Para planejar bem o brincar

A observação, o conhecimento sobre como as crianças de diferentes idades brincam são importantes para planejar o brincar
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Na brincadeira, as regras não limitam a ação lúdica, a criança pode modificá-las, ausentar-se quando desejar, incluir novos membros (fotos: Arquivo da Creche Gota de Leite)

À luz dos registros de uma coordenadora pedagógica, vamos acompanhar as mudanças realizadas em uma instituição de Educação Infantil, acerca da presença do brincar neste espaço. Questões importantes como a organização do ambiente, do tempo e as ações das professoras ajudam a definir a brincadeira como uma das atividades prioritárias dos pequenos, digna de planejamento, de registros e avaliação. Momentos destinados a variadas formas de brincar certamente fazem parte da rotina das Unidades Educativas. E não poderia ser diferente, pois a brincadeira é sempre associada ao desenvolvimento infantil. Ao brincar, desde cedo as crianças conhecem o próprio corpo, o mundo em que vivem e seus objetos, imitam os comportamentos dos adultos à sua volta, assimilando valores e hábitos culturais, elaboram sentimentos e situações vividas. Brincar é uma das formas mais importantes de estar no mundo e pensar sobre ele.

Toda criança sabe brincar. E justamente por ser a brincadeira expressão típica da infância, muitas vezes acreditamos que ela sempre acontece naturalmente e não necessita da intervenção do adulto. Mas o planejamento da brincadeira deve ser idêntico ao de outras atividades? Precisamos propor novas organizações do espaço, ou a criança é quem deve criar os cantos destinados ao brincar? Como pensar a brincadeira na rotina de CEIs e de escolas de Educação Infantil?

Neste artigo, teremos a oportunidade de discutir essas questões a partir das reflexões feitas pela coordenadora pedagógica Carla Luizato Pereira sobre o projeto realizado na instituição Gota de Leite, em Santos (SP).

O brincar na prática do professor
Para começar nossa conversa, vamos descrever duas situações possíveis para o momento da brincadeira na escola e, depois, tecer comentários sobre essas situações. Vamos analisar duas cenas típicas em diferentes classes de Educação Infantil, levando em conta concepções diversas acerca do brincar e de sua inserção na instituição educativa.

Cena 1 – Ao entrarmos na sala de grupo de crianças de 3 anos, a cena é a seguinte: A professora está ocupada em responder bilhetes enviados pelos pais. Ela está em uma das mesas da sala e, apesar de atenta às crianças, não interage diretamente com elas, fazendo-se presente apenas nos momentos em que é solicitada a resolver algum conflito. Algumas crianças da classe ainda estão em seu horário de descanso, mas a maioria já acordou. Dois tipos diferentes de brinquedos de montar foram colocados sobre um tapete. Num canto definido como o espaço da casinha, equipado com fogão e geladeira, foram colocados algumas panelinhas e brinquedos de plástico imitando frutas e verduras.

De acordo com a rotina da professora, este é o momento da brincadeira na rotina. De fato, algumas crianças estão brincando na casinha, com os jogos de montar, no entanto, elas se dispersam rapidamente das brincadeiras e perambulam bastante tempo pela sala. No canto do jogo simbólico, um menino leva à boca os legumes e frutas de plástico. Um outro brinca com eles como se fossem carrinhos. Algumas crianças estão deitadas no tapete, observando outras, que brincam com o jogo de montar. Uma menina atira ao longe as peças do jogo e é advertida pela professora, que a relembra para que serve aquele brinquedo. O canto fixo dos livros é visitado por uma ou outra criança. Uma menina pegou um papel que estava na prateleira, ao seu alcance, e claramente imita os gestos de sua professora, como se estivesse escrevendo.

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As brincadeiras em diferentes situações educacionais podem ser um meio para analisar competências e potencialidades das crianças envolvidas.

O que observamos nesta situação?
A brincadeira aparece como um “tapa-buraco”, preenchendo um momento em que a professora precisa concentrar-se em outra tarefa. A professora não interage diretamente com as crianças, mas aos 3 anos, isso pode ser necessário porque grande parte do jogo de faz-de-conta da criança parte da interação e da imitação dos comportamentos observados por ela. As peças dos brinquedos de montar estão misturadas, o que não permite à criança reconhecer as possibilidades de encaixe e de montagem. Talvez isso, somado ao fato de que esse jogo pode ser realmente pouco desafiador para sua idade, justifique a ação da criança que lança ao longe as peças.

Mesmo com poucas informações sobre as características do espaço, ele não parece ter sofrido muita intervenção nesse momento. Não sabemos como a casinha está circunscrita, como é o canto de livros, nem mesmo que material está próximo à professora. O que sabemos é que o material disponível e sua organização oferecem importantes dicas de como as crianças podem brincar e com o quê. No caso da menina que começa a brincar de professora, por exemplo, se ela dispusesse de mais materiais, talvez seu faz-de-conta pudesse ter sido mais completo.

Cena 2 (A partir dos registros de Carla Luizato Pereira, sobre observação realizada em uma sala de Berçário 2) – Quando entrei na sala, as crianças já estavam brincando de casinha e de salão de beleza. As professoras organizaram dois espaços diferentes e todos os materiais de salão de beleza estavam sobre duas mesas. Dentro da casinha estavam Pedro, Marcelli, Bruna e Adrian; no salão de beleza, Marisa, Júlia, Guilherme, Beatriz e João. Entrei na casinha, sentei-me e pedi ao Pedro que me servisse um prato de comida. Ele já estava sentado com um pratinho à sua frente. Pedi mais de uma vez que ele me servisse comida e ele não se moveu. Como Bruna estava perto e ouviu os meus pedidos, ela me trouxe um pratinho e um copo.

Instruída pela professora Desirée, perguntei ao Pedro o que ele estava comendo. Eu fiz a pergunta e ele logo respondeu:

– Carne!!!

Eu disse ao Pedro que estava comendo macarrão. Ele repetiu que estava comendo carne. Perguntei o que ele estava bebendo, e ele respondeu:

– Suco!!!

Eu também disse a ele que estava tomando suco de laranja. Enquanto fingia comer, eu disse a ele que a comida estava muito quente e a assoprei. Pedro ficou me observando e, em seguida, me imitou. Depois que terminei de comer, pedi à Bruna que me trouxesse uma mamadeira pra eu dar para a bebezinha. Ela me trouxe uma mamadeira e eu fingi alimentar a bebezinha. Em seguida, fiz de conta que ela estava chorando e a embalei para que parasse de chorar. Bruna ficou me observando e fez igual. Nesse momento, a professora Desirée fez de conta que o telefone estava tocando e Pedro foi atendê-lo. Ele disse alô e passou o telefone pra mim. Eu atendi e agi como se eu estivesse falando com minha mãe, explicando-lhe que a bebê estava chorando. Ele tirou o telefone da minha mão, fingiu que falava com alguém e repetiu as minhas palavras:

bebê tá chorando, bebê tá chorando!!!

Sem que eu esperasse, ele pegou o telefone e colocou no ouvido da bonequinha que estava no meu colo. Eu agi com se ele estivesse chorando, então ele me olhou com uma carinha de espanto e colocou o telefone no meu ouvido. Eu repeti a mesma frase e disse que daria a mamadeira para que a bebê parasse de chorar. Depois desse momento, coloquei a bebê pra dormir e fui lavar a louça. Eu simulei que saía água da torneirinha e passava a mão sobre os pratos e talheres. Quando eu terminava de laválos, pedia que a Marcelli guardasse a louça no armário, e ela o fazia. Quando terminei de lavar, fui ao salão de beleza e Pedro assumiu o meu lugar diante da pia, imitando o barulho de água que eu fazia.

No salão de beleza, fiquei observando as crianças por alguns segundos. Elas queriam mexer em todos os produtos ao mesmo tempo, como uma tentativa de explorar todos eles sem perdê-los de vista. Cristiane estava fazendo um penteado em uma criança e pediu à Júlia que pegasse uma xícara de café pra mim. Ele demorou um pouquinho e em seguida me trouxe uma caneca de café. Eu fingi que estava muito gostoso e entreguei a canequinha pra ela. Ela colocou-a em cima da mesa, e eu pedi que fizesse um penteado em mim. Sentei-me diante de um espelho e Júlia e Guilherme começaram a me pentear. Júlia passou um spray com água e começou a cortar meu cabelo com uma tesourinha de mentira. Depois peguei uma touquinha térmica e disse que estava fazendo hidratação.

Guilherme ficou meio espantado com a atitude e resolveu passar mais água. Peguei um bobe e comecei a enrolá-lo no meu cabelo, pedindo à Júlia que fizesse o mesmo. Ela tentou fazer um rolinho e eu prendi com uma xuxinha. Ao mesmo tempo em que mexiam em meu cabelo, eles exploravam tudo ao seu redor. Queriam passar maquiagem solicitando que abrissem o estojinho, queriam passar xampu, fingindo espremer a embalagem e utilizando o esguicho de água. Depois de muita brincadeira, as professoras começaram a organizar os materiais solicitando a ajuda das crianças e foram para o lanche.

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Criança frente ao espelho diz: “ Eu sou uma fada, a borboleta da fada….”

O que pensar sobre a brincadeira?
O ambiente estava organizado de modo diferente, se comparado ao dia-a-dia, com cantos específicos para cada tema da brincadeira. Havia uma boa quantidade de materiais nos cantos, o que permitia a participação de todas as crianças nas brincadeiras. A atividade foi planejada como parte da rotina, com um momento especificamente destinado a ela e com o envolvimento das professoras, não apenas na elaboração, mas também como parceiras das crianças no faz-de-conta. As professoras oferecem modelos às crianças e sugerem ações, propondo cenas condizentes às brincadeiras e estimulando a participação e a troca de papéis entre os alunos. Embora a brincadeira seja típica do mundo infantil, as crianças também assimilam modelos provenientes dos adultos, imitando seu jeito de brincar, incorporando novos elementos, gestos ou falas ao brincar.

O adulto na brincadeira

Ao ler o registro de Carla Luizato Pereira, podemos nos questionar: até que ponto o professor deve participar da brincadeira das crianças e até onde deve guiá-la? Esse é um ponto para a nossa reflexão. Certamente, o adulto tem uma função bastante importante na brincadeira infantil e na brincadeira no meio escolar. É dele a capacidade de zelar pelo espaço da brincadeira: garantir o tempo, os materiais e a privacidade para que seus alunos possam brincar. Promover revezamentos de papéis e ajudar a solucionar conflitos também podem fazer parte de suas funções. E em todas as faixas etárias isso deve ser respeitado. No entanto, a participação do adulto nas brincadeiras muda conforme a idade das crianças. No caso de crianças menores, como é o caso do nosso exemplo, a presença da professora pode ser adequada, pois elas precisam do adulto para observar, imitar e interagir. Mas se nesta classe houvesse crianças maiores, a intervenção e a participação constantes da professora podem às vezes ser desnecessárias.

A brincadeira e seus diferentes tempos
À medida que as crianças crescem e se desenvolvem, o jeito como brincam muda, alterando também a necessidade da presença do adulto. Há um tempo em que a criança pequena só imita quando tem um adulto ao lado. Depois, vem o tempo da imitação diferida, em que ela brinca mesmo longe do adulto, lembrando-se do que viu e trazendo para a cena a ação. Depois, vem o tempo em que a criança representa o que conhece e, finalmente, há o tempo do faz-de-conta, em que ela inventa algo que não existe e vive aquilo como se fosse de verdade. Gilles Brougère, importante estudioso do universo do brincar, alerta para a importância da livre escolha na brincadeira. Sem livre escolha, explica Gilles, sem possibilidade real de decidir, não existe mais brincadeira, mas uma sucessão de comportamentos que têm a sua origem fora daquele que brinca.

Um professor pode imaginar um contexto para que a brincadeira aconteça, mas isso não é garantia de nada. Há sempre que se contar com a invenção daquele que brinca, com a sua iniciativa e com os possíveis desdobramentos em relação ao brincar. Uma atitude muito diretiva do professor pode inibir as crianças, levando-as a fazer o que o professor sugere, já que estão acostumadas a seguir suas orientações em outros momentos. Esse é o cuidado que se deve tomar na organização das brincadeiras, principalmente dos cantos para o jogo simbólico.

Os brinquedos podem sugerir brincadeiras e o espaço organizado também. Mas não são determinantes. A função de um brinquedo não faz parte dele como objeto, mas se estabelece sempre na relação que a criança desenvolve com ele. Portanto, há algo que sempre pode ir além do objeto ou do espaço planejado. O aspecto inventivo da brincadeira é parte fundamental do brincar.

O lugar da organização do espaço
Ao observar as duas cenas, podemos fazer algumas afirmações. Uma delas diz respeito ao espaço, que se mostrou importante para o desenvolvimento e sucesso da brincadeira entre as crianças. É muito diferente brincar de casinha só com uma mesa e algumas panelinhas de plástico, num ambiente que não sofreu alteração nenhuma, e ser convidado a entrar em uma cabana feita a partir de um lençol, que dá um canto especial e aconchegante. A capacidade de a criança fantasiar e fazer de conta é grande, mas ela pode ficar ainda mais enriquecida com os elementos que compõem o espaço.

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Gilles Brougère também reforça a importância de um “ambiente indutor” no desenvolvimento da brincadeira infantil. Assim ele escreve, em seu livro Brinquedo e Cultura1: A criança não brinca em uma ilha deserta. Ela brinca com substâncias materiais e imateriais que lhes são propostas. Os brinquedos orientam a brincadeira, trazem-lhe a matéria. Algumas pessoas são tentadas a dizer que eles a condicionam, mas então, toda a brincadeira está condicionada pelo meio ambiente. Só se pode brincar com o que se tem e a criatividade […] permite, justamente, ultrapassar esse ambiente, sempre particular e limitado. O educador pode, portanto, construir um ambiente que estimule a brincadeira em função dos resultados desejados. Não se tem certeza de que a criança vá agir, com esse material, como desejaríamos, mas aumentamos, assim, as chances de que ela o faça; num universo sem certezas, só podemos trabalhar com probabilidades.

Portanto, é importante analisar seus objetivos e tentar, por isso, propor materiais que otimizem as chances de preencher tais objetivos. Não há somente o material, é preciso levar em conta as outras contribuições, tudo aquilo que propicie à criança, pontos de apoio para sua atividade lúdica […]”. Outros estudos revelam como um mesmo brinquedo, em ambientes mais ou menos organizados, podem variar seu uso, em brincadeiras mais estereotipadas ou mais inventivas.

(Ana Carolina Carvalho, psicóloga e colaboradora da Revista Avisa lá, Silvana Augusto, professora de Filosofia e formadora do Instituto Avisa Lá e Carla Luizato Pereira, formadora da Creche Gota de Leite, localizada em Santos – SP)

1Brinquedo e Cultura, Gilles Brougère. Ed. Cortez.

A necessária imprevisibilidade da brincadeira

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Fotos: Silvia Carvalho

Cuidar do ambiente também é garantir o brincar

Na Gota de Leite, as educadoras fizeram importantes reflexões sobre a importância e a forma de organização do espaço para a brincadeira, avaliando o que já faziam e repensando suas práticas a partir de um levantamento de uma série de questões propostas pela coordenadora:

Quantos cantos fixos deve haver em uma sala? Por que é importante a organização em cantos de atividades?
O momento do trabalho com os cantos de atividades diversificadas tem se tornado cada vez mais comum na Educação Infantil. Além de promoverem diferentes atividades para as crianças, a divisão em cantos estimula a autonomia e a capacidade de escolha da criança, características importantes para a formação de sua identidade.

Como os materiais devem estar organizados (em prateleiras, caixas de papelão, caixas de plástico, sacos, em pé, deitados ou misturados)?
A organização da sala se reflete no comportamento das crianças, elas se localizam melhor em um ambiente organizado, que pode conferir mais autonomia e ampliar a possibilidade de colaboração na arrumação dos ambientes para os pequenos.

Como devem ser os armários, as estantes e prateleiras da sala (altas, baixas, abertas, fechadas)?
Para estimular a autonomia, as estantes e prateleiras devem ser adequadas à estatura das crianças. Os brinquedos podem e devem ficar ao alcance delas. Uma boa razão para se discutir a importância da manutenção dos objetos, o cuidado e a organização do ambiente.

Qual deve ser a participação das crianças na organização do espaço?
As crianças devem colaborar na organização do ambiente, respeitadas as capacidades próprias da faixa etária. É importante cuidar do nosso espaço porque nos tornamos responsáveis e identificados com o que temos.

O que deve ser feito com os materiais quebrados ou rasgados?

Os materiais quebrados ou rasgados devem ser avaliados e, se houver possibilidade, conserte-os com a ajuda das crianças.

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Ficha técnica

Mantenedora: Assistência à Infância de Santos Gota de Leite
Nome da Unidade: Gota de Leite
Avenida Conselheiro Nébias, 388 – Vila Nova – Santos – SP. CEP: 11045-000
Tel.: (13) 3224-1610 – E-mail: [email protected]

Responsáveis
Formadora : Carla Luizato Pereira
Diretora: Eliete de Almeida Bruno – E-mail: [email protected]
Coordenadoras pedagógicas:
Cynthia Felipe N. M. Vaz – E-mail: [email protected]
Janaína W. Fonseca – E-mail: [email protected]

Para saber mais

  • Brinquedo e Cultura, Gilles Brougère. Ed. Cortez. Tel.: (11) 3611-9616

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #34 de abril de 2008. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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