O espaço e a leitura

A organização de um lugar especial colabora para a relação dos pequenos leitores com os livros
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Crianças de Araraquara (SP) exploram e aprendem a manusear os livros (fotos: Eliana Chalmers Sisla)

Todos guardamos relações valiosas com muitos espaços que frequentamos ao longo da vida. Muitos ambientes permanecem vivos dentro de nós, despertando sentimentos e sensações com suas sombras ou luzes, seus cheiros, sua imensidão ou pequenas dimensões. Quem é que não se lembra dos longos corredores da escola, do pátio, de algumas salas de aula, ou de cantinhos que viraram casas, cabanas, esconderijos? Além de nos relacionarmos de afetivamente com alguns espaços que se tornam parte de nossa história, somos apresentados ao mundo também por meio dos ambientes em que vivemos. Pense, por exemplo, numa criança que aprende a engatinhar e a ficar em pé. Ela saberá muito sobre equilíbrio, força e apoio a partir de suas experiências com o espaço e seus móveis. Uma criança que entra na escola obterá muito rapidamente informações sobre o que vai ocorrer lá dentro, a partir da disposição das mesas, ou carteiras, da lousa, se há ou não acesso a livros, a brinquedos e a materiais.

Todo ambiente é carregado de intencionalidade. A maneira como o organizamos reflete o que queremos que aconteça ali e que relações permitimos que o usuário estabeleça com o lugar. Continue lendo >

A prática de registrar com crianças de 1 a 3 anos

Um diário de sala compartilhado com as criancas e suas famílias guarda a memória do grupo e revela a própria identidade
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Produção feita com a participação dos pais

Registrar faz parte do projeto pedagógico da Grão de Chão1, escola em que trabalho. Cada grupo tem seu diário de sala e nele são registrados os acontecimentos mais significativos vivenciados pelas crianças, tais como uma brincadeira muito divertida, eventos realizados na escola, algumas atividades feitas com outros grupos, as receitas elaboradas, as curiosidades ou descobertas, os aniversários, entre outros. Há espaço também para os registros mais individuais, importantes para uma ou mais crianças, como o nascimento de um irmão, por exemplo. Sou professora de crianças de 1 a 3 anos (G1/G2), e é comum os pais lamentarem o fato de os filhos, pela oralidade pouco desenvolvida, quase não contarem em casa o que fazem na escola. Percebi que pelo diário de sala seria possível compartilhar com eles as vivências de seus filhos e do grupo a que eles pertencem, bem como favorecer a construção da identidade de cada um e a percepção do outro, alimentando o sentimento de pertencimento ao grupo.Continue lendo >

Livros e brinquedos com muito significado

Trabalho com obras literárias permite que crianças pequenas construam conhecimentos sobre si e o entorno e façam parte do mundo contemporâneo
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Hellen Jessica C. Souza, E.M. Cecília Meireles, Juiz de Fora, MG

O filósofo e historiador holandês Johan Huizinga1 nos propõe o interessante conceito de homo ludens para pensarmos naquela propriedade que caracteriza tão bem a espécie humana e sua capacidade de tornar lúdicas as relações imediatamente perceptíveis. Para além do homo sapiens, para quem a inteligência outorgava-lhe o status de ser superior aos demais, e do homo faber, para quem o trabalho operava de modo dialético como um instrumento humanizante, para Huizinga será o conceito de homo ludens o que melhor definirá nossas capacidades humanizantes e humanizadoras.

O ludens refere-se àquilo que em nós brinca, cria sentidos, opera magias e encantamentos e, para isso, não há faixa etária específica. O ludens refere-se, pois, à capacidade de interpretar e de criar realidades. Estas últimas regidas não mais pela lógica da causalidade e da funcionalidade, mas, se preferirmos, pela lógica do absurdo, da imaginação, da representação. Uma lógica ludens opera com as mais diversas relações inúteis à vida cotidiana, o que significa afirmar que não há lógica nem serventia aparente e que são exatamente tais características que definem sua magia.
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Como destacar os conteúdos da formação

Como o formador pode ajudar o supervisor pedagógico a selecionar os conteúdos que vai trabalhar com sua equipe de professores
Encontro de formação de supervisores (fotos: Jaquelline Andréa Marques)

Encontro de formação de supervisores (fotos: Jaquelline Andréa Marques)

O município de Nova Lima (MG) participa pelo terceiro ano consecutivo do Programa Além das Letras1, realizando a formação continuada dos supervisores pedagógicos da rede municipal de ensino que, por sua vez, atuam com os professores de suas escolas. A Secretaria Municipal de Educação, ao entender a importância da formação constante desses profissionais como principal estratégia para a conquista de uma educação de qualidade, criou o Núcleo de Formação Continuada. O objetivo é investir na formação dos supervisores (como formadores de professores) a fim de que se instituam nas unidades escolares espaços de formação permanente a partir da reflexão sistemática da prática.Continue lendo >

Brincar na quietude

Brinquedos e brincadeiras que envolvem elementos da natureza revelam a imaginação e a criatividade das crianças
Foto: Anne Vidal e João Correia Filho, Exposição Sesc Pinheiros, São Paulo –SP, 2006

Foto: Anne Vidal e João Correia Filho, Exposição Sesc Pinheiros, São Paulo –SP, 2006

Olhar as nuvens no céu e imaginar bichos… Qual é o menino ou menina que tem tempo para fazer isso atualmente? As crianças, principalmente as que vivem em áreas urbanas, têm a agenda lotada de compromissos. “Os adultos inventam uma rotina maluca de serviços terceirizados com aula até para aprender a brincar com os avós”, desabafa a professora Selma Maria Kuasne1, que estuda a Cultura da Infância. “Criança é feita para inventar o mundo, como diz o poeta Manoel de Barros2, e não para aprisionar energia ficando inquieta numa cadeira.” O brincar é a atividade principal das crianças. É durante as atividades lúdicas que elas descobrem como o mundo funciona. Muitos pesquisadores têm se dedicado ao assunto e descoberto coisas valiosas. No caso de Selma, ela aborda as maneiras de brincar de quem mora distante de centros urbanos. Em 2003, por conta de sua pesquisa, ela viajou pelo interior do Brasil, especialmente pelo sertão de Minas Gerais, onde o escritor Guimarães Rosa (1908-1967) nasceu e cresceu e tão belamente descreveu em sua obra.
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