Homens das cavernas: uma viagem no tempo

Crianças de 4 a 5 anos recriam a seu modo, e com as informações de que dispõem, um ambiente pré-histórico. Felizes, encenam atos para compor um filme de vídeo a ser apresentado aos pais

tempo14

Logo nos primeiros dias após as férias, as crianças me questionaram sobre o que iríamos “estudar”: “Andréa, de tarde a Rosane disse que a gente vai estudar o Japão. E de manhã, o que a gente vai estudar?”. Retomei com eles a proposta firmada no semestre anterior de produzirmos uma fita de vídeo sobre os homens das cavernas. Para tanto, precisaríamos saber mais sobre o assunto e este seria, portanto, nosso projeto de estudo. Imediatamente uma criança protestou: “Mas a gente já estudou isso! A gente leu o livro do Rupi!”.

Eu concordei com o protesto, mas disse que durante as férias a escola adquirira vários livros novos superinteressantes que mostravam muito mais coisas do que a gente havia visto. Curiosos e interessados que são, empolgaram-se com a notícia e disseram: “Você traz amanhã pra gente ver?”.

A fim de retomar com as crianças que já eram do grupo no primeiro semestre e cativar os novos integrantes para o assunto, reli o livro Rupi, O Menino das Cavernas, de Timothy Bush. Ouviram e vibraram com o mesmo entusiasmo da primeira vez.

avisala_23_tempo16.jpg

Povos primitivos usando roupas de peles de animais

Iniciamos o projeto a partir desta leitura, da observação das imagens dos livros que levei para a sala e do levantamento sobre o que já sabiam a respeito dos povos pré-históricos. Neste momento inicial o objetivo era despertar o interesse e a curiosidade do grupo e, também, que eles pensassem sobre o assunto, observassem as imagens e formulassem perguntas, imaginando e defendendo hipóteses. Esse foi o resultado:

Profa: O que já aprendemos sobre os homens das cavernas?
Criança: Que eles tinham que caçar bichos para comer.
Profa: Por quê?
Criança: Porque eles não tinham dinheiro para comprar.
Criança: Eles usavam roupas de peles de animais.
Criança: Porque eles gostavam!
Criança: Pra ficar bonito.
Criança: Eles não sabiam fazer vestido, calça, meia, roupas assim.
Criança: Eles faziam desenhos nas cavernas.
Criança: Eles moram nas cavernas.
Profa: Eles ainda moram lá?
Criança: Não, eles não existem mais!
Criança: Existe sim!
Profa: Existem ou não existem?
Criança: Não existe, eles viraram pessoas!
Profa: Como você ficou sabendo disso?
Criança: É verdade, foi a minha mãe que me contou, eles foram morrendo e virando pessoas.
Criança: É verdade Andréa?
Criança: Como assim, professora?
Criança: A sua mãe já estudou isso?
Profa: O que vocês acham disso?
Criança: (silêncio)

Esta conversa e a controvérsia de opiniões gerou uma questão intrigante que se tornou o ponto de partida para o nosso trabalho de pesquisa. O grupo ficou visivelmente surpreso com a colocação do amigo e, naquele momento, não quiseram lançar hipóteses sobre o assunto. Eu sugeri que pensássemos sobre aquilo e retornássemos a conversa em um outro dia.

Meu objetivo com o estudo sobre os homens das cavernas era o de exercitar com as crianças um olhar sobre a cultura de um povo diferente, inserida em um contexto histórico e social específico. Como não haviam formulado hipóteses a respeito da colocação do colega, eu levei para a roda de conversa a figura de um hominídeo já observada por eles, para que servisse como um disparador de idéias.

avisala_23_tempo18.jpg

primeira visão do fogo

Mostrei, então, o livro Povos Primitivos, no qual se encontra tal figura, na tentativa de ajudar o grupo a resolver a questão colocada anteriormente. Em seguida, perguntei para as crianças o que parecia aquilo. As hipóteses foram:

Criança 1: Acho que é um homem que tomou uma poção e ficou assim. (todos riram) Criança 2: Eu acho que ele comeu alguma coisa que não podia comer e tomou alguma coisa que não podia tomar.
Criança 3: Ele tomou feitiço.
Criança 4: A bruxa foi na caverna dele, deu uma poção e ele virou isso.
Criança 5: O vampiro foi lá e deu um feitiço.
Criança 6: Eu acho que é só uma fantasia.
Criança 2: Ele está parecendo um macaco, porque antes de ser homem da caverna ele era macaco, a minha mãe que me disse!

As hipóteses foram divertidas e apresentaram um pensamento característico da faixa etária, que não separa o raciocínio da imaginação. Em meio a estas hipóteses surgiu uma que, mais uma vez, causou espanto: “Antes de ser homem da caverna ele era macaco”.

Criança: O que ele disse?
Criança: É verdade, professora?

Para responder à questão pesquisamos em um CD-ROM e em livros que apresentavam a Teoria da Evolução1, de Darwin2, com ilustrações sobre a escala de evolução humana. Enquanto eu lia para o grupo o que os livros e o CD-ROM continham, surgiu uma avalanche de questões como: “O nenê dos homens das cavernas eram macacos?”, “A gente já foi homem da caverna?”, “Por que ele anda abaixado?”, “Por que ele está sujo, ele não tomava banho?”, “Existia criança da caverna? E mulher da caverna?”, “Do que as crianças brincavam?”.

Foi então que percebi que o homem da caverna ganhara um novo significado para eles. A teoria da evolução pareceu fazer sentido para a maioria das crianças. Nas brincadeiras de jogo simbólico pude perceber a naturalidade com que lidavam com esta questão. Certo dia, enquanto brincavam na “caverna” (uma caixa de papelão ambientada com pinturas rupestres), presenciei a conversa de algumas crianças dizendo:

Criança 1: Eu vou ser um macaquinho nenê, eu ainda não tinha virado homem da caverna.
Criança 2: Então você não pode morar aqui na caverna.
Criança 1: Tá bom, então eu já morri e nasci nenê da caverna.

Exposição das casas e figurinos pré-históricos

Exposição das casas e figurinos pré-históricos


Pré-produção do filme

O projeto começou a ter mais vida e significado para eles quando iniciamos a discussão sobre a produção do filme. Com todo o conhecimento que adquiriram enquanto apreciadores de filme e vídeos, listaram com facilidade o que precisaríamos para realizá-lo: fantasia de roupa, caverna, bichos de papel, música do bem contra o mal, escolher quem vai ser do bem e quem vai ser do mal e a história.

Foi durante a criação da história, a organização do roteiro, a confecção do cenário e das fantasias que surgiram novas questões e que foram sendo pesquisadas no decorrer do trabalho. Ao nos defrontarmos com a teoria da evolução estávamos diante de diversos grupos de hominídeos primitivos.

Portanto, precisávamos descobrir quais deles eram habitantes das cavernas para que pudéssemos pensar na caracterização e nas fantasias. Para isso, além das informações dos livros, assistimos ao filme A Guerra do Fogo, que retrata e caracteriza vários grupos primitivos.

O filme foi um material muito rico, ao qual nos reportamos diversas vezes durante o projeto. Outras questões chamaram a atenção do grupo, entre elas o domínio do fogo, a postura, os hábitos, os costumes, as vestimentas e o cenário da época.

A paixão do grupo por animais levou-nos a um trabalho de pesquisa mais intenso e rico. Além de pesquisarmos sobre os animais da época para definirmos quais contracenariam com os homens das cavernas, confeccionamos máscaras e réplicas com papel machê, para as brincadeiras de jogo simbólico. Fizemos, também, as fantasias dos animais escolhidos para o filme.

avisala_23_tempo17.jpg

Máscaras confeccionadas pelas crianças

Além dos animais, outros temas foram pesquisados, como a construção de objetos para a defesa e para a caça (armas), o domínio do fogo, a moradia, a técnica e a matéria-prima das vestimentas. Estes assuntos geraram a confecção de um Jogo de Memória Seriado. Neste jogo, eles deveriam encontrar e formar uma série de cartas que revelava a transformação de hábitos do homem em relação à confecção e à utilização de algum desses temas como, por exemplo, a moradia.

Enquanto estudávamos a cultura dos homens das cavernas, eles iam identificando e relacionando o modo de vida desse povo ao modo de vida atual, o que é interessante e natural. Procurei, na medida do possível, durante todo o trabalho de pesquisa, justificar tal cultura diante das necessidades de seu tempo histórico e espaço geográfico, possibilitando um olhar menos etnocêntrico.

Avalio que essa comparação foi positiva, pois no início do semestre, quando perguntávamos para as crianças por que o homem da caverna confeccionava roupas com peles de animais, por exemplo, eles justificavam o hábito pela falta de uma alternativa como a que eles têm hoje, isto é, dinheiro para comprar roupas. Ao final do projeto, em nossas conversas, as justificativas estavam mais contextualizadas. Diziam, por exemplo, que eles usavam roupas de peles para se aquecerem do frio.

O projeto ofereceu elementos para que as crianças pudessem conhecer e pensar sobre a existência de civilizações anteriores à nossa. Podíamos ouvi-los perguntando ou dizendo, por exemplo:

Criança: Homem da caverna não existe mais.
Criança: Quando existia homem da caverna não existia mais dinossauro.
Criança: No tempo dos homens das cavernas não existiam brinquedos?
Criança: Eles viveram há muito e muito tempo atrás!
Criança: Naquele tempo era frio, Andréa?

Luzes, câmera, ação

Toda a pesquisa nos deu embasamento para a elaboração do filme e, quando já estávamos com tudo preparado – fantasias, cenários e a história –, tive contato com um profissional de cinema e vídeo que me apontou a necessidade de um storyboard. Trata-se de um roteiro com as cenas do filme, desenhadas quadro a quadro, para melhor organização dos momentos da filmagem. Levei esta informação e o modelo de um storyboard para o grupo e montamos juntos o nosso.

avisala_23_tempo19.jpg

Filmagens do enredo roteirizado pelas crianças a partir do estudo sobre os homens das cavernas

O dia da filmagem foi aguardado com muita ansiedade por todos, mas, o clima frio não colaborava e tivemos que adiar a gravação diversas vezes. As crianças não se conformavam com o meu argumento de que não gravaríamos por estar frio e me diziam: “A gente está com calor!”. No dia que tivemos sol e calor, eles entraram na sala dizendo: “Hoje vai dar pra fazer, não é?”.

Embora as crianças, durante todo o projeto e, principalmente após confeccionarmos os objetos para o filme, brincassem com o tema, procurando elaborar o que aprendiam, após vestirem as fantasias e organizarem o cenário, tudo passou a ser, para eles, uma grande brincadeira de faz-de-conta, que agora parecia muito mais interessante.

Num primeiro momento foi impossível conter as crianças que, entusiasmadas, queriam brincar e participar de todas as cenas. Tive que me render a esta situação, deixando que eles aproveitassem este momento e, neste primeiro dia, só conseguimos gravar algumas cenas do filme.

As gravações se estenderam por mais três dias. Apesar de contar com a ajuda de outros profissionais da escola, não foi fácil ser professora, diretora de cena e manipular a câmera. Mas foi gratificante vê-los tão envolvidos e felizes, trajados de homens, mulheres e animais pré-históricos, utilizando-se da imaginação quando brincavam e das informações quando tinham que representar o conhecimento adquirido.

Algumas situações que aconteceram por trás da câmera me chamavam a atenção para esta fusão entre fantasia e realidade. Por exemplo, quando uma criança, em cena, disse que queria ir ao banheiro e outra lhe respondeu: “Agora você não pode, porque no tempo dos homens das cavernas não existia privada”.

Vendo as crianças brincarem e conversarem sobre o assunto estudado, desfruto de uma sensação de orgulho e confiança no trabalho. Acredito que, muito mais que ampliar o repertório de conhecimento de mundo social e natural, o projeto contribuiu para que eles construíssem uma visão de mundo mais ampla, integrada e relacional.

(Andréa Campidelli, Professora da Escola Criarte, em São Paulo)

1Também chamada Evolucionismo, a Teoria da Evolução afirma que as espécies animais e vegetais existentes na Terra não são imutáveis, mas sofrem ao longo das gerações uma modificação gradual, que inclui a formação de raças e espécies novas.
2Charles Darwin (1809–1882), naturalista inglês.

avisala_23_tempo15.jpg

A caixa de papelão servia de caverna

Ficha Técnica

Escola Criarte
Rua Vahia de Abreu, 696 – Vila Olímpia – São Paulo – SP. CEP: 04549-003 Tel.: (11) 3842-7277. E-mail: [email protected]
Professora: Andréa Campidelli


Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #23 de julho de 2005. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

Tags: , , , , , , ,

Trackback from your site.

Leave a comment

This blog is kept spam free by WP-SpamFree.

Fazemos Parte

Facebook

Google+