Capacitação continuada de professores é responsabilidade de toda a comunidade

Não basta preocupar-se apenas com a questão didática na qualificação de professores. É preciso conseguir apoio da sociedade civil, poder público e entidades privadas para garantir a permanência da ação nas redes públicas. Uma professora baiana transformou a idéia em projeto e conseguiu essa façanha

O Projeto Chapada, na Bahia, teve origem no Programa de Apoio e Auxílio ao Professor: Agentes de Educação (1997-1999), que contou com a parceria do Programa Crer para Ver – uma aliança da Natura Cosméticos com a Fundação Abrinq. O objetivo do Agentes de Educação era formar professores da zona rural do município de Palmeiras (BA). Seus bons resultados, a redução em 80% no índice de evasão escolar e de 70% no índice de repetência, levaram à ampliação da proposta para todos os municípios da 27ª Diretoria de Educação Regional (DIREC 27) do Estado da Bahia. Nos anos de 1999 e 2000, já com o nome de Projeto Chapada, essa ação envolveu gestores públicos das secretarias municipais de Educação e Cultura (Semecs) de 12 municípios baianos e a sociedade civil organizada (Ongs) dos locais onde foi implementado, tais como: Associação de Pais, Educadores e Agricultores de Caeté-açú (Palmeiras), Associação Rádio Comunitária Avante Lençóis, Associação Comunitária dos Produtores de Queixada (Iraquara), Grupo Ambientalista de Seabra, Associação dos Moradores e Produtores do Lagoão (Boninal), Grupo de Educação Alternativa de Piatã, Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural de Souto Soares, Casa do Menor de Jacobina, Associação Comunitária do Brejo Luiza de Brito (Novo Horizonte), Conselho Municipal de Assistência Social de Ibitiara, Associação Barbado de Mucugê e Associação Família Agrícola de Boa Vista do Tupim.

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Portanto, além de expressivas reduções nos índices de evasão e repetência e o aumento sucessivo de alunos alfabetizados nas séries iniciais, o Projeto Chapada formou quadros de formadores locais e envolveu toda a sociedade. A revista avisa lá foi conhecer de perto essa ação transformadora do interior da Bahia e conversou com sua mentora e coordenadora, a professora Cybele Amado de Oliveira.

Analisando sua trajetória de vida, onde começou seu interesse pela Educação?
Penso que realmente essa história começou quando, aos 6 anos de idade, a diretora da escola onde eu estudava, em Salvador, procurou meus pais e disse que eu jamais aprenderia a ler e a escrever, pois tinha “algum problema na cabeça”. A escola usava um método tradicional baseado na fonetização. A cartilha em questão, ao invés de ajudar, me atrapalhava. Minha mãe, apesar da origem humilde, era uma mulher bem informada e procurou, no grupo religioso do qual fazia parte, uma psicóloga que pudesse me ajudar. O diagnóstico informava que eu possuía dislexia leve. Atendida por essa profissional, logo o problema não existia mais. Até hoje tenho dúvidas a respeito do diagnóstico. Teria mesmo dislexia ou fui vítima de uma metodologia ineficaz? Hoje sei que o método fonético utilizado na escola para alfabetizar desrespeita os processos próprios das crianças construírem conhecimento sobre a escrita.

Que influências esse acontecimento pessoal teve em suas escolhas na carreira profissional?

Anos mais tarde fiz Pedagogia na Faculdade de Educação da Bahia e pós-graduação em Psicopedagogia. Estava decidida a ajudar crianças que eram taxadas como aquelas que jamais aprenderiam a ler e escrever. Fui professora voluntária, trabalhei com Educação Infantil até integrar a Rede Pública de Educação do Estado da Bahia. Em 1992, deixei a capital baiana para morar no Vale do Capão – zona rural do município de Palmeiras (BA), que fica a cerca de 400 quilômetros de Salvador –, na região da Chapada Diamantina. Como professora concursada, comecei lecionando Língua Portuguesa para alunos de 5ª a 8ª séries numa escola de 1o grau da vila de Caetéaçú, no Vale do Capão. Percebi que, apesar de anos de escola, alguns alunos, entre 14 e 20 anos, tinham muita dificuldade na leitura e na escrita. Não conseguiam compreender o que liam nem produziam um texto de autoria. Com o atendimento que passei a dar, todos aprenderam a ler e escrever. Algumas dessas alunas são hoje professoras, vice-diretora e diretora da escola.

Qual impacto esse trabalho teve na escola e na região de Palmeiras?

Para evitar que as crianças chegassem à 5ª série sem saber ler e escrever, iniciei também um trabalho voluntário com as crianças de 1ª a 4ª séries que a escola selecionou como as que não aprendiam. Verifiquei que a questão estava na prática metodológica dos professores e obviamente na formação dos mesmos. Criei inicialmente o projeto Programa de Apoio e Auxílio ao Professor. Seus resultados geraram em outros municípios o desejo da implantação de um programa nos mesmos moldes, que foi desenvolvido durante um ano, numa construção itinerante e coletiva e que resultou, posteriormente, no Projeto Chapada.

Quais são os pontos básicos do projeto responsáveis pelo seu sucesso?

O primeiro deles, indiscutivelmente, é a ligação entre a formação e o contexto de trabalho do professor, isto é, a sala de aula. Toda a metodologia é baseada na análise e reflexão da prática com aprofundamento teórico. Outro ponto importante é que os professores participam de um processo de formação continuada, dirigido por coordenadores, que por sua vez participam de oficinas pedagógicas mensais, com a coordenação do projeto e com formadoras especialistas em leitura e escrita. Assim, todos os participantes estão em processo de formação permanente.

Os professores são regularmente acompanhados em sala de aula pelos coordenadores pedagógicos, fazem parte de grupos de estudos, participam de discussões sobre a própria prática, por meio de filmagens de sua atuação em classe, que são realizadas pelos coordenadores. Estas atividades são intramunicipais. Há também a participação em ações intermunicipais por meio de seminários, palestras e encontros do projeto. Outro aspecto a destacar é o envolvimento das comunidades locais por meio de suas organizações da sociedade civil, dirigentes públicos de Educação, prefeitos, pais de alunos e ainda as parcerias com a empresa Natura e a Fundação Abrinq. Há nessa região da Bahia uma rede de municípios que, juntos, com apoio externo, estão criando um compromisso real com a aprendizagem das crianças e com a qualidade do ensino.

Como é feita a avaliação desse processo de formação?
A avaliação também é continuada e feita por meio dos estudos da evolução da aprendizagem dos alunos. Há uma avaliação inicial e depois a cada três meses. Coordenadores, professores e estudantes são participantes ativos do processo. Assim, podemos reformular as ações que não estão indo bem e modificá-las a tempo. Em 2004 participaram do projeto 28 mil alunos, 1,5 mil professores, 73 diretores e 93 coordenadores.

Quais os resultados mais significativos após todos esses anos de investimento na Educação da região?

Em relação aos dados quantitativos são sem dúvida, aqueles ligados aos índices de crianças alfabetizadas, que foram crescendo de ano a ano. E os de evasão escolar, que foram se reduzindo, também à medida que o projeto ia evoluindo. Em relação aos aspectos quantitativos, a avaliação feita pelos participantes enumerou uma série de conquistas que consideram os diferentes atores.

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Resumindo, podemos dizer que, para os diretores das escolas, o ganho foi relacionado a uma gestão mais eficiente, que oportunizou o trabalho coletivo e o desenvolvimento em equipes das escolas para alfabetizar com maior qualidade. Considerando os coordenadores pedagógicos, é visível o aprofundamento dos conhecimentos sobre alfabetização e também a respeito do seu papel de formador. Isto possibilitou intervenções mais adequadas na ação dos professores, o que resultou em práticas pedagógicas mais eficientes e maior legitimidade em sua função formativa.

Quanto aos professores, o projeto possibilitou avanços na compreensão dos processos de aprendizagem dos alunos em relação à leitura e à escrita, e conseqüentemente houve melhoria das práticas de ensino. Os alunos lêem e escrevem com mais proficiência, o que resultou em avanços também na escolarização de modo geral. Como estão mais produtivos, ficam mais integrados ao processo escolar, o que influi também em maior assiduidade às aulas. Em relação aos pais e à comunidade, houve um aumento significativo da participação e interesse nos assuntos da escola e na aprendizagem dos alunos. Há também um envolvimento maior nas questões políticas e administrativas que interferem diretamente na qualidade do ensino. Mas, sem dúvida, o compromisso dos gestores públicos foi um ganho expressivo do projeto.

Como vocês conseguiram a adesão dos prefeitos e candidatos às propostas de Educação?

Organizamos em 2004, 12 fóruns (realizados no período anterior às eleições com a participação dos candidatos tanto da situação quanto da oposição, e com a participação de professores, coordenadores, alunos, diretores, secretarias, comerciantes, líderes religiosos e associações) nos municípios com objetivo de levantar propostas em prol de melhorias na qualidade da Educação. Além disso, os políticos assinaram um compromisso com as demandas e propostas do projeto. Penso que essa ação é inédita no País e pode servir de exemplo para outras regiões. Isto evitaria a descontinuidade administrativa, tão nociva para a Educação.

Quais são os planos do Projeto Chapada para o futuro? Há uma fase dois?

Pretendemos formar formadores locais – hoje esses formadores vêm de fora – que acompanhem e apóiem o trabalho dos coordenadores pedagógicos dos 12 municípios participantes do Projeto Chapada, visando à sustentabilidade da formação continuada de professores e, cada vez mais, à melhoria da qualidade dos processos de ensino e aprendizagem dos alunos.

Pensamos também em capacitar gestores (prefeitos, secretários municipais de Educação, diretores escolares e associações) visando otimizar a sua inserção no processo técnico-pedagógico- administrativo, qualificando-os para a mobilização de redes e parcerias com os atores sociais dos municípios. Temos ainda a intenção de sistematizar a metodologia. A expansão para outros municípios além da Chapada Diamantina já é hoje uma realidade. Iniciaremos o projeto em mais dez municípios (Itaberaba, Utinga, Cafarnaum, Marcionílio Souza, Itaetê, Bonito, Wagner, Andaraí, Ouriçangas, Iaçú), formando dois núcleos: um com sede em Itaberaba e o outro com sede em Utinga. O município de Ouriçangas já faz parte da região do sertão da Bahia. Assim, ultrapassamos as fronteiras.

Chapada Diamantina

A Chapada Diamantina, região central da Bahia, é uma cadeia montanhosa que começou a ser habitada em 1822, quando naturalistas registraram a presença de diamantes. A partir de 1844, com a descoberta de importantes veios diamantíferos no rio Mucugê, a chapada virou ponto de interesse de exploradores do valioso minério. Também foi área de produção agrícola cujos produtos (café, uva, marmelo, mandioca) eram vendidos nos grandes centros. Com a diminuição da produção de diamante e a erradicação dos cafezais, a área foi esquecida pelos poderes públicos e a decadência econômica foi inevitável. Há cerca de 20 anos vem ocorrendo um processo de recuperação da Chapada Diamantina, graças aos investimentos em agricultura e, principalmente, à descoberta do turismo ecológico e de aventura na região.

Mais informações

Escola Municipal de 1o Grau de Caeté-açú – Rua do Ginásio, 150 – Vale do Capão – Palmeiras – BA. CEP: 46930-000 – Tel.: (75) 3344-1010. E-mail: [email protected] Coordenadora do Projeto Chapada: Cybele Amado


Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #22 de abril de 2005. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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