Observar para conhecer e documentar

O poder do olhar informado por uma concepção de criança potente e capaz muda a forma de registrar e documentar as ações educativas

As creches municipais de Teixeira de Freitas (BA)1 reconhecem a importância da brincadeira na infância e contemplam em sua rotina atividades permanentes que envolvem essa linguagem: cantinhos de atividades diversificadas, atividades com água e misturas variadas, circuitos para incentivar diferentes tipos de movimentos e brincadeiras de faz de conta, o tão imprescindível jogo simbólico.

Nesse sentido, o desafio para a formação dos gestores em 2011 não era mais a implantação do brincar na rotina das creches, mas identificar pontos que precisavam de investimento e aprimoramento. Analisado o resultado do diagnóstico acerca do brincar, nós, formadoras locais do Programa Formar em Rede, constatamos que ainda existiam fragilidades quanto à qualidade da interação entre educadores e crianças, uma vez que o processo educativo ainda era muito centrado no adulto.

Além disso, havia dificuldade, por parte das professoras, em atuar no papel de observadoras a fim de analisar as relações construídas nos momentos de brincadeira para descobrir as necessidades e desejos implícitos e, assim, ter subsídios para enriquecer o desenrolar da atividade. Mesmo sendo um conteúdo já trabalhado, a necessidade de revisitá-lo trouxe novas possibilidades de reflexão, e os encontros de formação foram ancorando o grupo de gestores2 e de professores a fim de melhorar a qualidade das interações entre professores e crianças por meio de uma observação mais cuidadosa e refinada.

No processo de formação, passamos a investir na análise de bons modelos não só com a finalidade de contribuir para a compreensão do brincar e das possibilidades de interação entre adultos e crianças, mas também passamos a dedicar um tempo para explorar as imagens captadas nos vídeos, fotos utilizadas nas formações e o que elas revelavam sobre a concepção de quem as realizava de modo a aprimorar a ação de observação dos educadores.

A formação
Logo no segundo encontro, registramos no relatório que as gestoras estavam encantadas com as imagens do vídeo do Espaço Tagna.3

Durante a exibição elas comentaram:
– Eu amava brincar disso!
– O lugar parece pobre, pobre (em termos estruturais), mas olha quanta coisa tem para brincar!
– Exploram o que existe no próprio espaço!
– É bom que as professoras vejam esse vídeo porque vão poder dizer: assim eu também posso fazer!

As imagens nos fizeram refletir sobre como as crianças do Espaço Tagna são atendidas em seus interesses e desejos.

A discussão sobre a riqueza das interações estabelecidas pelas crianças nas situações de brincadeira despertou no grupo o interesse em observá-las e registrar momentos em que isso se destacava. Nos encontros de formação, as gestoras traziam fotos e registros interessantes, para refletirmos sobre o que conseguiram captar e o que estava em jogo em determinada cena.

Ficamos contentes quando soubemos que na Creche Castelinho as professoras resolveram cobrir parte do pátio, que não era explorado pelas crianças, com lona. Márcia, a diretora-coordenadora pedagógica nos contou que elas estão disponibilizando vários brinquedos não estruturados e objetos de largo alcance às crianças.

Segundo ela, uma professora colocou uma bacia com folhas próximo à casinha para ver se as crianças usariam, e ficou muito feliz quando observou que elas estavam fazendo comidinha com as folhas. Esse trecho do relatório do quarto encontro de formação revela o quanto a observação passou a fazer parte de forma intencional das ações dos gestores e professores, revelando um olhar atento não só para as relações, mas para o ambiente e o que era oferecido.

Textos utilizados para reflexão nos encontros de formação também serviram de referência para o que os educadores podiam observar e de como registrar para deixar cada vez mais explícitos os avanços em relação ao brincar e às interações4. E os resultados dessas reflexões foram aparecendo nos registros das professoras:

No início da manhã, encontrei minha turma no quarto de descanso, pulando em alguns dos 17 colchões que haviam caído da enorme pilha. Percebendo a intenção de minha colega em restabelecer a ordem, tranquilizei-a pedindo que deixasse as crianças continuarem a brincadeira, adiando a atividade que eu havia planejado para aquele momento. Fiquei ali por algum tempo observando e admirando.

Observações como essa, relatadas em textos lidos em formação, contribuíram para que os participantes fossem transformando o olhar e o entendimento acerca do papel do registro escrito e fotográfico como meio de documentar expressões, olhares, ações.

Inicialmente, como é comum nas escolas, era solicitado que as crianças parassem de brincar e posassem para as fotos. No processo de formação essa ação reconfigurou-se, como também o entendimento dos educadores e muito de sua concepção. Passaram a valorizar diferentes aspectos, como se vê em alguns recortes de relatórios elaborados por alguns participantes do Programa:

Trecho 1

As tendas passaram a ser usadas para incrementar os cantos da fofura compostos de bichos de pelúcia e o cantinho da leitura. Ambos passaram a ser organizados embaixo da tenda feita de lençol ou TNT. Percebe-se um interesse maior por esses cantos com essa nova estrutura. “As crianças esvaziaram um pouco o salão de beleza”, afirmou a professora Viviane. “Usávamos as tendas só para contar ou ler histórias. Elas puderam explorar com maior liberdade o espaço com a atividade de cantinhos. Observei que as crianças do Infantil I, de tanto serem convidadas a formar a roda, por si só foram sentando em círculo até perceberem que podiam se sentar onde escolhessem”, afirmou a professora Jeane. “Eles agora pegam o material dos outros cantos e se refugiam na tenda, ali deitam, sentam, brincam, conversam consigo mesmo e com os outros”, ressaltou a professora Nívea, reafirmando a fala da professora Jeane.
Rosinélia Marques, gestora da Creche São Lourenço
Teixeira de Freitas (BA)

 

Antes... e depois (fotos: Creche São Lourenço)

Antes… e depois (fotos: Creche São Lourenço)

Trecho 2

A prática de registrar o desenvolvimento da criança é comum na Educação Infantil; no entanto, o brincar, que é a linguagem por excelência da infância, não era visto por nós como atividade para observação e registro. No pátio, onde maior parte das brincadeiras acontece, nos comportávamos como meros espectadores, fazendo intervenção somente nas situações de conflito.

A foto como registro, e mesmo o registro escrito desse momento, não era planejada. Fotografávamos de forma aleatória. A criança era interrompida com nosso pedido de atenção, congelávamos a cena, solicitávamos a pose, muitas vezes pedíamos um sorriso e, enfim, o clique. Percebe-se uma mudança de concepção por parte da maioria da equipe. Hoje já ouvimos as professoras tecerem comentários sobre os conhecimentos produzidos pela criança ao brincar. Ao fotografar, muitos consideram as ações implícitas na cena, a interação das crianças com seus pares e com o meio, o  contexto e as vivências que o momento consegue revelar. As crianças não param de brincar para serem fotografadas, e as cenas são selecionadas para destacar um ou outro aspecto que o professor julga necessário considerar naquele momento.
Rosinélia Marques, gestora da Creche São Lourenço,
Teixeira de Freitas (BA)

O relato dessa diretora evidencia uma importante transformação no olhar e na intencionalidade do registro fotográfico. Algumas transformações importantes aconteceram, pois educadores passaram a ter uma preocupação com o que fotografar em cada momento, deixando de lado situações posadas ou evitando interromper a brincadeira.

Considerando que “todo retrato é, em certo sentido, um autorretrato que reflete o espectador, suas percepções e experiências”5, podemos concluir que há neste processo uma transformação do olhar das professoras que fotografam. Passam a revelar, a partir dos registros fotográficos, um olhar para uma criança mais ativa, ocupada em viver experiências diversificadas e plenas de sentido. A criança vai deixando de aparecer de forma estática, como quem quer mostrar um produto finalizado.

Apesar da fantasia de princesa, do castelo montado no centro da sala, do carro estacionado na garagem depois de fazer uma longa viagem pelo pátio, sabemos que as brincadeiras não têm um produto final mas, ao longo do tempo, constitui-se em um processo de planejamento, de negociações, de troca de papéis e uma série de atos e fatos desencadeados por experiências significativas.

Trecho 3

As situações de brincadeiras desenvolvidas pelas crianças sempre foram observadas e registradas tanto pelas professoras quanto por mim, diretora, mas não havia uma intenção clara. Era comum pedirmos às crianças que parassem o que estavam fazendo e posassem para as fotos. Nossa preocupação, nessa hora, era com o ambiente, com as roupas das crianças, com o cabelo penteado, se estavam arrumadas ou não e se tinham um sorriso no rosto.

Ao longo da formação comecei a me dar conta de que era importante registrar as diferentes formas de interagir e de se expressar presentes nas brincadeiras. Muitas vezes um simples olhar diz mais que um sorriso. Hoje, quando vou registrar, tenho um foco, procuro evidenciar nas imagens situações vivenciadas pelas crianças que tenham a ver com os princípios da autonomia, movimento e interação.

Durante o registro dessa atividade de cantos diversificados pude perceber o quanto as crianças estavam envolvidas e encantadas com o ambiente, as cenas revelam o quanto elas são capazes de experimentar e exercitar formas de ser e estar no mundo.
Marcia Léa Braga, gestora Creche Castelinho,
Teixeira de Freitas (BA)

A prática da observação com intenção, que busca responder questões das ações pedagógicas, vai para além de um primeiro olhar. O que, num primeiro momento, pode parecer desorganizado, em outro, com o olhar mais sensível, pode revelar muita aprendizagem e interação entre as crianças.

Trecho 4

Antes eu planejava sem muita intencionalidade. À medida que fui participando da formação comecei a refletir como estava trabalhando as brincadeiras de faz de conta com as crianças e acabei modificando meu planejamento, dando ênfase à observação e ao registro por meio de fotos que expressam realmente os sentimentos, as vivências e a imaginação da criança. Ao planejar e montar o consultório médico procurei deixar o mais parecido possível com que as crianças conhecem na vida real. (Elas sempre relatam nas rodas de conversa que foram ao postinho).

As crianças estão sempre empenhadas em brincar e encaram essa atividade com toda seriedade. Esse é o motivo pelo qual registro esses momentos tão significativos. As observações e os registros me fazem entender para que direção caminha a brincadeira e saber como ajudar a enriquecê-la.
Profª Mônica, Creche Caminho do Mar,
Teixeira de Freitas (BA)

Antes... e depois (fotos: Creche Caminho do Mar)

Antes… e depois (fotos: Creche Caminho do Mar)

Trecho 5

Antes da formação eu fotografava aleatoriamente, chamando a atenção das crianças para fazerem as poses… À medida que fui participando dos encontros comecei a refletir sobre o meu registro por meio de fotos e percebi que precisava ter um significado mostrar a ação das crianças naquele momento. Hoje tenho um novo olhar, mais minucioso e cuidadoso. Tento mostrar, por meio das imagens, a expressão, o sentimento e a ação da criança, ficando mais rica a minha observação, o que contribui bastante para montar o portfólio das crianças.
Darcilene Mota, Gestora da Creche Caminho do Mar,
Teixeira de Freitas (BA)

Fotos que revelam um novo olhar, pois “a ação de olhar e escutar é um sair de si para ver o outro e a realidade segundo seus próprios pontos de vista, segundo sua história”.6 Observar não é invadir o espaço do outro, sem pauta, sem planejamento, nem devolução, e muito menos sem encontro marcado… Observar uma situação pedagógica é olhá-la, fitá-la, mirá-la, admirá-la, para ser iluminada por ela. Observar uma situação pedagógica não é vigiá-la; mas, sim, fazer vigília por ela, isto é, estar e permanecer acordado por ela, na cumplicidade da construção do projeto, na cumplicidade pedagógica.7

(Alessandra Souza e Kézia Duarte são formadoras locais do Programa Formar em Rede no município de Teixeira de Freitas-BA; Renata Frauendorf é consultora do Programa Formar em Rede)

1Município integrante da 3a edição do Programa Formar em Rede, que tem como objetivo melhorar a qualidade da Educação Infantil em nosso País. Teixeira de Freitas também fez parte da 1a edição do Programa em 2007.

2Coordenadores pedagógicos e diretores.

3Espaço Tagna fica em São Paulo e recebe crianças de 3 a 6 anos. Para mais informações acessem o site http://www.projetobira.com/outros-projetos /espaco-tagna/

4(1) O brincar no cotidiano do Centro de Desenvolvimento da Criança (relato 3, p.92-95) – Universidade Federal de Minas Gerais, extraído do livro BRINCAR(es). CARVALHO, Alysson et al, Belo Horizonte: Editora UFMG; Pró-Reitoria de Extensão/ UFMG, 2005; (2)Vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar: o brincar na creche, de Cyrce Junqueira de Andrade, do livro Educação Infantil: muitos olhares, organizado por Zilma de Moraes Ramos de Oliveira, Editora Cortez; (3) Um projeto aliado ao brincar, de Renata Frauendorf, Revista Avisa lá, abril de 2008; (4). Faz de conta: invenção do possível, de Adriana Klisys, Revista Avisa lá nº 12..

5Lendo imagens, de Alberto Manguel, São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.177.

6Observação, registro, reflexão – Instrumentos metodológicos I – série cadernos de reflexão – Espaço Pedagógico, 2003.

7Idem.

Ficha Técnica

  • Programa Formar em Rede
    Execução: Instituto Avisa lá
    Parceria: Santander
    Coordenadora do Programa: Clélia Cortez
    Consultora: Renata Frauendorf
    Formadoras locais: Alessandra Sousa e Kézia Duarte

Para saber mais

Livros

  • Zoom e Clic! – O uso da imagem para analisar, refletir e observar o trabalho pedagógico, de Silvana Augusto. Revista Avisa lá nº 37. Fevereiro/2009.
  • A documentação na abordagem de Reggio Emilia para a Educação Infantil e suas contribuições para as práticas pedagógicas: um olhar e as possibilidades em um contexto brasileiro – Dissertação de Mestrado FEUSP; 2012 – Autor: Baracho, NayaraVicari de Paiva (Catálogo USP).

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #52 de novembro de 2012. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual –
http://loja.avisala.org.br

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