Recife festeja com os cordões Azul e Encarnado – como trabalhar a leitura e a escrita a partir de um folguedo natalino

Quando o grupo de educadores de apoio do Projeto Brotar apresentou a idéia de trabalhar com o Pastoril, nós como formadoras sentimos a necessidade de conhecer mais sobre essa manifestação cultural para estabelecer as possíveis relações com os conteúdos da leitura, foco da formação no momento

Crianças apresentam o Auto Natalino na Creche para a comunidade

Pastoril é um auto de Natal que agrega dois tipos de textos: os das canções utilizadas e as falas das personagens. Essa manifestação nasceu e desenvolveu-se por meio da cultura oral, tendo como objetivo louvar o Menino Jesus. O folguedo enfoca uma disputa entre dois grupos, o Cordão Azul e o Encarnado, que por meio dos personagens vão alternando falas que desencadeiam as cantorias ou as jornadas, como são mais conhecidas.

Pudemos reconhecer no Pastoril não apenas uma dramatização de um ato de adoração, mas a combinação do sagrado e do profano, que caminham juntos em muitas manifestações da cultura brasileira.

Ao longo do tempo, a brincadeira do Pastoril se popularizou, mesclando várias religiões e interpretações, tornando-se propriedade de todos. O auto incorporou diferentes elementos da cultura popular, como as borboletas e as camponesas, ressaltando a mensagem de que “há que se cuidar das crianças”, representada aqui pelo Menino Jesus.

Na hora da apresentação do auto, o mestre entra e chama as contramestras, cada uma de um cordão. Todos os participantes precisam saber suas coreografias e, principalmente, seus textos.

O Pastoril possui um repertório de textos, músicas e falas que podem ser facilmente memorizados, favorecendo a criação de atividades que tornam a leitura significativa. Achamos, então, que os conteúdos do Pastoril se constituiriam num bom objeto de pesquisa para as crianças, sobre a cultura do Recife e serviria como significativo contexto para importantes aprendizagens sobre leitura e escrita, foco principal de nossos investimentos.

Trabalhar com este tema também seria uma oportunidade de modificar a intencionalidade educativa, substituindo o costume de, às vésperas de uma festa, ensaiar as crianças para uma apresentação de forma mecânica, sem a real apropriação por parte das crianças dos conteúdos culturais. Esse tipo de prática é comum em um planejamento organizado segundo as datas comemorativas. A seguir Cida Freire conta como desenvolveu este trabalho.

O que as crianças sabiam sobre o Pastoril
Constatei, logo no início, que apesar de o Pastoril estar presente em nossa cultura, as crianças pouco o conheciam, haja vista as respostas que deram quando perguntei o que era o Pastoril:

– Pastoril é um pastor que anda com uma Bíblia na mão.
– Pastor é quem cuida de ovelhas.
– É o cachorro da polícia – pastor.
– Um bocado de gente dançando.
– Cantar para Nossa Senhora.

A partir daí pude perceber que as crianças tinham uma visão parcial do que era esse folguedo, e seria muito bom se pudessem conhecer mais. Por isso, minha primeira proposta foi convidá-las a assistir a uma fita de vídeo que fala sobre os folguedos natalinos, inclusive o Pastoril. Também combinei com a turma de visitar um grupo de Pastoril e de escutarmos o CD das jornadas, na creche.

Tudo isso porque no final do ano iríamos nos apresentar para o pessoal da creche, para os pais e para os nossos amigos. E, até lá, teríamos de nos preparar.

A reflexão sobre a língua
A leitura é essencial para se aprender a brincar de Pastoril, pois, como todo auto, ele tem um texto próprio. É preciso decorar as músicas para cantar. No texto, existem marcas que sinalizam o momento certo para a entrada dos personagens. Como há uma série de jornadas, as entradas são representadas num possível texto escrito pelos nomes dos personagens. Por exemplo, na entrada da Borboleta, ela entra saltitando entre os outros integrantes depois da Diana. Para saber a hora em que a criança vai entrar é preciso descobrir onde está escrito o nome do seu personagem, o que vem antes, o que vem depois etc. Dessa forma, as crianças precisam colocar em jogo tudo o que sabem para retirar essas informações do texto.

A dificuldade de levantar materiais para pesquisa
Levei trechos do auto do Pastoril para a sala e li algumas das jornadas para a turma. Apesar de o pastoril ser um elemento de nossa cultura, esbarrei numa dificuldade, que foi conversar e colher material para ampliação do nosso trabalho com as pessoas que são conhecedoras e divulgadoras dessa cultura em nosso Estado. Parece, segundo minha impressão, que elas não se interessam em dividir o que está em sua família há gerações.

Em alguns momentos me pareceu que elas tinham medo de que alguém tomasse posse deste conhecimento e o deturpasse. Entendo que pode ser por conta das constantes perdas que essas famílias tradicionais vêem acontecer com suas tradições. Entretanto, existem pessoas com outras posturas – a partir de um contato com uma musicista que tinha um trabalho de pesquisa sobre o pastoril, inclusive com a produção de um CD, consegui continuar meu trabalho, que, por conta disso, tinha sido paralisado por um mês. Dinara Helena Pessoa demonstrou que também era uma apaixonada pelo Pastoril. Foi de grande valia suas contribuições.

O aprendizado da escrita
Listei tudo o que iríamos precisar para formar o nosso pastoril, conforme as crianças iam ditando.A lista ficou enorme, pois pensaram em todos os detalhes: as flores que estavam na cesta da camponesa, sapato, roupas vermelhas, maquiagem, diademas, batom, entre outros.

Afixei-a na parede e fiz, ao longo daquela quinzena, algumas propostas para que o grupo refletisse sobre o que estava escrito: onde e por quê. Perguntava, por exemplo, onde estava escrito maquiagem e as crianças apontavam. Eu provocava a discussão perguntando se por acaso não podia estar escrito sapato. Elas respondiam que não porque sabiam que sapato começa com o pedaço de um nome de criança do grupo, mostrando que sabiam usar as letras iniciais como índices da leitura

Também lemos várias vezes o texto do Pastoril. A cada leitura eu percebia que as crianças iam antecipando cada vez mais o que estava escrito.Acho que a responsabilidade de ter que apresentar para os outros e ao mesmo tempo o desejo de ler fazia com que o grupo continuasse tentando. Outro fato importante foi eles terem em mãos o texto – a condição de ser um leitor.

A proposta de trabalho em duplas ajudou muito, pois se um ainda não conseguia ler sozinho, o outro ajudava-o. Isso é uma forma de trabalhar que o professor deve sempre considerar.

Avaliação final
Inicialmente fiz uma sondagem com as crianças e constatei que suas hipóteses a respeito da escrita estavam vinculadas às hipóteses silábicas e silábicas-alfabéticas. Hipóteses bastante avançadas. No final do projeto pude perceber que grande parte do grupo estava alfabetizado.

Além disso, a leitura ganhou um sentido: antes de ler um texto para as crianças eu sempre fazia questão de dizer porque estávamos fazendo aquilo e no que ele iria nos ajudar na apresentação do Pastoril.

No dia da apresentação, tudo deu certo. O encantamento das mães e das famílias foi o mesmo que o meu. Como este é um projeto em que atuo como professora de apoio, só vou à creche uma vez a cada quinze dias, a participação da Marta, que é a professora do grupo, foi muito importante: ela deu continuidade ao projeto. O apoio da coordenadora Flávia também foi muito importante, pois ela validava o que eu discutia e acertava com a Marta. Na avaliação de ambas, o projeto foi muito importante. Elas contaram que antes faziam apresentações de Pastoril, só que colocavam o disco e as crianças simplesmente dançavam. Ensaiavam mas não aproveitavam a possibilidade de trabalhar com as crianças a leitura e a escrita. Que bom que foi assim!

(Denise Nalini, formadora do Instituto Avisa-lá)
(Vera Accioli e Cida Freire, formadoras do Centro de Cultura Luis Freire)

O Projeto

“E viva o Cordão Azul e o Encarnado”

Eixo predominante: Leitura e escrita
Tempo previsto: 4 meses Faixa etária: 6 anos
Objetivo didático: Que durante as etapas do projeto as crianças possam ler e produzir textos.
Objetivo compartilhado com as crianças: Montar um musical de título “Pastoril”.

O que o professor quer que as crianças aprendam:

  1.  Conhecer o folguedo natalino.
  2. Identificar os personagens do pastoril e seus papéis dentro do musical.
  3. Ler os textos do musical para cantar durante a apresentação.
  4. Escrever os textos do musical que já conhecem.
  5. Interpretar o pastoril, divertindo-se e divulgando essa tradição popular.
  6. Pesquisar em diversos meios sobre os folguedos natalinos.
  7. Ilustrar a pasta do repertório demonstrando o que foi possível aprender com o projeto.

Seqüência provável de etapas:

  1.   Assistir a uma fita de vídeo sobre o Pastoril.
  2. Formar um grupo de pastoril e elaborar a pasta com os textos das canções.
  3. Visitar um grupo de Pastoril.
  4. Ler as músicas que fazem parte do repertório.
  5. Escrever as músicas que vão compor o repertório do musical.
  6. Ensaiar a coreografia dos personagens.
  7. Convidar as famílias para prestigiar a grande apresentação.
  8. Confeccionar os votos para os dois cordões.
  9. Apresentar o pastoril para todos da creche, pais e amigos.

Ficha técnica:

Projeto Brotar – iniciativa do Instituto C&A. Desenvolvimento: Instituto Avisa lá, Centro de Cultura Luiz Freire e Creche Mei Mei – Tel. (81) 3493-0312. Equipe: Maria Aparecida Freire, Marta de Souza Belo, Flávia Muniz, Marcia Abreu, Denise Naline,Vera Accioli (Tuca) e Geisa Andrade.

Bibliografia

  • Cancioneiro Pernambucano. MEC. Funarte. Gov. PE.1978
  • Brincantes Nordestinos I: Ciclo Natalino

Discografia

  • Pastoril. Dinara Pessoa
  • Pastoril Tradicional

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #9 de janeiro de 2002. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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