Estratégias de Leitura

No diário de campo de uma professora, encontramos uma interessante atividade cujo objetivo é ajudar crianças de 5 a 6 anos a avançar na reflexão sobre o sistema de escrita. Propõe-se a elas encontrar em uma lista, palavras que fazem parte de um poema lido com a professora. Como ainda não são alfabetizadas, precisam pôr em jogo tudo o que sabem sobre o sistema de escrita – conhecimento sobre o valor sonoro convencional das letras e das estratégias de leitura – para descobrir o que não sabem. Veja como elas pensam.

Foto: Silvana Augusto

Trabalhamos com um grupo bem grande que tem questões diferentes com relação a escrita: algumas crianças já pensam sobre as regras do sistema de escrita, letras iniciais etc. Outras ainda não perceberam que existe uma relação entre o que se escreve e o que se lê. Por isso, dividi a sala em dois subgrupos1 para atender as necessidades específicas.

Iniciei a atividade com o primeiro grupo mostrando a letra da poesia A Foca, de Vinícius de Moraes, texto que as crianças já conheciam. Omiti a palavra BARRIGA e, em seu lugar, deixei uma lacuna. Li o poema com as crianças, mas elas logo perceberam que faltava uma palavra. Descobriram facilmente qual era porque tinham o texto de memória. Restava então completar a lacuna escrevendo o que faltava. Ofereci uma lista com as seguintes palavras:

BARRIGA
BRIGA
FORMIGA

Disse que a palavra que estava faltando, BARRIGA, era uma daquelas e que eles precisavam achar qual era. As crianças trabalhavam em duplas, e logo me surpreendi com as hipóteses levantadas. A maioria descartou FORMIGA porque, segundo elas, começava com F e BARRIGA começava com B2. Aos poucos foram observando a letra inicial, buscando selecionar outro elemento diferenciador na palavra que confirmasse sua hipótese. Outras crianças recorreram ao cartaz onde estava a poesia, na parede da sala, e identificaram a palavra BARRIGA. Foram para a lousa e fizeram a comparação, dizendo:

– Em BARRIGA depois do B vem o A e nessa aqui, depois do B vem R, então não é – disse uma criança.

BARRIGA tem dois R e essa aqui só tem um, apontando a palavra BRIGA – completou a outra.3

No segundo grupo trabalhamos com o poema As Borboletas. Procedi da mesma forma mas para essas crianças a tarefa foi mais difícil.A palavra omitida era ESCURIDÃO. Poucos arriscaram uma hipótese relacionada com o tamanho da palavra, letra inicial ou final. Geralmente a resposta era:

É essa porque tá escrito…Porque sim – disse uma criança4.

Então mudei a estratégia e passei a lançar perguntas que os fizessem pensar5.

– Será que é uma palavra grande ou pequena? Por qual letra começa?

E assim fomos caminhando até chegar na escrita convencional. A divisão dos grupos possibilitou uma intervenção mais adequada6 assim como uma participação mais efetiva das crianças.

Renata Frauendorf e Beatriz Gouveia (Formadoras do Instituto Avisa lá. Beatriz também é Consultora do Programa de Formação de Alfabetizadores do Mec).

1:  O planejamento das atividades de leitura deve considerar os diferentes níveis de compreensão dos alunos e uma mesma atividade pode propor desafios diferentes para cada um. Dessa forma, todos os alunos encontram problemas a resolver na atividade: enquanto uns ocupam-se em encontrar pistas para descobrir as palavras solicitadas, utilizando estratégias de leitura e o conhecimento do valor sonoro convencional de algumas letras, outros, que já lêem e escrevem convencionalmente, ocupam-se em resolver problemas relacionados com as convenções ortográficas: retira-se o banco de palavras e eles centram-se na grafia correta das palavras.

2 – Como as crianças ainda não sabem decodificar completamente os textos escritos, utilizam estratégias antecipatórias de leitura para descobrir o que está escrito, como as letras iniciais, finais ou mediais das palavras.

3- Nesta atividade, por exemplo, o esforço para localizar a palavra solicitada exigiu das crianças uma análise para além da sonoridade das letras iniciais; elas tiveram que investigar o meio das palavras. Para tanto, utilizaram algumas estratégias. No primeiro caso, a criança ao procurar as letras que conhecia, primeiro o B, depois o A, foi decodificando para responder à pergunta da professora. A outra criança, apoiando-se no conhecimento que tinha sobre a grafia das palavras, utilizou uma estratégia de seleção, excluindo da lista a palavra briga, para então optar pelo que sobrou, BARRIGA, que era a palavra correta. Decodificação e seleção são duas estratégias de leitura, mas ainda existem outras: a antecipação, a inferência e a verificação.

4 – As crianças sabem qual é a palavra que devem procurar, e algumas a identificam no meio das outras da lista. Porém não conseguem justificar sua escolha, ou seja, não conseguem passar do plano da ação para o plano do discurso. Logo em seguida, Renata lançou perguntas que as ajudou a analisar diferenças e semelhanças que reconheciam no enunciado oral para tentar encontrar essas marcas no texto escrito.

5 – Não à toa Renata se preocupou com o ajuste do desafio às possibilidades de aprendizagem do grupo: ela sabia que as crianças só poderiam avançar na compreensão sobre o funcionamento do sistema de escrita se tivessem bons problemas para pensar, para refletir e rever suas hipóteses. Um bom desafio deve estar entre o possível e o difícil. Quando Renata começou a fazer perguntas, organizou a situação didática de tal forma que centrou a reflexão das crianças na extensão e nas letras iniciais da palavra. É um apoio fundamental para provocar a reflexão que os levará a descobrir o que está escrito. A pergunta da professora foca a reflexão, por isso as crianças conseguem ocupar-se em encontrar pistas para descobrir a palavra.

6- Renata preocupou-se em organizar agrupamentos produtivos em função do que as crianças sabiam e do conteúdo da tarefa que deviam realizar. No caso desta atividade de leitura, as que têm escrita pré-silábica não devem ser agrupadas entre si, pois nesse momento a interação com alunos que já construíram a compreensão de que a escrita representa a fala é fundamental. Já os alunos com escrita silábica, que já fazem uso do valor sonoro convencional das letras, podem ser agrupados com alunos com escrita silábica que fazem pouco ou nenhum uso do valor sonoro, com alunos de escrita silábico-alfabética ou de escrita pré-silábica. Outra preocupação da professora é garantir a máxima circulação de informação, promovendo a socialização das respostas.

Foto: Beatriz Gouveia

O que é uma estratégia de leitura

Os adultos, como as crianças, também utilizam algumas estratégias para ler.

Uma estratégia de leitura é um amplo esquema para obter, avaliar e
utilizar informação. Existem estratégias de seleção, de antecipação, de inferência e de verificação. Estratégias de seleção: permitem que o leitor se atenha aos índices úteis, desprezando os irrelevantes. Ao ler, fazemos isso o tempo todo: nosso cérebro “sabe”, por exemplo, que não precisa se deter na letra que vem após o “q”, pois certamente será “u”; ou que nem sempre é o caso de se fixar nos artigos, pois o gênero está definido pelo substantivo. Estratégias de antecipação: tornam possível prever o que ainda está por vir, com base em informações explícitas e em suposições. Se a linguagem não for muito rebuscada e o conteúdo não for muito novo, nem muito difícil, é possível eliminar letras em cada uma das palavras escritas em um texto, e até mesmo uma palavra a cada cinco outras, sem que a falta de informações prejudique a compreensão.Além das letras, sílabas e palavras, antecipamos significados.
O gênero, o autor, o título e muitos outros índices nos informam o que é possível que encontremos em um texto.Assim, se formos ler uma história de Monteiro Lobato chamada Viagem ao céu, é previsível que encontraremos determinados personagens, certas palavras do campo da astronomia e que, certamente, alguma travessura acontecerá.
Estratégias de inferência: permitem captar o que não está dito no texto de forma explícita. A inferência é aquilo que ‘lemos’, mas não está escrito. São adivinhações baseadas tanto em pistas dadas pelo próprio texto como em conhecimentos que o leitor possui. Às vezes essas inferências se confirmam, e às vezes não; de qualquer forma, não são adivinhações aleatórias. Além do significado, inferimos também palavras, sílabas ou letras. Boa parte do conteúdo de um texto pode ser antecipada ou inferida em função do contexto: portadores, circunstâncias de aparição ou propriedades do texto.
O contexto, na verdade, contribui decisivamente para a interpretação do texto e, com freqüência, até mesmo para inferir a intenção do autor.
Estratégias de verificação: tornam possível o controle da eficácia ou não das demais estratégias, permitindo confirmar, ou não, as especulações realizadas. Esse tipo de checagem para confirmar – ou não – a compreensão é inerente à leitura. Utilizamos todas as estratégias de leitura mais ou menos ao mesmo tempo, sem ter consciência disso. Só nos damos conta do que estamos fazendo se formos analisar com cuidado nosso processo de leitura, como estamos fazendo ao longo deste texto.

(Fragmento do artigo “Para ensinar a ler”, publicado no Caderno da TV Escola em 1999.)

Foto: Adriana Klisys

Ficha Técnica:

A atividade realizada com as crianças de 5 a 6 anos faz parte do projeto de poesias, desenvolvido pela professora de apoio Renata Frauendorf em parceira com as professoras Rosângela Medeiros dos Santos e Tânia de J. S. de Moura. Esta ação está integrada no plano de formação que Beatriz Gouveia desenvolve na instituição.

  • Educandário São Domingos, R. Presgrave do Amaral 160, V. dos Remédios, São Paulo, SP, 05103-010.Tel.: (11) 3625-1326

Para saber mais

  • Estratégias de leitura. Isabel Solé. Ed. Artmed.Tel.: (11) 3083-6160

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #7 de julho de 2001. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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