Escola e família: uma parceria que rende frutos

A educação da criança é ação compartilhada entre educadores e familiares. Ninguém discorda. Mas realizar isso de forma integrada e colaborativa não é tarefa tão simples. Veja neste artigo uma experiência interessante de intercâmbio entre o pessoal de casa e a escola

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Brincadeira de peão de boiadeiro durante os estudos de Góias


Tradicionalmente, a presença da família em muitas escolas se restringe às reuniões de pais, festas previstas no calendário letivo ou conversas sobre o comportamento das crianças. Essa situação parece confirmar algo muito arraigado na educação: quem tem sempre o que dizer é a escola. Dessa maneira, os pais ficam numa posição passiva, de quem precisa ouvir a escola ou ser avaliado por ela.

Algumas escolas partilham de uma opinião corrente de que a boa família deve seguir um modelo, segundo uma visão bastante idealizada, cujo padrão é previamente estabelecido. Há muitos preconceitos envolvidos, visões estereotipadas que contribuem para dificultar o diálogo entre a escola e a família.

A importância desse diálogo e de um olhar acolhedor sobre as famílias que considere suas características, conhecimentos, valores e cultura, resulta uma aproximação maior em relação às crianças, na medida em que elas têm em sua família um ponto de referência fundamental. Abrir as portas da escola para os pais significa também acolher diferenças, crenças, valores e costumes distintos, conferindo valor e respeito à diversidade, sem que um lado necessite aderir incondicionalmente aos valores do outro.

As educadoras Daniela Storto, Marta Picchioni e Raquel Pereira, da Escola Recreio, em São Paulo, desenvolveram um projeto com seus alunos de três anos, a partir de um intercâmbio entre familiares e educadores. Explorando tanto os lugares já conhecidos pelas crianças quanto os de origem dos pais e familiares, esse grupo de alunos partiu para uma longa “viagem” pelo Brasil, visitando diferentes regiões e seus aspectos geográficos e culturais.

Nesse trabalho, o diálogo com as famílias foi um ponto crucial na escolha do que seria estudado pelas crianças, assim como o acolhimento de diferentes culturas e jeitos de ser das famílias. A seguir, elas relatam sua experiência:

Viajando com as famílias
Iniciamos nossa grande aventura a partir dos lugares que eram conhecidos pelas crianças. Em um primeiro levantamento, elas conversaram sobre as viagens que já haviam realizado com a família, sobre os lugares em que os pais nasceram ou onde moravam os parentes próximos. E então descobrimos avós morando em Goiás, pais cariocas, uma mãe que morou por muitos anos na Bahia, uma avó mineira, amigos de pais gaúchos e soubemos de diversas experiências de viagens em família.

A partir daí montamos nosso “roteiro de viagem”, e definimos o período previsto para ela durante o semestre. “Compramos passagem” para Goiás, Pantanal, Bahia e arredores, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Sul do país. Pesquisaríamos com as crianças diferentes aspectos desses locais.

Achávamos que uma boa forma de inaugurar os períodos de estudos dedicados a cada região seria receber familiares e amigos para conversar conosco, responder questões e dúvidas, dar depoimentos. Dessa maneira, nosso projeto também promoveu um relacionamento mais intenso entre as vivências escolares e em família, e também das famílias entre si. E como foi interessante! As crianças, além de ótimas anfitriãs, não se cansavam de elaborar perguntas; e, na medida em que o conhecimento delas sobre o Brasil aumentava, tinham mais questões a fazer, pois estabeleciam relações com o que já sabiam a respeito das regiões anteriormente estudadas.

Holanda, mãe da Tarsila, por exemplo, nos contou que na Bahia as casas são muito coloridas, que existem muitas frutas diferentes das que nós estamos acostumados a ver, que existem tantas igrejas em Salvador que se poderia visitar uma diferente a cada dia do ano (!) e que muitas pessoas negras moram lá. Essas informações jamais foram esquecidas pela turma que, a cada nova visita, perguntava:

“– Lá as casas são coloridas?”;
“– Tem muitas igrejas?”.

Com o tempo, as crianças passaram a perceber diferentes características entre os Estados, do ponto de vista das etnias, da arquitetura, da paisagem. Outras perguntas também passaram a fazer parte do repertório das crianças, como o jeito de falar de cada região. Descobriram, entre outras coisas, que no Rio de Janeiro encanador é o mesmo que bombeiro:

“– Então lá tem dois bombeiros?”.

Exatamente! Há o bombeiro que apaga o fogo e aquele que concerta os canos!

Divertiram-se bastante ao aprender que, enquanto em São Paulo falamos poRta e toRta, no Rio de Janeiro fala-se porrrta e torrrta; já em Minas, o modo de pronunciar o r assemelha-se ao do sotaque interiorano, além do divertido jeito que eles têm de falar os diminutivos: minerim, gostosim, meninim, em vez de usarem, como nós, paulistas, o sufixo “inho”.

A sistematização das informações
Para além das entrevistas, continuávamos nossas pesquisas consultando coletivamente, em roda, ou individualmente, nos cantos, livros informativos que foram trazidos de casa pelas crianças e também por nós educadores. Tivemos em mãos um material rico, no qual as crianças obtinham informações através de imagens de qualidade (principalmente fotografias) e onde líamos para elas sobre costumes da população, história, festas e arte popular, sobre a natureza (meio ambiente, animais)…

Abordávamos as categorias de informações que melhor caracterizam a cultura típica de cada um dos locais estudados. Combinamos com as crianças que faríamos cartazes para registrar tudo o que aprendiam. Assim, poderiam consultá-los sempre que precisassem recorrer a alguma informação. Além disso, esses cartazes seriam expostos aos pais, que assim ficariam a par dos conhecimentos construídos. Gradativamente, confeccionamos com as crianças os cartazes com informações a respeito de cada uma das regiões estudadas. Eram compostos por figuras de revistas, fotografias e textos produzidos
oralmente pelas crianças e registrados por nós, professoras e escribas do grupo.

Ao lado dos cartazes, montamos caixas que continham objetos, brinquedos, recortes de jornal trazidos de casa e enfeites comprados pelas famílias das crianças em suas viagens, referentes a cada região estudada. Assim, desenrolaram-se vários momentos de brincadeiras de faz-de-conta, nos quais as crianças, a partir do material de cada caixa, inventavam enredos, brincadeiras e personagens.

O Brasil que canta, dança e brinca

As conversas sobre as regiões estudadas proliferavam, tanto as promovidas por nós como outras, ocorrendo espontaneamente entre as crianças ou entre elas e seus pais, quando eles entravam em sala para deixá-las ou buscá-las. “– Sabia que a minha babá também nasceu na Bahia? Vou chamar ela pra contar na roda da cidade dela!”; ou, de uma criança para sua mãe: “Sabia, mãe, que muito antigamente tinham os ‘cravos’ (escravos) mas que agora não pode mais?”.

Portanto, víamos realizarem-se dois de nossos principais objetivos: as crianças exercitavam, de diversas maneiras, a linguagem oral e, além disso, estavam em contato constante e significativo com outras formas de representação como, por exemplo, a linguagem escrita. Mapas, mitos e lendas brasileiras passaram a fazer parte do faz-de-conta espontâneo. Embora lobisomem fosse o personagem mais disputado, amedrontador mas paradoxalmente adorado por todos, apareciam também a cuca, o curupira, o saci e a mula-sem-cabeça.

As rodas de história deixavam todos com um “medinho” gostoso no ar e, nas partes de maior suspense, as crianças se davam as mãos ou pediam para sentar no colo. Foi interessante perceber que quando a história não tinha esse suspense ou não dava um “medinho” as crianças logo pediam: “Ah, agora lê a do lobisomem!”.

Além dos momentos de pesquisa, entrevista, história e registro, tivemos muitos outros, descontraídos, de brincadeiras, canto e dança. A música esteve presente no grupo praticamente todos os dias, e as crianças conheceram intérpretes de diferentes gêneros musicais brasileiros. É claro que, ao escolher o repertório de músicas, dada a tamanha diversidade de bons intérpretes e compositores, realizamos um entre muitos recortes possíveis, sempre tentando apresentar aqueles que mais traduzissem o espírito do Estado ou região estudada.

Assim, o grupo ouviu, dançou e cantou ao som de Gal Costa, Caetano Veloso, Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Elza Soares, Ney Matogrosso, Leandro e Leonardo, Itamar Assunção, Milton Nascimento, Raul Seixas, Rita Lee, Arnaldo Antunes, Sérgio Reis, Noel Rosa, Braguinha, grupo Olodum, entre outros.

As marchinhas de carnaval antigas como “Mamãe eu Quero”, “Pirata da Perna-de-Pau” e “Chiquita Bacana” fizeram tanto sucesso que as crianças as elegeram para serem cantadas na apresentação de fim de ano, para os pais. Como não poderia deixar de ser, outro produto do projeto, além dos cartazes produzidos em conjunto, foi um CD com as músicas preferidas do grupo – que atravessava todo nosso itinerário e, desse modo, funcionou como um instrumento de sistematização de tudo aquilo que estudamos ao longo desse delicioso semestre de viagens pelo Brasil.

O projeto foi um sucesso com as crianças e com suas famílias, comprovando que os conhecimentos familiares são poderosos aliados da escola e colaboram para dar significado a inúmeras aprendizagens.

(Por Daniela N. Storto, Marta S. Y. Picchioni e Raquel T. M. Pereira, Respectivamente orientadora e professoras da Escola de Educação Infantil Recreio em São Paulo)

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Visita de Holanda, mãe de Tarsila, contando sobre a Bahia

Madalena Freire

Na década de 80, Madalena Freire trabalhou como professora de pré-escola, em Vila Helena, bairro do município de Carapicuíba, São Paulo. No relato que fez deste trabalho, chama atenção a forma como incluiu a família das crianças no cotidiano escolar.

História do meu processo como professora em Vila Helena
Trabalhei sempre (19 anos) com crianças de classe média, na faixa dos 2 aos 8 anos. Sempre acreditei que fosse possível viver com as crianças da periferia (exploradas, e não carentes) dentro de uma mesma concepção de educação, uma prática criadora, transformadora, que partisse da apropriação dos sujeitos, criança-professor, do seu processo de conhecimento. Conhecimento de si e do mundo.

Todas as vezes que escutei: “– Você consegue trabalhar assim porque essas crianças são ricas, são bem alimentadas…” ou: “ – Essa prática só é possível porque você tem 20 crianças por classe…” ou ainda: “– Quero ver você trabalhar sem material…”, e também: “– Você não tinha os pais ignorantes contra você…”, duvidei, neguei todas essas afirmações, mas como não estava com as práticas nas mãos, minhas contestações valiam pouco.

Agora, com a prática nas mãos, constato, no meu dia-a-dia na Vila Helena, o que já acreditava: essas afirmações são crenças de quem tem um outro tipo de concepção de educação, de visão de mundo. Porque alimentadas minhas crianças não são, mas têm toda a capacidade de pensar sobre a realidade da Vila Helena, sobre o que tem significado para elas.

Pensar sobre algo que não lhes diz nada não é pensar. O erro não está nas crianças, mas sim na escola alienada da realidade das crianças. Não são as crianças que estão despreparadas para a escola, mas sim a escola que desconsidera as diferenças de classe social e suas reais necessidades… A seguir, um trecho do relato dessa experiência, em que o intercâmbio e a valorização dos saberes dos pais ficam explicitados.

Certo dia, Pedro entra carregado com dois vidros: uma cobra viva e outra morta.

– Meu pai pegou, Madalena!
– Como ele pegou? – perguntaram as crianças.
– Pedro, pergunta pro seu pai se ele pode vir aqui contar pra nós como ele pegou as cobras…
– Tá bom.

No dia seguinte chega Pedro com seu pai pela mão:
– Ele veio contar…

E assim, “Pedrão”, pai de Pedro, com as crianças em volta, começa a contar a sua história:
– Eu tava roçando o mato quando vi essa daí drumindo, daí eu lembrei que vocês gostam de bicho, dei uma paulada e pus ela no vidro. Acho que essa é jararaca… A outra quietinha daí, eu pus o vidro e ela entrou, daí tampei rápido.

Glória, mãe do Alexandre, que escutava a história, deu um palpite:
– Acho que essa daí (apontando para a cobra morta) é igual a uma cobra que tem lá em Minas, chamada surucucu.
– Qual será então, surucucu ou jararaca? Vou trazer um livro amanhã, pra gente procurar saber…

No dia seguinte, Glória me cumprimenta com a pergunta:
– Trouxe o livro, Madalena?

Digo-lhe que sim e comunico ao grupo que trouxe um livro para a Glória que entende (sabe) de cobras. Quis com esse encaminhamento explicitar que o saber de Glória era tão importante quanto o saber dos livros. E assim começamos a estudar cobras, eu, as crianças e algumas mães lideradas pela Glória.

(Madalena Freire, Cadernos de Pesquisa (56): 82-105, fev. 1986 Editora Autores Associados Ltda. Tel.: (19) 3289-5930)

Ficha Técnica:

Escola de Educação Infantil Recreio – Rua Mourato Coelho, 1390 – Pinheiros São Paulo – Tel.: (11) 3032-6488
Equipe: Daniela N. Storto. E-mail: [email protected],
Marta S. Y. Picchioni. E-mail: [email protected]
Raquel T. M. Pereira. E-mail: [email protected]


Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #20 de setembro de 2004. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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