O preconceito nas entrelinhas

Quem nunca encontrou uma expressão ou informação preconceituosa e racista em algum livro, nos versos das brincadeiras tradicionais infantis, nas expressões populares? A presença desses textos no cotidiano das instituições de educação nos convida a pensar sobre os valores que queremos de fato transmitir e como os educadores podem mudar essa realidade



“Barra manteiga na fuça da nega, um, dois, três”, diz a brincadeira tradicional1 encontrada em várias regiões do Brasil e bastante apreciada pelas crianças nos parques e recreios. Os adultos, entretidos com o corre-corre, a movimentação e a animação das crianças, muitas vezes não se dão conta dos valores transmitidos nesses versos.

De onde teria vindo esta letra? Será que existem outras brincadeiras que tratam os brancos dessa mesma maneira? Não é o que temos visto. Confira, no exemplo do popular joguete de decisão:

“Você tem uma bonequinha?
Ela é loira e engraçadinha?
Quantos anos ela tem?
1, 2, 3, 4…2”

Características positivas como bonequinha e engraçadinha estão ligadas ao biotipo loiro, alimentam a auto-estima do branco. Outros exemplos se espalham por aí, reforçando, de forma inconsciente, valores racistas.

Quais os impactos que isso pode ter na educação das crianças? Bel Santos e Júlia Rosemberg, integrantes da equipe do Programa de Educação do CEERT e da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, respondem a esta questão: “Os estereótipos sobre a população negra, transmitidos por meio de apelidos que os comparam a animais ou objetos (macaco, gorila, carvão etc.), das músicas infantis e de ilustrações que os colocam sempre como escravo, como minoria ou desenvolvendo atividades subalternas, provocam nas crianças negras a crença de que estes são os seus lugares, que esta é a única história possível”, afirmam elas, chamando a atenção para o fato de que as crianças negras não são as únicas prejudicadas:

“Por outro lado, o efeito na criança branca é de fazê-la acreditar em sua superioridade. São conseqüências desastrosas, para todos os envolvidos, porque favorecem a construção de uma imagem de si que é, no mínimo, injusta e incorreta.”

Monteiro Lobato: um caso de racismo?
De fato, mesmo na literatura de boa qualidade, não se pode negar a existência de textos que discriminam os negros. São mensagens que ofendem a auto-estima da criança negra e lhe negam referências positivas e fundamentais para a construção e o fortalecimento de sua identidade.

Inaldete Pinheiro de Andrade, ativista do movimento negro no Recife, estudou a fundo essa questão. Em seu livro Racismo e antiracismo na literatura infanto-juvenil, ela denuncia: “A omissão da identidade, os apelidos depreciativos, estão no cotidiano das crianças negras.

Com o reforço da literatura infanto-juvenil, este segmento de escritores e escritoras, estão garantindo a manutenção dos preconceitos e discriminação contra a população negra, com o poder da linguagem.”

Monteiro Lobato, um dos mais importantes escritores da literatura infanto-juvenil, é um exemplo de escritor conceituado que infelizmente escreve de maneira a reforçar preconceitos. Veja como Dona Benta se refere à negra Nastácia.

– Sim – disse Dona Benta. – Nós não podemos exigir do povo o apuro artístico dos grandes escritores. O povo …Que é o povo? São essas pobres tias velhas, como Nastácia, sem cultura nenhuma, que nem ler sabem e que outras coisa não fazem senão ouvir as histórias de outras criaturas igualmente ignorantes, e passa-las para outros ouvidos, mais adulteradas ainda.

E mais adiante, na voz de Emília, encontramos a seguinte impressão sobre as tradicionais e populares histórias recontadas por tia Nastácia.

– (…) Parecem-me muito grosseiras e bárbaras – coisa mesma de negra beiçuda, como tia Nastácia.

A imagem estereotipada não combina com a sabedoria de uma negra velha

Sem dúvida, o autor teve um papel fundamental para o desenvolvimento de uma literatura nacional. “Ele quebrou a dependência dos padrões literários vindos da Europa”, reconhece Inaldete.

Mesmo assim, não se pode negar que em algumas de suas obras, sobretudo no Sítio do Pica Pau Amarelo, o escritor, influenciado por um tempo marcado pela experiência escravocrata, reproduziu a sociedade da casa-grande.

Em suas histórias, a criança negra não encontra personagens positivos com quem possa identificar-se: “Dona Benta é a patroa, senhora branca, intelectual, conhecedora do mundo europeu. Emília, Narizinho, Pedrinho, Visconde, todas as figuras brancas são inteligentes. Tia Nastácia é a empregada, negra, que só fala basbaquices, cheia de espantos.

Lobato subjuga tia Nastácia a um papel ridículo, somente lhe dando destaque como boa quituteira – a velha imagem escravocrata de que lugar de negra é na cozinha (…).

Usa a expressão racista tradicional – a negra –, querendo lembrar constantemente que ela é diferente do grupo e por isso a cor da sua pele deve ser lembrada com inferioridade, com desprezo, sua condição intrínseca de ser negra.”

É surpreendente que o autor não elogiasse a herança africana de tia Nastácia como contadora de história, nota Inaldete. “Em nenhum momento ela é vista como detentora ou transmissora de conhecimentos que, como negra velha certamente acumulou, considerando ser a linguagem oral uma prática aplicada nas culturas tradicionais, traços marcantes nas populações negras, assim como nas outras culturas onde predominou a oralidade. E tia Nastácia vem daquela época…”

E agora: ler ou não ler?

A questão se resume em decidir ler ou não ler? Devemos excluir esses conteúdos dos planejamentos? Afastar as crianças é uma medida que resolve?

Julia Rosemberg e Bel Santos, do CEERT, têm uma posição frente a essa questão: “Não há conteúdo que deva ser escondido ou livro que deva ser queimado, sem provocar uma discussão sobre seus conteúdos.”, dizem as educadoras que vêm trabalhando para melhorar significativamente as relações entre negros e brancos nos ambientes escolares.

Sabemos que esses textos existem, estão nos livros e agora na TV, na mídia de maneira geral. Está no mundo, no nosso cotidiano. Não há como negar sem que se corra o risco de disfarçar a realidade e amenizar as diferenças que, dessa forma, continuam veladas.

Por isso é importante apresentar a obra e discuti-la criticamente. Contextualizar historicamente, ajudar os alunos a identificar as passagens preconceituosas, enfim, possibilitar uma leitura crítica. Além de Monteiro Lobato, muitos outros escritores famosos podem apresentar um texto que induz à discriminação e que necessitaria de uma reflexão atenta.

Como fazer boas escolhas
A escola assume um importante papel ao escolher e apresentar produções culturais para as crianças, procurando analisar se nesse material as pessoas são tratadas corretamente. Estudos de Fulvia Rosemberg e R. Paim e de A.C. Silva (veja bibliogafia)3 trazem referências que orientam os educadores a tomar decisões importantes na hora de escolher a literatura que vai incentivar em sua classe.

Alguns indicadores podem ajudar na seleção. É possível, por exemplo, analisar se: os negros aparecem ocupando diversas posições sociais e profissionais, não apenas nas posições subalternas como morador de rua, doméstica, lixeiro etc.; a imagem dos negros é valorizada em si ou se são comparados a animais, parecidos com macacos e outros; os negros se apresentam em toda a história ou se só aparecem para ilustrar o período da escravidão; se as personagens negras são ressaltadas e valorizadas ou se sempre aparecem em último lugar.

A experiência de Bel e Júlia e as iniciativas do CEERT estão contribuindo para formar leitores mais críticos, que podem, inclusive, aprender a reclamar: isso possibilita avanços no campo editorial, que podem produzir materiais didáticos e paradidáticos que respeitem a diversidade humana, recusem o incorreto e o estereotipado.

Podemos propor reelaboração de músicas, poemas, versos etc. de modo a ressignificar condutas, conceitos, posturas etc., para que uma mudança de atitude ocorra de fato.” “É valioso desconstruir estereótipos, como sugere a professora Ana Célia da Silva 4, mas acreditamos que esta deva ser uma atividade feita em conjunto, com as crianças negras e brancas. O verso (loira engraçadinha), por exemplo, pode ser substituído por todas as outras características das pessoas presentes na sala de aula.

Talvez com outras músicas a decisão coletiva deva ser: ‘não cantamos mais porque esta música é racista!’ Qualquer que seja o caso, não seria suficiente proibir os alunos de cantarem: eles precisam, como sujeitos, recusarem-se a cantá-la.”

O papel da literatura antiracista
A literatura infantil oferece, sim, uma oportunidade de rever as posições racistas, desde que os adultos se posicionem: devem se preocupar em apresentar às crianças textos de uma grande diversidade literária, incluindo expressões anti-racistas.

Inaldete é uma entusiasta desse tipo de literatura, mas esclarece que não se trata de obrigar as crianças a uma leitura forçada apenas para conseguir uma nota melhor na escola. Faz-se necessário incentivar o gosto pela leitura, e o adulto, cumprindo o papel de educador, deve fazer distinções entre os textos e se empenhar para que as crianças escolham.

Esse ideal se faz presente na sua própria prática de escritora para público infanto-juvenil: ela se empenha em transmitir a tradição oral ao mesmo tempo em que informa as crianças sobre as origens negras de seus antepassados, como faz em Cinco Cantigas para Você Contar:

“Escravos de Jó
Jogavam caxangá
Tira, bota
Deixa zambelê ficar
Guerreiros com guerreiros
Fazem zigue-zigue e zás! (bis)

Foi assim que meu avô fugiu da tirania do senhor. Meu avô dizia que foi negro fujão, tantas vezes era pego, tantas vezes fugia, porque não aceitava a escravidão. Cada dia era dia de um negro fugir para a liberdade e de zigue-zigue e zigue-zigue, zás!… fugia do capataz.

Na outra senzala a situação não foi diferente. Com a escravidão ninguém era contente, só o senhor, que vivia dessa exploração. Os negros brincavam na capoeira e, de golpe em golpe inventado, viram o jogo aprimorado para se defenderem do capitão do mato.

(…) Vou m´embora pra um quilombo, nada de chicote no lombo; no quilombo eu sou livre, não tenho senhor, não” – dizia o vovô, negro fujão, que não temia capataz e de zigue-zigue e ziguezigue, zás! era um guerreiro, escravo nunca mais.”

Sabemos que a prática da leitura é um instrumento de acesso à compreensão do mundo: resta, agora, incluir os negros nesse universo e tirar as crianças negras da invisibilidade, para que possam, tal como as brancas, ter seus iguais aparecendo nas lendas, fábulas e outras histórias, de uma maneira mais respeitosa e justa.

1Barra-manteiga, brincadeira do folclore popular e do repertório infantil.
2 Fonte: pesquisa oral da professora Lucilene da Silva.
3 Fonte: CEERT- Centro de Estudos Étnicos e Raciais.Tel.: (11) 3868-1804.
4 Ana Célia da Silva. Desconstruindo a discriminação do negro no livro didático, EDUFBA.

Como é ser negro

“Uma vez, sentei debaixo de uma parreira de uva, na casa da vó Lídia. Fiquei olhando para o alto, as bolinhas cheias de suco por dentro. Eram muito saborosas (quando eu não descobria formigas entre os gomos).

A vó Lídia sempre ficava ali, arrumando suas plantinhas, enchendo o mundo com cheiro de terra molhada. Nossa conversa era ela perguntar pouco e eu responder pouquinho. Mas tinha um amor que grudava a gente, uma na outra. Lá estava ela, a vó linda com sua cor negra, cabelo branquinho, olhos serenos, mãos fortes e uma perna manca.

E aí eu perguntei:
– Vó, quem inventou a cor das pessoas?

Isso eu perguntei porque havia aprendido que uns são amarelos, outros
brancos e outros vermelhos.

Ela disse: – Eu só respondo se tu me disser quem inventou o nome da cor das pessoas.

Eu fiquei lá, pensando e chupando uva, e ela continuou plantando suas sementes.”

Histórias da Preta. Heloisa Pires Lima. Cia. das Letrinhas.Tel.: (11) 3167-0801.

Histórias da Preta. Heloisa Pires Lima

Para saber Mais

Dicas de leitura

“Um bom texto sobre diversidade humana, não necessariamente fala sobre o tema” – explicitamente dizem as educadoras do CEERT, Júlia Rosemberg e Bel Santos. “Na Educação Infantil e nas séries iniciais, as imagens desempenham papel primordial no contato com o texto.

Convidaríamos os educadores a levar para a sala de aula o livro Tanto, Tanto!, de Trish Cooke, recém traduzido pela Editora Ática, que fala de um dia de festa na vida de um bebê; de como sua família se relaciona com ele; do quanto ele é ‘fofo’ e desperta bons sentimentos e vontade de brincar em quem se aproxima. Como um texto desse fala de diversidade? A ilustradora Helen Oxenbury traz uma família negra extremamente simpática.

Outra sugestão, também da Editora Ática em parceria com a Unicef, é Crianças do Mundo Todo, que apresenta como e com quem vivem, como se vestem, do que brincam o que comem etc. É um convite para conhecer os afrobrasileiros. Quais costumes africanos incorporaram-se à cultura brasileira?”

Inaldete Pinheiro Andrade, a autora que tanto contribuiu para esta matéria, também dá suas sugestões: A Prefeitura é Nossa, de Nicolélis, conta a história de um garoto que com sua turma dirige a cidade: o detalhe interessante é que o prefeito é negro! Negro também é o líder da turma do bairro, personagem principal da coleção Catapimba e sua Turma, de Ruth Rocha.

Pretinha e Branquinha, as fadas do livro de Lucia Góes, desconstroem o estereótipo europeu tão enfatizado nos livros infantis.

Em O Bonequinho Doce, de Alaíde Lisboa Oliveira, as crianças podem aprender com os personagens do livro que ninguém nasce racista, aprende-se a ser racista. Da mesma autora,A Bonequinha Preta conta a afeição de uma menina branca por sua boneca negra.

Um Nó na Garganta, é o que sentia a personagem de Mirna Pisnky, de tanto ser desprezada por ser negra, até o dia em que se olhou no espelho e notou que era realmente bonita.

E Ana Maria Machado, tão apreciada pelo público infantil, nos brinda com uma série de livros que reforçam a beleza e a inteligência de personagens negros, alimentando com leveza e muita graça o debate sobre as relações entre negros e brancos.

São dicas imperdíveis: Raul da Ferrugem Azul, Do outro lado tem Segredo, De Olhos nas Penas, Era Uma Vez Um Tirano, Pena de Pato e Tico-tico, Mandigas na Ilha Quilombola, O Pavão do Abre e Fecha, Menina Bonita do Laço de Fita.

Bibliografia

  • Racismo e Anti-racismo na Literatura Infanto-juvenil. Inaldete Pinheiro de Andrade. Etnia Produção Editorial.Tel.: (81) 3271-0437.
  • Preconceito de Cor e a Mulata na Literatura Brasileira. J.R. Queiroz. Ed. Ática.Tel.: 11) 3346-3000.
  • Introdução à Literatura Negra. Zilá Bernd. Ed. Brasiliense.Tel.: (11) 6198-1488.
  • Literatura Infantil e Ideologia. Fúlvia Rosemberg.Teses 14. Ed. Global. Tel.: (11) 3277-7999.
  • A Literatura Infantil na Escola. Regina Zilberman.Tese 1. Ed. Global.
  • Racismo e anti-racismo na educação – repensando nossa escola. Eliane Cavalleiro (organizadora). Editora Selo Negro – Summus. Tel.: (11) 3872-3322.
  • Paiadão era nagô e Cinco cantigas para você contar. Inaldete Pinheiro de Andrade. Serviço de Apoio à Educação Alternativa – Centro Luis Freire. Tel.: (81) 3301-5241.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #13 de janeiro de 2003. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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