Investigando contextos de formação do leitor

Crianças de quinto ano revelam sua trajetória como leitoras e a importância de alguns influenciadores: escola e família
Desenho: Pedro Melo Valim de Camargo

Desenho: Pedro Melo Valim de Camargo

Os resultados da mais recente pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”1 confirmam que os leitores mais experientes que convivem com crianças têm papel fundamental no ensino de comportamentos leitores, promovendo o contato com livros e a formação do repertório cultural dos leitores em formação. É deles a responsabilidade de mostrar às novas gerações o sentido e as características da linguagem escrita, e isso acontece de diversas maneiras. Por exemplo, servindo como modelo e inserindo-as em práticas de leitura. Assim, fica evidente a importância da participação da família e da escola nesse processo, que começa mesmo antes de a criança ler convencionalmente.Continue lendo >

Educação musical território para a produção infantil

Integradas com o ambiente e a cultura, as crianças interagem com sons e músicas, escutando, reproduzindo e criando

O ser humano interage com os sons, os silêncios e a música em sintonia com seu modo de perceber, pensar, sentir, conhecer… enfim, em consonância com sua maneira de ser e estar no mundo. Como uma das manifestações da consciência, a realização musical – jogo de sistemas sonoros simbólicos – reafirma a condição de integração entre o ser humano e o ambiente, bem como entre a natureza e a cultura.

Por isso, é sempre bom lembrar que o fazer musical não é privilégio dos músicos1, realizando-se de maneiras e por motivos diversos, com diferentes níveis de competências, conhecimentos, possibilidades e recursos. Os sons e silêncios, no continuum tempo-espaço, revestidos de sentidos e de significados, mantêm-se à disposição de músicos e não músicos. Basta manter-se disponível para produzi-los ou escutá-los.Continue lendo >

A constituição de si mesmo e dos objetos

A permanência dos objetos – construção fundamental das crianças em seu primeiro ano de vida – pode estar na origem da arte e da ciência
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Fotos: Pedro Caetano

Olhar, segurar, sugar, são algumas das ações dos recém-nascidos sobre os objetos a sua volta. Estes objetos são assimilados ao eu do bebê, como prolongamento de suas ações, sem que ele tenha ainda consciência nem da realidade, nem de si próprio. Mas os esquemas, como de preensão, por exemplo, vão se diferenciando e organizando em função das experiências que a criança realiza com os outros seres ou objetos que compõem parte da realidade em que ela vive. Em torno de um ano de idade, com a possibilidade de se deslocar — seja engatinhando ou andando – meninos e meninas assimilam os objetos ao próprio eu e, ao mesmo tempo, acomodam-se a leis causais que favorecem sua localização no espaço e no tempo. Crianças muito jovens adoram brincar de esconde-esconde! A cada vez descobrem novas relações entre as coisas do mundo e elas próprias.
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Revista Avisa lá #38

Pensamento sincrético em conversas infantis

Compreender as falas das crianças é tarefa fundamental dos profissionais da educação infantil
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Luciano, 5 anos (borboletas vermelhas) / Ingrid, 5 anos (borboleta azul)

Neste artigo, são apresentadas análises de conversas entre crianças de 4 a 6 anos1, todas elas apoiadas nas teorias do psicólogo e filósofo francês Henri Wallon (1879-1962) e do psicólogo bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934) sobre o pensamento sincrético e suas manifestações, já que é precisamente entre 3 e 7 anos que esse pensamento se evidencia em crianças. Esse tema foi escolhido pelo interesse que as falas dos pequenos podem despertar em quem os observa ou os acompanha. Antes, porém, uma rápida explicação.

Sincretismo é uma qualidade do pensamento infantil, que imprime à linguagem características únicas, bem próximas da estrutura poética. Por essa razão, parece legítimo refletir sobre como os adultos atuam diante dessas manifestações. Tive a oportunidade de observar diferentes rodas de conversas, de participar de algumas delas e de elaborar outras tantas durante os três anos de faculdade. Esses momentos foram possíveis por conta dos estágios de observação, pela possibilidade de acompanhar a elaboração dessas aulas pelas professoras dos cursos e, mais recentemente, pela minha atuação como professora de Educação Infantil.

Com isso, pude observar maneiras e procedimentos distintos de educadores ao conduzirem as conversas propostas à roda, estimuladas pelos mais variados acontecimentos cotidianos tão característicos dessa etapa da educação: o desenvolvimento de projetos, interesses compartilhados entre as crianças ou novidades, temperados pela individualidade de cada participante. Sentia certo incômodo ao ver desperdiçadas ou descartadas falas infantis interessantes apenas por parecerem fora de contexto ou por suscitarem dúvidas quanto à sua veracidade. E ao tomar conhecimento acerca das características do pensamento sincrético, minha inquietação aumentou.Continue lendo >

Com a mão na massa

A imaginação criadora pode ser apoiada pelo trabalho experimental com substâncias diversas, tais como água, areia, terra, sempre bem-vindas em processos educativos

Sonhei que eu dirigia uma caminhonete D-20, e minha avó estava sentada ao meu lado. Íamos por uma estrada de terra paralela ao asfalto, a praia à nossa esquerda. Era um domingão, muitos automóveis, e eu que, entretanto, queria levá-la para ver as casas, as igrejas antigas e, especialmente, os lindos turbantes de chitão colorido usados por jovens moças e rapazes, tomo uma via perpendicular à rua da praia, avenida de terra larga e barrenta, um barro vermelho, denso, em que a caminhonete ia derrapando para lá e para cá e não se via o fim, como numa transamazônica. Lá em cima da estrada (que era plana…), formando ângulos improváveis, entreviam-se praias, a da esquerda com mar bravio, grandes ondas batendo em rochedos, a espuma do mar planando nas alturas; uma outra, à direita, com mar azul turquesa, calmo, brilhante, convidativo.
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Sincronicidade

Ao contrário do senso comum, as crianças pensam de forma complexa e não linear
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Desenho feito por Martin (arquivo pessoal de Monique Dehenzelin)

Estamos bastante acostumados, na vida e na escola, a uma noção de tempo diacrônica, segundo a qual organizamos os fatos à nossa volta em relações de causa e efeito. Ensinamos a criança a ler e escrever. Em breve, ela aprenderá e se tornará letrada. Cuidamos bem de um bebê. Logo, ele se mostrará grato e se sentirá bem. Entretanto, outras civilizações, como a chinesa, concebem o tempo de modo sincrônico. Assim, acontecimentos interligados no tempo e no espaço são significativos para uma pessoa que participe deles e isso abre possibilidades para conhecimentos que diferem e ultrapassam a razão racionalista, digamos assim. Eles conjugam razão, intuição, sensação e sentimento, e quem os experimenta se aproxima da sabedoria e não apenas acumula informações culturais.
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Escrever é uma aventura que vale a pena

Um olhar sensível e informado sobre as primeiras escritas; preocupado com a autoria e construção de significados pelas crianças

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Produções feitas pelos ex-alunos do Centro Educacional Monteiro Lobato, atual Coeducar – Viçosa – MG

Numa tarde ensolarada de domingo, Mayana, com seus cinco anos e meio, apanha uma rosa no jardim, arruma-a com cuidado num vaso com água, leva-a para o quarto, em seguida pega um papel e com os olhos brilhando, realiza a seguinte escrita:Continue lendo >

Só vê quem sabe

É comum uma família receber queixas da escola sobre o aluno que mora em área rural. Muitas professoras possuem preconceitos em relação a essas crianças e, ignorando seus saberes, não conseguem fazê-los avançar naquilo que desconhecem. Mas isto pode ser muito diferente, como mostra este artigo
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Matheus e sua avó

Matheus, para a família, nasceu no dia 6 de setembro de 1997 em Campinas, São Paulo. Desde então mora em Santa Maria da Serra das Cabras, Joaquim Egídio – um subdistrito de Campinas, com o irmão Ronei, a mãe Alessandra, os avós Ana e Benedito (o Ditão) e o tio Tidão. A primeira imagem sua que me assoma são cachos dourados e grandes olhos verdes iluminando o sorriso, que me levaram a pintar um São João, a partir de uma história de seu avô Ditão. A história a seguir Matheus fez em meu computador.
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