Escrita do Nome Próprio – Um passaporte para o mundo alfabético

A escrita do nome próprio é uma importante conquista para a criança que está em processo de alfabetização. A partir desta referência estável ela pode pensar mais sobre como a escrita funciona. Nesta matéria você vai conhecer algumas sugestões de atividades para alfabetizar a partir da lista de nomes da sala
Ilustrações: crianças de 4 a 5 anos da creche Socre

Ilustrações: crianças de 4 a 5 anos da creche Socre

A escrita do próprio nome é uma boa situação para trabalharmos com modelo”, diz Ana Teberosky em seu livro Psicopedagogia da Linguagem Escrita3. Segundo ela, o nome próprio informa a criança sobre as letras, sua quantidade, variedade, posição e ordem. Além disso, serve de ponto de referência para confrontar as idéias das crianças com a realidade convencional da escrita.

  • Temos boas razões para defender este trabalho como base de apoio para a aprendizagem da leitura e da escrita:
  • Tanto do ponto de vista lingüístico como gráfico, o nome próprio de cada criança é um modelo estável.
  • Nome próprio se refere a um único objeto, com o que se elimina, para a criança, a ambigüidade na interpretação.
  • Nome próprio tem valor de verdade porque se refere a uma existência, a um saber compartilhado pelo emissor e pelo receptor (identidade).
  • Do ponto de vista da função, fica claro que marcar, identificar objetos ou indivíduos faz parte dos intercâmbios sociais da nossa cultura.

Psicogênese do nome próprio
Ao escrever o nome próprio a criança pensa e aprende muito sobre como a escrita funciona. É o que podemos concluir diante das regularidades no percurso das crianças rumo à conquista da escrita do nome próprio.
Inicialmente as crianças parecem “imitar” a escrita rápida dos adultos. Podem aparecer movimentos de ziguezague ou linhas contínuas, como as que vemos a seguir.

Caroline

Mais tarde começam a aparecer, isoladamente, algumas letras – do nome ou não –, denotando uma compreensão maior da escrita do modelo.

João Marcos

Nos exemplos abaixo podemos notar uma intenção claramente definida de escrever o próprio nome; aparecem letras convencionais do nome misturadas com outras que não são. Também podem aparecer letras inventadas (pseudoletras);

Jéssica

A partir daí, a quantidade e a ordem passam a ser focos de atenção. Letras que não pertencem ao nome são excluídas. Inúmeras tentativas serão feitas até que o nome seja estabilizado, isto é, reproduzido com base nos critérios da quantidade e ordenação das letras.

Fabiana

Mas para haver essa produção é importante que o professor proponha atividades. Uma boa seqüência de atividades a partir do nome pode realmente ser uma importante iniciação à prática da leitura e da escrita.

Sugestões de atividades

A seguir, as professoras Clélia Cortez e Denise Milan Tonello descrevem atividades interessantes com crianças de 1 a 6 anos em que os nomes são o principal tema de trabalho:

O trabalho com nomes no berçário – Veja os relatórios de Clélia Cortez:

“No berçário 2, com crianças de 1 a 2 anos da creche Lar Alvorecer
Cristão, fiz uma chamada com as fotos que estão identificadas com os nomes das respectivas crianças. Elas ficavam eufóricas quando eu lia e corriam para me indicar a criança, como se fosse uma competição de quem apontava primeiro o dono da fotografia. Pude ver o quanto estão falantes e o quanto o nome de cada um é referência marcante. Reconhecer a função de identificar é uma aprendizagem importante e possível para crianças tão pequenas. Com a ajuda das educadoras, eu ia apresentando algumas pistas antes de mostrar a foto.

– A fotografia que nós vamos mostrar agora é de um menino que gosta muito de correr para lá e para cá e está com uma roupa azul. Quem será? – perguntou Eliane, a professora da turma.

– Jean – gritavam as crianças, entrando na brincadeira. Até aqueles que ainda não possuem uma fala bem articulada procuravam participar, apontando o amigo. No momento em que eu apresentava a foto de alguma criança ausente, eles começavam a procurar entre o grupo e davam respostas do tipo:
– Cadê?
– Dodói!”

Trabalho com nomes nas turmas de 3 anos

“As crianças maiores, de três anos em diante, já podem aprender outros aspectos da língua. Na creche da Associação Criança Brasil, minha chegada no grupo maternal foi marcada pela roda de chamada, que gerou uma série de discussões importantes entre as crianças. Levei um cartaz de pregas e filipetas com nomes de todas crianças. Ia sorteando os nomes para mostrar na roda e devolver ao cartaz as filipetas dos que estavam presentes. Várias estratégias de leitura foram experimentadas naquele momento.
– De quem é esse nome? – perguntei, mostrando a filipeta do Ygor.
– É do Yago – disse Matheus.
– Não, este tem ‘A’, é do Ygor – disse Bianca.
– Então, é do Yago ou do Ygor? A Bianca falou que este não tem a letra ‘A’, o que vocês acham? – perguntei.
Grande parte das crianças havia se preocupado apenas com as letras iniciais do nome, por isso confundiam Ygor e Yago. A informação da Bianca possibilitou que observassem e refletissem sobre outras partes do nome, chegando assim à leitura correta.

Célia, a professora da sala, se prontificou a continuar fazendo a chamada diariamente, deixando os nomes expostos, servindo como apoio e fonte de consulta para outras escritas.”

Trabalho com nomes nas turmas de 5 a 6 anos

Quem conta é Denise Tonello:

“Com a turma de 5 anos, usei a lista de nomes da sala como base de muitas das atividades com o propósito de alimentar a discussão sobre o sistema alfabético. Num dia, sentei na roda com as crianças, espalhei no chão as  tarjetas com todos os nomes4. Pedi ajuda às crianças para separar os nomes de meninos e meninas, mas antes fiz algumas perguntas. Mostrei o nome MARIA FERNANDA. Algumas crianças identificaram e disseram:
– Menina! Menina!
– Existe um jeito de saber se esse nome é de menino ou de menina? – perguntei.
– É de menina porque começa com M de Maria – disse Pedro.
– Mas Marcelo também começa com M e é nome de menino – disse eu, continuando a discussão.
– Só lendo dá para saber se é de menino ou de menina – disse Pati.
Peguei o nome BÁRBARA, tampei todas as letras e deixei só o A do final:
– E esse? – perguntei.
– Gabriel Silveira – respondeu Pedro.
– Só com essa letra dá para saber se o nome é de menino ou menina? – perguntei.
– Não dá, puxa mais uma letra – pediu Bia.
– E agora, dá para saber? – perguntei mostrando as duas últimas, RA.
Muitas crianças afirmaram ser o nome da Bárbara. Depois pensaram no da Clara. Então perguntei:
– Só tem um nome que termina com essas duas letras?
Puxei mais uma letra e então:
– É, é! É da Bárbara! – disse Lucas.
– Ih! Ainda pode ser o da Clara, olha lá – disse Gabriel apontando para a lista de nomes da sala.
Só quando puxei mais uma letra, mostrando o final BARA, é que todos
puderam confirmar o nome BÁRBARA. Algumas crianças ajudaram na leitura dos outros nomes para que pudéssemos separar dos meninos e das meninas. O jogo continuou. Peguei outra filipeta com nome, cobri quase todo o papel, deixando apenas a última letra à mostra.
– Que letras aparecem no final dos nomes das meninas? – perguntei.
– A e Z – disseram todos, incluindo aí o nome da Beatriz.
– Tem algum nome que termina com O? – perguntei novamente.
– Vamos ver nos nomes dos meninos – propôs Lucas que, depois, da pesquisa, confirmou com os amigos
– E,L,S e O.

Caça-palavras com apoio da lista de nomes

Nas mesinhas, cada um recebeu sua folha para brincar de “caçanomes”.
As crianças tentaram ler os nomes dos amigos:

BEATRIZ
PEDRO
LUCAS

Na segunda tarjeta a maioria leu: Pedro Henrique. Eu então peguei a tarjeta dele, que estava no cartaz de pregas da sala, mostrei para o grupo e tentei levantar alguns dados:
– Aqui está escrito Pedro Henrique. Com que letra termina?
– Com E – disseram todos.
– Isso – confirmei – e aí na folha, com que letra termina? Está igual?
– Termina com O – disseram.
– Então, pode estar escrito Pedro Henrique?
– Não! Só Pedro! – concluíram todos.

Caça-palavras sem apoio da lista de nomes

Nesta atividade eu tirei a lista de nomes da sala para que não recorressem a ela. A proposta era colorir onde estava escrito o nome de duas pessoas da sala. Para tanto, dei a cada criança um papel com as seguintes alternativas:

AAA
BAA
ARABRAB
BÁRBARA

AIEU
GABRIEL
GTXU
LEIRBAG

– No meu nome tem A – disse Gabriel.
– Então só pode ser este – disse Bárbara, eliminando outras possibilidades. As outras crianças também tentavam, individualmente, resolver seu caça-nomes. Pati, por exemplo, encontrou facilmente o nome do Gabriel, porque sabia que terminava com L. Clara recorreu à primeira letra, pois sabia que era com G. Neste caso, eu intervi:
– Mas este também começa com G – disse a ela, apontando para GTXU.
– Mas não é esse porque o nome do Gabriel é comprido, não é curto e
nem tem X.

Para justificar a escolha da grafia BÁRBARA, Pati também optou pela
primeira letra do nome:
– É porque começa com B.
– Mas este outro também começa com B – disse apontando BAA.
– Mas neste tem o B e AA e não é assim o nome da Bárbara.
Pati já sabia que a grafia para o nome da colega deveria ser a outra,
mas Clara apostou na alternativa BAA.
Quando perguntei por que ela achava que ali estava escrito Bárbara:
– Porque Bárbara começa com B e termina com A – respondeu, deixando
clara sua hipótese silábica. Essa hipótese só foi desestabilizada quando Bárbara escreveu seu nome ajudando Clara a escolher a alternativa correta do caça-nomes.

As demais crianças foram resolvendo sem grandes dificuldades e, à medida que foram terminando deixaram a mesa da atividade e foram se ocupar com os cadernos de desenho enquanto esperavam os demais acabarem também.”

(Clélia Cortez1 e Denise Milan Tonello2)

1 Educadora da Creche COSEAS/USP, Professora alfabetizadora do PROFA/MEC (Programa de Formação de Professores Alfabetizadores) e professora de apoio do Instituto Avisa lá.

2 Professora do Colégio Nossa Senhora do Morumbi-Mopyatã.

3 Ana Teberosky. Psicopedagogia da Linguagem Escrita. Editora Unicamp.Trajetória Cultural. 1989, págs. 35 e 36.

4 Na sala há um cartaz de pregas onde ficam à mostra todos os nomes, escritos em tarjetas de cartolina.

Seqüência de atividades: lista de nomes da sala

Objetivos Didáticos
Participar de situações de leitura e escrita do nome próprio, no cotidiano, nas situações em que isso se faz necessário.

O que queremos que as crianças aprendam:

  • Identificar o próprio nome entre os outros.
  • Realizar a leitura de seu próprio nome e os de alguns colegas.
  • Reconhecer a função do nome como identificação de pertences pessoais e objetos.
  • Conhecer a função da escrita como instrumento para nomear/ identificar pertences e objetos.
  • Escrever o próprio nome.
  • Construir repertório pessoal de informações a respeito da língua escrita.
  • Familiarizar-se com o ato de escrever, sentindo-se seguro e motivado a escrever segundo suas próprias hipóteses sobre a escrita.
  • Ter familiaridade com a escrita dos nomes dos colegas e repertório de palavras estáveis da classe.
  • Apropriar-se de alguns procedimentos de leitura através dos indícios já conhecidos do texto escrito.

Orientações Didáticas:

  • Organizar materiais gráficos como fichas de nomes, para realizar consultas em diferentes situações.
  • Oferecer os cartões com os nomes das crianças da sala como modelo da escrita convencional.
  • Combinar com o grupo que todos deverão, a partir de então, escrever seus nomes nos trabalhos.
  • Oferecer os cartões de nome próprio dos colegas da classe com freqüência, como modelo da escrita convencional.
  • Propor situações significativas em que leiam o próprio nome e o dos colegas (lista de ajudante do dia, lista de aniversariantes, etc.).
  • Promover discussões a partir dos cartões de nomes das crianças da classe sobre as semelhanças e diferenças entre eles (tamanho, letras iniciais e finais, quantidade de letras).
  • Oferecer letras móveis em pequenos grupos, promovendo pesquisas e discussões sobre a escrita da lista de nomes das crianças do grupo.
  • Escrever o nome das crianças em seus pertences, destacando a utilidade da marcação.
  • Escrever nomes na lousa nas situações em que isso se fizer necessário. Propor atividades de escrita com o nome de cada criança e dos colegas.

Seqüência Provável de Atividades:

  1. Apresentação em roda dos nomes das crianças do grupo. Deixar as crianças tentarem adivinhar a quem pertence, levantando algumas características da criança escolhida.
  2. Organizar junto com as crianças a marcação dos pertences pessoais (nomear as escovas de dentes, os espaços reservados para mochilas e onde mais se fizer necessário).
  3. Oferecer cartões de nomes para serem reescritos com letras móveis.
  4. Organizar um jogo de memória, relacionando fotos e nomes.
  5. Propor bingo de nomes: pode-se sortear nomes ou letras.
  6. Procurar o próprio nome na lista de nomes do grupo. Separar em duas listas meninos e meninas.
  7. Oferecer a cada subgrupo o número exato de letras referente a um nome da sala. Pedir que as crianças montem o nome, sem recorrer ao modelo (ocultar a lista que estiver presente na sala).
  8. Descoberta dos nomes que vão sendo escritos na lousa pela educadora a partir das orientações que ela oferece:“primeiro o S, depois o A… De quem será esse nome?” (entre outras possibilidades).

Essas atividades podem sofrer alterações de acordo com as necessidades que o grupo apresentar.

(Clélia Cortez)

Ficha técnica:

As atividades desta matéria foram realizadas por Clélia Cortez, professora de apoio nas creches Lar Alvorecer Cristão e Associação Criança Brasil, e Denise Milan Tonello, professora do Colégio Nossa Senhora do Morumbi – Mopyatã.

  • Creche Lar Alvorecer Cristão , Rua Harmonia, 1166, Sumarezinho, São Paulo, SP, 05435-001 – Tel.: (11) 3031-4880
  • Associação Criança Brasil, Rua Jacarandá, 112, Morumbi, São Paulo, SP, 05679-060,Tel.: 3746-0905, e-mail: [email protected]
  • Colégio Nossa Senhora do Morumbi-Mopyatã, Av. Pres. Giovani Gronchi, 4000, Morumbi, São Paulo, SP, 05724-020, Tel.: (11) 3746-8234, [email protected]

Para Saber Mais

Bibliografia:

  • Programa de Desenvolvimento Profissional Continuado – Alfabetização Parâmetros em Ação. Módulo Alfabetizar com Textos. Secretaria de Ensino Fundamental. Brasília.Tel.: (61) 4108617
  • Psicopedagogia da Linguagem Escrita. Ana Teberosky. Ed. Unicamp. Tel.: (19) 3788-1015
  • Escrever e Ler. vols.1 e 2. Curto. Morillo & Teixidó. Ed.Artmed. Tel.: (11) 3083-6160
  • Ler e escrever, entrando no mundo da escrita. Chartier, Clesse & Hebràrd. Ed.Artmed.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #7 de julho de 2001. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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