Observar para aprender o mundo

Crianças de quinto ano revelam sua trajetória como leitoras e a importância de alguns influenciadores: escola e família
Curiosos, os alunos descobrem mais sobre o caranguejo de água doce Foto: divulgação Escola Santi

Curiosos, os alunos descobrem mais sobre o caranguejo de água doce (Foto: divulgação Escola Santi)

Propor situações de estudo de Natureza e Sociedade para crianças de dois anos é um grande desafio. Em 2007, nós, educadores da Escola Santi, em São Paulo (SP), reavaliamos o que estávamos propondo para os alunos dessa faixa etária. Constatamos que um dos focos era organizar um estudo que possibilitasse aos alunos uma primeira aproximação com a observação científica, conteúdo procedimental essencial das Ciências Naturais.

Para crianças de dois anos, o contato direto com o objeto de estudo é fundamental para mantê-las envolvidas. No jardim da escola, temos dois jabutis – Inácio e Martin – que são cuidados e alimentados pelos alunos do T2 todos os dias da semana. Aproveitando-nos dessa situação, organizamos um projeto de observação e comparação entre os jabutis e outros animais trazidos por alunos de outras séries da escola. Por meio da observação e do convívio, nosso objetivo era que as crianças pudessem perceber as características físicas, hábitos alimentares e alguns cuidados básicos, além de estabelecerem comparações quanto a semelhanças e diferenças entre os jabutis e os animais que seriam trazidos à escola.

1ª etapa – Apresentação do projeto e levantamento de conhecimentos prévios
Iniciamos o projeto compartilhando com as crianças a proposta de estudo, informando-lhes que outros alunos da escola trariam seus animais de estimação para apresentar ao T2. Contamos que, assim como cuidamos do Inácio na Escola, há pessoas que cuidam de animais em casa, e perguntamos se elas faziam isso.

2ª etapa – Organização das informações em fichas e socialização dos conhecimentos em um mural
Retomamos com as crianças seus conhecimentos sobre Martin e Inácio, preenchendo uma ficha com a imagem dos dois jabutis e com informações quanto às suas características físicas e hábitos alimentares. Nesse momento, percebemos o quanto as crianças já sabiam a respeito desses animais:

“O Inácio tem casco.”
“E é duro.”
“Ele tem 1, 2, 3, 4 patas.”
“Ele come pepino e eu também!”
“Olha: ele tem língua!”
“O Martin é pequeninho e o outro é grande!”

A maior parte do conhecimento das crianças em relação aos dois jabutis decorre dos cuidados que elas dispensam aos dois animais na rotina semanal do grupo. Nesses momentos, elas observam os comportamentos e as características de Inácio e Martin, e sempre fazem comentários sobre as suas descobertas. As informações foram registradas nas fichas do Martin e do Inácio, afixadas no mural da sala, junto com as fotos. Compartilhamos com as crianças que os animais que seriam trazidos à escola também teriam uma ficha igual à que havia sido elaborada para Martin e Inácio.

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As crianças ficaram agitadas, querendo saber quais animais seriam trazidos para a escola. Pudemos perceber os conhecimentos provenientes de situações de contato das crianças com outros bichos:

“Eu já vi um hipopótamo. Ele mora na água do zoológico.”
“O Tunico é um pônei bem pequeninho que eu já galopei!”
“Na minha casa tem a Tuca. Ela não é um jabuti. É um cachorro!”

Para que pudessem ampliar suas primeiras observações sobre os jabutis, colocamos no mural algumas imagens desses animais em seu habitat e, junto com o grupo, criamos legendas que pudessem informar e acrescentar novos dados aos conhecimentos levantados anteriormente. Dessa forma, ao observarem periodicamente essas imagens, as crianças poderiam fazer comparações entre o comportamento desses animais em ambiente doméstico e em seu ambiente natural.

3ª etapa – Preparando a observação de outros animais
É importante dizer que, primeiramente, havíamos pensado que os próprios alunos do T2 poderiam trazer seus animais de estimação para com pará-los com os jabutis. Entretanto, pelo fato de as crianças serem muito pequenas, concluímos que elas não conseguiriam apresentar muitas informações sobre os cuidados e as características dos seus bichinhos. Nesse caso, garantiríamos o contato com os animais, mas não as informações.

Escolhemos, então, convidar alunos do 4º e 5º anos e do Fundamental II que conseguissem relatar as informações necessárias sobre seu bicho de estimação e, com isso, pudessem ampliar os conhecimentos da turma sobre diferentes animais. Elaboramos um texto sobre o projeto para os alunos das outras séries e os convidamos a trazer seus animais de estimação para os alunos do T2 conhecerem.

Fomos às salas de 4º e 5º anos e do Fundamental II com as crianças e entregamos o convite aos demais colegas. Explicamos que os interessados deveriam nos procurar na sala do T2 e fazer a inscrição. Na ocasião, pontuamos que nem todos os inscritos seriam convidados para trazer seus animais, já que estávamos preocupadas em garantir a diversidade de espécies.

Nesse primeiro momento, as crianças ficaram entusiasmadas e muitas queriam se inscrever, porém solicitamos que elas pedissem autorização aos pais, já que teriam de ficar na escola durante a visita. Nos dias que se seguiram, poucos alunos nos procuraram. Talvez por termos conversado apenas com os alunos, as crianças não tenham conseguido se organizar nem transmitir aos pais os objetivos do projeto. Isto gerou uma angústia em nós, pois achamos que o trabalho não daria certo. Pedimos aos professores dessas turmas que retomassem com os alunos as ideias, ações e o propósito da visita e, com isso, conseguimos garantir o estudo.

4ª etapa – Visitas
As visitas foram realizadas uma vez por semana, sempre no início do dia. Um dia antes, fazíamos uma roda de conversa, antecipando para as crianças qual animal seria trazido e, a partir de uma foto, levantávamos os conhecimentos prévios das crianças em relação às características físicas, hábitos alimentares e habitat do animal.

Ao longo do projeto, ficamos sabendo mais sobre caranguejo, hamster, gato e cachorro. Os convidados receberam uma ficha na qual deveriam registrar o nome do animal, o local de origem, os cuidados necessários, a alimentação, as características físicas e curiosidades. Solicitamos também que trouxessem, no dia determinado, uma amostra do tipo de alimentação oferecida ao animal.

Informamos que, durante a apresentação, seria interessante se as crianças pudessem tocar o animal, observá-lo comendo e que também recebessem dicas sobre como poderiam fazer isso sem estressá-lo. Um dos primeiros animais que recebemos foi um caranguejo de água doce. Antes, fizemos uma roda de conversa a partir de uma foto do caranguejo e perguntamos se alguém sabia que animal era:

“Caranguejo.”
“Não é um caranguejo, é um polvo.”
“Não é um polvo, é um caranguejo!”
“Eu vi um caranguejo na praia com a mamãe.”
“Ele não tem boca, ele vive na água!”
“Ele fala?”
“Não, só gente que fala!”

Quem trouxe o caranguejo foi um aluno do 3º ano que o recebeu de presente da família. Diante de um animal tão exótico, as crianças ficaram ainda mais curiosas.

Ao observarem o animal de perto, perceberam que ele era pequeno. Descobriram que era um animal de água doce e notaram que ele tinha casco parecido com o do Inácio: duro. Pedro, responsável pelo animal, informou à turma que o caranguejo ficava dentro de um aquário e que era alimentado com ração específica. O aluno também nos contou que havia ganhado o animal de um tio que gosta de pescar.

No dia em que o gato chegou, as crianças ficaram muito agitadas, algumas corriam em sua direção e passavam a mão nele; outras ficavam com medo e sentavam-se próximas à professora. Em roda, o dono do bichano nos contou sobre os cuidados e as características do seu animal, além de mostrar o que ele comia.

“É preto e muito peludo.”
“Ele é preto e o meio, marrom.”
“Ele me deu um beijo (a criança recebeu uma lambida).”
“Tem bigode, igual o rato do Ratatouille.”
“Esse gato é de verdade, ele até mexe o pescoço!”
“Você já colocou água pra ele?”
“Onde ele mora?”
“1, 2, 3, 4 patas!”
“Olha o bigode dele.”
“O pelo de cima é branco e marrom”.

Nessa visita, as crianças descobriram que os gatos têm alimentação específica. Observaram que ele tem cauda e pelos que cobrem todo o corpo. Viram que, assim como os hamsters, eles possuem quatro patas. No entanto, perceberam que os hamsters usam as patas dianteiras de forma diferente se comparados aos gatos: eles conseguem segurar a comida com os dedos.

5ª etapa – Registrando as observações
Depois de se observar o animal, preenchia-se uma ficha com as informações pertinentes. Assim, garantíamos o registro e a síntese dos conhecimentos obtidos que nos possibilitariam, depois, compará-los com o que sabíamos sobre Inácio, Martin e demais animais observados ao longo do projeto. As fichas e as fotos foram colocadas no mural, processo que se repetia logo depois da chegada de um novo animal. Nosso objetivo era valorizar o ato de registrar como procedimento necessário para a memorização e organização dos conhecimentos adquiridos. Com isso, pretendíamos que os alunos pudessem aproximar-se da observação como forma de apreensão do mundo e como um primeiro passo na aprendizagem da Ciência a partir da percepção sensorial, estabelecendo seus primeiros contatos com o vocabulário específico da área.

6ª etapa – Comparando as observações realizadas
Concluído o que havia sido programado, organizamos uma roda com as crianças para que elas pudessem observar novamente todas as fotos tiradas ao longo do projeto, retomando as características de cada animal, os cuidados necessários para suprir suas necessidades básicas, as curiosidades e demais informações.

Em seguida, foi preenchida uma tabela com os dados coletados, desafiando-as a comparar os animais observados em suas semelhanças e diferenças e ajudando-as a formular critérios que pudessem justificar suas opiniões.

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Nesse momento, percebemos que as crianças faziam relações entre os animais que haviam sido trazidos e os que eles tinham algum contato fora da escola. Estabelecer semelhanças e diferenças a partir da própria experiência ajudava-as a resgatar as informações necessárias para montar o quadro.

Durante essa etapa do projeto, percebemos que as crianças sabiam muito mais sobre os animais, respondendo praticamente sozinhas às perguntas formuladas. Notamos que, mesmo não sendo leitoras da palavra escrita, utilizavam-se dos registros e das imagens para retomar os conceitos aprendidos ao longo do projeto e justificar suas colocações perante o grupo.

Vivenciar esse projeto foi muito significativo para as crianças, pois elas puderam perceber que a observação pode ser feita de várias maneiras e que o olhar pode ser direcionado e aprofundado. Além disso, aprenderam com outras turmas da Escola e puderam observar animais pouco comuns, como o caranguejo. Nas comparações, com o apoio das professoras, pensaram, entre outros aspectos, sobre a diversidade da alimentação dos animais. Mesmo muito pequenas, as crianças viveram experiências de aprendizagem importantes.

(Marta Durante, diretora; Priscila Canteri Serra Silva coordenadora; e Maiara Sela Jayme Avila e Paula Tres Araújo, professoras. Todas da Escola Santi, em São Paulo-SP)

Ficha Técnica

  • Escola Santi
    Endereço: Rua Abílio Soares, 425 – Vila Mariana. CEP: 04005-001 – São Paulo – SP
    Tel.: (11) 3884-0566
    E-mail: [email protected]
    Site: www.escolasanti.com.br

Para saber mais

Livros

  • Alfabetização científica: questões e desafios para a educação, de Attico Chassot. Ijuí: Unijuí, 2003. Tel.: (55) 3332-0208 Site: www1.unijui.edu.br/editora-unijui
  • Linguagem, leituras e ensino da Ciência, de Maria José P. M. Almeida e Henrique César da Silva (org.). Campinas: Mercado de Letras/ALB, 1998. Tel.: (19) 3241-7514. Site: www.mercado-de-letras.com.br
  • Ciências na escola: novas perspectivas para a formação do aluno, de Ana Espinosa. São Paulo: Editora Ática, 2010. Tel.: (11) 4003-3061. Site: www.atica.com.br

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #51 de agosto de 2012. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual –
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