Para cada ambiente um cuidado especial

A observação e análise dos espaços e atividades desenvolvidas em centros deeducação infantil permitem a identificação de problemas e soluções para evitar disseminação das doenças mais freqüentes entre crianças e profissionais que convivem nesses ambientes

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Quando as famílias procuram um Centro de Educação Infantil (CEI), buscam um atendimento que colabore com a tarefa de educar e criar seus filhos em um ambiente protegido, saudável e, ao mesmo tempo, desafiante e enriquecedor. Em geral, as pessoas atribuem os problemas de saúde das crianças às condições climáticas, às brincadeiras na área externa em dias mais frios, às brincadeiras com água ou areia. É comum o desconhecimento de que os riscos à saúde podem ser decorrentes da organização do trabalho, da falta de procedimentos adequados na limpeza e desinfecção dos espaços, do descuido no preparo dos alimentos e das ações de cuidados, mesmo em instituições com aparência bonita, moderna e aparentemente limpa.

Assim, a tomada de consciência de todos sobre os determinantes do processo saúde-doença é o primeiro passo para construir modos de convívio saudáveis que resultem em qualidade de vida. É necessário um trabalho intenso de informação, estudo e reflexão sobre a forma como se organiza o trabalho nos Centros de Educação Infantil e sobre a responsabilidade de cada profissional na promoção de saúde das crianças e da equipe, para que sejam adotadas as precauções adequadas.

Um pouco de história
No livro o Século dos Cirurgiões, sobre os primórdios da medicina hospitalar, Jurgen Thorwald relata que os hospitais no século 19 eram considerados locais de morte e pobreza, já que a taxa de mortalidade dos pacientes era de 80 a 90%.

O desconhecimento dos motivos das infecções – as péssimas condições de higiene – era o causador da maioria dos óbitos. Os médicos costumavam operar seus pacientes usando roupas comuns, muitas vezes sujas com sangue e secreções diversas. Os instrumentos cirúrgicos passavam de um paciente a outro e as mãos dos médicos e enfermeiros não eram lavadas com freqüência.

As famílias ricas cuidavam de seus doentes em casa, portanto, somente os mais pobres e desamparados arriscavam-se nos hospitais. As descobertas de Pasteur (1822–1965) sobre os micróbios, do cientista Joseph Lister (1827–1912) sobre a importância da assepsia e de Florence Nightingale (1820–1910) sobre a limpeza e higiene dos hospitais, entre outras, vieram a transformar os ambientes hospitalares em lugares mais seguros.

Hoje, as Comissões de Infecção Hospitalar são responsáveis pela pesquisa, implantação e supervisão de procedimentos de biossegurança e precauções-padrão para cada atividade desenvolvida e para cada setor do hospital. Estes cuidados são extensivos aos serviços ambulatoriais, postos de saúde, consultórios e equipes de resgate (primeiros socorros).

O caminho dos pesquisadores e precursores de novas práticas não foi fácil. Eles amargaram muito descrédito e incompreensão. Mudar hábitos arraigados de higiene ou de organização e execução do trabalho não é tarefa simples, mesmo quando há conhecimento disponível, alta tecnologia para identificação de riscos à saúde e dos patógenos1.

Atualizando conceitos e práticas
O conceito de risco à saúde tem sido revisto, uma vez que um mesmo agente pode ser nocivo ou não para diferentes indivíduos e grupos sociais, dependendo da maior ou menor vulnerabilidade dos sujeitos envolvidos, da conjugação de variáveis biológicas, sociais e culturais e, sobretudo, da forma como cada grupo organiza e vive o cotidiano, seja no contexto familiar, nos serviços ou na comunidade mais ampla.

Com o avanço nos estudos sobre a relação entre ambiente e saúde, sabe-se que não são apenas os micróbios que causam doenças, mas também a exposição a várias substâncias químicas e poluentes ambientais; a alguns tipos de radiação; a ruído e pressão atmosférica excessivos; ao estresse e ritmos de vida social incompatíveis com a vida orgânica ou a instalações inseguras e desorganizadas podem resultar em acidentes, desgaste físico e psicológico e em danos permanentes ou temporários à saúde física e mental.
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Portanto, uma análise ampla das condições ambientais oferecidas, bem como dos procedimentos empregados e atividades desenvolvidas, podem contribuir para um espaço saudável. A adaptação de conceitos e mapas de classificação de ambientes utilizados nos serviços de saúde permite a identificação e visualização das áreas, objetos e ações que oferecem maior risco às crianças e profissionais e o planejamento dos procedimentos adequados no preparo dos alimentos e de rotinas de limpeza e desinfecção das diversas áreas.

Mudando hábitos nos CEIs
Pensando em como sensibilizar e informar os profissionais dos CEIs sobre as condutas mais adequadas em cada atividade e área da instituição, o Instituto Avisa Lá vem utilizando, no trabalho de formação continuada dos profissionais de limpeza, cozinha e coordenação a estratégia de reflexão sobre a prática cotidiana, iluminada por conceitos científicos construídos no campo da saúde.

O planejamento dos procedimentos e rotinas dos cozinheiros e da equipe de limpeza não deve ser apenas tarefa dos gestores, enfermeiras ou nutricionista, mas uma oportunidade de educação de todos os profissionais responsáveis por sua execução. A construção conjunta de conhecimentos por parte da equipe no processo de planejamento das ações cotidianas favorece que todos se tornem responsáveis pela sua eficácia e se apropriem do processo de trabalho.

Algumas perguntas disparadoras de interesse são colocadas para os grupos em formação: Por que adoecemos? Todas as doenças são causadas por germes? Por que algumas pessoas adoecem e outras, ainda que próximas ao doente, não? Por que alguns grupos adoecem mais que outros? O que eles têm em comum ou diferente? Em um primeiro momento são trabalhadas as doenças que podem ser causadas por micróbios e parasitas como resfriados, gripes, infecção de garganta e ouvido, diarréias, viroses, sapinho, sarna, piolhos, verminose e que são identificadas pelo grupo como aquelas mais freqüentes entre as crianças menores de 6 anos que freqüentam os Centros de Educação Infantil.

Na tentativa de buscar respostas, todos começam a estudar e pesquisar sobre os agentes que causam essas doenças: vírus, bactérias, fungos e parasitas. Começa-se a descobrir o que são os microorganismos, de onde vêm, que funções têm no ciclo da vida. Essas e outras questões têm sido relevantes para os grupos que buscam pesquisar em diferentes fontes, coletivamente, as respostas.

Busca-se compreender a forma como esses agentes passam de uma pessoa para outra e que medidas são indicadas para evitar o crescimento e a propagação de acordo com a forma de vida do microorganismo ou parasita e sua função na natureza. A equipe aprende que os microorganismos não podem ser totalmente eliminados, porque fazem parte do ciclo da vida e alguns são importantes na fabricação do pão, dos queijos e coalhadas; outros ajudam no processo de digestão e absorção dos alimentos dentro dos nossos intestinos e fabricam vitaminas.

Há uma conscientização de que o importante é viver em equilíbrio, mantendo um número reduzido de micróbios que causam doenças – os chamados patogênicos – por meio de boas práticas no preparo, distribuição e armazenamento dos alimentos, nos cuidados com as crianças e na limpeza do ambiente, mobiliário e brinquedos.

Aprende-se também que fezes, catarro do nariz, fios de cabelo e células mortas de pele, eliminados dos nossos corpos todos os dias, gordura dos dedos em contato com os objetos, comidas e lixo, são alimentos para os microorganismos e parasitas.

Um conhecimento importante é sobre o papel das mãos das crianças e dos adultos como veículo de transporte de micróbios e parasitas de um lugar para outro, e por isso ensina-se a técnica correta de lavagem de mãos2.

Estabelecendo as relações com o trabalho
Em suas pesquisas e nas reflexões que fazem sobre o preparo de alimentos e limpeza da unidade, os profissionais dos CEIs tomam consciência de que é muito fácil ocorrer a multiplicação dos microorganismos nos Centros de Educação Infantil. Nesse espaço convivem crianças de diversas faixas etárias, algumas ainda dependentes de cuidados básicos como trocar as fraldas ou limpar o bumbum após evacuar, lavar as mãos após ir ao sanitário, limpar o próprio nariz e alimentar-se.

Essas observações levam a equipe a perceber que nesses espaços há condições favoráveis ao crescimento de colônias de bactérias e fungos e à ocorrência da contaminação. Alguns desses agentes eliminados nas fezes e nas secreções respiratórias podem permanecer vivos e serem transmitidos por meio dos brinquedos e da água, ou até mesmo se multiplicar na bucha, no pano de cozinha, na tábua de carne, na colher de pau e dentro dos alimentos, causando intoxicação alimentar. Alguns parasitas, como a giárdia, permanecem vivos na superfície das mesas, nas pias, torneiras, superfícies dos sanitários, areia e brinquedos.

Aprendendo a classificar os ambientes
Com base nesses conceitos de microbiologia apresentados por meio de vídeos, pesquisas em livros e revistas e por observação da prática, é feita uma primeira classificação das áreas e atividades desenvolvidas em cada ambiente do Centro de Educação Infantil, de acordo com o maior ou menor potencial de crescimento e disseminação dos micróbios e parasitas.

De acordo com a classificação, áreas críticas são aquelas que têm maior potencial de crescer e disseminar micróbios; áreas semicríticas têm potencial intermediário e área não-crítica é aquela com menor potencial de contaminação. As equipes de limpeza e cozinha são convidadas a desenhar a planta baixa da creche ou pré-escola e a pintar as áreas de acordo com sua classificação.

As cores sugeridas são aquelas usadas nos semáforos:

  • verde para as áreas não-críticas
  • amarelo para as semicríticas
  • vermelho para as críticas

Podem-se utilizar outros símbolos escolhidos pelo grupo para deixar visível para toda a equipe o potencial de risco de contaminação em cada área e, a partir dessa classificação, é possível elaborar com eles uma rotina de limpeza e desinfecção adequada.

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Planta baixa de um CEI: áreas identificadas de acordo com a classificação



Conclusões

As boas práticas de higiene pessoal e ambiental garantem, na grande maioria das vezes, uma população baixa de microorganismos e parasitas patogênicos, protegendo assim as crianças e funcionários da contaminação que pode levar ao adoecimento.

As equipes de apoio (limpeza e cozinha) tomam consciência da importância do seu papel na promoção da saúde de todos os que convivem nos Centros de Educação Infantil. Quando os procedimentos e conhecimentos construídos são socializados com os educadores, crianças e famílias, há uma integração maior da equipe de apoio no projeto educativo geral da instituição.

(Damaris Maranhão, mestre em Enfermagem Pediátrica e doutora em Enfermagem pela Universidade Federal de São Paulo. Consultora em Saúde Coletiva do Instituto Avisa Lá e Elza Corsi, nutricionista e Formadora em saúde e gerenciamento nos projetos de formação continuada do Instituto Avisa Lá)

1 Designação comum a diversos seres pertencentes às categorias de protozoários, fungos, bactérias e vírus capazes de causar doenças nos seres humanos e ou animais. (Dicionário Aurélio). O conceito de patógeno passa hoje por revisão, porque mesmo os germes que vivem bem conosco, no intestino, por exemplo, se chegam à uretra e sobem até a bexiga devido a técnicas inadequadas de higiene anal ou por outras condições, como menor consumo de água, podem causar infecção urinária.

2Revista avisa lá, edição no 4, agosto/2000.

Fatores que favorecem a sobrevivência, crescimento e disseminação dos micróbios e parasitas

  • Superfícies úmidas ou molhadas: favorecem a proliferação de germes gram-negativos e fungos.
  • Temperatura: entre 20o e 40o graus há maior chance de crescimento de algumas bactérias.
  • Poeira: favorece a proliferação de germes gram-positivos, microbactérias e ácaros, e quando espalhada pela vassoura ou espanador levam os micróbios, parasitas e ácaros de um lugar para outro. Nunca devemos espanar ou varrer cozinha, refeitório, berçário, lactário ou salas de atividades, mas empregar limpeza úmida.
  • Revestimentos com perda da integridade: pisos e paredes porosos ou com rachaduras, paredes com pinturas descascadas e sem reboco, mesas com fórmica solta, colchonetes rasgados, tábuas de carne e colheres de madeira arranhadas pelo uso.
  • Presença de matéria orgânica: sobras ou restos de alimentos, fezes, muco do nariz, papel higiênico usado.
  • Tempo: a cada 20 minutos alguns tipos de bactéria duplicam em número.
  • Procedimentos de manipulação de alimentos inadequados: consultar manual de boas práticas.
  • Procedimentos de limpeza e desinfecção inadequados: por exemplo, misturar cloro com detergente, diluição e emprego de desinfetantes sem seguir recomendações técnicas, varrer, espanar, lavar o pano de limpeza no balde e tornar a passar no chão.

Classificação das áreas críticas, semicríticas e não-críticas

avisala_24_jeitos3Áreas Críticas (contato com fezes, urina alimentos e lixo)
cozinha/lactário:

  • Lavar com água e detergente3todos os dias.
  • Desinfecção (após enxágüe) das superfícies e piso com solução clorada 200 ppm (não usar em superfícies inoxidáveis).

sanitários/sala de banho/troca

  • Lavar com água e detergente todos os dias.
  • Desinfecção (após enxágüe) das superfícies e piso com solução clorada 500 ppm (não usar em superfícies inoxidáveis).
  • Manutenção após uso pelas crianças


sala de saúde/lavanderia/abrigo de lixo/área de serviço/recipientes de lixo

  • Limpeza diária úmida com água e sabão.
  • Desinfecção após enxágüe com solução clorada 500 ppm (não usar em superfícies inoxidáveis).
  • Manutenção após uso pelas crianças.

berçarios/môdulo de crianças que usam fraldas ou estão em processo de tirar fralda

  • Desinfecção após enxágüe, com solução clorada 500 ppm (não usar em superfícies inoxidáveis).
  • Manutenção do piso e pias durante o dia por meio de limpeza úmida com água e detergente Limpeza úmida diária das superfícies do piso, pias módulo de crianças e mobiliário com água e detergente.
  • Lavar os brinquedos que são levados à boca todos os dias com água e detergente e após enxágüe desinfetar com solução clorada 200 ppm.
  • Exposição ao sol dos brinquedos de pano, almofadas e colchonetes sempre que o clima permitir (diariamente se possível) e lavagem semanal das capas e forros de colchonetes.

Semicríticas
salas de crianças maiores de três anos/refeitórios

  • Limpeza úmida diária das superfícies do piso, pias e mobiliário com água e detergente (não precisa desinfetar).

Não críticas
área administrativa em geral/pátio/recepção/área externa

  • Retirar o pó das superfícies sem espanar e empreemgando técnica e produto de acordo com a superfície dos equipamentos e mobiliário.
  • Lavar o pátio interno com água e detergente uma vez ao dia.
  • Manter a área externa limpa, revolver o tanque de areia e protegê-lo com capa ao final do dia.

3Detergente é equivalente a sabão em pó

Para saber mais

  • Creche e Pré-escola – Uma Abordagem de Saúde, de Lana Ermelinda da Silva Santos. Ed. Artes Médicas. Tel.: (11) 221-9033
  • Manual de Controle Higiênico-sanitário em Alimentos, de Eneo Alves da Silva Junior. Livraria Varela. Tel.: (11) 222-8622
  • O Século dos Cirurgiões, de Jurgen Thorwald. Ed. Hemus. Site: www.hemus.com.br

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #24 de outubro de 2005. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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