Como destacar os conteúdos da formação

Como o formador pode ajudar o supervisor pedagógico a selecionar os conteúdos que vai trabalhar com sua equipe de professores
Encontro de formação de supervisores (fotos: Jaquelline Andréa Marques)

Encontro de formação de supervisores (fotos: Jaquelline Andréa Marques)

O município de Nova Lima (MG) participa pelo terceiro ano consecutivo do Programa Além das Letras1, realizando a formação continuada dos supervisores pedagógicos da rede municipal de ensino que, por sua vez, atuam com os professores de suas escolas. A Secretaria Municipal de Educação, ao entender a importância da formação constante desses profissionais como principal estratégia para a conquista de uma educação de qualidade, criou o Núcleo de Formação Continuada. O objetivo é investir na formação dos supervisores (como formadores de professores) a fim de que se instituam nas unidades escolares espaços de formação permanente a partir da reflexão sistemática da prática.

Por meio dessa ação, nosso desafio foi redimensionar a função do supervisor na escola, trabalhando não só os conhecimentos didáticos, mas também sua comunicação. A nova dimensão do papel do supervisor enquanto formador de professores, parceiro mais experiente e corresponsável pela qualidade das aprendizagens dos alunos, exige dele competência para articular teoria e prática, provocando transformações eficientes na atuação docente. Cabe ao supervisor saber como seu interlocutor aprende para poder ensiná-lo a refletir sozinho e com os colegas, além de estar a par do que acontece na sala de aula, planejando situações formativas desafiadoras para apresentá-las e discuti-las à luz da didática. Para isso, a atualização constante torna-se imprescindível para os formadores que têm necessidades diferentes se comparadas às de quem está dentro na escola.

Vocês, em Nova Lima, entenderam bem que a formação continuada, para efetivamente mudar a prática, precisa ser pensada como uma cadeia de ações de formação, na qual cada uma cria elementos necessários para o desenvolvimento da seguinte. É preciso que cada parte planeje sua contribuição específica. É fundamental que os técnicos da Secretaria de Educação assumam a formação dos supervisores/coordenadores pedagógicos2, tomando para si o desafio de conhecer os conteúdos que todos os envolvidos precisam saber. (Débora Rana – Consultora do Além das Letras)

Conteúdos de trabalho
Em junho deste ano, realizamos com os supervisores o terceiro encontro de formação tendo por tema a produção de textos. Nesse evento, o objetivo foi discutir as condições didáticas essenciais para a produção de textos, bem como analisar os planejamentos e ações elaborados por professores da rede. No encontro anterior, havíamos deixado como tarefa para o grupo de supervisores a elaboração de uma proposta de produção textual planejada pelos docentes e já desenvolvida com os alunos. Esse registro seria um valioso instrumento para entender quais concepções estavam contempladas nos planejamentos. O ato de escrever sobre a vivência em sala de aula é uma tarefa complexa, tornando-se um excelente objeto de reflexão nos encontros de formação.

Um dos grandes desafios para nós, formadoras, no momento de elaboração da pauta, seria formular perguntas ao mesmo tempo desafiadoras e possíveis de ser respondidas, para mediar a análise dos registros e desencadear reflexões em busca de respostas. Pretendíamos colocar em jogo tudo o que o grupo já havia aprendido nos encontros anteriores ao confrontá-lo com reais situações vivenciadas na sala de aula. Nossa pretensão não era avaliar as propostas como certas ou erradas, mas pontuar os princípios e hipóteses que embasaram os planejamentos e as ações. Passamos, então, para a reflexão dos registros dos professores, propondo aos supervisores que respondessem em grupo às seguintes questões: Vocês verificaram problemas nas propostas elaboradas pelas professoras? Quais? Como intervir? Elas consideram as condições didáticas necessárias quando elaboram as produções de texto? Qual a melhor proposta apresentada por elas? Por quê?

Nossa preocupação nesse encontro era tornar observável aos supervisores os conteúdos que eles precisavam trabalhar com os professores, ou seja, que registros dos docentes, naquele momento, revelavam problemas, questões que demandariam intervenções formativas. Os questionamentos do grupo nos possibilitaram conhecer o que os supervisores sabiam e o que ainda precisavam construir sobre as condições didáticas essenciais para a produção de textos. A partir das discussões, foi possível sistematizar algumas reflexões e tornar visíveis os conteúdos que cada um deveria trabalhar no momento da formação na escola.

Vale destacar aqui a definição do foco, isto é, se as condições didáticas para uma boa produção de texto estariam garantidas. Para isto, foi fundamental analisar as propostas e ações elaboradas pelos professores previamente selecionadas pelos supervisores/coordenadores pedagógicos. Outro dado importante é que as formadoras locais já anteciparam as possíveis respostas às perguntas propostas na pauta e se prepararam para ajudar os supervisores a respondê-las. (Débora Rana – Consultora do Além das Letras)

Supervisoras reunidas no Núcleo de Formação Continuada, em Nova Lima

Supervisoras reunidas no Núcleo de Formação Continuada, em Nova Lima

Análise da prática
Apresentamos, a seguir, o registro de uma proposta elaborada por uma professora do 4º ano do Ensino Fundamental e discutida no encontro: Nessa segunda etapa, estou trabalhando com os alunos tudo sobre o lixo. Já falamos sobre os tipos de lixo, as doenças causadas pelo mau uso dele, assim como o reaproveitamento e reciclagem. Usamos diversos tipos de textos. Os estudantes mostraram um grande interesse pelo assunto e foi proposto até que fizessem uma pesquisa sobre a coleta seletiva. As crianças descobriram o quanto é importante ajudar o meio ambiente, conscientizando as pessoas. Foi, então, proposto aos alunos que elaborassem uma produção de textos que já possuía um início, tendo eles que criar o meio e o fim, evidenciando o tema do lixo poluindo as águas.

Baseado no registro acima, acompanhe passo a passo o nosso estudo. Nessa segunda etapa, estou trabalhando com os alunos tudo sobre o lixo. Qual é o conteúdo ligado à produção textual trabalhado pela professora? Qual a finalidade desse trabalho? Não há propósitos comunicativos claros (qual tipo de texto e para quem), e essa clareza de propósitos precisa estar presente em todas as propostas de escrita. Tanto os alunos quanto a educadora não sabiam que iriam produzir um texto (de qual tipo) ao fim do estudo sobre o lixo. Usamos diversos tipos de textos. Quais tipos de textos? Como foi trabalhada essa diversidade?

Destacamos aqui a preocupação das formadoras locais em elaborar boas questões que revelam as concepções de ensino e aprendizagem subjacentes ao processo formativo. O intuito é apoiar os supervisores pedagógicos para, a partir do que já sabem, refletir sobre o que desconhecem. (Débora Rana – Consultora do Além das Letras)

Antes de escrever, os alunos deveriam ter conhecido variados textos sobre o gênero escolhido. No entanto, observa-se que a professora apresentou tipos de textos de diferentes gêneros sem aprofundar nenhum deles. Ela não demonstra ter clareza de que o aprendizado dos gêneros decorre da familiaridade com cada um deles e não só pelo ensino de sua estrutura. Cabe ao docente permitir que as crianças adquiram os comportamentos leitores e escritores pela participação em situações práticas e não por meras verbalizações. Os estudantes mostraram um grande interesse pelo assunto e foi proposto até que fizessem uma pesquisa sobre a coleta seletiva. As crianças descobriram o quanto é importante ajudar o meio ambiente, conscientizando as pessoas.

Observa-se que o assunto despertou interesse entre os estudantes, apesar de a professora não ter definido a finalidade dos estudos realizados, isto é, se elaborariam um fôlder ou cartazes para uma campanha, por exemplo. Quando eles demonstram interesse é porque veem sentido e significado no que estão estudando. Começa, então, a surgir uma possível finalidade para esse estudo: a turma queria contribuir para a preservação do meio ambiente pela conscientização das pessoas. Infelizmente, a professora não conferiu consistência à proposta de conscientização por meio da produção de textos informativos.

Foi, então, proposto aos alunos que elaborassem um texto que já possuía um início. Teriam que criar o meio e o fim, evidenciando o tema do lixo poluindo as águas. Leia o início da história e continue contando o que aconteceu e o que eles fizeram para ajudar a solucionar o problema. Crie também um título. Aline e Marcos são amigos e gostavam muito de fazer piquenique à beira de um lindo lago que ficava ao lado do parque da cidade. Num belo domingo de sol, resolveram sair bem cedo para brincar com outros amigos. Quando chegaram ao lago, o encontraram cheio de lixo que a vizinhança próxima jogou. Diante dessa tristeza… A professora definiu para o grupo o gênero a ser adotado na elaboração do texto? Qual o motivo da escrita? Qual o destinatário? Pelo início da proposta apresentada aos alunos, percebemos que o gênero escolhido é o literário. Houve um trabalho específico com esse tipo de gênero?

Em qualquer proposta de produção escrita, os alunos precisam saber por que vão escrever (intenção comunicativa bem definida), o que vão escrever (o gênero selecionado) e quem vai ler o material (o destinatário do texto). Definir o gênero, a finalidade e o destinatário são condições didáticas essenciais para a produção de um texto de qualidade. Não basta ter boas ideias e ser criativo. É preciso conhecer a forma dos textos. Porém, caso o aluno não conheça bem as características do gênero proposto, ele não encontrará a forma de escrever. A única saída será, então, colocar as ideias no papel, o que não é suficiente para produzir um bom texto. Provavelmente escreverão textos de má qualidade, fragmentados e com poucos recursos linguísticos. Para que a aprendizagem seja efetiva, a intenção do educador deve ser a de extrapolar as situações de escrita puramente escolares, propiciando aos alunos inúmeras oportunidades, de modo que eles aprendam a escrever em condições semelhantes às que caracterizam a escrita fora da escola.

Dessa maneira, possibilita-se o contato com gêneros presentes na vida cotidiana. É fundamental também definir o destinatário, saber quem será o leitor do texto e de que forma irá utilizá-lo. Se não houver um destinatário real, o escritor passa a escrever sobre algo sem considerar o leitor. Quando se considera de fato o leitor, a necessidade de revisar, escrever de maneira legível e se fazer entender passam a ser objetivos não só do professor, mas também do aluno.

A reflexão sobre a prática

A reflexão sobre a prática

Sistematização das aprendizagens
Ao fim do encontro, após várias reflexões sobre a necessidade de se considerar as condições didáticas essenciais durante a elaboração de uma proposta de produção de textos, propusemos ao grupo a sistematização das aprendizagens construídas durante o encontro:

  • As propostas de produção de textos determinam a qualidade da escrita dos alunos.
  • Os vários gêneros textuais ainda são trabalhados ao mesmo tempo, nem sempre definindo que tipo será escrito. Não se reconhece que as características linguísticas de um gênero precisam ser aprendidas e que diferentes objetivos exigem diferentes gêneros. É necessário ter foco em um para garantir que o aluno desenvolva familiaridade e aprenda bem como fazê-lo.
  • As condições didáticas necessárias a cada tipo de texto precisam ser consideradas no planejamento das propostas de produção de textos.
  • Muitas vezes, o educador não consegue identificar problemas em suas propostas de produção. Ao avaliar as atividades das crianças, atribuem aos alunos o fato de eles não saberem escrever textos de qualidade.
  • Desinteresse dos estudantes relacionado à produção de textos. Não raras vezes, os alunos consideram uma chatice escrever, pois são submetidos a produzir sem função comunicativa. É preciso estimular o ato de escrever em condições semelhantes às que caracterizam a escrita fora da escola. O trabalho com projetos didáticos atende perfeitamente a essa necessidade, pois torna possível articular objetivos didáticos com os comunicativos.

Com essa pauta, procuramos oferecer recursos para os supervisores enxergarem conteúdos que deveriam trabalhar com seus professores. A opção de usar como estratégia formativa a análise de registros elaborados pelos professores desencadeou reflexões que os desafiaram a entender quais concepções e ideias orientaram o planejamento, evidenciando saberes que ainda precisavam ser construídos pelos professores.

Para realizar um bom encontro de formação, não basta ter uma pauta pronta do Programa Além das Letras. É preciso conhecer bem as necessidades locais, elaborar a proposta adequada, saber trabalhá-la autonomamente. Na experiência relatada aqui, as formadoras definem claramente os objetivos. Revelam, a cada passo, coerência na concepção que sustenta suas intervenções. Os supervisores trazem uma produção para reflexão, e isso revela que a análise da prática é condição básica para que as transformações ocorram. As formadoras locais garantem as socializações para que o conhecimento seja de todas. Realizam a proposta que as ajudam a antecipar o que virá e, assim, planejar intervenções que auxiliem o supervisor pedagógico a ter foco no desafio proposto. (Débora Rana – Consultora do Além das Letras)

(Debora Rana, consultora do Instituto Avisa Lá; Jaquelline Andréa Marques e Luciene Campos Ferreira, formadoras locais de supervisores em Nova Lima – MG)

1O Programa Além das Letras é uma iniciativa do Instituto Avisa Lá, do Instituto Razão Social, com o apoio da Avina, UNICEF, Undime, Ashoka, Unesco e MBC . É composto de uma premiação e de uma rede de formadores, que conta também com a tecnologia da IBM, por meio da iniciativa Reinventando a Educação.

2Profissionais que atuam diretamente na escola junto aos professores.

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Ficha técnica

Programa Além das Letras
Coordenadora: Beatriz Gouveia
Consultora: Débora Rana
Formadoras locais: Jaquelline Andréa Marques e Luciene Campos Ferreira
Responsabilidade técnica: Instituto Avisa Lá
Desenvolvimento: Secretaria Municipal de Educação de Nova Lima (MG) – Núcleo de Formação Continuada – Endereço: Rua José Agostinho, 2335 – Osvaldo Barbosa Pena – Nova Lima – MG. CEP: 34000-000 – Tel.: (31) 3541-9715
Site: www.novalima.mg.gov.br

Para saber mais

Livros

  • Aprendendo a escrever, de Ana Teberosky, Editora Ática.Tel.: (11) 3990-1775. Site: http://portal.mec.gov.br
  • Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário, de Delia Lerner, ARTMED Editora. Tel.: 0800 703-3444.
  • Parâmetros Curriculares Nacionais, volume 02 – Língua Portuguesa, da Secretaria de Educação Básica/Ministério da Educação. Site MEC: http://portal.mec.gov.br

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #40 de novembro de 2009. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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