Lia, a cirandeira de Itamaracá

“No grande círculo que forma a ciranda, brancos, negros, pobres, ricos, jovens e idosos, todos são iguais.” É o que diz Lia, a cirandeira-merendeira que cuida das crianças fazendo merenda, brincando, cantando e cirandando numa escola de Pernambuco. Saiba mais sobre sua arte nesta entrevista


A Ciranda – uma grande roda em que todos cantam – é originária de Portugal. No Nordeste, em especial no norte de Pernambuco, essa manifestação cultural cresceu e se popularizou. Na Ilha de Itamaracá, encontramos Lia, uma cirandeira que também é educadora. Elza Corsi, nutricionista e formadora do Instituto Avisa-lá, passou uma manhã conversando com Lia.Veja o que ela lhe contou.

Lia, como você foi parar na cozinha?

Comecei a trabalhar num restaurante, onde cozinhava. Era na beira da praia. As pessoas vinham e perguntavam: quais são os dias que vai ter ciranda? No sábado estavam lá novamente para dançar. Era gente de São Paulo, do Rio, de todos os cantos. Depois passei a ser merendeira na escola estadual. Vão fazer vinte anos, acho que já fez. Gosto muito de trabalhar, cozinhar para aquelas crianças todas, são 170 meninos para eu dar comida. Na cozinha é onde estou cozinhando, cantando, brincando, dançando com panelas, com colheres, mexendo a comida, é muito bonito, eu gosto demais.

Como é sua rotina de trabalho na cozinha?

Tem a hora da cozinha e tem a hora da ciranda. Mesmo assim, eu tô brincando na cozinha. Trabalho cantando. Quando eu entro na escola, os meninos já vêm cantando: “essa ciranda quem me deu foi Lia … ”. Daí eles passam pela cozinha, onde eu fico, e me perguntam o que é que tem hoje? Aí eu tenho que ter qualquer comida pronta para responder a eles. Eles têm que fazer a primeira merenda antes de ir para a sala de aula. Tem um leite, uma vitamina. Muitas crianças vão para a escola sem comida porque os pais não têm tempo, é aquela correria. Chegam correndo, o horário é apertado, com fome e não agüentam esperar até a hora da comida.

O que você mais cozinha para as crianças?

Tem cardápio.Os meninos são chegados à canja de galinha, arroz, macarrão. O governo manda muitas frutas. E aí vai a mão da pessoa; pois acontece de os meninos não gostarem porque a comida não foi bem feita.

Você tem alguma comida que te faz lembrar a infância?

Crustáceo. Fui criada com crustáceos. Minha mãe ia para a maré pegar siri, caranguejo, ostra e marisco. Ela não tinha condição de criar. O leite que eu tive foi o materno. Para alimentar mesmo eram os crustáceos. Nessa brincadeira, ela criou cinco filhos! E tome farinha.

Cante uma ciranda que fale de comida…

É difícil… tem essa:

“Uma sardinha na brasa,
uma canoa no rio,
uma sardinha na brasa,
um cobertor para o frio,
um amor dentro de casa,
felicidade sonhada é, é só isso
e quase nada.
O arredor um vale em flor
é tudo amor,
um arredor numa noite enluarada
felicidade sonhada é, é só isso
e quase nada.”

É uma receita para um amor delicado, numa rede com uma sardinha na brasa.

Como você organiza seu tempo para cozinhar e ensinar a ciranda às crianças?

Na escola eu também canto com eles, brinco, ensino a dançar, inclusive até deixei um CD na escola para a diretora sempre estar com ele ali, fácil, na hora do recreio. Em vez de eles ficarem correndo, tomando pé daqui, tomando pé do outro, bota o CD, vão cantar e dançar. Quando eu sair e me afastar da escola, eles têm alguma coisa para fazer.

Ensino a cantar e a dançar, na hora do recreio, depois da merenda, é nessa hora que a gente ciranda. Ensino dançando. Eu danço e canto. Eu falo: “vamos botar o CD”. Mas os meninos dizem: “Não queremos CD, não, queremos Lia ao vivo.”

Aí eles pegam uma lata de leite e fazem a batucada, e lá saio eu no meio deles, já viu? Eu canto:

“Ô moça namoradeira, lá na porteira onde
os pássaros cantavam (bis)
Ela chorava, se lamentava, por ter perdido
um amor que tanto amava (bis)”

Depois botam o CD e lá vou eu de novo dançar com eles. Eles aprenderam e agora não querem outra coisa no recreio: terminou a alimentação, bota alegria! Aí na saída tira aquela arenga, faço de tudo para eles esquecerem aquela arenga.

Conte uma lembrança que você guardou da sua infância…

A melhor lembrança que eu tenho da escola era de ser boa aluna. Lá, eu já cantava, era o meu sonho, né? Gostava muito de ver os cantores cantando, de ouvir pelo rádio, e pensava que coisa bonita, como é bonito cantar. Eu queria chegar a um ponto bem grande, que tivesse muita gente que gostasse de me ouvir cantar, que me aplaudisse. Menina, parece que o sonho se realizou. A bomba estourou e Lia vai embora!

Peixada da Lia:

Ingredientes:
1 peixe grande
limão
cenouras
2 ovos
tomate
cebola
salsa
pimenta
coentro
sal
azeite


Modo de fazer:
Trate o peixe direitinho: lave-o bem, passe limão, sal e deixe-o tomar gosto. Pique um pouco de cebola, tomate e cenoura e coloque na panela com todos os temperos: pimenta, cebolinha, coentro, sal e azeite. Feche a panela e afogue. Quando estiver afogadinho, coloque água e acompanhe o cozimento do peixe. Quando a cenoura estiver mole, coloque o peixe e deixe acabar de cozinhar. Ponha mais água, que é para fazer o pirão também. Quando estiver pronto, cozinhe os ovos, descasque, coloque-os dentro do peixe e vamos servir!

Quem é Lia de Itamaracá

Há quem pense que a Lia exista só na letra da música. Mas ela existe sim. Mora na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, onde nasceu e de onde herdou o nome artístico. Maria Madalena Correia do Nascimento, ou simplesmente Lia, começou a cantar ciranda aos 18 anos e não parou mais. Em parceria com Teca Calazans, compôs a canção que a tornou conhecida em todo o Brasil:

“Eu estava na beira da praia ouvindo as pancadas da onda do mar
Essa ciranda quem me deu foi Lia que mora na Ilha de Itamaracá.”

A cirandeira faz sucesso em vários Estados brasileiros. No final de 2000, Lia realizou turnê pelo Brasil afora, apresentando-se em diversos eventos, incluindo uma apresentação especial, a convite da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, no projeto Paz nas Escolas, em parceria com o UNICEF. Na Europa Lia fez seis apresentações em Paris e duas em Berlim. Quem quiser conhecer seu trabalho pode comprar o CD: Eu sou Lia de Itamaracá.

Para entrar em contato com Lia ou agendar apresentações, escreva um e-mail para Beto Hees: [email protected]


Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #9 de janeiro de 2002. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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