De olhos bem abertos

As professoras da Escola Projeto Vida, na cidade de São Paulo, descobrem que vale a pena estimular a observação das crianças como ferramenta valiosa para desenvolver as habilidades de desenho e criação
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Produções das crianças participantes do projeto

Artes Visuais foi a área de conhecimento selecionada como conteúdo principal no processo de formação continuada dos professores de Educação Infantil da Escola Projeto Vida, neste ano de 2006. Propusemos às professoras uma análise cuidadosa dos desenhos das crianças. A partir disso, optamos por discutir as imagens estereotipadas e repetidas que costumam inundar os desenhos infantis, como as casinhas, o sol, a linha do horizonte com flores e as árvores, entre outras. Definimos então o objetivo de ampliar o repertório de possibilidades de representação gráfica das crianças, principalmente da representação da figura humana. Entre tantas possibilidades, escolhemos investir no desenho ligado ao tema do movimento. Consideramos que seria um desafio instigante para as crianças, já que em geral seus desenhos apresentam figuras estáticas e vistas de frente.

Ao focar um aspecto da forma do desenho, no caso, o movimento, a intenção foi permitir uma melhor intervenção didática. Quando ficam claros para o professor os indicadores que devem utilizar para analisar o trabalho da turma, melhora a qualidade de sua intervenção e, conseqüentemente, a da produção das crianças.

Da observação ao desenho
Como ponto de partida, buscamos auxílio de artistas consagrados que têm no movimento uma de suas preocupações. Tornar observáveis as soluções encontradas por estes artistas ajudaria as crianças a solucionar seus próprios problemas, além de ampliar sua capacidade de análise e a busca por traçados mais diferenciados. Dos anônimos desenhistas das cavernas rupestres aos grandes pintores de todos os tempos, os artistas utilizam a observação para elaboração de suas obras. Observar elementos da natureza, seres humanos em ação, objetos e paisagens contribui para o desenvolvimento de noções sobre proporção, volume, espaço e planos. Além disso, quando se observa a produção de outros artistas, é possível focar o olhar sobre a textura das tintas, identificar instrumentos usados, a qualidade do suporte, as cores utilizadas, as linhas e os elementos da composição, as figuras, os objetos e as ações representadas.

Ao contrário do que se pode pensar, o desenho de observação não limita a criatividade, mas colabora para que as produções sejam mais ricas, como assegura o artista plástico Philip Hallawell1: “Há inúmeros exemplos de artistas, tanto clássicos quanto modernos – Picasso2, por exemplo – que dominavam o desenho de observação e mesmo assim foram criadores de uma arte inovadora e revolucionária. Não é o desenho que inibe a criatividade, mas uma atitude acadêmica. Quando o desenho de observação é ensinado como se fosse baseado em regras, então, realmente, vai prejudicar a criatividade do aluno, assim como qualquer professor que impõe regras, estilos ou soluções inibirá o aluno na busca de sua própria expressão. O desenho de observação – repito – é um meio para se dominar o desenho, e é somente dominando o desenho que se consegue fazer uma arte completamente livre, na qual as soluções são por opção e não por exclusão.”

Portanto, um trabalho interessante que leve a criança a observar, sem regras limitantes, pode contribuir para ampliar as possibilidades de representação. E foi o que ocorreu em nossa escola.

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“O artista deve ver todas as coisas como se estivesse vendo pela primeira vez, é preciso ver toda a vida como quando se era criança; e a perda desta possibilidade nos retira a de nos exprimirmos de uma maneira original, isto é, pessoal.” (Henry Matisse – “Com os Olhos de Criança”, Arte em São Paulo, no 14, março de 1983 )

Diário da professora
Como planejado, afixei na lousa a obra de Matisse A dança e, com as crianças em semicírculo, perguntei o que observavam na obra:

Lucas: – Parece que estão dançando!
Rafael: – Parece que estão fazendo uma roda!
Marina: – Parece que estão brincando de ciranda, cirandinha.
Hassan e Matheus: – Estão pelados!
Vitor: – Parece que estão pulando!
Gustavo: – Parece que estão numa montanha.
Professora: – Por que parece que eles estão numa montanha?
Gustavo: – Porque parece que alguns homens estão no alto e os outros mais embaixo.
Ana Clara: – É mesmo! Dá a impressão de que estão muito alto!
Matheus: – Parece que estão dançando nas pontas dos pés.
Gustavo: – Dançando numa perna só.
Camila: – Olha! Eles estão cruzando os pés.

Em seguida a estes comentários, chamei a atenção do grupo para o fato de que todos estavam comentando situações em que as figuras da obra se mexiam. Então perguntei como eles sabiam que as figuras de Matisse estavam dançando, brincando, pulando.

Marinq: – Eles estão se mexendo!
Ana Clara: – As mãos parecem que estão se mexendo e também tem as pernas.
Professora: – O que têm as pernas?
Ana Clara: – Cada uma está numa posição.
Matheus e Gustavo: – É por causa das mãos!
Professora: – O que têm as mãos que mostram que as figuras estão se mexendo?
Lucas: – Parece que estão se equilibrando.
Gustavo: – Equilibrando para não cair.
Raphael: – Dá para perceber que estão se mexendo pelas cabeças.
Professora: – Como assim?
Raphael: – Porque umas estão abaixadas e outras estão levantadas.
Lucas: – Parece que as cabeças estão se torcendo!
Matheus: – É se mexendo, e por isto uma está para cima, outro para o lado e outras para baixo.

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Brincadeira de roda
Fechei a discussão elencando as observações que o grupo havia ressaltado (movimento dos pés, das cabeças, das mãos, a impressão das figuras em cima de uma montanha), bem como as características que fazem com que percebamos que as figuras estão em movimento. Convidei, então, o grupo para brincar de roda. Em seguida, propus que cada um desenhasse uma roda e reforcei que este desenho deveria dar a impressão de movimento, para que qualquer pessoa pudesse descobrir, como o grupo havia feito com a obra de Matisse. As crianças aceitaram e se lançaram ao desafio.

Depois de algum tempo, Luiza me procurou entregando seu trabalho com algumas figuras de mãos dadas e dizendo que não conseguia fazer a roda. Perguntei o que estava faltando fazer para parecer que era uma roda e ela disse que era necessário desenhar mais crianças na frente das outras figuras, mas não estava conseguindo. Disse que eu sabia que ela conseguiria e pedi para tentar de novo. Ela voltou mais uma vez e observei o seu esforço em tentar representar esta roda. Depois, muito contente e orgulhosa, disse do seu lugar: “Eu consegui!”. A Ana Clara também me procurou com a folha um pouco amassada de tanto apagar. Conversamos e reforcei que ela tinha condições de fazer este desenho. Ela voltou e se empenhou e achou uma solução muito inteligente para resolver o desafio.

Observação em grupo
Cada um observou, então, o trabalho do outro e tinha que ressaltar o que transmitia a idéia de uma roda em movimento. A discussão e a postura do grupo foram interessantes, pois conseguiram fazer suas observações sem se preocupar em dizer se estava feio ou bonito (geralmente eles ficam presos a este juízo de valor). Isto mostra que as crianças começam a focar o seu olhar e a fazer observações em cima do que foi trabalhado. Basicamente as crianças disseram se o desenho estava parecendo uma roda ou não, e justificavam suas colocações. Em vários trabalhos, disseram que não parecia uma roda e sim uma fila, e algumas crianças, autoras do desenho, concordaram e pediram para continuar o desenho. A Camila, que também representou figuras uma ao lado da outra, não concordou com a avaliação do grupo e argumentou que havia desenhado uma parte da roda, ou seja, da perspectiva de uma pessoa que está na roda. Dizia que o resto das figuras da roda é como se estivessem fora do papel.

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A dança, 1910. Henry Matisse. Ôleo sobre tela 34 Saint Petersburg, Hermitage Museum (Ilustrações retiradas do livro Matisse, de Volkmar Essers)

Outro detalhe que chamou a atenção da turma foi que em alguns desenhos as figuras que deveriam estar de costas numa roda estavam de frente, pois tinham olhos, boca, nariz. Foi uma discussão muito divertida, pois, para mostrar que aquela roda estava estranha, as crianças levantaram e fizeram uma roda dessa forma.

Em alguns trabalhos, também se destacou o fato de algumas figuras serem mais altas que as outras. O grupo ficou admirado (e eu também) com a solução da Ana Clara para representar a sua roda: em vez de desenhar várias crianças, ela desenhou duas pessoas de costas e parte da cabeça e da roupa da pessoa que estava na frente. Foi muito legal. Algumas crianças observaram que não parecia uma roda e sim dois casais dançando.

(Débora Rana, formadora do Instituto Avisa Lá e coordenadora pedagógica da Escola Projeto Vida e Nancy Ferreira das Neves, professora da Escola Projeto Vida)

1Artista plástico e consultor de imagem. Seu trabalho investiga principalmente a figura humana.
2Pintor espanhol naturalizado francês. Considerado por muitos o maior artista do século 20, Pablo Picasso também foi escultor, artista gráfico e ceramista.

Dançando com Matisse

Trabalhamos com o pintor francês Henri Matisse (ver Box na pág. 38), que trouxe grandes contribuições à pintura, principalmente inovando no uso da cor. Acima de tudo, ele não acreditava que a função de um pintor era descrever o que via, mas sim condensar a seu modo uma experiência. Ele se preocupava com a expressão da natureza humana. Além de ousar no emprego das cores, reinventou o espaço e a forma, nas palavras de John Peter Russell3. Aproveitando a representação das figuras em movimento desse artista, desenvolvemos o trabalho de observação e desenho das crianças. Em paralelo, foi realizada uma ação formativa voltada para o professor. Era importante proporcionar-lhe o contato com a produção artística, o conhecimento sobre a evolução do desenho infantil, oportunidades de expressão por meio do desenho com foco em determinados objetivos, desenvolvimento do hábito da observação, da capacidade de analisar suas próprias produções e as das crianças. (Débora Rana)

3Pintor australiano (1858-1931).

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O circo, 1947. Ilustracão para o livro Jazz

Quem foi Henri Matisse

Henri-Émile-Benoît Matisse nasceu em Le Cateau, Picardia, na França, em 31 de dezembro de 1869. Estudou na École des Arts Décoratifs e no ateliê de Gustave Moreau4, com os primeiros fauvistas5. A arte de Matisse baseia-se num método que, segundo ele próprio, consiste em abordar separadamente cada elemento da obra – desenho, cor, composição – e em juntá-los numa síntese, “sem que a eloqüência de um deles seja diminuída pela presença dos outros”. Abandonou assim a perspectiva, as técnicas do desenho e o efeito de claro-escuro, para tratar a cor como valor em si mesma.

Em sua primeira fase, Matisse se mostrava como descendente direto de Cézanne6, em busca do equilíbrio das massas, mas outras influências, como as de Gauguin7, Van Gogh8 e Signac9, levaram-no a tratar a cor como elemento de composição. Dos pintores fauvistas, que exploraram o sensualismo das cores fortes, ele foi o único a evoluir para o equilíbrio entre a cor e o traço em composições planas, sem profundidade.

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Nu Azul IV, 1952, Guache recortado

Ao explorar ora o ritmo das curvas, como em A música (1909) e A dança (1933), ora o contraste entre linhas e chapadas, como em Grande natureza morta com berinjelas (1911-1912), Matisse procurou uma composição livre, sem outra ligação que não o senso de harmonia plástica. Sua cor não se dissolvia em matizes, mas era delimitada pelo traço. Em sua fase final, Matisse voltou-se para a esquematização das figuras, de que são exemplos a decoração mural A dança, para a Barnes Foundation, em Merion, nos Estados Unidos, e os papiers collés ou gouaches découpées (técnica que chamou de “desenho com tesoura”) que ilustram Jazz (1947), livro com suas impressões sobre a arte e a vida. Entre 1948 e 1951 dedicou-se à concepção arquitetônica e à decoração interior da capela do Rosário em Saint-Paul, perto de Vence, no sul da França. O autor considerava essa sua melhor obra, e nela concebeu todos os detalhes, dos vitrais ao mobiliário, voltado para uma concepção mais ascética das formas, embora nos arabescos florais predomine uma linha sinuosa. Henri Matisse morreu em Nice, França, em 3 de novembro de 1954.

http://www.pitoresco.com.br/universal/matisse/matisse.htm

4Pintor simbolista francês (1826-1898).
5O Fauvismo (feras selvagens) foi um movimento de curta duração, na passagem do século 19 para o século 20, e teve como líder incontestável Henri Matisse, contando também com a participação de outros grandes artistas.
6Pintor modernista francês (1839-1906).
7Pintor impressionista francês (1848-1903).
8Pintor holandês, considerado um dos principais representantes da pintura mundial (1853-1890).
9Pintor francês, um dos criadores do “pontilhismo”, técnica que consistia na aplicação de cores puras em pequenas pinceladas consecutivas (1863-1935).

Ficha técnica

Escola Projeto Vida
Rua Sóror Angélica, 364 – Santana
São Paulo – SP
CEP: 02452-900
Tel.: (11) 6236-1459/ 6236-8345
Site: www.projetovida.com.br
Coordenadora Pedagógica: Débora Rana
Professora: Nancy Ferreira das Neves

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Para saber mais

Livros

  • Á Mão Livre 2 – Técnicas e Materiais de Desenho. Philip Hallawell. Ed. Melhoramentos. Tel.: (11) 3874-0900.
  • Coleção Grandes Artistas. John Russel. Ed. Verbo Brasil. Site: www.editoraverbo.com.br
  • Descobrindo Grandes Artistas – A Prática da Arte para Crianças, MaryAnn F. Kohl e Kim Solga. Ed. Artmed. Tel.: 0800-703-3444.
  • Jazz (em inglês). Henri Matisse. Ed. Norton. Disponível na Livraria Cultura. Tel.: (11) 3170-4033.
  • Para Gostar de Aprender Arte – Sala de Aula e Formação de Professores, Rosa Iavelberg. Ed. Artmed. Tel.: 0800-703-3444.
  • The Meanings of Modern Art, John Russell. Thames & Hudson, Publishers. Disponível na Livraria Cultura. Tel.: (11) 3170-4033.
  • Visagismo – Harmonia e Estética. Philip Hallawell. Editora Senac de São Paulo. Tel.: (11) 3226-3100.

Sites

  • Enciclopédia Artes Visuais – www.itaucultural.org.br (seção Biblioteca)
  • História da Arte – www.historiadaarte.com.br
  • Museu de Arte Contemporânea (MAC/USP) – www.macvirtual.usp.br
  • Museu do Louvre – www.louvre.fr (em francês)
  • Museu Virtual de Arte Brasileira – www.museuvirtual.com.br
  • Museus de Arte no Mundo – www.museus.art.br/mundo.htm
  • Picasso – http://www2.uol.com.br/museus/picasso
  • Pintores Famosos – www.pintoresfamosos.com.br

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Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #27 de julho de 2006. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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