O que nos contam as caveiras

Ao aproveitar o interesse das crianças pelas horripilantes histórias de caveiras e esqueletos, professoras de são paulo encontram maneira criativa de pesquisar e vivenciar o corpo humano
Desenhos feitos pelas crianças da Escola de Educação Infantil Recreio e retirados da Revista Avisa Lá, nº 15, junho/2003

Desenhos feitos pelas crianças da Escola de Educação Infantil Recreio e retirados da Revista Avisa Lá, nº 15, junho/2003

O projeto Caveiras Imaginárias, Esqueletos Científicos foi desenvolvido ao longo do 2º semestre de 2006 com crianças de cinco anos, na Escola de Educação Infantil Recreio, na cidade de São Paulo. Ao longo deste texto, relataremos nosso percurso, explicitaremos os objetivos e compartilharemos alguns frutos colhidos ao final da trajetória.

Antes de se configurar como um tema de estudos, o esqueleto humano despertava grande interesse no grupo, associado às “horripilantes” histórias de terror, bastante requisitadas pelas crianças! O livro Contos de enganar a morte, de Ricardo Azevedo, reinava soberano em nossas rodas de história, trazendo caveiras em suas ilustrações, além da temática recorrente do moço esperto que não quer “bater as botas” e, para tanto, inventa criativas estratégias para enganar a “marvada” e adiar sua partida “desta para melhor”.

Desmistificando a associação do esqueleto humano com histórias de terror, fantasmas e assombrações, propus às crianças a idéia de estudarmos o corpo humano de maneira científica. Um desafio e tanto, que logo contou com a adesão animada do interessado grupo de crianças.
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O carteiro chegou

A proposta inesperada de enviar e receber cartas deu novo sentido e entusiasmo ao exercício da escrita e da leitura realizado pelas crianças

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A pequena Giovanna no Canto de Escrita


Aos cinco anos, as crianças começam a descobrir que podem escrever com maior desenvoltura, mas sempre demonstram a mesma preocupação: “Eu não sei escrever do jeito certo e não quero escrever do meu jeito”. Geralmente percebem que há uma escrita convencional que difere de suas hipóteses iniciais sobre a escrita. Numa das reuniões de coordenação do Colégio Nossa Senhora do Morumbi – onde sou professora de um grupo de crianças nessa faixa etária – Denise Tonello1, coordenadora pedagógica da Educação Infantil, sugeriu um canto de atividade diversificada, em que as crianças pudessem brincar de escrever.

Nessa escola, a rotina da Educação Infantil inicia-se com atividades diversificadas, organizadas em pequenos cantos. Desse modo, as crianças podem escolher de qual atividade desejam participar, exercitando a responsabilidade e a autonomia. Além disso, enquanto algumas crianças participam de atividades interagindo entre si, o professor pode realizar intervenções mais pontuais para um pequeno grupo de crianças (geralmente atividades de escrita). Na maioria das vezes, priorizamos uma atividade de jogos, uma de desenho, uma de desafios matemáticos e a outra de escrita. A partir da sugestão de Denise, criamos o Canto da Escrita, com a proposta de as crianças escreverem e enviarem cartas para pessoas conhecidas.Continue lendo >

Uma flor para a borboleta ficar

Como as crianças pequenas constroem significado sobre os seres vivos a partir de conhecimentos mediados por adultos? Em busca desta compreensão, duas pesquisadoras da USP acompanharam e analisaram conversas e desenhos produzidos por uma turma em atividade

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Este artigo nasce de uma investigação que buscou compreender como as crianças pequenas constroem significados sobre os seres vivos, quando elas estão em interação social, acessando diferentes conhecimentos mediados por adultos. Para realizar esta pesquisa, estivemos durante quatro meses na Creche Oeste, localizada no campus da Universidade de São Paulo, na capital paulista. Acompanhamos um grupo de crianças com quatro anos de idade durante as atividades do projeto “Pequenos Animais”, cuja finalidade era possibilitar que as crianças conhecessem um pouco mais sobre os animais de jardim e, em especial, sobre as borboletas.

As atividades propostas pela educadora Cristiane Domingos de Souza foram bastante diversificadas. Ela escolheu materiais informativos ricos em imagens, de modo que as crianças – ainda não leitoras – pudessem fazer suas apreciações e interpretações. As imagens eram apresentadas pela educadora (que lia as legendas e textos complementares) e depois discutidas pelas crianças nas rodas de conversa. As informações eram extraídas de revistas, livros paradidáticos, literatura infantil, poesias e pinturas, além de observações de um viveiro com lagartas mantido na sala de aula, de passeios ao jardim da creche e a um bosque localizado nas imediações.

A educadora criou situações Continue lendo >

Pensamento de criança

Conhecer a forma como a criança pequena pensa pode contribuir decisivamente para transformar as famosas “rodas de conversa” em espaços reais de aprendizagem e interação. Para nos ajudar, dois importantes teóricos sobre o desenvolvimento humano: wallon1 e vygotsky2.

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Tanto Wallon como Vygotsky construíram suas teorias sobre o desenvolvimento humano considerando a natureza, a cultura, as relações sociais e as características específicas nos diferentes momentos da vida da pessoa. Segundo Wallon, o processo de desenvolvimento humano resulta tanto de seu potencial genético, quanto das sucessivas situações com as quais o sujeito se defronta e que lhe exigem uma resposta.

Na relação com o meio, o indivíduo assume determinadas ações usando os recursos que já construiu (suas competências motoras, sociais, lingüísticas, cognitivas) como condições para a realização de seus objetivos. Assim, a cada momento do desenvolvimento, aspectos específicos do meio ambiente constituem recursos privilegiados para o desenvolvimento humano. Para o bebê, num primeiro momento, a figura materna ou de seu cuidador é o recurso do qual dispõe para satisfazer suas necessidades e mobilizar sua ação. Em seguida, será o mundo dos objetos colocados à disposição de sua atividade exploratória e depois, seus companheiros com os quais vai interagir e brincar.
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Encontros e despedidas

Talvez a competência mais importante para uma professora de educação infantil seja Ouvir – assim mesmo, com “O” maiúsculo – suas crianças. Neste relato, karina, com delicadeza, humor e sabedoria, apresenta pequenas pérolas do pensamento infantil e deixa transparecer a qualidade dos vínculos que construiu com seu grupo de crianças

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Desenho: Teresa, 5 Anos


São 25 crianças de 4 anos, no período da manhã, e mais 35 no período da tarde. Para cuidar dos pequenos na sala de aula, só eu, Deus e os cinco anjos da guarda que cada um deles deve ter. Sim, porque cada criança pequena deve ter mais de um anjo da guarda. Afinal, elas fazem as maiores loucuras todos os dias e sempre voltam para casa inteiras. Mesmo nas condições mais complicadas conseguem se divertir, já que no caso desta turma, estudam em uma “escola de latinha”1. E, além disso, elas ainda dividem a alegria de viver conosco, as desvalorizadas professoras da Educação Infantil.

Infelizmente, muita gente não percebe que, trabalhando com crianças, dá para colecionar diariamente gotinhas de sabedoria, carinho e felicidade, mesmo desde o primeiro encontro, quando muitos choram, porque querem ir embora. Difícil essas coisas da vida. Eles chegam tão bebês, não sabem pegar no lápis, ir ao banheiro sozinhos. Muitos não sabem nem tirar a blusa quando faz calor ou falar o que pensam e sentem. Sofrem demais com essa coisa de ter de ir para um lugar desconhecido, sem nenhuma pessoa familiar por perto, só porque os adultos decidiram que é bom para eles.

Alguns choram muito, desesperados, mas, aos pouquinhos vão aprendendo que tem hora para tudo. Hora para aprender a amarrar o cadarço do tênis ou hora para aprender a se defender dos outros. E logo se dão conta de que, por mais que demore, a hora de ir para casa sempre vem. E, aos pouquinhos, eles vão aprendendo a contar o que pensam, a negociar, a conviver com os “nãos” e com os pontos de vista diferentes.
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Muitas revelações na história de cada escrita

Conhecer, acompanhar e analisar as hipóteses das crianças sobre a escrita é fundamental para o educador que alfabetiza. Em videira, município do sul do brasil, professores desenvolveram um interessante trabalho de organização de portfolios sobre o processo de aquisição da escrita de seus alunos

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Cronologia da escrita de Sara


A publicação de Psicogênese da Língua Escrita1, em 1979, trouxe mudanças significativas na teoria e na prática da alfabetização. Baseado em pesquisas desenvolvidas por Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, o livro divulgou em larga escala os processos pelos quais as crianças constroem conhecimentos sobre a escrita. As autoras, alicerçadas na consistente teoria de Jean Piaget, de quem foram alunas, lançaram um olhar revelador sobre o sujeito que aprende. Graças a essas pesquisas, sabemos que as crianças já possuem hipóteses sobre a escrita antes mesmo de escreverem convencionalmente, e que se utilizam delas quando começam a escrever. O conhecimento que a criança vai construindo a respeito da língua escrita tem início em seu ambiente social, a partir do acesso a diferentes materiais portadores da escrita, das observações e das reflexões sobre o seu uso.
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Brincar com a água e aprender na ação

Um dia de sol, muito calor no parque. Na volta para a sala, um grupo de crianças da creche educandário são domingos fez uma parada para beber água. mas nesse dia, tomar água foi algo diferente do que acontece todos os outros dias no grupo de crianças de 2 e 3 anos

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Sol, água e brincadeiras no desenho de uma criança do minigrupo da Creche Jardim Miriam


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O papel do jogo na educação das crianças

Conhecer como e por quê as crianças brincam é caminho seguro para uma prática educativa que respeita o seu fazer lúdico. A observação atenta das brincadeiras e o respaldo teórico colaboram para que as intervenções dos educadores sejam apropriadas


O presente artigo1 pretende tecer algumas considerações a respeito do jogo de faz-de-conta infantil e o papel que ocupa no desenvolvimento e educação das crianças. Para tanto, baseia-se fundamentalmente nas concepções elaboradas pela psicologia e pedagogia soviéticas, representadas pelos investigadores D.B. ELKONIN, L.S.VIGOTSKY, A.N. LEONTIEV e pelos pedagogos A.V. ZAPAROZHETZ e A.P. USOVA. Estes cientistas, durante o período compreendido pelos anos 20 e 40 deste século, aprofundaram estudos relativos à origem e desenvolvimento do jogo infantil entre as crianças da URSS, organizando propostas para a utilização dos mesmos como recurso pedagógico nas creches e pré-escolas do país.
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Na era do computador

Enquanto muitos adultos fogem do mouse e do teclado, as crianças correm ao seu encontro. Veja o que elas pensam sobre o computador e como aproximá-las dessas máquinas no dia-a-dia da sala de aula

Desenho de Karina, 5 anos

O computador talvez seja a presença mais constante entre as novas tecnologias no nosso cotidiano. Nas grandes cidades, as máquinas estão por todo lado: no banco, no correio, no supermercado e em muitas casas, ampliando possibilidades de comunicação e alterando hábitos.

Seria espantoso imaginar que o computador pudesse passar despercebido aos olhos das crianças, sem ser objeto de sua atenção. As relações entre os adultos e as máquinas sempre exerceram fascínio para os pequenos e não seria diferente com a chegada dos computadores: em suas brincadeiras, imitam os adultos, conversam sobre o que vêem, imaginam e se esforçam para compreender o que se passa na tela de um monitor e no interior de uma CPU.

Por esse motivo, a presença do computador na educação infantil não espanta as crianças, que aderem a ele com entusiasmo e afinco. E, se questionadas sobre o assunto, elas têm sempre muito o que falar.Continue lendo >