Construções lúdicas

As crianças são mestres em transformar objetos. Como em um passe de mágica, gravetos viram varinhas de condão, materiais aparentemente sem utilidade se tornam brinquedos inventivos. É possível aproveitar esse potencial infantil na escola
O tonel que virou barco

O tonel que virou barco

Os objetos utilitários, brinquedos, diferentes materiais servem como elos entre a criança e o meio. Proporcionam oportunidades para ela representar ou expressar seus sentimentos, preocupações ou interesses e se constituem em um canal para a interação social com os adultos ou com as outras crianças.

Os brinquedos industrializados de formas e funções predefinidas possibilitam um tipo de brincadeira mais dirigida. Quando as crianças brincam com objetos “menos realistas”, como muitos dos brinquedos elaborados artesanalmente, os espaços da invenção e da imaginação se ampliam, permitindo a elas transformá-los segundo sua própria ótica.

No entanto, nos dias de hoje são poucas as oportunidades que as crianças têm de criar seus próprios brinquedos. Por esse motivo, pareceu-nos que uma proposta de construção de brinquedos pelas próprias crianças seria uma experiência nova e enriquecedora. Por meio de um projeto que envolvesse planejamento e confecção de novos objetos, a partir de materiais de sucata, favoreceríamos o resgate do brinquedo feito artesanalmente no contexto da brincadeira infantil.

Assim nasceu o projeto Construções Lúdicas, no qual as crianças tiveram a oportunidade de explorar materiais inéditos, por meio de pesquisa em depósitos de sucatas da cidade. A proposta esteve pautada na reutilização de materiais descartados pela sociedade, matéria-prima para o processo criativo das crianças.

O projeto envolveu prioritariamente duas grandes questões: a brincadeira em seus diversos aspectos (relacionais, lúdicos e de aprendizagem social) e a criação artística (esculturas e instalações lúdicas). Para sua efetivação foi fundamental a escolha da instituição e a capacitação dos professores.

A investigação das crianças inclui escalar árvore e dar  cambalhotas no ar, usando mangueiras

A investigação das crianças inclui escalar árvore e dar cambalhotas no ar, usando mangueiras

Onde tudo aconteceu
Desenvolvemo s esse projeto com o apoi o do Instituto Camargo Corrêa1, em duas unidades da Associação das Mulheres do Novo Osasco – AMUNO2, que atendem 210 crianças entre creche e centro de juventude. Participaram também crianças de 5 a 12 anos e 14 professores, que, durante todo o tempo da capacitação, receberam apoio integral das duas diretoras e das duas coordenadoras pedagógicas responsáveis pelas unidades educacionais.

Apesar de ser um projeto pensado inicialmente por nós, formadoras, ele contou com as valiosas contribuições de cada participante. As situações oferecidas favoreceram o papel de protagonistas dos educadores.

Pelo fato de o grupo de profissionais da creche e CJ AMUNO já terem passado por diversos processos formativos, é uma equipe que tem uma linha de trabalho e uma concepção educativa afinada com a autonomia da criança e com a socialização do conhecimento, e está sempre em busca de aprimorar a atuação profissional.

No caso específico desse projeto o foco estava no processo criativo das crianças, na transformação de objetos e espaços para a brincadeira – havia muito que investigar, pesquisar, aprender e apurar conhecimentos sobre como a criança pensa, concebe o espaço, como interage com os materiais e com seus parceiros na criação de construções lúdicas.

O trabalho desenvolvido com esse grupo partiu da pesquisa de sucatas, aliada a propostas de intervenção nos espaços da creche pensadas por crianças e adultos da instituição. Isso possibilitou a total mudança da configuração do parque e da utilização desse espaço pelas crianças.

Foram oferecidos a elas diversos tipos de sucata industrial, previamente selecionadas, a fim de que brincassem e experimentassem suas possibilidades de utilização. A partir dessa experimentação lúdica, com intervenções das professoras e formadoras, é que resultou a execução do produto final: brinquedos, esculturas e instalações. Do acompanhamento, discussão, planejamento e avaliação desse processo, nasceu o embasamento para o professor construir novas competências e multiplicar essa prática no seu cotidiano.

O lugar do brinquedo feito artesanalmente
Historicamente, o brinquedo artesanal vem perdendo seu espaço na sociedade em detrimento do brinquedo industrializado. Isso é uma pena, porque tolhe uma competência infantil que faz parte de todas as culturas em diferentes tempos e lugares: a de criar e inventar brinquedos a partir de materiais e objetos diversos. Materiais que permitem diferentes utilizações como os de sucata são classificados, segundo Leontiev3, como materiais de “largo alcance”, por oferecerem a possibilidade de mobilizar as mais variadas ações, durante as quais as crianças podem atribuir diversos significados, ao contrário dos brinquedos sugestivos como bonecas, panelinhas etc., que habitualmente são mais determinantes no curso da brincadeira.

Quando a criança tem à disposição uma variedade de materiais, a capacidade de inventar é valorizada e alimentada em um jogo constante de transformar objetos – sucatas, restos e refugos – em brinquedos originais. A idéia do uso da sucata como material expressivo, e não apenas como ingrediente de uma receita pronta, foi uma marca deste projeto. Por meio de uma ação coletiva as crianças criaram novas relações com os objetos, recriando-os, transformando-os.

Nosso princípio foi incentivar a autoria e a co-autoria, que, segundo a definição da educadora Monique Deheinzelin4 corresponde à “possibilidade de ser responsável por ações transformadoras; é um reconhecimento de nosso próprio potencial de percepção e de compreensão do mundo, a partir do qual podemos agir de forma conseqüente. (…) Uma co-autoria é a coordenação destas responsabilidades, é a possibilidade de realizar uma construção conjunta.”

Quando a criança tem à disposição uma variedade de materiais, a capacidade de inventar é valorizada

Quando a criança tem à disposição uma variedade de materiais, a capacidade de inventar é valorizada

Um universo de possibilidades
Quando uma criança encontra um objeto novo, é possível que não brinque imediatamente. Verifica-se em suas ações uma progressão, que vai da descoberta e da simples manipulação até a sua utilização imaginativa. As propriedades físicas do objeto são encaradas como indicação de sua possível utilização, mas não constituem o início determinante do seu uso.

Frente a um novo material é interessante observar como as crianças se empenham em suas explorações. Fazem uma verdadeira pesquisa de possibilidades. A plasticidade do material oferecido, aliada à curiosidade infantil e disposição para inventar, descobrir formas de uso, resulta em uma combinação muito produtiva, que envolve total concentração de esforços e energia das crianças.

A possibilidade de a criança criar seu próprio brinquedo reaproveitando e recriando a partir da precariedade das sucatas é uma experiência transformadora, durante a qual ela passa a se enxergar também como produtora de cultura e não meramente como consumidora de produtos culturais. Sabemos que as crianças têm um jeito próprio de reorganizar o mundo, como diz Walter Benjamim: “a criança faz história com o lixo da História”.

Somado a isso, aprender a reutilizar materiais em proveito próprio e grupal também se constitui em um aprendizado importante no contexto global, no qual a reciclagem, redução e reutilização de materiais, evitando desperdícios, tornam-se cada vez mais necessárias para o equilíbrio ecológico (veja texto abaixo).

A proposta de construção de brinquedos pode abrir um espaço privilegiado de interação e confronto de diferentes crianças com diferentes pontos de vista. Nessa experiência, elas tentam resolver a contradição da liberdade de brincar em contraposição às regras por elas estabelecidas. Na vivência desses conflitos, as crianças podem enriquecer a relação com seus pares, na direção da autonomia e cooperação, compreendendo e agindo sobre a realidade de forma ativa e construtiva.

O brinquedo construído pode vir a ser parte fundamental no contexto da brincadeira infantil. Acreditamos que, através da interferência da criança na transformação dos objetos para a construção de seu próprio brinquedo, ela realizará um trabalho criativo, resultando em um brinquedo produzido por ela mesma e ganhando, por esse motivo, um valor afetivo diferenciado. A criança brincará com “outros olhos” com aquilo que ela puder construir.

O papel fundamental do educador
Sabemos que os conflitos são inevitáveis tanto no momento de criação como nas brincadeiras, porém não são indesejáveis; ao contrário, são parte integrante do trabalho coletivo. Para que a brincadeira possa de fato promover o desenvolvimento sóciomoral das crianças, é necessária a intervenção dos educadores, no intuito de ajudá-las a desenvolver a capacidade de resolução dos problemas. Nesse sentido, é essencial que o educador garanta um espaço em que o lúdico se manifeste e que esteja presente, mediando a brincadeira da criança, sem, contudo, limitar a iniciativa infantil.

  • Sua intervenção educativa pode se dar de diversas formas:
  • mediando as relações entre as crianças;
  • observando o jogo;
  • ajudando a organizar o ambiente;
  • oferecendo materiais;
  • auxiliando a criança na escolha de materiais, visando o incremento de sua construção lúdica.

Assim, o educador pode potencializar a atividade lúdica e oferecer subsídios para que ela se torne, cada vez mais, uma atividade interessante e desafiadora para a criança. Quando as crianças descobrem que o professor se interessa por seu processo de aprendizagem, oferecendo ajuda para alimentar o processo criativo, se estabelece uma parceria interessante.

O projeto Construções Lúdicas conciliou um trabalho formativo com as crianças e com os adultos. Do ponto de vista da criança, foram objetivos deste trabalho todo o processo da criação bem como o usufruto dos produtos confeccionados. Do ponto de vista do trabalho do educador, foram objetivos a discussão e sistematização da intervenção educativa para refletir sobre as aprendizagens procedimentais, conceituais e atitudinais das crianças.

Além disso, o desenvolvimento de novas competências dos professores possibilitou a multiplicação dos conhecimentos em novos projetos e práticas pedagógicas.

Mil e uma utilidades de um pedaço de conduíte

Mil e uma utilidades de um pedaço de conduíte

Destaques do projeto
Coube às coordenadoras do projeto (vide ficha técnica) a seleção de materiais em sucatários de sobras industriais que não oferecessem perigo e que tivessem um grande potencial de se transformarem em diferentes objetos, ou seja, parodiando Leontiev,“brinquedos de largo alcance”.

A origem dos materiais causou muito interesse entre as crianças e os adultos. Depois de mostrarmos fotos e contarmos um pouco sobre sucatários da cidade, as professoras planejaram, com as crianças, uma visita a um sucatário de Osasco. Todas gostaram muito de conhecer esse lugar, saber para onde vai parte do lixo da cidade. Em pouco tempo, palavras como: palete, carretel, conduíte, cone passaram a fazer parte do vocabulário delas.

Interação com os objetos de “largo alcance”
Os materiais selecionados foram oferecidos às crianças em diversos momentos com o objetivo de que conhecessem e brincassem com eles, interagindo em uma brincadeira exploratória que culminou numa brincadeira construtiva. Na verdade, esses dois tipos de brincadeira foram complementares e envolveram pesquisa, investigação e ação ativa das crianças na interação com os objetos e com as possibilidades que estes ofereciam.

Compartilhamos, desde o início do projeto, a construção de equipamentos lúdicos para o espaço externo – o parque – e para as salas das crianças. Assim sendo, a exploração teve um caráter direcionado ao objetivo para o qual todos investiram coletivamente.

Observação da exploração dos materiais
Essa etapa do trabalho teve como principal objetivo instrumentalizar o professor a olhar para o processo criativo da criança, bem como planejar ações adequadas às necessidades do grupo. Além disso, os registros também ajudaram as crianças a se apropriar do processo construtivo do qual participaram, podendo refletir sobre uma ação que no início foi mais prática, mas que, ao longo do processo, em conseqüência de nossa intervenção, tornou-se cada vez mais fruto de uma ação planejada.

As crianças maiores desde o início inventaram muitos brinquedos, enquanto os menores demoraram mais em suas explorações, o que deixou claro para as professoras que o jogo simbólico dos maiores é mais organizado e que os menores precisam de um tempo maior para criar.

Pesquisa e experimentação
Por se tratar de materiais e sucatas de “largo alcance”, uma infinidade de possibilidades se abriu para a criação, ao mesmo tempo em que problemas foram colocados pela própria resistência dos materiais e suas potencialidades. Os momentos de experimentação foram intercalados e enriquecidos por instantes de apreciação de objetos produzidos com sucatas por outras crianças, artistas, brinquedistas. Além disso, as crianças foram convidadas a ensaiar possibilidades da própria confecção com ajuda de profissionais específicos, como o consultor de segurança em parques e o pedreiro, que nos auxiliou durante todo o processo.

Esboço do projeto: planejando o brinquedo
Entre tantas possibilidades, a criação também exigiu um limite para se tornar viável. Foram necessárias escolhas para tornar um plano em ação efetiva. Para tanto, as crianças trabalharam coletivamente nos esboços e protótipos para detectar as reais possibilidades dos materiais.

Durante todo o processo, organizamos rodas de conversa para socializar as descobertas das crianças. Mas, nessa etapa, as rodas se intensificaram com o intuito de ampliar o potencial de criação, pois permitiam compartilhar idéias com o grupo. Nesses momentos, também apresentamos processos de criação de cientistas que inventam engenhocas, artesãos de brinquedos, artistas que trabalham em construções lúdicas, para que as crianças pudessem incrementar suas idéias e procedimentos.

Oficina de construção e apoio técnico
Os grupos de trabalho foram convidados a esboçar seus projetos criativos no papel e por meio de protótipos com materiais em pequena escala. Tiveram a possibilidade de ter materiais para ligar objetos, tais como durex, fita crepe, barbante, arame etc.

As crianças contaram com orientação e dicas de profissionais, que ajudaram a colocar em prática suas idéias. A utilização de furadeira ou serra tico-tico ficou a cargo de profissionais especializados mas, ainda assim, asseguramos a presença das crianças para que pudessem coordenar e acompanhar o processo de transformação dos objetos que esboçaram.

Elas tiveram, ao final do processo, um produto do próprio trabalho e de sua idéia, podendo se enxergar também como produtoras de cultura, e não meramente como consumidoras de produtos, como comumente acontece na relação com os brinquedos industrializados.

Deixaram de ser exclusivamente proprietárias de brinquedos manufaturados para serem criadoras de seus próprios brinquedos. A seguir, você poderá acompanhar alguns dos momentos desse animado e instigante percurso de criação, construção e faz-de-conta.

A visita ao sucatário
Ney, pai de Aline, uma das crianças que participaram do projeto, tem um sucatário. Então a elegemos para ficar responsável por selecionar materiais para levar para a creche. Ela separou rodinhas de carrinho bandeirantes, que posteriormente se transformaram em parte de um brinquedo; um circuito para se andar em cima.

Uma visita posterior de todas as turmas que participaram do projeto foi realizada, e a compreensão de onde vinham todas as sucatas do projeto ganhou nova dimensão. As crianças comentavam que conheciam pessoas que trabalhavam catando coisas na rua para vender no ferro-velho. Sabiam que lá era um local a que se podia recorrer para encontrar algo que fora jogado fora por falta de utilidade.

avisala_17_tempo6As sucatas foram levadas para o parque e as crianças puseram-se a experimentar, testar e inventar novos jeitos de brincar, como mostramos a seguir. Foi interessante ver como iam criando e rearranjando as sucatas e dando novas formas e utilidades aos objetos. Um carretel com um tubo de piscina ganhou nova função nas mãos de Paulo Roberto, que conseguiu vislumbrar um novo design para dois objetos aparentemente sem relação um com outro: um excelente carrinho, criado e concebido por um garoto de apenas 5 anos!

Cada sucata tem suas particularidades, características muito especiais para as crianças que sabem explorar suas formas para melhor utilizá-las. Um tonel cortado ao meio oferece o balanço de um barco. A viagem por mares nunca dantes navegados5 torna-se inevitável, e a brincadeira possibilita aos participantes viajarem pelo parque num mundo imaginário de faz-deconta.

Aliás, neste mundo imaginário, às vezes as crianças estão num foguete, outras num carro, ônibus ou avião. Cada um escolhe estar em veículos de sua própria imaginação. A combinação com diferentes materiais, como roda e pneus é explorada pelas crianças tornando tudo mais interessante.

Uma casinha feita de tudo
A casinha, tão constante nas brincadeiras, foi um dos projetos desenvolvidos pelo grupo. Foi feita num espaço do parque que as crianças pouco utilizavam no dia-a-dia. Planejar, participar da construção, acompanhar as obras, ajudar na montagem do chão com caquinhos e bolinhas de gude são oportunidades que, sem dúvida, se constituem em grande aprendizado para o grupo, que vai aos poucos vendo seus projetos se tornarem realidade com a ajuda dos adultos.

Uma casa com diferentes cômodos moldados por elas mesmas. Ora o palete6 pode servir de chão, ora de colchão, piscina, parede divisória, teto. A casinha resultante desse projeto não ficou terminada totalmente. Ainda pode ser completada com outras sucatas, tecidos, móveis e o que mais couber à imaginação das crianças. Os panos, por exemplo, formam uma extensão da casa.

Pensando nisso, procuramos fixar ganchos nas paredes próximas à casinha para facilitar as amarrações: com eles as crianças fizeram diversos “puxadinhos” para suas construções. A intervenção do professor no espaço, oferecendo novos materiais para compor as brincadeiras, continua a ser feita para alimentar as constantes reconstruções.

Nos momentos de formação das professoras, elas se dedicaram a pensar em espaços diferenciados para a casinha a fim de alimentar o dia-a-dia, colocando-se no lugar de quem também pode retomar o processo criativo, prática com a qual a criança tem muita intimidade. De todo modo, elas sabem e não se esquecem de que a prioridade é valorizar o trabalho da criança, sem impedir sua criação.

Conduíte – robô luneta
O conduíte vira um interessante brinquedo, já que amplia possibilidades do movimento.As crianças escorregam pelo conduíte, que fica preso no trepa-trepa, sem necessidade de amarração. Em outros momentos, sobem nele. Como tem bastante flexibilidade, é possível brincar de cavalinho, moto etc.

As crianças acabam inventando brinquedos, que aliam tanto o conhecimento que têm do material, suas propriedades, quanto seu rico imaginário. A brincadeira simbólica é enriquecida por um brinquedo como esse, que ao mesmo tempo em que apresenta o desafio corporal de escorregar, pendurar-se, subir, também alimenta o faz-de-conta.

Um conduíte semelhante em grupo diferente tomou outro rumo, virou um brinquedo que apelidaram de moto Kawasaki. Interessante que este foi um brinquedo inventado pelo grupo do CJ, crianças, entre 8 e 12 anos. E quem disse que crianças maiores não brincam dessas coisas?

Arquitetura e engenharia infantis
A idéia de deixar a criança organizar seu próprio espaço, desenhá-lo e projetá-lo segundo sua ótica e contar efetivamente com sua participação para recriá-lo, foram preocupações constantes neste projeto. Em geral, nas instituições educativas a organização do espaço está a cargo do adulto, que pouco investiga como a criança o pensa e o concebe. O adulto, em geral, tem a necessidade de controlar e organizar os espaços seguindo uma estrutura que não foge do padrão funcional.

As crianças, não, estabelecem modos criativos de se relacionar com ele. Uma cabana, por exemplo, pode ocupar a sala toda e ter muitas entradas e divisórias. Materiais menos estruturados, como panos, plásticos, celofanes, barbante etc., permitem uma infinidade de construções inusitadas. Uma entrada que não seja pela porta principal, mas sim por alguma outra passagem pouco convencional, é uma idéia tão boa que poderia ser aproveitada nos projetos arquitetônicos. As crianças, sem dúvida, contribuem muito para pensar nos espaços que educam; por isso deveriam ser convidadas e consideradas para essa tarefa.

Como nasce um túnel
Brinquedos criados são frutos de pesquisa, investigação, ensaios, discussões com outros profissionais, retomadas de idéias antigas que já tiveram resultados anteriormente. No caso do túnel criado pelas crianças do CJ AMUNO, houve uma parceria interessante entre elas e os adultos.

A idéia surgiu de um simples rolo de papel ondulado. Certa ocasião, prepararam uma surpresa para as crianças da creche. Decidiram inventar algo surpreendente e arrebatador na própria sala, que pudesse se transformar numa grande tenda. Mas, não satisfeitos, queriam mais: preparar uma entrada triunfal seria ainda melhor. Pensaram em estender um grande tapete de papel ondulado para ritualizar a entrada naquela sala tão especial.

A idéia inicial do tapete foi transformada por uma criança, que, ao perceber o efeito do papel enrolado, achou muito mais interessante montar um túnel de passagem para a sala. Foram feitos vários testes: colar parte do papel ondulado com durex largo, fita crepe, barbante preso à janela. As crianças resolveram fazer um túnel com alguns furos para entrar luz colorida através do papel celofane, aproveitando um projeto realizado anteriormente, de um castelo / túnel que unia uma sala a outra, com caixas de papelão de moto. Mas, em todos os testes, o túnel ficava bastante frágil.

Muitas foram as discussões do grupo para dar corpo à idéia. Foi preciso buscar a assessoria de um especialista para nos ajudar a solucionar o problema. Como fazer um túnel que saísse da sala e fosse até o fim do pátio, como projetavam as crianças? Um furo na parede concretizou a idéia. Agora as crianças discutem formas de fazer junções de tonéis, amarrando-os com tecidos, lonas ou tiras feitas com câmara de pneu, alargando um pouco mais o trajeto.

1. Concepção do projeto 2. Planejamento coletivo 3. Preparação do túnel com a ajuda de um pedreiro 4. Pintura e  decoração final 5. O túnel pronto ligando o corredor diretamente ao parque

1. Concepção do projeto
2. Planejamento coletivo
3. Preparação do túnel com a ajuda de um pedreiro
4. Pintura e decoração final
5. O túnel pronto
ligando o corredor
diretamente ao parque

As amarrações
As cordas por si só constituem-se em objetos de largo alcance, que podem ser utilizados de muitas formas. Em geral, quando se tem esse material nas escolas, fica restrito ao uso do professor. Optamos por deixá-lo nas mãos das crianças. Então apareceram diferentes amarrações. Quando queriam ajuda, pediam aos adultos, que as acompanhavam no parque. Mas essas intervenções se resumiam a auxilia-las na definição do que queriam fazer, para então ajudá-las: escolher onde amarrar e descobrir um modo de fazê-lo são ações delas.

Aos poucos desenvolveram jeitos de realizar suas próprias amarrações. O simples atar e desatar nós tornou-se uma brincadeira constante no grupo. Na hora de guardar os brinquedos, as cordas são ainda mais disputadas, e há aquelas que se especializaram em métodos sofisticados para evitar que as cordas se emaranhem.

Há escolha entre a possibilidade e o limite
Os meninos do CJ arrumaram um jeito de amarrar o palete no trepa-trepa, de modo que pudessem ficar em cima do mesmo, como se fosse um mirante, o lugar mais alto para se estar, reinventando o “subir em árvores”, brincadeira antiga e que fazia muito sucesso na minha infância pelo simples prazer de estar nas alturas. Eles gastaram horas amarrando o palete de um jeito que ficasse seguro e não escorregasse para nenhum dos lados. Uma verdadeira engenharia!

Tivemos muitas dúvidas quanto a fixar esse brinquedo. Como sugeriu o assessor de seguranças em parques públicos, seria necessário um “guarda-corpo” para proteção, o que seria possível de fazer. Mas, observando as crianças, nos pareceu que a brincadeira consistia exatamente em fixar os paletes de modo seguro. Sendo assim, se ele já estivesse fixado, elas ganhariam um novo brinquedo, mas perderiam a possibilidade de construí-lo.

Também ficamos em dúvida quanto à construção de uma mureta para conter a queda de brinquedos rolantes. Em virtude da confecção de dois novos brinquedos – o carrinho feito a partir de uma caixa d´água e o barril para rolar pelo parque –, foi preciso fechar o desnível do chão, pois ele tornava a brincadeira pouco segura. A solução foi construir muretas para conter o rolar do barril e da caixa d´água com rodízio. Assim, ao mesmo tempo em que aquela mureta possibilitava a brincadeira de que tanto gostavam, impedia uma outra, o chute ao gol, que se realizava naquele mesmo espaço.

As crianças preferiram os brinquedos rolantes. Então, também assumiram o projeto da mureta, e acabaram por participar de sua decoração. Uma campanha foi feita para conseguir doação de sucatas. Com a técnica de incrustação as crianças foram imprimindo suas marcas nos muros, assim como a forma de brincar e interagir com os objetos em suas construções lúdicas.

Às vezes, a transformação do espaço pode criar uma possibilidade e, ao mesmo tempo, gerar um limite. É necessário fazer escolhas e avaliar antes de tomar a decisão e, para isso, observar a brincadeira das crianças e consultá-las antes de fazer qualquer mudança se torna imprescindível; pois também há muito o que aprender ao tomar decisões que interferem no hábito de outras crianças. Na ocasião da construção do túnel, por exemplo, elas debateram, discutiram e preferiram reduzir a passagem destinada ao trânsito de pneus de que tanto gostavam para abrir um espaço para o túnel.

O cuidado com a segurança dos brinquedos também tem a ver com a forma de o professor intervir na proposta, no espaço ou nos combinados de regras de uso dos brinquedos. As crianças que estavam acostumadas a escorregar no barranco com garrafa pet, por exemplo, adotaram a mesma brincadeira com tubos de polietileno de alto impacto, que funcionaram muito bem. Algumas decisões, por serem perigosas, exigiram a intervenção das professoras, impedindo a brincadeira.

Conduítes de alto impacto
Logo no início do projeto as crianças inventaram uma interessante utilidade para os conduítes: cavaram a areia na tentativa de fixá-los no chão. A brincadeira começou com os menores, mas a turma do CJ achou que a invenção se assemelhava a um labirinto e sugeriu formas de fixá-lo no chão. O CJ encarregou-se de delimitar onde seriam fixados os conduítes para orientar o trabalho do pedreiro.

Uma vez chumbados no chão, formaram um conjunto batizado pelas crianças como O Labirinto.Ora vira passagem para pneu, ora para inventarem brincadeiras de equilíbrio. Para as crianças, o labirinto às vezes se transformava em espaço de academia onde brincavam de fazer ginástica.

avisala_17_tempo7Os conduítes também possibilitaram uma brincadeira de telefone sem fio. As crianças se divertiram com o eco causado pelo longo cano. Em outros momentos, virou uma excelente luneta. Elas usavam para caçar formigas, como se de fato a “luneta” pudesse ampliar a visão. Os transformaram ainda em braços de robô.

Construir plantas baixas com conduítes tem sido o interesse de boa parte do grupo, que passa, por vezes, todo o tempo destinado às brincadeiras no parque arquitetando jeitos de fazer casas. Sugerimos que fizessem plantas baixas também com materiais menores e mais apropriados, nas próprias salas. Caleidoscópio de idéias Um tampo unido a velhos carretéis vira uma mesa redonda, espaço para a confraternização constante de um grupo de crianças que se reúne para um saboroso banquete imaginário.

Conduítes amarrados aos trepa-trepas viram motos de última geração. Sucatas domésticas, chaves velhas, tampinhas, pedaços de espelho viram peças para a rica incrustação nas muretas do parque. E assim estranhos objetos adquirem novo sentido, dependendo do ponto de vista e da imaginação das crianças.

Elas são mestras na arte da transformação e da criação. Resta saber se nós, adultos, não vamos tolhê-las e se saberemos observar e valorizar idéias que resultam em construções tão genuínas e de ações de grande valor para suas vidas.

(Adriana Klisys, formadora do Instituto Avisa lá e sócia-fundadora da Caleidoscópio Brincadeira & Arte e Renata Caiuby, que trabalha com educação há 20 anos e é capacitadora em escolas públicas e privada)

Atenção!
O trabalho com sucata exige cuidados especiais:

  1. Não escolher recipientes de produtos tóxicos, todo o material deve ser examinado cuidadosamente antes do primeiro contato das crianças.
  2. Lixar, tirar rebarbas, parafusos etc.
  3. Lavar muito bem os materiais.
  4. Entrar em contato com especialistas de saúde para garantir a higienização mais correta em cada caso.

1 Instituto Camargo Corrêa.Tel.: (11) 3841-5934. Site: www.camargocorrea.com.br/instituto

2 AMUNO.Tel.: (11) 3609-1091. Site: [email protected]

3 Vygotsky, Leontiev, Luria. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem – cap.VII – “Os princípios da brincadeira pré-escolar”, Ed. Ícone. Tel.: (11) 3666-3095.Site: www.iconelivraria.com.br

4Monique Deheinzelin é Mestre em História e Filosofia da Educação pela USP, orientadora em projetos curriculares e na formação de professoras na rede pública de ensino, autora de livros educacionais.

5 Frase alusiva ao trecho do livro Os Lusíadas, de Luis Vaz de Camões. Ed. Cultrix. Tel.: (11) 6166-9000. Site: www.cultrix.com.br

6 Palete (inglês pallet) plataforma portátil para mover materiais e embrulhos.

Para as crianças do CJ, a casinha virou palco para diferentes apresentações

Para as crianças do CJ, a casinha virou palco para diferentes apresentações

A criança, a sociedade e o meio ambiente

Cada vez mais os grandes centros urbanos têm encontrado soluções criativas para o reaproveitamento de seus materiais, devido a uma necessidade de dar vazão ao “lixo” que a sociedade produz. Em contrapartida, tem aumentado consideravelmente o número de sucatários pela cidade, que destinam materiais não aproveitados por empresas e pessoas físicas à novas utilidades encontradas por um mercado crescente que encontra o valor neste tipo de material, criando um destino interessante e de grande valor ecológico: a reutilização de materiais.

A reutilização de materiais tem sido amplamente praticada por artistas e diversos setores da sociedade, mas contraditoriamente ainda tem uma presença tímida nas escolas – espaço fundamental de cidadania, de aprendizagem ética. Acreditamos que a educação ambiental deve estar presente nas escolas como busca real de soluções para problemas ambientais, que as crianças devam ter oportunidade de participar ativamente desse processo, como no caso desse projeto de construir brinquedos com materiais aproveitados do meio, implicando em criação cultural e participação no processo histórico e social de transformação de seu entorno.

As atitudes das pessoas em relação ao meio ambiente são definidas pela percepção que têm sobre ele; pelo olhar desenvolvido sobre o que podem transformar no seu ambiente. Possibilitar às crianças o exercício do olhar cidadão, que encontra soluções eficazes e de proveito social, é também parte constituinte da educação de crianças. Assim sendo, a construção de brinquedos de sucata concilia brincadeira e arte juntamente com educação ambiental, na medida em que partimos da perspectiva de que é preciso educar o cidadão para a resolução de problemas ambientais. Um deles, de grande importância, é o destino que damos ao nosso lixo.

A brincadeira também é motivo da formação do educador

Espera-se, primordialmente, que no processo de formação os educadores construam novas competências e adquiram condições de dar continuidade ao trabalho, além de passar a ter outros olhos para o brincar, sabendo intervir nos seus múltiplos aspectos. Para tanto, é fundamental que incorporem práticas educativas que considerem o saber das crianças e sua liberdade de criação, sem, contudo, esquecer de alimentar o fazer delas com novas informações, conhecimentos já construídos pela sociedade, colocando à disposição um repertório cultural variado.

Essas são algumas das condições que ajudam as crianças a avançar na confecção criativa de brinquedos. Como acreditamos que forma e conteúdo precisam caminhar juntos, optamos por trabalhar o processo formativo ludicamente. Por isso, dividimos os encontros com os educadores em dois momentos. Um dedicado às questões de ordem teórica sobre o brincar, para embasar a prática. Um outro momento foi dedicado especialmente ao processo de criação propriamente dito, uma vez que apostamos que a partir de vivências de transformação de sucatas – tais como papel, câmara de pneu, sobras de EVA, jornal e outras – os educadores poderiam conhecer as possibilidades dos materiais, ganhando, assim, uma melhor condição de proporcionarem tais vivências às crianças.

A retomada do processo de autoria do educador na formação contribui, assim, para uma prática que possibilite de fato conhecer as crianças, saber como imaginam, transformam, constroem e reconstroem o mundo. Usamos materiais muito simples e de fácil acesso, justamente para que pudessem aproveitar as idéias com as crianças. Nos encontros com a equipe de professores da creche AMUNO a conquista desse espaço abriu horizontes para as idéias dos educadores.

No primeiro encontro oferecemos somente folhas em branco e elementos de ligação como elástico, cola, barbante, fita crepe, com uma única proposta: criar objetos que tivessem pelo menos uma entrada e uma saída. Elas estranharam, olharam para o papel em branco esperando o diálogo começar, mas logo surgiu uma infinidade de construções, contentando a todos pela diversidade e resultado inusitado da produção. Foi uma experiência simples que inaugurou esse projeto. Os resultados a partir de outros materiais surpreenderam ainda mais. Jornais se transformando em vários objetos, câmara de pneu virando biquíni e pulseiras ecológicas, com design especial, bonecas, bolsas e até objetos abstratos!

Reavivar o fazer dos educadores, alimentando-o com propostas, idéias, imagens, discussões, é um objetivo importante. Também solicitamos registros dos educadores com freqüência, pois acreditamos que o olhar reflexivo possibilitado pelo distanciamento da prática é uma importante forma de conhecer mais as relações que se estabelecem no espaço da brincadeira.

Registrar é uma estratégia para olhar e valorizar o que as crianças fazem. Só o olhar atento do professor pode ser transformador, pois à medida que observa também reconhece as particularidades do grupo na construção do conhecimento. A partir daí o professor ganha condições de realizar suas intervenções, legitimando a criação e o espaço da iniciativa infantil como algo que faz sentido no contexto educativo. Para cada registro dos educadores elaboramos uma devolutiva por escrito, que procurou dialogar com as idéias de cada professor.
tempo

Ficha Técnica

Iniciativa: Instituto Camargo Corrêa.

Concepção do projeto: Adriana Klysis, Renata Caiuby, Vera Cristhina Figueiredo.

Desenvolvimento: Caleidoscópio Brincadeira & Arte. Equipe: Adriana Klisys, Renata Caiuby e equipes da creche e do CJ – Associação das Mães Unidas do Novo Osasco – AMUNO.

AMUNO 1
Direção: Zelina Rodrigues Salomão dos Santos. Coordenadora Pedagógica: Sonia Regina da Silva Souza.
Auxiliar administrativo: Andrea Regina da Silva.
Educadoras: Francisca de Fátima Luna Puçá, Claudia Pereira Água, Julia Martins da Silva, Lucinete Novaes dos Santos, Priscila Carlos Tavares, Juliana de Souza Pereira, Eliana Santos de Melo, Kelly Cristina Cristine de Carvalho, Mônica Helena Bastos.
Grupo de apoio: Ivone Aparecida Tazernari de Andrade, Genilda Angelina de Oliveira, Maria Madalena de Lira.

AMUNO 2:
Direção: Roserdina Melo da Silva. Coordenadora Pedagógica: Cássia
Andréa Gomes.
Auxiliar administrativo: Eunice de Moura Oliveira.
Educadoras: Selma Guimarães Vieira, Dorismar Francisca de Sousa Bezerra, Simone Alexandre da Silva, Eliane Feitosa de Lima, Roseli Alves da Silva, Josefa Gomes da Silva.
Grupo de apoio: Maria do Amparo dos Santos Antunes, Rosemeire Mardegan da Silva,Adriana de Oliveira Araújo, Maria Helena da Silva, Mônica Helena Bastos, Kelly Cristina Cristine de Carvalho.
Consultor Técnico de Construção de Brinquedos: Marcelo Jabu.
Serviços de Alvenaria: Ailton Neves Pereira, Leandro Silva Gonzaga de Souza, Roberto Luiz Tozzarelli,Vinícius Santana Macedo.

Esse projeto foi desenvolvido primeiramente na Escola da Vila (1999), sendo reformulado e adaptado para um novo contexto, no qual foi criada uma metodologia de capacitação de professores.


Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #17 de janeiro de 2004. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

Posted in Revista Avisa lá #17, Tempo Didádico and tagged , , , , , , , , .