Mural de marcas

Elaborar com os pequenos um espaço com fotos e outros elementos relacionados a eles contribui para a construção da identidade
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Fotos: arquivo da Escola Criarte – SP/SP

O início da vida escolar marca um período de transição para qualquer criança, pois ela passa a conviver num segundo ambiente socializador. O primeiro é a sua casa. Esse processo de introdução à escola é gradual. As primeiras experiências são usualmente chamadas de adaptação, um tempo que varia de acordo com cada uma e que estabelece os primeiros vínculos dentro da instituição. Todo processo educativo envolve, de alguma maneira, aspectos emocionais. Na Educação Infantil, eles são intensos, pois desempenham papel fundamental no desenvolvimento infantil. A emoção age no nível da segurança, e essa estrutura possibilita prazer e bem-estar. A escola propicia a relação com o conhecimento e isso só acontece de maneira eficiente quando há confiança e estímulo.

Nós, professores, sabemos disso porque já fomos estudantes e constantemente fazemos escolhas sobre nossos estudos e nos guiamos pela satisfação de conhecer profundamente aquilo que nos envolve emocionalmente. Na adaptação, é a primeira vez que os pequenos experimentam sentimentos no ambiente escolar. O conhecimento, nesse momento, é a novidade: lugar inédito, novas pessoas e relações. Socializar-se nessa instituição marca, em grande parte, uma nova maneira de se relacionar com outras pessoas, além de seus familiares. Eles passam de uma relação díade (criança – família) para uma tríade (criança – família – escola). Por isso, é importante que esse momento seja estruturado para garantir os sistemas interpessoais. As diversas relações que se estabelecem com os outros que os cercam dizem a eles quem são, ou seja, constantemente, ao se relacionar com outros, eles se conhecem e constroem a própria identidade.

Novatos na escola
Na chegada dos pequenos à Escola Criarte, em São Paulo (SP), pensamos em iniciativas que integrem as famílias ao novo cotidiano. Conversar com os pais sobre seus filhos, garantir a presença deles, no mínimo, nas duas primeiras semanas e trocar informações com esses adultos constantemente sobre as atividades vivenciadas na instituição são ações que estruturam relações e criam vínculos tão necessários para estabelecer sentimentos. Para quem é novo na turma, vincular-se ao ambiente, aos educadores e aos demais cria uma nova compreensão sobre si, ampliando a identidade. Dessa maneira, cada um passa a elaborar não apenas a personalidade, como também a imagem coletiva.

A cada início de ano, ao receber os pequenos do grupo 2, com idade entre 1 ano e meio e 2 anos e meio, nos deparamos com crianças lidando com a situação dúbia de se situar no espaço, se identificar nele e se compreender como pertencente a uma turma. Para fazer com que cada um se perceba e note os demais, desenvolvemos um trabalho que chamamos Projeto Adaptação. Em 2008 (de fevereiro a março), ele foi estruturado numa sequência de ações intitulada mural de marcas.
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Todos na adaptação
Apoiados no momento da chegada, trabalhamos com a identidade de cada um e com a do grupo. A se quência foi baseada na elaboração de um mural interativo. Com uma placa de imã e imagens significa tivas para os pequenos, construímos peças imantadas para serem manuseadas diariamente. Começamos o painel com as fotos individuais e com as de cada família, o que possibilitou o primeiro reconhecimento de cada um e o sentimento da presença dos parentes mais próximos e queridos no contexto escolar.

Aos poucos, acrescentamos as imagens das histórias e dos brinquedos preferidos da turma, além das de elementos comuns como o uniforme, o algodão, o lenço umedecido e a fralda, já que grande parte ainda não havia desfraldado àquela época. Toda vez que apresentávamos uma peça para o mural, conversávamos sobre ela, mostrando a quem pertencia. Dessa maneira, as crianças iam percebendo as particularidades dos colegas e se reconheciam também em suas singularidades. Ao mesmo tempo, o movimento estimulou a linguagem oral. Não apenas surgiram falas a respeito das próprias fotos como também se estenderam às dos colegas, favorecendo o reconhecimento de cada um como pertencente a um todo.

Rapidamente, todos compreenderam a mobilidade que o mural propunha, criando gostosas brincadeiras de agrupar, colar e descolar as imagens. Algumas vezes, surgiram conflitos, pois todos queriam manipular as peças, o que possibilitou trabalhar o empréstimo e a verbalização dos desejos e des contentamentos. Contudo, brincar com elas foi sempre um gostoso divertimento que começava nas rodas de conversa e se estendia ao longo do dia. Todas as imagens ficavam expostas permitindo que cada um recorresse a elas, as agrupasse dos mais variados jeitos, sentindose seguro no ambiente escolar, já que poderia reconhecer partes de si num processo lúdico.

Ele se tornou um grande apoio. A interatividade acontecia não apenas por proporcionar o manuseio dos elementos, mas por eles se tornarem pretextos de conversas e de relações entre os pequenos, e deles conosco, os educadores. Frequentemente, eles reconheciam não apenas suas peças, mas também as dos colegas. Eles se convidavam a compartilhar a manipulação, apoiando suas falas em motivos concretos; observavam presenças e ausências, as características de cada imagem e brincavam de reorganizá-las continuamente num processo de revisitar concretamente um pouco de cada um.

O projeto foi desenvolvido ao longo dos dois primeiros meses do ano letivo, mas o painel permaneceu na sala garantindo as marcas de cada um e, assim, estabelecendo vínculos e emoções num constante processo de identificação com a escola, com as crianças e com o mundo.

(Juliana Guerreiro Lichy, Professora do grupo 2 – crianças de 1 ano e meio a 2 anos e meio -, da Escola Criarte, em São Paulo – SP)

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Projeto Mural de marcas

Objetivos:

  • Auxílio concreto para o período de adaptação à escola.
  • Suporte para a criação de vínculos no grupo, entre as crianças, professor e auxiliares.
  • Estímulo para as primeiras conversas.

Duração:

  • 2 meses.

Áreas de conhecimento:

  • Linguagem oral e identidade.

Objetivo compartilhado:

  • Montar com os pequenos um painel para agrupar diferentes imagens e elementos preferidos por eles.
  • Confeccionar o suporte com placas de imã para que haja a possibilidade de interatividade dos elementos que o compõe.

Justificativa:
O projeto justifica-se pela necessidade e importância que há em assegurar para a criança que chega a um novo espaço um ambiente confortável, prazeroso e seguro, onde ela se identifique como um sujeito único e, ao mesmo tempo, como parte de um todo.

Desenvolvimento:
Compor e contrapor elementos pessoais e comuns ao grupo. Para isso, serão necessárias fotos individuais dos pequenos, de cada família, dos brinquedos preferidos, da escola, da capa do livro mais querido, imagens das comidas prediletas, letra da música mais cantada, elementos como fralda, lenço, algodão e peças do uniforme escolar.

Registro:

  • Fotos tiradas ao longo do projeto, o próprio painel e relatório do educador.

Ficha técnica

Escola Criarte
Endereço: Rua Professor Vahia de Abreu, 696 – Vila Olímpia – São Paulo – SP. CEP: 04549-003 – Tel.: (11) 3842-7277
E-mail: [email protected]
Site: www.criarte.com.br

Para saber mais

Livros

  • Qualidade em educação infantil, de Miguel A. Zabalza. Ed. Artmed. Tel.: 0800-703-3444.
  • A ecologia do desenvolvimento humano: experimentos naturais e planejados, de Urie Bronfenbrenner. Ed. Artmed. Tel.: 0800-703-3444

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #37 de fevereiro de 2009. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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