Formar formadores: uma tarefa complexa e coletiva

Para além de cursos, palestras e eventos pontuais, a formação continuada em uma rede pública, para se efetivar, depende de bons formadores locais

Maria Virginia Gastaldi1 desenvolve, desde 2005, consultoria técnica para as equipes de profissionais da Secretaria Municipal de Educação responsáveis pela Educação Infantil da cidade de Curitiba (PR). O longo processo formativo ensejou mudanças significativas nas práticas educativas com as crianças e também construção coletiva de conhecimentos sobre formação de formadores. Este foi o tema de sua dissertação de mestrado2.

Revista avisa lá: Em seu trabalho sobre formação continuada, você fala que o grande desafio do formador é aprender a aprender, aprender a ensinar e ensinar simultaneamente. O que significam essas ações simultâneas?
Maria Virginia Gastaldi: Quando falo que um dos desafios do formador é aprender a aprender, aprender a ensinar e ensinar simultaneamente, refiro-me ao que penso ser uma condição do agir profissional do formador. São ações simultâneas que marcam o período inicial de seu trabalho como formador, e permanecem ao longo de sua trajetória de trabalho. Em uma sociedade em mudança, a aprendizagem ao longo da vida é uma condição que se coloca hoje para todos os profissionais. Na educação, além das mudanças naturais de qualquer processo de aprendizagem, novas e numerosas demandas são feitas à escola e aos professores, o que acentua o valor da aprendizagem permanente e, consequentemente, de aprender a aprender.

Quais seriam as condições necessárias a um bom formador de formadores?
O formador precisa ser alguém com disponibilidade para aprender, para acolher os seus não saberes, os desafios que chegam, os apontamentos que parceiros lhe fazem, as inquietações, os resultados das propostas. O principal meio para dar conta de tudo isso é a reflexão. Ela potencializa as condições prévias e amplia a possibilidade de aprendizado. Quando se coloca na posição de pensar, refletir com os pares, o formador percebe que aprende muito e também produz mudanças. Essa é a função principal de um formador: produzir mudança. Quando ele se vê como alguém que sabe fazer, que sabe realizar ações que resultam em mudanças nas aprendizagens das crianças e dos professores, isso trás uma satisfação, uma alegria com o trabalho, reabastecendo-nos para novos desafios.

Há alguma especificidade no papel do formador em Educação Infantil?
A Educação Infantil, como parte da Educação Básica, é tão nova para nós, que estamos todos aprendendo sobre a especificidade desse ciclo da escolaridade. Ocorre, então, com muitos formadores, ter de trabalhar na formação com formas de organização de tempo, espaço, materiais e conteúdos que não conhece. Ele aprende nos programas de formação de formadores não só os conteúdos referentes à formação, mas também aqueles referentes à organização curricular da Educação Infantil, que são novos para ele. É por isso que digo que são ações simultâneas, porque o formador aprende e ensina praticamente ao mesmo tempo. E não é possível fazer muito diferente disso, dada a urgência das mudanças nos contextos da Educação Infantil. É preciso que as políticas e os programas de formação valorizem e considerem cada vez mais a complexidade da tarefa do formador e disponibilizem condições de tempo e recursos para que seu trabalho seja menos solitário e mais compatível com as condições do contexto em que trabalha. E nós, formadores de formadores, precisamos organizar contextos formativos de parceria e apoio cada vez
maior ao trabalho do formador.

Você disse que a principal função do formador de professores é produzir mudanças e que isso é um desafio. Pode dar algum exemplo disso observado na sua pesquisa?Continue lendo >

Pesquisa didática é apoio para a sala de aula

Em entrevista exclusiva, a especialista argentina Mirta Castedo fala sobre os desafios da pesquisa e do ensino da leitura e escrita. A entrevista foi concedida a Silvia Carvalho, Cisele Ortiz e Immaculada Lopez1, na sede do Instituto Avisa Lá, onde prestou consultoria no último mês de abril

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Mirta Castedo, durante sua visita a São Paulo


Mirta Castedo é absolutamente comprometida com o ensino eficiente da leitura e da escrita nas escolas públicas. Nascida em La Plata, na Argentina, começou seu caminho, na área de Educação, impulsionada pelas palavras de Paulo Freire. Deparou-se, depois, com as idéias de Emilia Ferreiro, que anos mais tarde veio a ser sua orientadora no doutorado. Como professora, encontrou na sala de aula uma afinidade grande com as crianças pequenas, o que fez com que seguisse ligada para sempre a esse nível de ensino.

Lançou-se ao trabalho de pesquisa na escola e se especializou em didática da leitura e escrita. Co-autora do documento Pré-Desenhos Curriculares para Educação Geral Básica da Cidade de Buenos Aires e de diversos artigos, coordenou vários projetos de capacitação de docentes, sempre apoiados em uma visão construtivista. Hoje, Mirta é professora titular da cátedra de Didática do Nível Primário e Observação da Universidade Nacional de La Plata, na Argentina, e membro da Rede Latino-Americana de Alfabetização/Argentina.

Com essa bagagem, Mirta fala, a seguir, sobre os desafios do trabalho do professor e como a pesquisa pode ajudar na busca de alternativas para formar crianças que leiam e escrevam plenamente.Continue lendo >

Capacitação continuada de professores é responsabilidade de toda a comunidade

Não basta preocupar-se apenas com a questão didática na qualificação de professores. É preciso conseguir apoio da sociedade civil, poder público e entidades privadas para garantir a permanência da ação nas redes públicas. Uma professora baiana transformou a idéia em projeto e conseguiu essa façanha

O Projeto Chapada, na Bahia, teve origem no Programa de Apoio e Auxílio ao Professor: Agentes de Educação (1997-1999), que contou com a parceria do Programa Crer para Ver – uma aliança da Natura Cosméticos com a Fundação Abrinq. O objetivo do Agentes de Educação era formar professores da zona rural do município de Palmeiras (BA). Seus bons resultados, a redução em 80% no índice de evasão escolar e de 70% no índice de repetência, levaram à ampliação da proposta para todos os municípios da 27ª Diretoria de Educação Regional (DIREC 27) do Estado da Bahia. Nos anos de 1999 e 2000, já com o nome de Projeto Chapada, essa ação envolveu gestores públicos das secretarias municipais de Educação e Cultura (Semecs) de 12 municípios baianos e a sociedade civil organizada (Ongs) dos locais onde foi implementado, tais como: Associação de Pais, Educadores e Agricultores de Caeté-açú (Palmeiras), Associação Rádio Comunitária Avante Lençóis, Associação Comunitária dos Produtores de Queixada (Iraquara), Grupo Ambientalista de Seabra, Associação dos Moradores e Produtores do Lagoão (Boninal), Grupo de Educação Alternativa de Piatã, Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural de Souto Soares, Casa do Menor de Jacobina, Associação Comunitária do Brejo Luiza de Brito (Novo Horizonte), Conselho Municipal de Assistência Social de Ibitiara, Associação Barbado de Mucugê e Associação Família Agrícola de Boa Vista do Tupim.Continue lendo >

As vantagens de trabalhar a memória oral na escola

“Não há realidade histórica que não seja humana. Não há história sem homens, como não há história para os homens, mas uma história de homens que, feita por eles, também os faz”1

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O resgate da história oral se constitui em uma possibilidade real de construir a história. Desenvolvido como projeto de trabalho na escola, é um meio interessante de produzir conhecimentos, propiciar um processo de aproximação entre escola e comunidade, além de contribuir para a construção, pelos alunos, da própria identidade e para a percepção de si mesmos como seres históricos cuja experiência e saberes têm valor.

Nesta entrevista, a educadora Zilda Kessel2, integrante do projeto Memória Local3, discorre sobre a importância do resgate da memória local pela escola e aponta caminhos para a implantação de projetos desse tipo.

Avisa lá: Qual é o sentido de um projeto de memória na escola?
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Viver a arte, uma experiência transformadora

Rosa Iavelberg1 é arte-educadora e professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e também coordena o setor educativo do Centro Universitário Maria Antônia. Sua longa e importante trajetória na arte-educação faz dela uma referência nacional. Nesta entrevista ela retoma o sentido da arte na educação infantil e as novas demandas para a formação do professor

avisa lá: Que experiências em artes visuais são fundamentais na educação infantil?

Rosa: Em Educação Infantil, o mais importante, o básico, é a criança ter espaço para viver a arte na escola. Ter oportunidade de fazer, criar, explorar materiais, poder se expressar. Ter garantido um momento, dentro das atividades que a escola programa, em que pode escolher, a partir de uma gama de ofertas, o que vai trabalhar e o que quer fazer. Pode parecer muito simples, mas é complexo e é a base de tudo.

No plano da criação e do trabalho do artista adulto há uma intenção, um método que organiza a sua ação e que resulta na criação de um produto. No caso da criança, a escola é que vai organizar o espaço dessa ação e auxiliar para que ela ocorra da maneira mais informada para a criança, próxima às práticas sociais.

O que a escola e o professor devem prover para que a criança expresse seu poder criativo?
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A Música da Criança

Importa, prioritariamente, a criança, o sujeito da experiência, e não a música em si. A educação musical não deve visar à formação de possíveis músicos do amanhã, mas sim à formação integral das crianças de hoje

Ilustração extraída do livro Música na Educação Infantil – Teca Alencar de Brito

Isso é o que diz Teca Alencar de Brito, professora de música, consultora da área e pianista de formação. Curiosa ouvinte das crianças e investigadora de práticas do ensino de música, Teca efende o direito fundamental da criança apreciar, pensar e produzir sua própria música. Ela critica a falta de reconhecimento e valorização da produção musical infantil.

Nas artes plásticas, por exemplo, a produção das crianças é muito mais respeitada. As pessoas, de um modo geral, tendem a reconhecer o valor de uma garatuja. Um papel com manchas de cores tem um valor estético.

Considera-se interessante como a criança misturou cores e as texturas resultantes. O que ela fez é valorizado, há também uma preocupação com a existência ou não de intenção em suas produções. Mas esse reconhecimento não acontece com a música produzida pela criança.
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