Mala da diversidade

Com histórias e bonecos que representam diferentes etnias, é possível trabalhar a questão racial com crianças de creche e de pré-escola
Toda segunda-feira um sorteio decide quem vai levar a mala para casa

Toda segunda-feira um sorteio decide quem vai levar a mala para casa

Mala cheia de bonecos e cada um representando uma criança do grupo. Esse foi o nosso ponto de partida para despertar nas turmas a valorização da autoestima, sentimentos de respeito ao outro, às diferenças e à autoaceitação. Com esse projeto, a Creche Heitor Villa-Lobos, em Santo André – SP, foi uma das vencedoras do 4º Prêmio Educar para a Igualdade Racial, promovido pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT). A instituição estava entre as quatro finalistas do estado de São Paulo e concorreu com o projeto Mala da diversidade – a viagem em busca de nossas raízes.

Ao brincar na escola e em casa, acreditávamos que os pequenos poderiam perceber as diferentes tonalidades de pele, tipos de cabelo, traços faciais, cor dos olhos. Com a mediação de educadores e de pais, durante as brincadeiras ou em rodas de conversa, pensávamos que eles pudessem perceber que as pessoas não são iguais, mas constituídas de traços diferenciados. Além de promover a identidade negra, almejávamos também que eles se tornassem agentes multiplicadores desse conhecimento.

Bonecos de todas as cores
Esse tema faz parte do nosso projeto políticopedagógico. Ele é apontado como assunto de relevância social pela Secretaria de Educação de Santo André (SP), atendendo à lei federal no 10.639/2003 (leia abaixo) Em continuidade ao projeto Gênero e raça: descobrindo as diferenças e ressaltando as semelhanças, realizado em 2007, ampliamos a temática com enfoque na diversidade.

Por se tratar de trabalho coletivo, houve a participação de seis turmas em cada período, envolvendo 197 crianças com idade variável de quatro meses a 4 anos e onze meses. O processo foi mediado por 12 professores e 14 auxiliares de Educação Infantil – (ADIs), sob orientação e acom panhamento do assistente pedagógico e da diretora. Tudo aconteceu em um semestre, e o tema foi abordado praticamente duas vezes por semana, sem contar sábados e domingos, dias em que as crianças levavam os materiais para casa. A intenção era que pais e mães contribuíssem com o trabalho. Observamos, no início, que alguns pequenos tinham resistência ao toque. Sentiam-se incomodados ao acariciar os colegas, e os negros não gostavam que tocassem seus cabelos. Outros evitavam brincar com as bonecas de tons mais escuros disponíveis nas áreas destinadas ao faz-de-conta na escola.

Bonecos confeccionados pelas crianças e pais da Creche Heitor Villa- Lobos, de Santo André – SP (fotos dos bonecos: Tiago Brito / fotos da execução do projeto: Arquivo da Creche Heitor Villa-Lobos

Bonecos confeccionados pelas crianças e pais da Creche Heitor Villa- Lobos, de Santo André – SP (fotos dos bonecos: Tiago Brito / fotos da execução do projeto: Arquivo da Creche Heitor Villa-Lobos

Para desenvolver o tema, utilizamos os diversos vídeos de narrativas infantis que compõem o kit A cor da cultura1. Percebemos que houve um grande interesse e envolvimento das turmas quando assistiram ao filme Ana e Ana, que conta a história de duas irmãs. Apesar de serem idênticas fisicamente, apresentavam personalidades e comportamentos diferenciados. Por serem gêmeas, quando pequenas, a mãe costumava trajá-las com roupas, calçados e adereços iguais. À medida que foram crescendo, demonstravam gostos, preferências e interesses diversos. Já na idade adulta, percebe-se uma autoestima, um bem-estar comum, pois apesar das semelhanças, eram mulheres totalmente diferentes e que foram consideradas como tais.

Após a sessão de vídeo, registramos comentários a respeito das gêmeas que tínhamos na unidade escolar. Havia quem pedisse para assistir ao vídeo novamente. Em atividades com giz de lousa na área externa, observamos que algumas crianças desenhavam seus amigos no chão. A partir desse interesse, propusemos que elas contornassem seus corpos em papel kraft e, em seguida, completassem as próprias silhuetas com olhos, boca, nariz, orelhas cabelos, vestimentas e adereços. Durante essa atividade, fizemos interferências relacionadas às diferentes características físicas.

Participação de todos
Pela fragilidade das silhuetas feitas de papel, tivemos a ideia de confeccionar um boneco de pano para cada criança, em parceria com os pais, numa perspectiva de desenvolver a mesma temática em casa. Para facilitar o transporte para outros espaços da instituição e para a casa de cada um e também para guardar os brinquedos, confeccionamos uma pequena mala, decorada e identificada. Havia um diário de bordo para que os familiares pudessem registrar fatos interessantes da visita; semanalmente, um integrante de cada grupo era sorteado para receber o kit. Para a elaboração de diferentes situações de aprendizagem e de conteúdos relacionados à temática, vale ressaltar que contamos com a ajuda de vários colaboradores, como os membros da equipe diretiva, pais, educadores e demais funcionários.

Também merece destaque o fato de os responsáveis já terem conhecimento sobre o assunto em um trabalho de formação que a escola havia feito. Na ocasião, eles foram orientados a contribuir dando informações a seus filhos sobre o tema. Inúmeros materiais foram utilizados, como tecidos e papéis diversos, manta acrílica, linhas, agulhas, lãs, mechas de cabelos de nylon, máquina de costura, corda, cola, tesoura, papel adesivo transparente, pistola e refil de cola quente, TV, fita de vídeo, CDs, DVDs, máquina digital, computador, livros infantis e revistas.

Concomitantemente à exploração da mala, outros conteúdos foram abordados: identidade (conhecimento de si); semelhanças e diferenças (conhecimento do outro); jogos simbólicos e cooperativos; recorte e colagem; oralidade (ampliação do vocabulário); (re)conhecimento do próprio corpo, entre outros. As abordagens deram-se pela sensibilização dos pequenos ao se olharem no espelho e perceberem características próprias; ao observar o que havia de comum com o colega, ou não; com representação de papéis; brincadeiras; roda de conversa; contação de histórias etc.

Pais confeccionam bonecos com as características de seus filhos

Pais confeccionam bonecos com as características de seus filhos

Os objetivos propostos foram alcançados, uma vez que os relatos dos pais referentes às visitas dos bonecos apontavam-nos apropriação de novos valores e atitudes vivenciados. Por intermédio das brincadeiras, observamos mais integração, caracterizando respeito às diferenças e valorização da autoestima. No decorrer do projeto, ocorreram mudanças positivas no comportamento das crianças, as atividades e dinâmicas propostas envolveram-nas de tal forma, amenizando certas resistências e rejeições. Percebemos que se tornaram mais participativas, comunicativas e extrovertidas, sem preconceitos na escolha de brinquedos e de parceiros em suas brincadeiras.

A avaliação foi processual, por meio da observação diária dos pequenos e da devolutiva registrada no diário de bordo. Tivemos, sim, dificuldades em envolver a totalidade dos adultos na oficina de confecção de bonecos, ter mais participação deles em palestras de orientação e formação referente ao tema, e resistência de alguns pequenos em participar de algumas atividades. Superamos tudo tornando flexíveis dias e horários que propiciassem a participação de todos, e procuramos envolvê-los com recursos atrativos. Porque a melhor maneira de atrair uma criança é pelo lúdico.

Melhoramos a formação dos educadores, evitando pré-conceitos e falta de conhecimento teórico. Mudanças ocorreram em nossa prática, ficamos mais à vontade para abordar o assunto e trabalhar a temática. A própria mala dos bonecos resultou em recurso didático a ser utilizado sempre.

Esse concurso foi a nossa primeira oportunidade de divulgação. Uma grande chance de incentivo à participação, que valoriza os profissionais da educação e, consequentemente, favorece a execução de outras práticas pedagógicas. Como incentivo às outras unidades escolares e valorização do trabalho junto aos familiares, elaboramos uma apresentação em power point2 de tudo o que foi desenvolvido nesse projeto e expusemos todo esse material no Centro de Formação de Professores da rede municipal de Educação de Santo André (SP) e na unidade escolar.

(Texto coletivo, produzido pela equipe de educadores da Creche Heitor Villa Lobos)

1Distribuído pelo Canal Futura, da Fundação Roberto Marinho, a 2 mil escolas do País.
2Programa de computador que permite a criação e exibição de apresentações, cujo objetivo é informar sobre um determinado tema, podendo usar imagens, sons, textos e vídeos, que podem ser animados de diferentes maneiras.

A participação dos pais no ambiente escolar torna a experiência educacional das crianças muito mais significativa

A participação dos pais no ambiente escolar torna a experiência educacional das crianças muito mais significativa

Lei Federal no 10.639/2003, que altera a lei no 9.394/1996

Altera a lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º – A Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar acrescida dos seguintes arts. 26-A, 79-A e 79-B:

Art. 26-A – Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.

§ 1º – O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.

§ 2º – Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras.

Art. 2º – Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 9 de janeiro de 2003; 182º da Independência e 115º da República.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
Cristovam Ricardo Cavalcanti Buarque

Este texto não substitui o publicado no D.O.U. de 10.1.2003
Fonte: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.639.htm

Oficinas são boas estratégias para  o envolvimento dos pais com a escola

Oficinas são boas estratégias para o envolvimento dos pais com a escola

Ficha técnica

Creche Heitor Villa-Lobos
Endereço: Rua Lacônia, s/no – Parque Capuava – Santo André – SP. CEP: 09271-010 – Tel: (11) 4479-8214
E-mails: [email protected] e [email protected]
Diretora: Rosane Prado Tavares Arioza
Assistente pedagógico: José Carlos da Silva
Professoras: Andréia Rastelli; Camila Fernanda Saraiva; Líria Pereira de Almeida Lírio; Máira Andrade Garcia; Patrícia Riscalli Rosolen Silva; Regina Célia Tonetto; Rita de Cássia Pereira Monteiro; Shirley Lopes Almeida; Sueli Buzano da Costa.
Auxiliares de Educação Infantil: Alaíde Rodrigues de Menezes; Crislaine Munhoz Tavares; Deise Sanches de Oliveira; Iraides da Costa Mendes; Marinalda Alves Fonseca da Silva; Paula Carolina Pereira da Silva; Renata Aparecida Ronqui de Oliveira.

Para saber mais

  • Site: www.ceert.org.br – Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades – CEERT

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Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #37 de fevereiro de 2009. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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