Arte e histórias das máscaras

Presentes na história da humanidade desde épocas muito remotas, as máscaras encantam adultos e crianças. Conheça algumas possibilidades de trabalho com crianças de 2 a 4 anos
Cavalhada – São Luís do Paraitinga

Cavalhada – São Luís do Paraitinga (Rômulo Fialdini)

Na antiguidade, os povos árabes usavam a palavra maskhara para dizer que alguém era um farsante, isto é, uma pessoa que finge ser de um jeito que não é. Sentido próximo ao que usamos hoje para falar de um objeto que é um falso rosto: uma máscara. As máscaras aparecem na história da humanidade desde as épocas mais remotas. Há registros de pinturas rupestres em que há cenas representando caçadores mascarados com cabeças de animais. É presumível que o homem primitivo usasse a máscara e a dança num ritual mágico para influir no êxito da caça. A máscara seria o elemento catalisador de forças misteriosas.

Na cultura africana, esse artefato representa a possibilidade de participar da multiplicidade da vida do universo, criando novas realidades fora daquela meramente humana – é o poder transfigurador da máscara que une o homem à energia extra-humana, ao mundo sagrado. Nos rituais africanos a máscara é compreendida como parte do conjunto de indumentária, isto é, o traje de fibras vegetais ou de tecido que cobrem o dançarino, os acessórios que ele traz nas mãos e o que adorna seu braço.

O uso da máscara está intimamente ligado à dança e ao ritmo. Há uma categoria de máscaras destinadas a divertir os habitantes das aldeias, durante as festas, e há também as de dimensões reduzidas, usadas como pingentes peitorais ou presas nas roupas. São amuletos ou retratos de antepassados que servem para proteger os indivíduos que as possuem. Aqui no Brasil, entre grupos indígenas, as máscaras são usadas pelos sacerdotes-curandeiros que evocam o universo dos espíritos, dançando ao ritmo dos tambores e dos cantos de acordo com o ritual sagrado, como, por exemplo, na Festa da Moça Nova, dos índios Tukunas. Em algumas comunidades agrárias, o uso das máscaras ainda é bastante presente durante as festas de Cavalhada, Folia de Reis, Carnaval, Bumba meu Boi. Há alguns personagens que sempre aparecem mascarados, como o Cazumbá, no Bumba meu Boi do Maranhão.

Na Bahia havia um dia do Carnaval reservado aos mascarados, porém, como surgiam muitas confusões em que não se identificavam os autores, baixou-se um decreto proibindo seu uso. Em algumas cidades brasileiras ainda se preserva a tradição do baile de máscara durante o Carnaval. Mas a tradição das máscaras de Carnaval vem de outro lugar do mundo: os primeiros Carnavais aconteceram há muito tempo na Itália. Naquela época os moradores faziam festas para o deus Baco e o deus Saturno. Nessas festas, a maioria das pessoas se embriagava e tudo virava uma bagunça. Com o tempo, o Carnaval de Veneza foi se modificando e no lugar das bebedeiras ficou o divertimento de sair pelas ruas de fantasia e máscara. Atualmente, os personagens surgem de todos os cantos da cidade e passeiam por suas praças e ruas com naturalidade. Os mascarados e fantasiados se encontram e inventam danças e cenas teatrais.

Carnaval de São Luís do Paraitinga, São Paulo

Carnaval de São Luís
do Paraitinga, São Paulo

As máscaras são também bastante usadas no teatro. No gênero teatral comédia-de-arte há uma tradição na confecção e no uso das máscaras. Mas sua origem é anterior: há muito tempo, na Grécia, havia um festival de teatro que durava seis dias. Os atores usavam máscaras, perucas, sapatos de salto alto e roupas acolchoadas que faziam com que eles parecessem uns gigantes. Já no Japão, as máscaras aparecem em dois tipos de teatro, o Nô e o Kabuki, interpretados apenas por homens usando máscaras para representar todos os papéis, inclusive os de mulheres. As máscaras podem ser utilizadas para diversos fins, mas a essência é que, ao colocá-las, nos transformamos em outro ser. A máscara despe uma personalidade e reveste-a de outra. Por ser a máscara um elemento de tanta importância nas diversas culturas, é comum vermos nas escolas propostas de confecção de máscaras. Portanto, sugerimos uma pequena seqüência de atividades. Confira abaixo, no fim do artigo.

(Helô Pacheco, artista plástica, professora na Escola Vera Cruz e formadora do Instituto Avisa Lá)

Quem tem medo de bruxa?

As professoras Glaucileide e Marilene, do grupo de 3 anos e meio, também aproveitaram essa idéia e confeccionaram lindas máscaras dos personagens da história Bruxa, Bruxa venha à minha festa. As professoras tinham o objetivo de trazer para a brincadeira os personagens da história e assim criar um ambiente lúdico e prazeroso para recontar a história em grupo e para outras crianças da creche. Em roda, elas entregaram as máscaras para as crianças, convidando-as a recontar a história por meio delas, podendo ter como apoio as imagens do livro. Ao terminar, as crianças passaram a recontar, desta vez usando apenas as máscaras.

O sucesso da brincadeira se expressa nas máscaras, na gestualidade e na alegria das crianças ao compartilhar algo de que tanto gostam. As crianças já estão superenvolvidas com as histórias, contam as professoras. Principalmente a da Bruxa, Bruxa venha à minha festa. Elas sentam correndo quando as convidamos para ouvir as histórias, ficam atentas e pedem para segurar os livros quando terminamos.

BRINCAR COM as poesias e se divertir com as máscaras,  um convite irrecusável para os pequenos (Arquivo da Associação Despertar)

Brincar com as poesias e se divertir com as máscaras, um convite irrecusável para os pequenos (Arquivo da Associação Despertar)

 

Direto da prática

Maria Aparecida, Onorita e Lourdes são educadoras do grupo de crianças de 2 a 3 anos da Creche Despertar. Elas tiveram a idéia de apresentar poesias aos pequenos. Durante alguns encontros com a equipe da creche, elas discutiram formas de fazê-lo apropriadamente, atraindo o interesse e o desejo das crianças. Foi preciso pensar muito nas crianças, nas características marcantes da faixa etária, procurando o que seria pertinente para esse grupo. O que poderia atrair as crianças para ouvirem essas poesias? Poesias que falam sobre os animais podem ser interessantes para elas, posto que esse tema chama a atenção dos pequenos.

Definido o repertório – as poesias de Arca de Noé, de Vinícius de Moraes –, as professoras passaram a discutir possíveis estratégias para representar a poesia, como fantoches, imagens bonitas e envolventes. E foi dessa conversa inicial que surgiu a proposta de trabalhar com máscaras cuja confecção poderia contar com a participação das próprias crianças. No início, as professoras apresentaram máscaras prontas da foca, do pato e do pingüim, que são alguns dos personagens das poesias de Vinícius. As crianças não recusaram o convite para brincar com elas. Ao som do CD da Arca de Noé, que traz as poesias musicadas, as crianças cantavam, brincavam, pulavam. Num outro dia, depois da leitura da poesia, as professoras apresentaram novas máscaras, dessa vez do pato e do pingüim.

Convidaram as crianças para pintá-las. Elas dividiram as crianças em
grupo e organizaram o espaço do lactário para a atividade, com todo o material necessário para a pintura. No dia seguinte, quando as máscaras estavam secas, todo mundo pode brincar não só com o brinquedo novo, mas também com as palavras da poesia “A foca”.

Muitas outras máscaras foram produzidas e as crianças tiveram a oportunidade de experimentar vários materiais para pintar: rolinho, brocha, pincel, esponja etc. Depois de tanto explorar os planos bidimensionais, as professoras propuseram às crianças a produção de máscaras tridimensionais. A primeira técnica utilizada foi o empapelamento de bexiga. Recortaram tiras de jornal e as embeberam com cola diluída em água. As crianças as usaram para cobrir toda a bexiga, não deixando um só espaço vazio. Depois de seca, num outro dia, pintaram toda a superfície da máscara com guache branco. E finalmente decoraram com olhos, bocas etc.

A ajuda da professora, dando suporte às realizações que não seriam possíveis para as crianças pequenas, foi fundamental para a incrível produção das máscaras da Creche Despertar, que podem ser apreciadas nestas páginas. Exemplo de um trabalho que articula linguagem plástica, expressiva, além da linguagem oral.

Professora ajuda um grupo de crianças a empapelar a máscara de bruxa (Associação Despertar)

Professora ajuda um grupo de crianças a empapelar a máscara de bruxa (Associação Despertar)

 

Dicas do professor

Para as crianças com mais de seis anos é possível fazer máscara com papel machê

Objetivos:

  • Conhecer diferentes tipos de máscaras e seus usos;
  • Ampliar o repertório de imagens de máscaras;
  • Criar a própria máscara, sem fazer cópia das máscaras existentes no comércio;
  • Aprender a fazer máscara de papel machê.

Atividades:

  • Apreciação de máscaras de diferentes culturas;
  • Conversa sobre o uso dessas máscaras;
  • Encher uma bexiga e marcar com canetinha hidrocor onde serão os olhos;
  • Picar jornal em tiras de aproximadamente 4 cm x 7 cm;
  • preparar cola diluída com um pouco de água em uma bacia pequena;
  • mergulhar as tiras de jornal na cola diluída e grudar na bexiga;
  • Fazer umas cinco camadas de jornal, deixar secar a máscara;
  • Pintar com guache branco, deixar secar;
  • Pintar com guache colorido, deixar secar;
  • Passar uma mão de cola, deixar secar;
  • Fazer os furos para passar o elástico;
  • Apreciação das máscaras criadas pelos alunos;
  • Brincadeiras em que as crianças se fantasiam com panos e máscaras;
  • Baile de máscaras.

Confecção de máscara com gaze engessada, para crianças com mais de 9 anos

Objetivos:

  • Conhecer diferentes tipos de máscaras e seus usos;
  • Ampliar o repertório de imagens de máscaras;
  • Criar a própria máscara, sem fazer cópia das máscaras existentes no comércio;
  • Aprender a fazer máscara de gesso.

Atividades:

  • Apreciação de máscaras de diferentes culturas;
  • Conversa sobre o uso dessas máscaras;
  • Prender o cabelo das crianças;
  • Passar vaselina líquida no rosto, passar bastante na sobrancelha e nas penugens dos bigodes e perto do cabelo e costeleta;
  • Cortar a gaze engessada em tiras; molhar a gaze em um prato com água e colocar no rosto da criança, fazer várias camadas;
  • Deixar secar no rosto, ela vai se soltando quando seca;
  • Pintar as máscaras com guache;
  • Exposição e apreciação das máscaras criadas pelos alunos;
  • Baile de máscaras.

Importante:

  • Deixar o olho, a sobrancelha, a boca e os buracos do nariz sem tampar com gaze;
  • Caso a criança não esteja gostando de ser o modelo para a máscara, interrompa imediatamente.
Comunidade Nahua, México

Comunidade Nahua, México

Ficha técnica

Programa Capacitar Educadores – Iniciativa: Instituto C&A
Responsabilidade Técnica: Instituto Avisa Lá
Realização: Creche Despertar. Rua Francisco José da Costa , 70 – Parque Dorotéia.
CEP: 04474-290 – São Paulo – SP –. Tel.: (11) 5560-0536. E-mail: [email protected]
Equipe: Diretora: Cristina Santaella
Coordenadora Pedagógica: Cleide Valadas
Educadoras: Glaucileide Cristina da Silva, Marilene Gonçalves Cardoso, Onorita Pereira, Maria Aparecida de Lima, Maria de Lourdes Duarte

Máscara de dança, madeira e cor – Congo

Máscara de dança, madeira e cor – Congo (Milão, coleção particular – Os Estilos na Arte – Máscaras Africanas)

 

Para saber mais

  • Máscaras. Dominique Mães. Editora Brinque Book. Tel.: (11) 3742-8142.
  • As máscaras africanas. Franco Monti. Editora Martins Fontes. Tel.: (11) 3241-3677.
  • 300 propostas de artes visuais. Ana Tatit e Maria Silvia M. Machado. Editora Loyola. Tel.: (11) 6914-1922.

 

Cavalhada. São Luís do Paraitinga (Rosa Gauditano/ fotograma – Máscaras Brasileiras)

Cavalhada. São Luís do Paraitinga (Rosa Gauditano/ fotograma – Máscaras Brasileiras)

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #19 de julho de 2004. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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