O politicamente correto nas histórias infantis

Personagens de narrativas que provocam medo e tristeza nas crianças são fundamentais para que elas reconheçam seus sentimentos e possam refletir sobre seus dramas
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Ilustração: Samuel Casal. in O Turbante da Sabedoria e Outras Histórias de Nasrudin, de Ilan Brenman. Edições Sm, 2008

Nas últimas décadas, especialmente a partir dos anos 1980, tem-se prestado cada vez mais atenção ao termo “politicamente correto”. O que ele significa exatamente? Segundo a enciclopédia virtual Wikipédia, faz parte de uma política que consiste em tornar a linguagem neutra em termos de discriminação e evitar que possa ser ofensiva para certas pessoas ou grupos sociais, como a linguagem e o imaginário racistas ou sexistas. Exemplos não faltam. É possível enumerar diversas expressões que foram varridas da mídia, dos livros e de nossas conversas por serem politicamente incorretas, ou seja, por conterem ideias discriminatórias ou pejorativas relação a um grupo. No entanto, será que este comportamento é sempre positivo ou pertinente?

Recentemente, nota-se uma tendência de levar o “politicamente correto” para as histórias e cantigas tradicionais pelo fato de elas apresentarem conteúdos supostamente inadequados ou violentos demais para as crianças. Será que você já ouviu a famosa canção Atirei o pau no gato, entoada de maneira diferente da original, alardeando uma letra mais pacífica? Veja: “Não atire o pau no gato, porque ele é nosso amigo…” Ou então, já escutou versões em que o lobo não come a vovó nem a Chapeuzinho Vermelho em um dos mais famosos contos de fadas?

Ao perceber o crescimento dessa questão, o psicólogo, escritor e contador de histórias Ilan Brenmam resolveu investigar a presença do “politicamente correto” nos enredos infantis. Seu estudo A condenação de Emília: uma reflexão sobre a produção de livros politicamente corretos virou tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo. Por considerar o assunto pertinente aos educadores, a Revista Avisa lá entrevistou Ilan para que ele pudesse falar sobre a verdadeira importância das histórias para todos (as crianças estão evidentemente incluídas) porque espelham a complexidade dos seres humanos, ou seja, falam de medos e de tristezas. A seguir, alguns trechos da conversa.

Revista Avisa lá – Muitas vezes, há resistência por parte dos adultos em apresentar aos pequenos histórias que expressam de maneira clara conflitos típicos do ser humano. Será que eles precisam mesmo conhecer narrativas cujas personagens são más, com madrastas perversas ou bruxas devoradoras de criancinhas?

Ilan Brenman – A personagem mais conflituosa e com mais dificuldades costuma ser a mais interessante e a que mais chama a atenção das crianças. Justamente porque ela expressa dificuldades e problemas humanos, mostrando como somos. Só que faz isso metaforicamente, de maneira segura. Precisamos de histórias de verdade, que expressem o conflito e a complexidade da nossa existência. A violência maior está no silêncio, na falta de palavras, naquilo que vivemos, mas não podemos expressar, no que se torna não-dito. Quando um conto tradicional, por exemplo, é mutilado, extirpando seus conflitos, há um impedimento que o público, seja adulto ou infantil, se reconheça em seus personagens, e que os dramas dialoguem com o que o leitor sente. Toda criança tem seus dramas e vive conflitos. Essa noção de que ela é pura e precisa ser protegida é uma noção idealizada de infância, herança de um pensamento rousseauniano1. É uma visão extremamente romantizada e distante da realidade.

Avisa lá – Quem convive com crianças não nota essa complexidade humana? Não vive na própria pele seus conflitos e dramas?

Ilan – As pessoas nem sempre têm essa noção ou querem enxergar seus conflitos. Há também uma necessidade de controle. O adulto, muitas vezes, quer uma pacificação, um ambiente mais controlado e, portanto, menos trabalhoso, o que o filósofo francês Paul Ricoeur (1913-2005) chamou de “a paz dos cemitérios”. É aí que a literatura do “politicamente correto” e sem conflitos encontra espaço e se distancia da verdadeira literatura, que trabalha com o imponderável. A literatura não propõe respostas; ela pergunta, faz pensar, faz falar, e isso, muitas vezes, assusta porque escapa ao controle. A literatura que traz o conflito é aquela que a criança consegue se identificar e pensar sobre a vida. Esse é o motivo pelo qual o “politicamente correto” não costuma interessar ao público infantil.

Avisa lá – E quanto às passagens violentas? Será que pais e educadores não teriam ressalvas quanto aos contos tradicionais também por esse motivo? Aquela velha máxima de que violência gera violência, que tanto aplicamos à TV e ao videogame, também não valeria para algumas histórias?

Ilan – A TV e o videogame não são causadores de violência. Não é o conteúdo da programação televisiva – ainda que muita coisa ruim e inadequada para as crianças seja veiculada – o que incita a violência. O que mais contribui é a vivência virtual proposta, ou seja, o tempo que se passa em frente aos aparelhos eletrônicos porque tomam tempo de socialização e, consequentemente, a criança não aprende a lidar com o mundo. Ainda há que se considerar que a média brasileira em frente à televisão é altíssima, por volta de cinco horas diárias. Sobre o videogame, os jogos virtuais não são tão diferentes da brincadeira Polícia e Ladrão.

Avisa lá – O que fazer com as histórias que contêm conteúdo racista, ainda que possuam grande qualidade literária, como as de Monteiro Lobato ou mesmo como as cantigas tradicionais, que fazem parte de nosso caldo cultural?

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Foto: Ana Carolina Carvalho

Ilan – Se o professor vai ler Monteiro Lobato à sua turma, precisa fazer em sua integridade, sem pular páginas e sem cortar trechos. Ele também precisa estar preparado para responder, se a criança perguntar e se o conteúdo racista do texto chamar a sua atenção, sobre o que o autor escreveu. O adulto, nesse caso, precisa situar historicamente o autor. Por que Monteiro Lobato, por exemplo, usa certas expressões? Em que época viveu? No entanto, acho muito difícil que uma criança questione porque ela não se atém a esses trechos. Ela não vai ficar racista porque leu Monteiro Lobato ou ouviu uma cantiga tradicional. Na maioria das vezes, o preconceito está na cabeça do adulto. É ele quem pressupõe a reação do interlocutor. Uma boa leitura, na verdade, é capaz de levar ao caminho oposto: ao pensamento, à reflexão, ao fim da intolerância e do preconceito.

Avisa lá – E quanto às fábulas e suas morais?

Ilan – A palavra “fábula” vem da expressão fabular, que é o próprio falar sobre a vida e sobre as pessoas. Trata-se de histórias muito antigas nas quais os homens podiam se identificar, sem muitos riscos, com os personagens animais, mais distantes deles, além de apresentar conflitos e problemáticas bastante humanas. Nem sempre a moral esteve atrelada às suas narrativas. Essa é uma ideia relativamente nova. Começou com La Fontaine (1621–1695)2 e é, portanto, datada e conectada à necessidade de uma literatura ligada à pedagogia. Se considerarmos esse tipo de gênero, perceberemos que elas são muito variadas e ricas. Além disso, praticamente todos os povos tiveram as suas, um modo universal de pensar sobre o mundo.

Avisa lá – Muitas vezes, os livros “politicamente corretos” infantis fazem lembrar a literatura de autoajuda dos adultos. É possível estabelecer essa relação?

Ilan – Sim, ela é clara. A literatura de autoajuda tenta apresentar respostas e soluções para uma vida feliz. Ela se afasta da realidade humana, e da própria literatura, que não oferece respostas, mas expõe conflitos e reflete a vida. O “politicamente correto” das histórias infantis também tenta fazer as crianças felizes. Atualmente, a tristeza é algo que aflige. Existe um tabu em relação a esse sentimento. Há uma ideia corrente de que se estamos tristes é porque falhamos em algo. Isso é um ideal de toda a sociedade. A meu ver, está ligado à necessidade de fazer com que as pessoas consumam, sejam felizes, tenham sucesso, sejam bem-sucedidas. No caso das crianças, se as vemos tristes tendemos a pensar que falhamos na educação.

(Ana Carolina Carvalho, psicóloga, escritora, colaboradora do Instituto Avisa Lá e do Museu da Pessoa, ambos em São Paulo (SP). Escreve também para o blog Penade Aluguel: http://www.blogpenadealuguel.blogspot.com)

1O filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) defendia que a criança era um ser inocente e bom por natureza e que a sociedade é que a corrompia.

2Escritor francês de contos, poemas, máximas e fábulas. Ganhou notoriedade mundial com este último gênero. Além de tornar mais atuais as fábulas de Esopo, também criou suas próprias, dentre elas A cigarra e a formiga e A raposa e as uvas. As narrativas de La Fontaine são permeadas de pensamentos filosóficos com forte moralidade didática e, apesar de tão antigas, mantêm-se vivas até hoje.

Sobre o entrevistado

Ilan Brenmam nasceu em Israel em 1973 e mora em São Paulo desde 1979. É psicólogo, contador de histórias há mais de 15 anos e escritor. Entre seus livros, estão Até as princesas soltam pum, As 14 pérolas da Índia, ambos publicados pela Brin que-Book; O turbante da sabedoria e outras histórias de Nasrudin, editado pela SM Edições, entre outros.

Palavra do leitor

O turbante da sabedoria e outras histórias de Nasrudin, de Ilan Brenmam.
avisala_39_ilan4Eu gostei do livro porque os contos são de muita sabedoria e, claro, do personagem principal, que é Nasrudin, e das histórias da religião do Alá. Nasrudin é sábio e engraçado e as histórias vão desde a sua infância até sua morte. A história que eu mais gostei se chama Madrugando, que é um conto engraçado e muito esperto. Mas se eu contar vai estragar a surpresa. O melhor mesmo é você ler o livro e descobrir porque Nasrudin é tão esperto!
(João Magalhães, 7 anos)

O pó do crescimento e outros contos, de Ilan Brenman, Editora Martins Fontes.
Como você pode entender do título, O pó do crescimento é um livro de contos, a maioria deles, fantásticos. A história que eu mais gostei chama-se “Uma história de muita preguiça”. E eu gostei dessa história porque eu achei muito engraçada. Uma das coisas engraçadas é que o sobrenome das pessoas é nome de comida, por exemplo, Bertina Almôndega Lentilha. A história é sobre uma família muito preguiçosa que inventou até umas calcinhas e cuecas que absorviam o xixi. Tudo isso só para não ir ao banheiro. Mas eu não vou contar tudo, só não fique com preguiça de ler o livro porque é muito legal!
(Teresa Magalhães, 9 anos)avisala_39_ilan5

Ficha técnica

Ilan Brenman, contato: [email protected] e [email protected] – Site: http://www.ilan.com.br

Para saber mais

Livros

  • O pó do crescimento e outros contos, de Ilan Brenman, Editora Martins Fontes. Tel.: (11) 3106-9133.
  • O turbante da sabedoria e outras histórias de Nasrudin, de Ilan Brenmam. SM Edições. Tel.: (11) 3847-8920.
  • Até as princesas soltam pum, de Ilan Brenmam. Brinque-Book. Tel.: (11) 3032-6436.avisala_39_ilan3

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #39 de agosto de 2009. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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