Ler, escrever e desenhar a partir da memória local

Aprender com sentido na escola tem sido desde sempre um desafio para professores. Produtos escolares, em geral, são aborrecidos exercícios com pouco significado e não entusiasmam os alunos, os professores e, muito menos, a comunidade. Veja como isso pode ser diferente:

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Uma das modalidades organizativas do tempo didático que mais ajudam a produzir com significado é, sem dúvida, o projeto didático1. Uma proposta com um tema bem escolhido e um produto final interessante favorece a ampliação cultural no ambiente escolar, além de contribuir para um objetivo social claro e visível para todos os envolvidos. Os projetos sobre memória local na escola cumprem ambos os critérios: o tema entusiasma a todos, pois diz respeito à identidade e auto-estima das pessoas; as crianças lêem e escrevem porque realmente precisam, e o que produzem tem uma destinação social.

Nos projetos sobre memória local, as crianças elaboram material para exposições presenciais e virtuais. O projeto sobre memória local na escola vem sendo desenvolvido em diferentes comunidades desde 2001. Nesse ano começou simultaneamente em Ituiutaba, Minas Gerais, e na Vila Isabel, na cidade do Rio de Janeiro. É uma criação conjunta do Museu da Pessoa e do Instituto Avisa Lá e conta com a parceria do Instituto Algar, em Minas; e do Instituto Pão de Açúcar2, no Rio de Janeiro e em Santos.

É implementado em escolas da rede pública, portanto conta com a atuação conjunta das Secretarias Municipais de Educação e/ou Divisões de Ensino dos Estados. Durante dez meses, desenvolve-se nas escolas um trabalho compartilhado com coordenadores, professores e alunos. Os depoimentos são captados por alunos das escolas públicas e resultam em diferentes atividades didáticas e conteúdos para um hot-site na Internet. Em algumas cidades há também uma exposição pública dos conteúdos e imagens elaborados pelas crianças.

O projeto tem como objetivo oferecer aos professores e às crianças a oportunidade de desenvolver um trabalho contextualizado. Atua diretamente no que é função primordial das escolas, isto é, ensinar possibilitando que as crianças aprendam mais e melhor, bem como ampliar os contatos da comunidade escolar com o mundo por meio de ferramentas atuais da comunicação em rede.

Recuperar, rememorar ou conhecer a história familiar e de pessoas da comunidade tem sido alavanca importante para o resgate da identidade de um indivíduo ou de um grupo, uma vez que conhecer a partir da prática e da experiência de vida legitima o trajeto de cada um, implicando diretamente todos os sujeitos envolvidos. O relato a seguir contém trechos dos trabalhos desenvolvidos em Uberaba e Uberlândia em 2002 e 2003, respectivamente.

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A Folia de Reis faz parte da vida do sr. Belchior e de sua família (Luana, Izabela e Scarlett)

O que é memória para as crianças Sabe-se que as crianças não aprendem apenas na escola. Por isso, a diversidade de opiniões, de idéias e sugestões em um grupo está sempre presente, desde que o professor se disponha a escutá-las. Conhecer o que elas sabem, portanto, é ponto de partida para qualquer estudo.

Logo no primeiro dia, em Uberlândia, nas três escolas de referência, nos apresentamos às crianças, eu e minha parceira, Alessandra Ancona, e trouxemos o assunto da memória para conversar com elas. As crianças tinham uma noção de memória ligada ao sonho ou à imaginação, conforme contaram:

– É um pensamento.
– É onde se lembram os fatos acontecidos.
– Imaginação.
– Onde a gente pensa.
– Onde a gente esquece e lembra de acordo com o tempo.
– Sonho.
– Imagina o que a gente quer sonhar.
– É onde a gente pensa tudo o que quer pensar.
– Não esquece, o eu aprende.
– Cabeça e coração.

Estava clara a necessidade de aprofundar o conhecimento das crianças sobre o assunto. Levamos então o livro Guilherme Augusto de Araújo Fernandes (ver Para Saber Mais).

Durante a leitura, conversamos com as crianças:

– Por que seu Valdemar falou que faz chorar?
– perguntei às crianças.
– Porque as lembranças são ruins – respondeu uma delas.
– Porque pode ser algo emocionante – considerou uma outra.
– E por que faz sorrir? – continuei.
– Uma coisa no passado, muito boa, que faz rir – respondeu a colega.
– Por que será que esse personagem fala que memória vale ouro? – perguntei, trazendo para a discussão a fala do autor.
– Porque ele podia ser rico no passado.
– Porque sem memória a gente não sabe as coisas, então é como ouro.
– O que vale ouro?
– Uma memória muito boa que a gente nunca esquece.
– Um dia que uma mulher ganha um bebê – disse, por fim, uma criança, observando que a professora, que tinha um filho pequeno em casa, ainda se lembrava do dia em que ele veio ao mundo.

No meio da leitura, no momento em que Guilherme pergunta a seus pais o que é memória, questionei-os novamente sobre o que pensavam ser a memória:

– Quando as pessoas pensam.
– Coisa que nunca se esquece.
– Valiosa.
– Quando a gente vai a uma festa e lembra no outro dia.
– Quando a gente faz uma coisa há muito tempo e quer fazer de novo.
– Quando a gente vê uma coisa e fica cismado.
– Quando vê uma roupa e fica lembrando até a mãe querer comprar.

– É coisa que você lembra.
– Lembranças do passado.
– É tudo que passou na vida.
– Onde guarda os pensamentos.
– Nem sempre é boa.
– Coisas ruins e coisas boas que vê e guarda na mente.
– São coisas valiosas.
– Coisas mistas que a gente lembra. Boas e ruins. Aconteceram no passado.
– Pessoas que a gente conheceu.

O livro Guilherme Araújo Fernandes foi lido na íntegra durante as atividades do projeto.

A leitura ampliando os horizontes
Algumas crianças incorporaram passagens do texto como justificativa do que é memória, mostrando o quanto a leitura fazia sentido para elas. A leitura da história mostrou-se uma estratégia muito propícia para desencadear essa conversa, fez com que as crianças pensassem sobre o assunto e alterou o modo como se relacionavam com ele.

As professoras notaram a importância do planejamento dessa leitura. Observaram que nós não apresentamos todos os conceitos imediatamente, mas fomos trabalhando com eles, com questionamentos, levantando sempre o que as crianças sabiam. Elas avaliaram que esse procedimento permitiu um maior interesse e compreensão do grupo e que a escolha do livro foi fundamental, pois nem todos tinham um conteúdo tão relevante.

O que Uberlândia tem de bom
Em outra ida nossa às escolas, com o tema discutido com todo o grupo, avançamos um pouco mais. Pedimos às crianças que apontassem aspectos da sua cidade que elas gostariam de estudar. Levantamos uma lista com locais históricos e pontos curiosos: Museu Histórico e Museu do Índio; escola de educação física; prefeitura; teatro Grande Otelo; as igrejas do Carmo e Nossa Senhora Abadia; a rádio; o campo de futebol; quadra Carijó e até mesmo a casa da avó de uma das crianças.

A participação das crianças foi notada pelas professoras, que observavam nossa atuação4. Crianças que de maneira geral tinham dificuldade de participar não se negaram frente à oportunidade que oferecemos a elas. A condução do trabalho, que incluía todos os saberes das crianças, favorecia essa participação; mas, além disso, há que se considerar a importância do tema vir ao encontro do interesse dos alunos. Isso é fator determinante para o grupo.

Embora o projeto tenha partido de uma ação externa à escola e, portanto, às crianças, ele rapidamente foi apropriado por elas. A supervisora de uma das escolas disse que percebeu que os alunos começaram a participar mais e de com qualidade a partir do momento em que entenderam que o projeto era deles. Ela disse que viu um professor responsabilizar o aluno por algo de bom que havia feito. Achei a observação dela o máximo!

De fato, é comum que professoras chamem a atenção das crianças pela falta, pelo erro, pelo que deveriam ter feito e não fizeram. Nesse projeto há uma inversão total, e as crianças são responsabilizadas não só pelo desenvolvimento do projeto, mas, sobretudo, pelas próprias aprendizagens e conquistas.

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Dona Sirley se lembra de sua avó, que era
Rainha Perpétua, bem velhinha, montada no cavalo (Arthur e Matheus)

O que se escreve é o que se sabe
Depois dessa conversa, pedimos que escrevessem sobre o lugar que elas conheciam, indicando esse passeio a algum colega. Essa proposta levantou uma onda de reclamações gerais. Consegui entender essa postura por meio da análise de algumas escritas, que apresentavam bastante dificuldade.

Neusa, a supervisora de uma das escolas, avaliou que os alunos reclamaram durante a atividade de escrita “…não é porque não gostam de escrever, mas na realidade não sabiam, não tinham assunto…”. Parte da dificuldade que as crianças têm para escrever não diz respeito à forma.

E, realmente, chamou a atenção que, apesar do interesse dos alunos em conhecer mais sobre a história da cidade, não escreveram sobre isso. Mudaram para um assunto geral, por exemplo, “natureza”. Essa mesma questão surgiu em relação à escolha do tema “escola”. É provável que tenham mudado de tema por temerem não possuir informações suficientes dos lugares mencionados anteriormente.

A saída encontrada foi falar de temas mais conhecidos, e escrever jargões do tipo:

É preciso salvar a natureza.

A escola é importante porque lá a gente aprende.

Outras crianças enfrentaram o desafio e pensaram muito sobre seu tema, como mostra o exemplo de uma menina. Ela manteve firme sua posição de escrever sobre a Festa de Reis, tradicional evento da cidade. Começou timidamente, e logo conclui um texto breve:

A festa dos reis é acontecida uma vez por ano eu por exemplo já fui em quatro festas desas. Ela acontece em homenagem aos três reis magos que ofereceram a Jesus o Ouro, Incenso e Mirra.

Ao passar por ela, li seu texto. Sabia que ela podia escrever mais se tivesse uma ajuda. Talvez lhe faltassem idéias sobre o que escrever. Então perguntei se já havia ido a alguma festa de reis, se lembrava de algo ocorrido naquela ocasião, e pedi que escrevesse o que havia de diferente nessas festas. V. pensou mais um pouco, retomou sua produção e completou:

Nessas festas que eu fui aconteceram quatro coisas diferentes, a primeira coisa foi que a festa foi na rua em que um amigo meu foi escolido para presentear Jesus com Ouro, a esposa do amigo foi escolida pra presentear com incenso e a filha mais velha com Mirra.
A segunda foi que a festa foi dentro de uma casa onde eles omenagearam o pão e o vinho e derão a todas pessoas que compareceram lá. A terceira eles omenagiaram a morte de cristo. E a quarta eles omenagearam a volta dele. Nessas festas eu aprendi muito sobre a vida de Cristo.

V. – 9 anos

Aproveitei para refletir com os demais professores, que observaram que aquela era uma intervenção que ajudava crianças como V. a avançar na sua produção, porque a incluía de fato no relato, com todos os seus saberes. Afinal, elas não aprendem apenas na escola, e é preciso aproveitar esse conhecimento na prática pedagógica.

Muito da dificuldade de escrever está no fato de que essa é uma ação complexa que envolve saberes diferentes: é preciso conhecer bem o assunto e saber o que se vai escrever. Além disso, está em jogo também um conhecimento sobre a forma, que diz respeito ao como se vai escrever. Os problemas ortográficos se inserem nessa ordem de saberes. É importante escrever corretamente, segundo a convenção da nossa língua. Mas é igualmente importante reconhecer que esse não é o único aspecto da escrita, tampouco o mais importante para muitas crianças.

Talvez G., a exemplo de M. L., pudesse avançar no seu texto se tivesse mais conhecimentos não só sobre o assunto, mas também sobre questões lingüísticas ligadas à coerência, ao estilo e a própria construção do texto. Os exemplos delas representam as produções mais completas e coerentes de todo o grupo. Mas a grande maioria das crianças escrevia textos muito simples.

Essa dificuldade de conhecer mais sobre a linguagem que se escreve é característica de muitas crianças em nosso país. Tal fato justifica projetos como o de memória na escola, que associa o estudo sobre sua cidade e da memória de seus moradores e a produção de texto.

A escolha dos textos
Em Uberaba, onde tinha como parceira a historiadora Cláudia, foi preciso definir, logo no início, quais seriam os textos abordados no trabalho. Por que e para quem as crianças escreveriam? Textos efetivamente necessários para o desenvolvimento das pesquisas ou que seriam vistos e lidos por outras pessoas na exposição e no site do Museu da Pessoa? Optamos por trabalhar no projeto com:

  • legendas de fotos e imagens (escritas de próprio punho)
  • roteiros de entrevistas (texto coletivo)
  • narrativas de memória (ditadas ao professor ou a outros colegas, escribas num subgrupo de trabalho)

Dentre os textos trabalhados nesse relato vamos privilegiar a entrevista e a narrativa. Após a escolha do tema, o segundo passo foi elaborar um roteiro de entrevista para abordar o morador, o depoente informante do assunto em questão. Mas fazer perguntas não é algo simples. É preciso pensar previamente nas informações que são imprescindíveis, saber como deixar o depoente à vontade e, ao mesmo tempo, com vontade de contar suas histórias etc. Mas, acima de tudo, é necessário saber um pouco sobre o assunto que se quer investigar, posto que não é possível perguntar algo sobre o que não se sabe.

Preparando a entrevista
Para a turma que escolheu o tema Vida Rural, por exemplo, lemos um trecho da entrevista de Custódia Samos Marcondes, recolhida no Projeto Imigrantes – West Plaza, do Museu da Pessoa. Precisávamos recuperar com os alunos que o tema não é somente a história do boi (tema recorrente em Uberaba), e sim a ligação da cidade com a vida rural.

Portanto, a leitura do texto suscitou uma discussão interessante com os alunos, que perceberam que se tratava basicamente de como é a vida rural, as festas, a descrição do sítio e as brincadeiras de D. Custódia no local. Esses pontos observados trouxeram muitas idéias para a elaboração do roteiro final da entrevista que o grupo faria com um morador do meio rural, o fazendeiro Lourival Cicci.

Elaborar o roteiro da entrevista serviu, desse modo, a dois objetivos: ajudar a conhecer mais sobre o assunto e também sobre a própria escrita desse tipo de texto. Por isso planejamos uma seqüência de três aulas para a elaboração do roteiro:

  1. a 1a atividade deveria ser feita pela formadora Cláudia, e tinha como objetivo elaborar coletivamente um esboço de roteiro com os alunos;
  2. a 2a atividade seria orientada pela formadora com a professora da turma; juntas elas recuperariam o roteiro inicial para complementar com novas questões e também revisar outras;
  3. a 3a atividade seria a revisão final, com os blocos de assuntos e suas questões já revisadas pelas crianças.

Procedimentos para a entrevista
Algumas situações observadas durante as entrevistas puderam ser discutidas, a fim de melhorar o planejamento das próximas:

  • Durante a entrevista, é importante que as crianças interajam com os entrevistados, evitando anotações. Para guardar as informações, nada melhor do que a gravação de uma fita cassete, que pode ser retomada sempre que preciso.
  • Num projeto conjunto, é importante que as crianças participem da divisão de trabalho, mas o professor também pode orientar.
  • O fato de os alunos lerem suas perguntas pode gerar um problema durante a entrevista, dependendo de como a sala está organizada. Favorecer a organização de rodas pode auxiliar a interação entre entrevistado e entrevistadores.
  • É importante que haja tempo para o encantamento e o interesse pelo entrevistado. Nada se faz com pressa. Esse fato é de fundamental importância para a criação de vínculo e empatia entre os alunos e o depoente.
  • As orientações para o planejamento foram fundamentais para o sucesso das entrevistas, que aconteceram em todas as escolas participantes do projeto, como é o caso da entrevista com a dona Sirley, congadeira da cidade de Uberlândia.


O congado de dona Sirle
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A entrevistada Sirley Carmem Ribeiro ou Shirley, nascida em 26/12/56, chegou à sala nervosa. Conceder entrevista às crianças, falar sobre sua vida, seus conhecimentos, sua experiência pessoal é motivo de muito orgulho para os entrevistados, de maneira geral. É algo muito sério, daí a ansiedade.

Só no meio da entrevista é que dona Sirley conseguiu relaxar um pouco mais. Ela é uma pessoa muitíssimo envolvida com o congado, sabe muito sobre o assunto e sua história na cidade. Toda sua família, há várias gerações, participa do congado. Sentimos que para sua vida este aspecto é de fundamental importância, e é um dos traços fortes da identidade de sua família.

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Rafael, Alysson e Leoncio

Ela contou aos alunos sobre sua avó, congadeira que até 80 e poucos anos ia para a cerimônia montada a cavalo. Falou também sobre o pai que foi presidente, assim como ela é hoje. Cantou as músicas de infância que eram tocadas nas cerimônias. Contou sobre as roupas e funções de cada um no congado. Explicou como fazem para arrecadar fundos para a festa anual e todas as viagens durante o ano para outras cidades.

Contou sobre uma das viagens, quando ao chegar à igreja percebeu que não havia nenhuma pessoa negra no lugar, o que contrastava muito com o seu congado, que é composto de mais de 80 integrantes, e entre esses há apenas 3 brancos. Relatou passagens em que sofreu fortes preconceitos raciais, mas, ao compartilhar isso com os alunos, o fez de forma muito sábia e amadurecida. Mostrou muitas fotos de eventos onde aparecem suas filhas, netos e outros familiares. Trouxe para o grupo a bandeira e explicou tudo muito bem.

Durante toda a entrevista, ela fez questão de reforçar que o congado é uma celebração religiosa e que por isso devemos ter muito respeito. Disse que atualmente está parecendo uma festa qualquer, que ostenta muitos recursos, mas que o dela tem um cunho religioso e que a tradição é passada entre os membros da própria família.

Uma aluna muito interessada a questionou sobre o envolvimento do Congado com a religião católica e o fato de ela usar várias vezes a palavra “crente”, pois essa terminologia é a que a aluna conhece como integrante da sua, que não participa de congado. A entrevistada ouviu tudo com muito respeito, e respondeu que crente é quem acredita e por isso todos os religiosos podem ser denominados crentes. A menina ficou muito satisfeita, e a entrevistada também.

Ela contou que sabia tocar muitos instrumentos, e os alunos adoraram isso. Vários perguntaram sobre como deviam fazer para participar de congados. Ela até os convidou a participar da festa deles. Imagine só, ela deu o telefone da casa dela para que eles ligassem caso tivessem dúvidas! O carinho com que apresentou as fotos e falou sobre sua história mobilizou os alunos. Professores que assistiram à entrevista se emocionaram com o relato.

Do texto oral para o escrito
A produção das narrativas, feita de modo coletivo, foi um dos recursos mais importantes para organizar os registros das próprias crianças, das entrevistas, visitas e tantas outras situações que vivenciaram ao longo do projeto. As fitas cassetes que elas gravaram viraram importantes fontes de informação sobre a história da cidade.

Restava a elas a tarefa de transpor esses conhecimentos para o texto escrito, compondo assim os painéis da exposição final. Com as professoras, investigamos as condições necessárias para essa produção, atividade principal para a transformação da entrevista, do texto oral, em texto informativo, escrito.

Com as crianças, planejamos os seguintes passos:

[1] Retomada da entrevista:

  • conversar com os alunos para socializarem as impressões sobre a entrevista;
  • procurar compreender o que o entrevistado relatou sobre o assunto estudado;
  • saber o que é mais significativo para os alunos e para a pesquisa sobre o assunto.

[2] Ouvir a entrevista – fita cassete ou VHS:

  • retomar algo que foi esquecido;
  • retomar algo que ficou confuso para o grupo;
  • retomar para checar informações.

[3] Discutir sobre as impressões da entrevista seguindo o mesmo critério da organização do roteiro de perguntas.

[4] Criação de um roteiro para o planejamento do texto futuro.

Iniciamos cada texto produzindo uma parte juntos. As crianças ouviam a fita, conversavam, decidiam sobre o que escreveriam e ditavam um texto que escrevia para elas. Essa produção permitiu que trabalhassem em grupos, aproveitando os diferentes saberes e competências de cada uma. Para escrever, aprenderam a organizar e expor suas sugestões, discutindo com os colegas, ouvindo as posições divergentes, negociando um texto em comum.

As professoras fizeram, com as crianças, um trabalho primoroso sobre o que ouviram nas entrevistas, e perceberam o quanto elas participaram e decidiram sobre o rumo do texto. Sabiam verdadeiramente sobre o que queriam escrever, o que muito ajudou no desenvolvimento da produção do texto,  como vemos no exemplo produzido após a entrevista com dona Sirley (veja abaixo).

Interações prazerosas
Enquanto isso, em outra escola de Uberlândia, as crianças entrevistavam um antigo morador de um bairro chamado Fundinho. Lá na frente da sala, no lugar mais privilegiado, sentaram o entrevistado, senhor Badeco, e sua esposa, que formavam um verdadeiro casal de novelas: ele falava bastante, mas já apresentava problemas de audição, e ela o ajudava nisso ao mesmo tempo em que lhe dava alguns limites, quando ele se empolgava muito e queria contar os mínimos detalhes.

A entrevista foi bastante animada, porque ele gostou das perguntas, agradecia e dizia para a criança que a formulava o quanto aquela pergunta era inteligente e importante, o que criava uma empatia grande entre os dois. Contou sobre sua infância e as brincadeiras de que gostava, e de cara ganhou a atenção, pois ficou de pé ao explicar uma das brincadeiras.

Um fato que muito as impressionou foi a quantidade de irmãos que teve: 18. Ele contou isso de forma muito natural e viu que as crianças levaram um susto. Foi uma gargalhada geral! A sua vinda para o Fundinho também foi uma aventura. Contou sobre as conversas na beira do portão e que assim começou o namoro com sua esposa.

Os alunos encantaram-se com o fato de haver um time de futebol do bairro e que ele foi o goleiro. Nesse momento, já estavam no chão ouvindo a história, que deve ter sido naquele instante acrescida de muita fantasia por parte dele, pois seus interlocutores pediam algo grandioso, e assim contou sua grande defesa de um pênalti no último momento do jogo e depois o quanto ele foi aclamado como herói!!

Ele contou sobre os carros de boi que circulavam pelas ruas ainda de terra. E também contou sobre as transformações no bairro. Depois de sua profissão e da loja da família, que fica no Fundinho. Falou sobre Deus muitas vezes e deu alguns sermões, mas as crianças não se ligaram nisso, embora conseguissem respeitar, enquanto sua mulher também lhe dava alguns cutucões para ele parar de falar.

Num determinado momento, disse que as mulheres deveriam ter filhos logo, mais ou menos assim aos 15 anos, e novamente uma grande gargalhada. Depois falou sobre a obrigação de a mulher saber cozinhar, e na classe vários meninos relataram que também sabem fazer alguns pratos; então ele foi beijar todos. Contou, por fim, sobre seus 5 filhos homens e o quanto queria ter tido uma filha; e nesse momento saiu beijando uma das menininhas do grupo.

No fim tomou um lanche delicioso com os meninos, preparado pelas mães de alguns alunos. Ele e a esposa trouxeram uma flor para a professora. A escola fez uma foto do grupo e a colocou num porta-retrato com a assinatura de todos os alunos, e uma das mães preparou uma linda cesta cheia de sabonetinhos para o casal. A entrevista foi uma delicadeza, e os alunos só faltaram carregar aquele velhinho no colo novamente, assim como no dia do pênalti.

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Sr. Belchior já visitou cidades de São Paulo com sua companhia e disse que a Folia de Reis paulista tem um ritmo mais sambado (Rafael, Alysson e Leoncio)

A produção de imagens
Assim como outras entrevistas, a do seu Badeco também virou texto e foi para a exposição final. Mas nem só de texto vive uma exposição: as imagens também compõem o conteúdo do que se quer mostrar à comunidade. Para isso é preciso investir nessa produção. Propostas como desenho de observação, desenhos a partir da apreciação de fotos antigas, modelo vivo dos entrevistados, entre outras, ajudam as crianças a ampliar o repertório de imagens.

Além disso, as histórias dos entrevistados também enchem a cabeça de idéias, como vemos no exemplo do seu Badeco. Haja gente para desenhar a enorme lista levantada pelas crianças das imagens que serviriam para ajudar a recontar tudo o que ele lhes ensinara: os homens da cidade que andavam com chapéus; castigos na escola – palmatória e nariz de Pinóquio; os 18 irmãos; as brincadeiras – pipa, pião e pula no amigo; carro de boi com os 8 animais; o pai dele indo a cavalo até Goiás – 300 léguas; a venda do chapéu Ramezoni, que era a principal marca da época; procissão pelas ruas do Fundinho; os amigos que foram para a Guerra; ele sendo carregado pelos torcedores do Fluminense pelas ruas do Fundinho.

Assim, ao fim dos dez meses de trabalho, as crianças tinham produzido textos e desenhos para uma exposição que foi aberta em grande estilo, num shopping da cidade, durante um mês. É exemplo de um trabalho que promove a produção e disseminação de cultura pelas crianças, na escola.

Se você gostou desta proposta, aproveite algumas idéias. Mas, se quiser saber um pouco mais sobre as crianças, os moradores dessa cidade e as histórias que eles têm para contar, pegue o primeiro vôo para Minas Gerais, ou viaje pela rede, acessando o Museu da Pessoa: http://www.museudapessoa.net

(Márcia Cristina da Silva, formadora do Instituto Avisa Lá e do CEDAC)

1 Para saber mais sobre projeto didático consultar a revista Avisa lá no 13

2 Pão de Açúcar faz História.

3 Os formadores do Museu da Pessoa e do Instituto Avisa Lá vão às escolas mensalmente e desenvolvem junto com as professoras e as crianças o projeto de memória local.

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O CONGADO é uma festa em homenagem a São Benedito e Nossa Senhora do Rosário (Jéssika, Maria Luíza e Maria Eduarda)

Alimentando a escrita

Eu já fui no Museu Municipal. Quando eu fui lá, eu vi equipamentos e objetos usados pelos Bandeirantes, objetos indígenas, uma cozinha antiga com um fogão à lenha e uma maquete de Uberlândia. A maquete é de antigamente, lá tem os cemitérios, a 1a cadeia de Uberlândia onde o 1º presidiário foi uma mulher porque ela bebeu muito a noite e perturbou os moradores a dormir, a 1ª farmácia de Uberlândia e as residências ela é muito bem feita. Eu adorei ir lá. No final eu assinei meu nome num caderno e fui embora. Foi muito bom ir lá. M. L. – 10 anos

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Os Caixeiros tocam os instrumentos (Joana D’arc e
Gustavo Arantes)

Texto coletivo: dona Sirley

Sirley contou que o Congado é uma festa religiosa em homenagem a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito que é um santo negro. Para ela o importante no Congado é a fé e não a disputa e a competição. A sua participação no Cangado é “desde que me conheço por gente” segundo suas palavras. Seu pai e um grupo ajudaram a construir uma capela em Salitre de Minas – MG e lá começou a tradição familiar no Congado. A avó de Sirley foi Rainha Perpétua da festa e até bem idosa seu filho a colocava no cavalo e ela saía galopando na cavalaria como uma jovem amazona.

A mais antiga lembrança que Sirley tem sobre o Congado é de quando era criança e via uma grande fogueira que subia e suas faíscas pareciam foguetes e estrela no céu e assim a festa começava. Sirley atualmente é Presidente e Madrinha do “Congado Catupé Azul e Branco de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito” mas já fez praticamente tudo, como: tocou maracanã, foi bandereira, rainha e quebra galho.

Para a festa do “Congado Catupé” acontecer os integrantes saem para rezar, cantar nas residências e as pessoas doam alimentos que serão usados no dia da festa para servir os componentes do grupo e visitantes. As cores do “Congado Catupé” são: azul, branco e prata e seguem este regulamento e não são luxuosos pois a fé é a mais importante componente como ela contou.

Antes da festa que acontece entre outubro e novembro, é preciso reservar as ruas para o desfile. Em Uberlândia o trajeto parte da “Praça Sérgio Pacheco” até a “Praça da Bicota”. A festa dura 2 dias e os participantes do congo desfilam pelas ruas cantando, tocando e dançando.

Sirley gosta de todas as músicas mas principalmente a que seu pai lhe ensinou:

“Aos pés de mamãe do Rosário Com amor no coração (2x)
Eu venho mamãe, Eu venho mamãe Pedir tua proteção (2x)”

A produção desse grupo me surpreendeu, pois era uma sala difícil de se trabalhar: o nível de concentração das crianças era pequeno, a sala era invadida por olhares externos o tempo todo. Das janelas, que ficam no corredor, o barulho era constante. Apesar de tudo isso, elas sabiam muito bem o que queriam escrever e conseguiram ditar tudo da melhor maneira possível. Fizemos várias discussões interessantes, e as decisões tomadas foram aprovadas por quase todos. Ao final, as crianças mal acreditavam no tanto que escreveram juntas.

Ficha Técnica

Professores e coordenadores das escolas de Uberlândia: E.E. Bairro Maravilha; E. E. Zacharias Junqueira; E.E. Angelino Pavan; E. E. Enéas Oliveira Guimarães; E.M. Prof. Luis Rocha e Silva; E. M. Professor Milton de Magalhães Porto; E. M. Otávio Responsabilidade Técnica: Instituto Avisa Lá. Formadora: Márcia Cristina da Silva.

Museu da Pessoa: Rua Delfina, 342 – Vila Madalena. CEP: 05443-010 – SP. Tel.: (11) 3814-4912. Formadora: Alessandra Ancona.

Instituto Algar: Tel.: (34) 3218-3027 . Site: www.institutoalgar.org.br

CTBC: Tel.: 0800 34 2002. Site: www.ctbctelecom.com.br

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A partir dos desenhos e textos escritos, o cenógrafo Renato Theobaldo elaborou grandes painéis contando as histórias dos entrevistados

Para Saber Mais

O projeto de memória local na escola, tanto em Uberaba como em Uberlândia, teve a duração de dez meses e contou com diferentes etapas de trabalho, além das que foram apresentadas neste artigo. Além das entrevistas, da produção de texto e das imagens, as crianças também tiveram a oportunidade de pesquisar na Internet, trocar e-mails com outras pessoas e editar a versão final dos textos. Confira a seguir outras oportunidades que um projeto como esse pode criar.

Projeto Histórias de Nossa Terra

Parceria entre o Instituto Algar, CTBC, Instituto Museu da Pessoa e Instituto Avisa Lá, escolas públicas de Uberaba e Uberlândia

[1] Objetivos de aprendizagens dos alunos

Leitura:

  • Ler para conhecer e discutir sobre o assunto estudado;
  • Desenvolver a escuta atenta para saber comunicar o que compreendeu do texto lido;
  • Ler para ampliar o repertório sobre o tema e sobre como se escreve.

Produção de Texto:

  • Aprender a escrever textos informativos para um destinatário real;
  • Elaborar texto com coerência interpretativa;
  • Desenvolver a capacidade de elaborar textos com mais autonomia e autoria.

Comunicação Oral:

  • Saber elaborar questões para uma entrevista que visem a ampliação do assunto estudado;
  • Saber comunicar oralmente o que compreendeu a partir da entrevista;
  • Desenvolver habilidade no falar e ouvir.

História:

  • Inserir o aluno na história como participante ativo;
  • Valorizar as histórias locais;
  • Situar os alunos no tempo e espaço.


Memória:

  • Resgatar e valorizar as histórias de vida de pessoas comuns;
  • Despertar o significado afetivo e social da relação entre memória e história a partir das experiências relatadas e pesquisadas.

Trabalho com Internet:

  • Saber utilizar a tecnologia para se comunicar;
  • Promover a atualização nos usos dos meios de comunicação;
  • Facilitar o acesso à pesquisa.

[2] Possíveis Etapas

– Levantamento dos conhecimentos prévios das crianças:
Para introduzir o assunto, é bom recorrer a alguns livros sobre memória. Depois, pode-se propor uma rodada de comentários sobre os lugares que as crianças consideram importantes na cidade onde vivem. A produção dos primeiros textos e desenhos sobre esses lugares ajuda a reconhecer como as crianças se expressam na escrita e no desenho no início do projeto. Para aquecer e alimentar as conversas que surgirão ao longo da semana, é importante orientar as crianças para o uso do computador e para pesquisar na Internet sobre o desenvolvimento deste projeto em outras cidades. Esta é uma estratégia para observar o conhecimento prévio dos alunos em relação a essa tecnologia.

– Leituras do Baú e outros livros:
O Baú é uma coletânea de textos, gravuras, fotos e objetos diversificados, criado e permanentemente renovado pelos participantes do projeto. Esse acervo se refere ao resgate das histórias que remetem e valorizam a memória de um povo. A leitura e apreciação, feita pelos alunos e professor, propicia uma familiaridade com os fatos registrados, relacionando-os a sua história.

– Produção de texto-tema e roteiro para entrevista:
Para a produção de texto sobre o tema é preciso saber o conhecimento prévio das crianças, pesquisar com elas na Internet, em livros, nos relatos de vida e possibilitar várias discussões no grupo sobre o assunto estudado. Montar um roteiro para a elaboração do texto é a etapa subseqüente, pois o planejamento do que será escrito é importante para organizar as idéias que se quer desenvolver.

A seguir, as crianças ditam para o professor essas idéias, elaborando um texto coletivo. Em outro momento os alunos podem escrever em pequenos grupos. Para a entrevista, é necessário elaborar o roteiro de perguntas antes, a fim de que os alunos discutam entre si e formulem questões para obter informações que não foram conseguidas pelas pesquisas prévias, mas podem ser respondidas pelo entrevistado. O objetivo dessa etapa é planejar e aprofundar os conhecimentos já conquistados.

– Produção de texto a partir da entrevista:
Para produzir o texto, o primeiro passo é discutir com os alunos suas percepções sobre o que ouviram do entrevistado e também recuperar as anotações que fizeram no dia da entrevista. Depois dessa conversa inicial, o professor pode sugerir que ouçam a fita ou vejam o vídeo da entrevista sempre que houver necessidade de esclarecer dúvidas e checar informações. O passo seguinte é planejar o que pode ser escrito e, finalmente, produzir o texto coletivamente – ditando para o professor e/ou em pequenos grupos.

– Produção de texto de referência – legendas:
A legenda é um importante tipo de texto dentro do projeto, já que garante a identificação dos desenhos, fatos mais representativos do processo de aprendizagem.

– Os procedimentos didáticos utilizados podem ser:
conhecer diferentes tipos de legendas; promover a pesquisa sobre o assunto;
discussão sobre os diferentes tipos de legendas e sua função comunicativa;
montagem de um mural com recortes de revistas, jornais e fotos com legendas para consulta no momento em que os alunos tiverem que escrevê-las;
produção de escrita de legendas para os desenhos sobre o tema, sobre a entrevista e fotos do tema; socialização da escrita de legendas;
revisão dos textos de legendas escritas pelos alunos.

Quando menino, seu Belchior era caixeiro e hoje é capitão de sua companhia, que se chama Nossa Senhora das Graças (Rubens e Bruno)

Quando menino, seu Belchior era caixeiro e hoje é capitão de sua companhia, que se chama Nossa Senhora das Graças (Rubens e Bruno)

– Trabalho com Internet: pesquisa, envio/recebimento de e-mails
A Internet, neste projeto, é usada como um recurso didáticopedagógico que aguça a curiosidade dos participantes, inserindo-os no mundo digital. Esse recurso proporcionou a busca de parcerias com diversas instituições, dando ao aluno a oportunidade de ser o agente de seu aprendizado.

A pesquisa na Internet possibilita ao aluno o acesso a recursos audiovisuais mais dinâmicos, o conhecimento diversificado sobre o tema trabalhado, com rapidez e facilidade de informações atualizadas.

O envio e recebimento de e-mails é uma forma ágil de comunicação, que possibilita a troca de informações e de conhecimentos, proporcionando também uma maior interação entre as pessoas.

– Para ler com as crianças

  • Guilherme Augusto de Araújo Fernandes. Mem Fox. Editora Brinque Book. Tel.: (11) 3742-8142.
  • Nas Ruas do Brás – Coleção Memória e História. Dráuzio Varella. Companhia das Letrinhas. Tel.: (11) 3707-3501.
  • Bisa Bia, Bisa Bel. Ana Maria Machado. Editora Salamandra. Tel.: 0800 17 2002.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #18 de abril de 2004. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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