Escrever é uma aventura que vale a pena

Um olhar sensível e informado sobre as primeiras escritas; preocupado com a autoria e construção de significados pelas crianças

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Produções feitas pelos ex-alunos do Centro Educacional Monteiro Lobato, atual Coeducar – Viçosa – MG

Numa tarde ensolarada de domingo, Mayana, com seus cinco anos e meio, apanha uma rosa no jardim, arruma-a com cuidado num vaso com água, leva-a para o quarto, em seguida pega um papel e com os olhos brilhando, realiza a seguinte escrita:

“Roza, xeroza, gostoza, você vai crescer demais, daí você vai ficar cada vez mais bonita”.

Miguel tem seis anos, e na sua turma a expectativa é grande em torno de uns girinos que estão na oficina de pesquisa e experiências. Mas, um dia, um dos girinos aparece morto e, por conta disso, a discussão, na roda, é animada. A solução: comunicar o fato por escrito:

“Marita, nós pedimos para você, precisa comprar comida para os girinos, porque os girinos estão morrendo sem comida”.
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A paixão pelo futebol e o trabalho desenvolvido pela turma também se mostra forte na escrita de Vitor que, com apenas cinco anos, faz a sua lista de coisas do futebol e ainda arrisca uma comunicação com um dos ídolos deste esporte: “Pelé, eu gosto de você e quero que você vem aqui em Viçosa para me ensinar a jogar Futebol”.

Assim como Mayana, Miguel e Vitor, as crianças que vivem numa sociedade grafocêntrica e convivem com uma cultura letrada ensaiam suas experiências de leitura e escrita de forma curiosa, investigativa e até ousada. Nem sempre “pedem permissão” aos adultos alfabetizados para tentarem entender o que esse novo objeto de conhecimento representa. Quando Mayana fala da rosa que colheu no jardim, da “ROZA, XEROZA, GOSTOZA”, ela transpõe para a expressão escrita aquilo que ela aprendeu antes de forma sincrética, pelos sentidos. Quando Miguel descobre uma maneira de dizer que é preciso tomar providências “porque os girinos estão morrendo sem comida”, ele tem consciência da força que o pedido por escrito tem num ambiente fortemente mediado pela escrita, que é a escola. Já Vitor expressa, por meio do texto, um desejo tão forte e, na sua fantasia, tão simples de se realizar, como a vinda de seu ídolo “AQI EIN VISOSA”
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Carlos Henrique e Kalina, mesmo com 4 anos apenas, reagem sabiamente diante de uma folha dividida em dois espaços. Numa das partes “desenham”, na outra, “escrevem”, embora nenhuma das representações seja convencional. Amanda, com apenas 3 anos, faz a sua tentativa e diz: “Eu fiz escrita e desenho”, anunciando a sua compreensão acerca destas duas formas de expressão.
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Betina tem 4 anos e convive com os pais, que são alunos de uma universidade. Ambos estão escrevendo suas dissertações de mestrado, enquanto a pequena Betina também experimenta a sensação de “fazer um trabalho”. Chega eufórica à escola com uma folha de papel pautado no qual se lê a seguinte anotação1:
“No estudo da divergência genética foram utilizadas técnicas combinadas da Análise Multivariada. Estas técnicas apresentam procedimentos para avaliar …”. Betina diz: “Mamãe começou e eu terminei”.
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Que significado e que tipo de relação com o mundo da escrita estão construindo estas crianças? Quero chamar a atenção para a produção da escrita como forma de expressão, de construção de significados, de representação que o ser humano pode desenvolver e que, muitas vezes, é impedida por inúmeros fatores: sociopolíticos, sociais e principalmente pedagógicos. A construção do ser humano, como ser social e cultural, se faz na capacidade de forjar símbolos, porque símbolo é o que significa e, de certa forma, ordena o real. A escrita é, talvez, o sistema de símbolos mais complexo e convencional que a humanidade construiu.

A história nos mostra a necessidade que temos de registrar nossa vida por meio de diferentes formas e materiais. Já o ser humano primitivo, por meio de pictogramas, deixou sua história gravada na parede das cavernas. As crianças nos mostram esta mesma necessidade pelos seus rabiscos, seus desenhos e suas escritas, nas paredes, nos brinquedos, nos papéis. Isto porque estão inseridas numa sociedade grafocêntrica, em que as relações são intensamente mediadas pela escrita.

Se algumas escolas não transformarem esta atividade em tarefa árdua e enfadonha, a escrita poderá ser vivenciada pela criança, de forma lúdica e prazerosa, como meio de acesso e ressignificação de culturas. É valioso poder emoldurar momentos significativos por meio da escrita, ligados a acontecimentos verdadeiros e plenos de emoção, mesmo que faltem elementos formais da escrita ortográfica, espaços entre as palavras, pontuação, omissão ou troca de letras.

Existe no sujeito uma necessidade de escrever, de dar forma e sentido às imagens, aos sentimentos, às idéias, de objetivar aquilo que parece caótico, desordenado, de dizer algo para si e para os outros. Essa escrita verdadeira é invariavelmente afastada da escrita escolar em que predominam as marcas da correção, do treino, do traçado legível das letras em detrimento do sentido que pode ter para uma criança escrever sobre si, sobre sua vida, tornar-se autora da sua história.

Valorizar a expressão infantil
Luiza, aos 5 anos, preocupa-se em transpor para o papel a sonoridade da língua. Está descobrindo que nem sempre a mesma letra possui o mesmo som nas palavras; então, arrisca o uso do til para apontar essa diferença. “A menina estava passeando quando o cachorro pulou do muro e jogou o sorvete no chão. A menina ficou a vida toda brigando com o cachorro. Fim feliz”.
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André fala de si, das suas luvas e do sentido que possuem no compartilhamento das amizades. Revela-se pela escrita, mostra como se sente em relação às luvas, artefato diferente, provavelmente estranho ao ambiente escolar, ao objeto da cobiça dos colegas e merecedor desta escrita. André utiliza-se de um recurso, comum às crianças que estão resolvendo os usos que fazem dos sinais convencionais da escrita, que é o de colocar um ponto para separar as palavras entre si. Percebe-se também a utilização de pronome para se referir às luvas, misturando a linguagem coloquial com o que poderíamos chamar de linguagem formal. “Eu tinha um par de luvas e com essa luva eu ia pra escola. Meus amigos estavam querendo usá-las e o Guilherme toda hora queria usá-las. Eu vinha com elas e jogava futebol”.

Célestin Freinet, educador francês, ferido e profundamente marcado pela I Guerra Mundial, ao iniciar suas atividades pedagógicas em 1920, percebe que as crianças possuem necessidades vitais que precisam ser respeitadas. Ao romper com as estruturas do ensino formal e propor uma pedagogia voltada para a livre expressão, Freinet abre caminho para verdades que ainda temos medo de encarar. Cabe observar que Freinet introduziu no espaço escolar os recursos técnicos da época, como o tipógrafo, que permitiu desenvolver a imprensa escolar e dar sentido à produção escrita das crianças, uso dos recursos que a modernidade oferecia privilegiando, acima de tudo, o ser humano. Ele acreditava que não há vida separada da escola; as crianças vivem a vida; a escrita é a expressão livre da criança, é a tradução da alegria, da preocupação, da emoção, dos acontecimentos em formas e estilos diversos.
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A descoberta da escrita
Como potencializar a dimensão estética da escrita considerando, sim, que desenhos e escritas possuem diferenças, e que nem sempre uma forma pode dispensar a outra, porque escrita e desenho não precisam se separar no decorrer dos anos. Manter a poética da representação da vida, embora nem sempre possamos mantê-la na própria vida, deveria ser uma das mais importantes metas da escola. Escrever e ler coisas que tocam a alma, que alimentam a criação e estimulam a invenção de novas formas de ser, fazem diferença no mundo. Acredito que, com a escolarização tornando-se cada vez mais sinônimo de competência, de aceleração de conhecimentos de uma cultura escolar, não podemos esquecer o que dizia Freinet. É preciso buscar o sentido verdadeiro da escrita e da leitura na escola. Partir da atividade espontânea das crianças; partir de suas atividades mentais, de suas afeições, de seus interesses, de seus gostos predominantes; partir de suas manifestações morais e sociais tais como se apresentam na vida, todos os dias, segundo as circunstâncias, os acontecimentos previstos ou imprevistos que sobrevêm, eis o ponto inicial da educação. (Freinet, 1979). Eis o suporte para as atividades de produção de textos. Respeitar as diferentes experiências infantis e transformá-las em atividades com significado, ricas de sentido, torna-se um desafio para a cultura escolar. Crianças como Juliana, Lina e seus colegas de turma fazem listas dos seus gostos.

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Eu gosto de:
Da Dani, de tomar sorvete de morango com cobertura de chocolate, de chupar sorvete de uva. Eu adoro a natureza e os bichos. De cachorro. De brincar andando na moto. Gosto do Kaco e do Leco. Que o papai faz gracinha, gosto que mi balança. Eu gosto de pescar. E também gosto de ver os cavalos. Eu também gosto de quando minha mãe faz torta de morango de… Eu gosto da minha cachorra e ela se chama SASCHA e eu também gosto do meu outro cachorro e eu também gosto da minha mãe e do meu pai. Ganhar presente que os meus avós dão.
Juliana, 6 anos

Enquanto isso, crianças como Alfredo e Gabriel brincam com as peripécias da “Bruxinha”, de Eva Furnari2, deslocando seus quadrinhos e criando textos para os seus desenhos, ou seja, fazendo leituras de imagens. Embora os dois meninos não possuam um mesmo entendimento de como se estrutura a nossa língua portuguesa em toda a sua complexidade, podem expressar o que entendem ou o que lhes faz sentido, mesmo que para isso não se utilizem de todos os signos em sua ordem.

Podemos muito bem ler o que Alfredo escreve, mesmo que utilize “FS” para grafar FEZ, ou que utilize as letras “ MAGCA” para escrever MÁGICA e “CDRA” para CADEIRA. Crianças, mesmo pequenas, demonstram que a escrita pode ser um ato de prazer, de surpresas, que muitas vezes passam despercebidos pelos professores tão preocupados com a certeza, com o acerto, que não conseguem acompanhar a aventura da descoberta.
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Pedro, 5 anos, ainda está explorando sua capacidade de representar o mundo por desenhos como este, cujo traço revela um ônibus cheio de bancos viajando pelo mundo da sua imaginação. Logo acima, escreve: “OIUIF~” e lê: “Ônibus infantil”. É gratificante perceber que Pedro ainda não consegue um resultado de escrita nos moldes adultos, mas já é capaz de perceber que um til pode ser uma parte de uma palavra. Brincar com palavras é poesia, é poder movimentar imagens, memórias, transformando palavras em linguagem viva, fecunda, aberta a outras formas e sentidos. Para Gaston Bachelard3 (2001), isso só é possível graças à imaginação, que pode nos liberar da realidade e permite-nos experimentar o lirismo tão necessário à vida. Bachelard afirma: Para bem sentir o papel imaginante da linguagem, é preciso procurar pacientemente, a propósito de todas as palavras, os desejos de alteridade, os desejos de duplo sentido, os desejos da metáfora (2001). As crianças vivem no mundo da poética movendo-se de maneira leve, solta, até serem engessadas pelas próprias palavras e seus significados.
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Gabriela, 6 anos, resolveu fazer um livro. Seu livro compunha-se de duas partes: a capa e uma folha interna com a sua pesquisa. Ela demorou um bom tempo para realizar a obra, mas partindo da sua vontade e interesse, viveu uma aventura pelo mundo das palavras.

A poesia da escrita
Dificilmente encontraremos a base para este tipo de trabalho nos receituários de ensino, nos métodos ou cartilhas, pois está assentado em algo bem mais profundo, em uma proposta de educação voltada para a pedagogia da interação e da livre expressão, para o desenvolvimento da autonomia, da cooperação, da criatividade, para o desenvolvimento construído na ação e na relação. Corações e estrelas podem substituir os pingos dos “is”, “jotas” podem se parecer com gatos, mesmo que não façam parte da grafia deles. Coroas e sóis precisam brilhar entre as duras letras que a escola nos apresenta e muitas vezes nos faz repetir de maneira mecânica.

Aprendemos cedo a “fala” dos desenhos nos dizendo que um coração vem sempre acompanhando atos de afeto entre as pessoas, que estrelas não estão somente no céu, mas fazem também brilhar os olhos, e que mesmo que a escola nos ensine a grafia correta das letras, faz diferença endereçar uma mensagem cujos entre-lugares das letras estejam repletos de metáforas, recheados de sentidos. Por isso, Poliana, aos 5 anos, já é capaz de fazer um poema e afirmar que não bastam somente as coisas da terra e do ar para que uma planta se transforme em flor: é preciso “DI AMOR”.

A poesia da flor
A flor precisa de água
E precisa de terra
E precisa de amor
È tudo que precisa
Para uma flor
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Pena que nem sempre consigamos continuar brincando com as palavras depois de passarmos pela escola. Só alguns conseguem guardar suas estrelinhas e corações para continuar arriscando viver num mundo com as palavras ao contrário. Mas para isso precisam acreditar que existe “uma cidade muito grande”, onde o imprevisível ainda pode acontecer, como na história da Narah, de 7 anos.

O cachorrinho falante
Era uma vez uma cidade muito grande. E na cidade tinha um cachorro que só sabia latir. Um dia um homem pegou o cachorro e fez o cachorro falar. E todo mundo ficou falando:

– Olha, olha só um cachorro que fala! E o cachorro virou um artista. E o cachorro ficou feliz para sempre. Fim.

A coletânea de textos produzidos por essas crianças nos ajudam a desvendar a artistagem das escritas, não raras vezes encoberta pela linguagem convencional que aprendemos a ver, ouvir e repetir. Talvez precisemos mudar as formas de linguagem para falar outras línguas, deixando que nosso lado sensível aflore, nos tire da anestesia da convecionalidade, para dar voz à poética da infância. Quando as crianças mantêm uma relação significativa com o objeto de conhecimento, sabemos que a escrita se mostra muito mais reveladora. Estas crianças estão trabalhando para além das diferentes funções sociais da escrita e, neste contexto, as questões ortográficas se tornam irrelevantes. Estão descobrindo que, mesmo sem dominar a forma convencional de escrita, são capazes de registrar suas experiências de maneira criativa, sem pressão, sem massacre, sem modelos estereotipados e estéreis. E o mais importante: estão descobrindo que suas experiências cotidianas merecem ser registradas em papel. Então o ato de escrever se transforma numa aventura que vale a pena ser vivida.

(Marita Martins Redin, professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos – São Leopoldo – RS)

1 Esse material foi recolhido na década de 1980, tempo em que os pesquisadores ainda se utilizavam de rascunhos para escrever seus textos, posteriormente digitalizados ou datilografados.
2Escritora e ilustradora de livros infantis.
3Filósofo e ensaísta francês
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Ficha técnica

O texto original foi publicado no Jornal “Folha da Mata”, de Viçosa, Minas Gerais, em 1993, a partir das reflexões sobre a proposta
pedagógica do Centro Educacional Monteiro Lobato, Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental. Este artigo é um recorte da
minha tese de doutorado sobre as memórias dos ex-alunos dessa escola.

Para saber mais

  • A terra e os devaneios da vontade. Ensaio sobre a imaginação das forças, Gaston Bachelard. Ed. Martins Fontes. Tel.: (11) 3241-3677
  • O itinerário de Célestin Freinet: a livre expressão na pedagogia de Freinet, Élise Freinet. Ed. Francisco Alves. Tel.: (11) 2240-7989
  • Formando crianças leitoras. Josette Jolibert e colaboradores. Ed. Artes Médicas. Tel.: 0800 559033

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Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #34 de abril de 2008. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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