De braços abertos

Acolher bem as crianças e suas famílias desde o primeiro momento exige atenção e preparo de toda a equipe da escola, e pode trazer resultados surpreendentes
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Organizar pequenos grupos para conhecer as novidades produziu um efeito positivo no uso dos ambientes (Fotos: arquivo EMEI J. G. de Araújo Jorge)

Quando recebemos a tarefa de pensar no acolhimento de nossas crianças para 2007, nos sentimos muito atraídas pelo desafio. Isto porque, olhando, lendo, sentindo o material que nos foi fornecido sobre o tema pelo Programa Capacitar na Educação Infantil1 tivemos a sensação de que “finalmente”, havíamos encontrado a porta para entrar no novo ano “com o pé direito”.

Assim, não tivemos dúvida e começamos a planejar como iríamos preparar os professores, os funcionários, a escola para receber os alunos. Primeiramente, sabíamos que seria necessário partilhar os nossos pontos de vista. Assim, optamos por reproduzir todo o material recebido e dividi-lo com os funcionários. Além disso, procuramos imagens que falassem sobre acolhimento – encontramos um filme enviado para as escolas pelo MEC, chamado O Espaço na Pré-Escola2, que além de tratar sobre acolhimento fala sobre espaços que recebem bem e que desafiam. O filme era “tudo de bom”, caía como uma luva para despertar uma discussão sobre a organização dos espaços da unidade escolar, que há muito queríamos fazer com os funcionários e professores.

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As reuniões de pais agora contam com registro das falas, o que estabeleceu um vínculo maior entre pais e educadores

Preparação do acolhimento
Dessa forma, definimos nosso material e partimos para a organização dos encontros de preparação. Seria em dezembro, na semana de avaliação. Todos os professores estariam na escola (sem os seus alunos, que já estariam em férias). Organizamos as pautas, avisamos os professores e funcionários e pedimos para que não faltassem nos dias reservados aos encontros. Iniciamos então o primeiro encontro, com a leitura do texto ”A Educação dos Sentidos”, extraído do livro de mesmo nome, de Rubem Alves3. O texto trata de alguns aspectos do nosso fazer pedagógico, relacionando-os ao prazer, ao brincar e ao descobrir.

Nosso objetivo era despertar no grupo o desejo de compartilhar aqueles momentos com prazer e atenção, e deu certo! Após a leitura, fizemos alguns comentários e em seguida passamos para o primeiro item do primeiro dia. Aproveitamos a sugestão de uma dinâmica feita pela formadora Damaris4, chamada “Comida da Alma”5, e adaptamos para “Recepção da Alma”. Pedimos aos participantes que relatassem momentos de sua vida nos quais haviam experimentado uma recepção calorosa, amorosa ou ainda momentos nos quais não haviam se sentido bem recebidos.

O grupo embarcou na dinâmica e foram aparecendo muitas formas de receber (as muito boas e as não tão boas), que nos deram material de sobra para legitimar nossos pontos de vista em relação às necessidades de mudança em nossa prática de acolhimento das crianças e suas famílias. Assim, quando apresentamos os textos, as discussões foram interessantes, esclarecedoras e positivas. Tanto que encerramos os encontros com o compromisso de:

  • Recebermos os pais em dezembro para apresentarmos o espaço escolar, os funcionários e o que entendíamos por “acolhimento das crianças e suas famílias”.
  • Organizarmos um folder contendo informações básicas sobre a escola e sobre o acolhimento, para entregarmos aos pais nessa reunião de dezembro.
  • Organizarmos um espaço diferenciado para os alunos do primeiro estágio e outro para recebermos os pais que necessitassem ou desejassem permanecer na escola durante o período de acolhimento.
  • Organizarmos horários e tempos de permanência de três grupos com cinco crianças por dia, a fim de propiciar a interação e a intimidade entre a professora e seu aluno e entre ele, seus colegas, o espaço escolar e todos os outros funcionários da escola.
  • Organizarmos a cozinha e os funcionários para atenderem de forma especial os horários diferenciados.
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O contato com materiais variados favorece, ao educador, a descoberta do que os alunos sabem ou pensam

Expectativas das famílias
Na seqüência dos dias de trabalho com a equipe, recebemos as famílias. Essa reunião inaugurou nossa relação com elas de forma totalmente nova, o que ficou registrado nas falas dos pais, mães e professores. Além disso, durante as mesmas os familiares registraram suas expectativas sobre nosso trabalho, o que colaborou para que pudéssemos preparar o ano de 2007 de forma diferente.

Segue abaixo uma síntese da expectativa das mães e dos pais em relação à nossa unidade escolar. As mães e os pais esperam que as crianças aprendam:

  • A respeitar.
  • A ter educação.
  • A ter responsabilidade, sabendo que a escola é lugar de aprender.
  • Que a escola foi feita para aprender e não somente para desenhar.
  • A ler e a escrever.
  • A escrever o próprio nome.
  • O alfabeto, tendo alguma noção de como vai ser o aprendizado na escola.
  • A enfrentar o convívio com pessoas diferentes.
  • A lidar com as diferenças, que ajudam no seu desenvolvimento.
  • A dividir as coisas.
  • A respeitar horários de alimentação, brincadeira, entre outras coisas.
  • A brincar e desenhar.

Que as crianças recebam por parte dos adultos da escola:

  • Paciência
  • Carinho
  • Amor
  • Respeito
  • Compreensão
  • Cuidado
  • Dedicação
  • Sabedoria

Que as crianças recebam os seguintes cuidados:

  • Boa alimentação
  • Cuidados com a higiene
  • Um ambiente agradável, limpo e confortável.
  • Que as crianças tenham oportunidade de:
  • Fazer boas amizades.
  • Ter um bom relacionamento com a professora.
  • Conviver melhor com os outros.
  • Sentir bem-estar na companhia dos demais.
  • Brincar com as outras crianças.
  • Divertir-se.
  • Sentir-se feliz.

Que as crianças possam realizar as seguintes atividades:

  • Atividades culturais.
  • Fazer e assistir teatro.
  • Cantar e dançar muito.
  • Fazer passeios.
  • Brincar com brinquedos.
  • Ler muito.
  • Estudar.
  • Ter atividades educativas.
  • Trabalhar em grupo.

Que as crianças possam sair da escola:

  • Mais inteligentes.
  • Preparadas para uma boa vida.
  • Alfabetizadas, vendo o mundo ao seu redor com suas dificuldades, conseqüências, feliz, bonito, feio, tentando distinguir o certo do errado.
  • Reconhecer seus direitos no futuro.
  • Com uma educação sadia para poder se integrar na sociedade com respeito.
  • Tendo a escola como ponto de referência positivo para a longa jornada de aprendizado que terão na vida.

Que as famílias:

  • Sejam informadas de tudo que se passa com seus filhos.
  • Possam conhecer bem a professora no decorrer do ano.
  • Tenham oportunidades para criar vínculo com a professora e a escola.
  • Recebam – elas mesmas e seus filhos – atenção.
  • Haja um ótimo entrosamento entre pais, mães, e professores.

Que a escola tenha:

  • Organização.
  • Disciplina.
  • Educação, seriedade no que faz.
  • Segurança para as crianças.
  • Professores mais presentes.
  • Entrada pontual.
  • Período de adaptação de 3 meses.
  • Refeição (“que já é nota 10”).
  • Transporte de ida e volta para todas as crianças.

Que a professora:

  • Preocupe-se com o ensino de cada criança.
  • Procure a qualidade de cada criança.
  • Apoie a criança tímida, contribuindo para a sua confiança.
  • Estimule a curiosidade de seus alunos.
  • Ensine a conversar.
  • Observe melhor as crianças que batem em seus colegas, evitando traumas.
  • Ensine as crianças o respeito ao próximo.
  • Receba muito bem seu aluno para que ele tenha vontade e disposição para voltar no próximo dia.
  • Permita que seus alunos partilhem idéias e brinquedos.
  • Faça com que seus alunos tenham um ano de descobertas e aprendizagem.
  • Aceite o aluno como ele é.
  • Tire o medo da criança de brincar no escorregador.
  • Promova desenvolvimento intelectual e didático condizente com a idade da criança.
  • Permita que seus alunos desenvolvam autonomia, criatividade, coordenação motora, disciplina, cumprimento de regras, cuidado com os materiais.
  • Use mais o caderno e menos os desenhos.
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Canto dos brinquedos, agora com menos mesas e cadeiras, e com prateleiras e materais ao alcance das crianças

Passos seguintes
Após o encontro em dezembro, continuamos trabalhando. Aproveitamos os dois meses seguintes para sistematizar as expectativas dos pais, definir os horários dos alunos para o período de acolhimento, as pautas das reuniões de organização para os três primeiros dias de fevereiro, bem como organizar uma proposta de pauta de reunião de mães e pais, agora já para falar em proposta de trabalho, devolutiva em relação às expectativas e retomada do período de acolhimento (destacando a importância e a responsabilidade de cada um de nós nesta parceria).

As salas de aula foram limpas, pintadas, tiveram suas mesas remanejadas, segundo sugestão dos professores, e a Sala do 1º Estágio recebeu estantes para os brinquedos. Os bebedouros e banheiros receberam torneiras novas, cestos de lixo novos, saboneteiras com sabonete líquido e toalheiros com papel toalha. A fachada dos dois prédios foi pintada. Também adquirimos novos brinquedos para todas as salas e caixas para organizá-los. Arrumamos o espaço para receber os pais que desejavam ou necessitavam permanecer na escola – um espaço simples, no galpão, dividido com armários, onde colocamos cadeiras, televisão, que exibia filmes infantis escolhidos por nós, e revistas variadas que falavam sobre crianças, pais, escola, etc.

Por último, elaboramos um roteiro de entrevista com os pais (para aplicação após o Carnaval, quando já conhecêssemos um pouco da criança e os pais já estivessem mais à vontade conosco, a fim de caracterizar melhor nossos alunos e famílias). Os professores, por sua vez, prepararam as salas de aula e seus planejamentos, receberam os pais na segunda reunião, apresentaram seu trabalho, comparando-o com as expectativas dos pais e acolheram as famílias e as crianças.

Os funcionários apoiaram todo o trabalho, oferecendo o melhor de si. Limparam a escola, organizaram mesas, cadeiras, armários e materiais, lavaram e colocaram as cortinas e fizeram a limpeza das salas e demais dependências. Também acompanharam os professores nas refeições, nos momentos de higiene, na escovação e outras atividades, além de orientarem as mães e os pais tanto no portão como no galpão ou sala de aula. Enfim, toda a escola se mobilizou para que este momento de fato acontecesse e desse os frutos desejados.

Durante o desenvolvimento do trabalho, diariamente os professores utilizavam a última hora-aula sem aluno para avaliar o que acontecera no dia (em grupo ou individualmente, com ou sem a presença da coordenadora), o que permitiu que corrigissem pequenos problemas imediatamente, com o auxílio dos colegas.

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Valeu a pena
Ao final do mês de fevereiro, as professoras do 1º e do 2º turno fizeram uma avaliação de todo o processo. Ficou claro que a experiência de preparação do acolhimento foi positiva e inovadora para todos, pois nos permitiu um contato mais íntimo tanto com os pais como com as crianças. Com menos alunos, pudemos conhecer seus nomes rapidamente, aconchegá-los, ouvir suas vozes, suas perguntas e observações, olhá-los nos olhos. Pudemos falar mais baixo, explicar com calma como se localizar na escola. Apresentamos os espaços calmamente, partilhamos a rotina de higiene e lanche com tranqüilidade.

Desse período podemos destacar ainda a conquista de momentos de maior atenção e interação e de parceria real entre a escola e os pais. Apesar da avaliação bastante positiva, observamos que alguns pontos merecem ser reajustados. Consideramos que o tempo de permanênciada criança foi curto. Percebemos também que o atendimento de três grupos por dia não permitiu o desenvolvimento de atividades mais interessantes, pois a rotina de refeições e higiene tomou quase todo o tempo. Diante disso, já pensando em 2008, sugerimos que no ano que vem trabalhemos com dois grupos de crianças por dia, com a permanência de uma hora e meia para cada grupo e grupos com sete crianças, em vez de cinco.

(Sílvia Rapp Leite e Maria Cristina P. Gouvêa, Respectivamente, coordenadora pedagógica e diretora da EMEI J. G. de Araújo Jorge, na cidade de São Paulo-SP)

1Capacitar na Educação Infantil, programa de formação continuada de equipes que atuam em creches diretas e conveniadas e em EMEIs da zona leste de São Paulo – SP, em parceria com as Coordenadorias de Educação de Itaquera, São Miguel e São Mateus.
2Vídeo da Série PCNs na Escola – Convívio Escolar – Disponível no Endereço Eletrônico http://www.bibvirt.futuro.usp.br videos/tv_escola/escola_educacao
3“A educação dos sentidos”, Rubem Alves, in Educação dos sentidos e mais. Ed. Verus.
4Damaris Gomes Maranhão é doutora em Enfermagem pela Universidade Federal de São Paulo – Unifesp – e consultora em Saúde Coletiva do Instituto Avisa Lá.
5“Comida da alma – Uma tradição de cuidados por meio da alimentação”, Elza Corsi, in Revista Avisa lá. no 08 – out/2001.
6Vídeo da Série PCN na Escola – Convívio Escolar. Disponível no Endereço Eletrônico http://www.bibvirt.futuro.usp.br /videos/tv_escola/escola_educacao
7Adaptação de crianças nas creches e pré-escolas, Kátia de Souza Amorim, Telma Vitória, Maria Clotilde Therezinha Rossetti- Ferreira. Centro Brasileiro de Investigação sobre o desenvolvimento em Educação Infantil. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas de Ribeirão Preto-SP. USP. Texto disponível no endereço eletrônico http://www.scielo.br/pdf/cp/n109/n109a06.pdf
8Vídeo da Série PCN na Escola – Convívio escolar. Disponível no endereço eletrônico http://www.bibvirt.futuro.usp.br /videos/tv_escola/escola_educacao

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Encontro com famílias – roteiro de preparação

  • O que falaremos às mães e aos pais?
  • Leitura do folder de apresentação da unidade educacional. O que é o “período de adaptação”.
  • Preocupações comuns dos pais e mães.
  • Diferenças entre atendimento individual (casa) e coletivo (escola).
  • O que esperamos dos pais: presença, responsabilidade, honestidade, participação – na vida dos filhos, na APM e no Conselho de Escola, no Período de Adaptação (talvez até três horas na escola) e nas reuniões de Pais (uma por mês) – confiança!
  • Como vamos lidar com os objetos de apego da criança.
  • Como vamos lidar com a presença dos pais nos primeiros dias.
  • Registrar número dos uniformes e tênis.
  • Anotar nome dos alunos que precisam mudar de horário e motivos.
  • Data do início das aulas – primeira reunião para apresentação dos professores e horários de adaptação.
  • Como vou me apresentar às mães e aos pais.
  • Como faremos para levantar suas expectativas sobre a escola.
  • Como apresentaremos o espaço escolar (prédio) a eles.
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Sabonete líquido e papel toalha: mudança de procedimentos que contribuem para a melhoria dos cuidados com a higiene e saúde das crianças

Ficha técnica

Projeto Capacitar na Educação Infantil
Parceria Grupo Gerdau e Instituto C&A
Responsabilidade técnica: Instituto Avisa Lá
Formadora: Simone Alcântara
Desenvolvido na Coordenadoria de São Miguel EMEI J. G. de Araújo Jorge
Rua Valdomiro Gonzaga Silva, 1209 – Jd. Das Oliveiras – São Paulo – SP. Cep: 08111-540 – E-mail: [email protected] – Tel.: (11) 6963-3403 / 6963-8626
Diretora: Maria Cristina Pires Gouvêa
Coordenadora pedagógica: Silvia Rapp Leite

Para saber mais

  • “A educação dos sentidos”, Rubem Alves, in Educação dos sentidos e mais…, Ed. Verus.Tel.: (19) 4009-6868.
  • “Comida da alma – Uma tradição de cuidados por meio da alimentação”, Elza Corsi, in Revista Avisa lá. no 08 – out/2001. – Tel.: (11) 3032-5411.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #32 de outubro de 2007. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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