão não resolvida para muitos professores. Parece que o ato de ler, por si só, não é suficiente como atividade em sala de aula. É preciso sempre finalizar com um desenho. Acompanhe a reflexão da formadora do instituto

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Essa é uma questão que se repete nos vários grupos de formação em que atuo. Ao trabalhar o conteúdo leitura pelo professor, esse assunto surge com freqüência. Posso propor um desenho depois da leitura da história? Como formadora, meu primeiro movimento é pontuar que essa nem sempre é uma atividade adequada na seqüência de uma leitura. Depois de algum tempo, observando a reincidência deste assunto, me interessei em pesquisar quais os motivos que levam as professoras a propor esta atividade.

Nas sondagens que fiz, concluí que esta é uma das propostas mais tradicionais na Educação Infantil, que repetida e associada ao trabalho com leitura de histórias ganhou o status de “inquestionável”. As perguntas feitas às professoras “Por que desenhar depois da leitura?” e “O que as crianças aprendem nesta atividade?” constantemente causam espanto geral. Afinal, sempre fizemos assim, são as respostas.

Outras justificam o desenho pela necessidade da representação do conteúdo, para o professor poder avaliar o que foi entendido pela criança, já que elas ainda não escrevem convencionalmente na Educação Infantil. Desenhando, podem mostrar o que apreenderam da história.

Quando desenhar não significa compreender
O curioso é que, apesar da expectativa das professoras de que o “desenho da história” pode ser um indicador do nível de compreensão das crianças, em geral se aceita qualquer produção, desde que ela se remeta a algum elemento que faça referência à história. É o que podemos perceber nesta descrição:
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As crianças e o universo dos cordéis

Crianças de 5 anos se entusiasmam com a leitura de cordel na escola. Conhecem não só o texto mas o contexto onde esta literatura está inserida e aproveitam o canto e encanto desta tradição brasileira

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o processo de alfabetização, o domínio da escrita tem tido um papel preponderante, muitas vezes em detrimento do desenvolvimento da oralidade, tão importante na Educação Infantil. Este projeto, que aproxima as crianças da literatura de cordel, possibilita uma união saudável entre a oralidade e a escrita.

No Brasil ainda há comunidades que pensam o mundo, transmitem conhecimentos e se expressam segundo a lógica própria da oralidade. Além disso, em algumas das capitais do nordeste, e mesmo em São Paulo, ainda podemos encontrar núcleos que se preocupam com a divulgação do cordel por meio de material impresso, o que permite um convívio harmonioso das duas linguagens, a escrita e a oral, sem que uma simplesmente substitua a outra.
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Alto e em bom som – A importância da leitura em voz alta no processo inicial de alfabetização

Projeto de formação de coordenadoras pedagógicas, desenvolvido no sul do país, com consultoria do além das letras, contribui para que as professoras desenvolvam práticas diárias de leitura para seus alunos

São Miguel do Oeste, em Santa Catarina, é um dos 20 municípios integrantes da Rede Além das Letras1 e vem desenvolvendo importante trabalho de formação de coordenadoras pedagógicas. O projeto visa implementar nas escolas práticas de leitura em voz alta pelo professor. Hoje sabe-se, por meio de pesquisas didáticas, a importância dessa atividade para uma alfabetização ampla. Realizado entre setembro e dezembro de 2004, a primeira fase do Projeto Formando Formadores envolveu coordenadoras pedagógicas, professoras e alunos da Educação Infantil e 1ª séries do Ensino Fundamental de São Miguel do Oeste. Apoiada por Beatriz Gouveia, uma das consultoras da Rede Além das Letras, a formadora do município de São Miguel do Oeste, Terezinha Bagatini, conduziu a formação das coordenadoras pedagógicas e relata aqui o desenvolvimento do projeto.

Passos iniciais
São Miguel do Oeste vinha desenvolvendo o Projeto de Formação Continuada de Professores Alfabetizadores baseado no PROFA2 do MEC, com resultados muito positivos para a alfabetização. Essa ação possibilitou que o município recebesse o Prêmio Além das Letras como destaque da região Sul. Em seminário em São Paulo, com os cinco municípios que foram destaques regionais, um novo desafio foi lançado às equipes técnicas. A proposta do Além das Letras foi dar ênfase à formação de formadores locais, ainda em caráter experimental, partindo de contextos3 que favorecem a alfabetização inicial. São Miguel optou pelo desenvolvimento do contexto de leitura em voz alta pelo professor para iniciar a formação de coordenadoras pedagógicas.Continue lendo >

Jogar por prazer e para aprender

Quando a criação de jogos ganha o espaço da sala de aula a animação é geral, como atestam crianças de 8 a 10 anos da cidade de São Paulo. Ler, escrever e desenhar em um contexto significativo e lúdico favorecem a autoria, a criação e a aprendizagem. Veja como foram concebidos e produzidos por esta garotada os jogos Super Clarius e Super Batalha
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Daniel 8 Anos

Grande parte das crianças brasileiras entre 8 e 10 anos tem muita dificuldade para ler e escrever. É comum a escola oferecer propostas descontextualizadas de escrita, as quais são executadas mecanicamente pelas crianças. Esta situação, sem dúvida, colabora para a criação de um grande contingente de analfabetos funcionais. Pessoas que passaram pela escola mas não escrevem, e lêem com uma compreensão básica.

Pensar em propostas que criam um contexto no qual escrever é preciso e desejado pelas crianças parece se constituir em um desafio geral para a educação. A produção de sentido nos atos de leitura e escrita nas escolas precisa ser levada em conta se pretendemos realmente desenvolver nas crianças verdadeiros comportamentos leitores e escritores.

Neste projeto didático realizado pela turma do Núcleo Socioeducativo Santa Clara1 podemos ver como uma realização que leva em consideração a cultura lúdica das crianças traz bons resultados em diferentes aprendizagens.

Como tudo começou
A idéia de trabalhar na criação de cards2 com minha turma surgiu do diálogo com a formadora Denise Nalini3. Queríamos que as crianças avançassem na leitura e na escrita aprendendo a elaborar as regras de um jogo; que tivessem sua criatividade estimulada por meio do desenho e da pintura, além, é claro, do desenvolvimento de habilidades diversas que os jogos proporcionam. Planejamos em conjunto um projeto didático intitulado Super-Heróis. Compartilhei com o grupo a idéia da criação de um jogo do tipo Super Trunfo4, com personagens de heróis e vilões, já que o tema era muito apreciado pela turma.
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Uma leitura inusitada: Harry Potter aos 4 anos

A professora Marcela põe abaixo, neste artigo, um mito da educação infantil: o de que não é possível ler livros com muitas páginas, sem ilustrações, para crianças muito pequenas. O entusiasmo de sua turma de leitores mirins com um texto considerado complexo para a faixa etária conduz a um repensar das propostas comumente oferecidas aos pequenos
Montagem do rosto ampliado de João Pedro sobre papelão dá origem ao “bruxo” que sobrevoa a sala de aula

Montagem do rosto ampliado de João Pedro sobre papelão dá origem ao “bruxo” que sobrevoa a sala de aula

Hoje se sabe, devido a inúmeras pesquisas etnográficas e piscolingüísticas, que viver em um ambiente no qual ler e escrever integra o cotidiano faz toda a diferença para o desenvolvimento de competências leitoras e escritoras. Dentre as inúmeras ações que uma criança ainda na educação infantil pode presenciar e participar, sem dúvida, a leitura compartilhada, dialógica, é uma das mais importantes. As interações entre adultos e crianças que uma leitura em voz alta pode proporcionar contribui para a construção de habilidades comunicativas fundamentais em nossa cultura da informação. Segundo Teberosky e Ribeira1, “O processo cognitivo de ler não é um processo natural, mas propiciado pelas interações com pessoas mais experientes no mundo letrado e que contribui para as formas de comunicação em nossa sociedade”.

Nessa atividade de leitura de um livro longo a professora, no caso a leitora experiente, conhecendo bem as experiências culturais de suas crianças, amplia significativamente a capacidade comunicativa desses leitores não convencionais. Neste caso, o cinema, por meio da filmografia de Harry Potter, não só virou pretexto para o encontro de crianças de 4 anos com a literatura, como também possibilitou um incremento do jogo simbólico e de outros conhecimentos, como se um grande caldeirão cultural fosse transportado para a sala de aula. Como num passe de mágica, o conhecimento foi oferecido tal qual um prato saboroso, convidativo, a ser degustado e transformado pelas crianças.Continue lendo >