O politicamente correto nas histórias infantis

Personagens de narrativas que provocam medo e tristeza nas crianças são fundamentais para que elas reconheçam seus sentimentos e possam refletir sobre seus dramas
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Ilustração: Samuel Casal. in O Turbante da Sabedoria e Outras Histórias de Nasrudin, de Ilan Brenman. Edições Sm, 2008

Nas últimas décadas, especialmente a partir dos anos 1980, tem-se prestado cada vez mais atenção ao termo “politicamente correto”. O que ele significa exatamente? Segundo a enciclopédia virtual Wikipédia, faz parte de uma política que consiste em tornar a linguagem neutra em termos de discriminação e evitar que possa ser ofensiva para certas pessoas ou grupos sociais, como a linguagem e o imaginário racistas ou sexistas. Exemplos não faltam. É possível enumerar diversas expressões que foram varridas da mídia, dos livros e de nossas conversas por serem politicamente incorretas, ou seja, por conterem ideias discriminatórias ou pejorativas relação a um grupo. No entanto, será que este comportamento é sempre positivo ou pertinente?

Recentemente, nota-se uma tendência de levar o “politicamente correto” para as histórias e cantigas tradicionais pelo fato de elas apresentarem conteúdos supostamente inadequados ou violentos demais para as crianças. Será que você já ouviu a famosa canção Atirei o pau no gato, entoada de maneira diferente da original, alardeando uma letra mais pacífica? Veja: “Não atire o pau no gato, porque ele é nosso amigo…” Ou então, já escutou versões em que o lobo não come a vovó nem a Chapeuzinho Vermelho em um dos mais famosos contos de fadas?
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Revista Avisa lá #38

Pensamento sincrético em conversas infantis

Compreender as falas das crianças é tarefa fundamental dos profissionais da educação infantil
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Luciano, 5 anos (borboletas vermelhas) / Ingrid, 5 anos (borboleta azul)

Neste artigo, são apresentadas análises de conversas entre crianças de 4 a 6 anos1, todas elas apoiadas nas teorias do psicólogo e filósofo francês Henri Wallon (1879-1962) e do psicólogo bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934) sobre o pensamento sincrético e suas manifestações, já que é precisamente entre 3 e 7 anos que esse pensamento se evidencia em crianças. Esse tema foi escolhido pelo interesse que as falas dos pequenos podem despertar em quem os observa ou os acompanha. Antes, porém, uma rápida explicação.

Sincretismo é uma qualidade do pensamento infantil, que imprime à linguagem características únicas, bem próximas da estrutura poética. Por essa razão, parece legítimo refletir sobre como os adultos atuam diante dessas manifestações. Tive a oportunidade de observar diferentes rodas de conversas, de participar de algumas delas e de elaborar outras tantas durante os três anos de faculdade. Esses momentos foram possíveis por conta dos estágios de observação, pela possibilidade de acompanhar a elaboração dessas aulas pelas professoras dos cursos e, mais recentemente, pela minha atuação como professora de Educação Infantil.

Com isso, pude observar maneiras e procedimentos distintos de educadores ao conduzirem as conversas propostas à roda, estimuladas pelos mais variados acontecimentos cotidianos tão característicos dessa etapa da educação: o desenvolvimento de projetos, interesses compartilhados entre as crianças ou novidades, temperados pela individualidade de cada participante. Sentia certo incômodo ao ver desperdiçadas ou descartadas falas infantis interessantes apenas por parecerem fora de contexto ou por suscitarem dúvidas quanto à sua veracidade. E ao tomar conhecimento acerca das características do pensamento sincrético, minha inquietação aumentou.Continue lendo >

O que nos contam as caveiras

Ao aproveitar o interesse das crianças pelas horripilantes histórias de caveiras e esqueletos, professoras de são paulo encontram maneira criativa de pesquisar e vivenciar o corpo humano
Desenhos feitos pelas crianças da Escola de Educação Infantil Recreio e retirados da Revista Avisa Lá, nº 15, junho/2003

Desenhos feitos pelas crianças da Escola de Educação Infantil Recreio e retirados da Revista Avisa Lá, nº 15, junho/2003

O projeto Caveiras Imaginárias, Esqueletos Científicos foi desenvolvido ao longo do 2º semestre de 2006 com crianças de cinco anos, na Escola de Educação Infantil Recreio, na cidade de São Paulo. Ao longo deste texto, relataremos nosso percurso, explicitaremos os objetivos e compartilharemos alguns frutos colhidos ao final da trajetória.

Antes de se configurar como um tema de estudos, o esqueleto humano despertava grande interesse no grupo, associado às “horripilantes” histórias de terror, bastante requisitadas pelas crianças! O livro Contos de enganar a morte, de Ricardo Azevedo, reinava soberano em nossas rodas de história, trazendo caveiras em suas ilustrações, além da temática recorrente do moço esperto que não quer “bater as botas” e, para tanto, inventa criativas estratégias para enganar a “marvada” e adiar sua partida “desta para melhor”.

Desmistificando a associação do esqueleto humano com histórias de terror, fantasmas e assombrações, propus às crianças a idéia de estudarmos o corpo humano de maneira científica. Um desafio e tanto, que logo contou com a adesão animada do interessado grupo de crianças.
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Ilustradores de primeira

Produzir um livro com as crianças para que seja incorporado à biblioteca da escola não é uma grande novidade, mas a elaboração de ilustrações primorosas ainda é pouco comum. Veja como as crianças do Centro de Convivência Infantil – CCI Adolfo Lutz, na cidade de São Paulo, conciliaram de forma competente a proposta de escrever e desenhar.
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Desenhos das crianças do CCI Adolfo Lutz

Para as crianças de 5 anos do CCI Adolfo Lutz, o contato com lendas, contos de fadas e diferentes tipos de texto é uma constante. A elaboração de histórias pelos pequenos é algo que parece natural e povoa até mesmo as brincadeiras espontâneas. Neste contexto, foi muito bem-vinda a proposta trazida por nós, as professoras: produzir um livro contendo uma história sobre bichos. Nosso objetivo era Continue lendo >

Lendas brasileiras e computador: uma combinação que dá certo

Usar as novas tecnologias para envolver os alunos em situações reais de comunicação por meio da leitura e escrita foi o desafio enfrentado pelo projeto “Aventuras com as Letras e as Teclas”, realizado em Campinas (SP). Para promover esse aprendizado entre os alunos, foi preciso trabalhar na mesma direção com os educadores

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O projeto “Aventuras com as Letras e as Teclas” foi desenvolvido pelo Grupo Comunitário Criança Feliz, na cidade de Campinas (SP) em 2005 e teve repercussões na EEPG Prof. Alberto Medaljon. Com a finalidade de diminuir o número de crianças e pré-adolescentes com dificuldades na escrita e leitura, foi concebido como um projeto de formação de educadores com três metas concretas: implantar uma biblioteca alternativa enquanto espaço de uso comum para a escola, para o Grupo Comunitário e comunidade; desenvolver uma oficina de informática que possibilitasse o acesso e o uso contextualizado do computador; e organizar uma oficina de contos com intuito de preparar adolescentes para serem contadores de histórias e assim se tornarem multiplicadores do projeto com outros grupos de crianças.

O trabalho atendeu especificamente os educadores sociais do grupo de crianças de 7 a 10 anos que já fazia parte da oficina de informática. A equipe escolheu para trabalhar o gênero da narrativa literária, mais especificamente as lendas, por oferecer oportunidade de conhecer outras culturas e ampliar os horizontes. O produto final deste projeto foi o livro Lendas Contadas e Aprendidas. As crianças foram motivadas a pesquisar na Internet, digitar seus textos no Word e a fazer as ilustrações usando o Paint Brush1. O computador foi, assim, usado como ferramenta de aprendizado para estimular a leitura e a escrita de forma contextualizada e significativa.
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“Era uma vez” para crianças pequenas

Desde os primeiros meses de vida, as histórias podem fazer parte da vida infantil. Ao ler ou contar histórias para bebês e crianças pequenas, os professores abrem caminhos para uma interação surpreendente com o mundo da leitura e da escrita

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Leitura de histórias no berçário


Cada vez que um adulto lê para uma criança pequena, é como fazer um convite para que ela ingresse no universo mágico da linguagem. Uma experiência que apresenta personagens divertidos, leva a lugares curiosos, oferece novos conhecimentos e permite inventar outras “realidades”. O encantamento provocado pela narrativa e pela relação que o contador ou leitor cria com a criança favorece o interesse e a participação dela nessas situações.

Podemos considerar o contar e o ler histórias momentos privilegiados de interação das crianças com a linguagem. Neles, um parceiro mais experiente lingüisticamente utiliza as histórias – um tipo de narrativa que facilita a aproximação e o fortalecimento dos vínculos afetivos – para estabelecer uma situação comunicativa com a turma.  As crianças aprendem a partir de sua interação com o meio material e social. E, no caso da aprendizagem da língua falada e escrita, não é diferente: as crianças aprendem por meio dos intercâmbios sociais gerados nas diversas situações comunicativas, com diferentes parceiros.
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Ler, escrever e desenhar a partir da memória local

Aprender com sentido na escola tem sido desde sempre um desafio para professores. Produtos escolares, em geral, são aborrecidos exercícios com pouco significado e não entusiasmam os alunos, os professores e, muito menos, a comunidade. Veja como isso pode ser diferente:

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Uma das modalidades organizativas do tempo didático que mais ajudam a produzir com significado é, sem dúvida, o projeto didático1. Uma proposta com um tema bem escolhido e um produto final interessante favorece a ampliação cultural no ambiente escolar, além de contribuir para um objetivo social claro e visível para todos os envolvidos. Os projetos sobre memória local na escola cumprem ambos os critérios: o tema entusiasma a todos, pois diz respeito à identidade e auto-estima das pessoas; as crianças lêem e escrevem porque realmente precisam, e o que produzem tem uma destinação social.

Nos projetos sobre memória local, as crianças elaboram material para exposições presenciais e virtuais. O projeto sobre memória local na escola vem sendo desenvolvido em diferentes comunidades desde 2001. Nesse ano começou simultaneamente em Ituiutaba, Minas Gerais, e na Vila Isabel, na cidade do Rio de Janeiro. É uma criação conjunta do Museu da Pessoa e do Instituto Avisa Lá e conta com a parceria do Instituto Algar, em Minas; e do Instituto Pão de Açúcar2, no Rio de Janeiro e em Santos.
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Quem conhece pode escolher melhor – A importância de bons livros para crianças

Como levar os educadores a escolherem bons livros para suas crianças? Comecei o trabalho compartilhando com as professoras de uma instituição de educação infantil do Rio de Janeiro um texto de que gosto muito. Arrebatadas pelo poder de Malika e outras histórias, elas iam se dando conta da importância da diversidade e qualidade dos textos. Essa experiência contribuiu para que pudessem selecionar melhores livros para as crianças
As ilustrações desta matéria são obras da artista Beatriz Milhazes. 1001 Noites às Luz do Dia, Katia Canton. Ed. Difusão Cultural

As ilustrações desta matéria são obras da artista Beatriz Milhazes. 1001
Noites às Luz do Dia, Katia Canton. Ed. Difusão Cultural

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