Quem conhece pode escolher melhor – A importância de bons livros para crianças

Como levar os educadores a escolherem bons livros para suas crianças? Comecei o trabalho compartilhando com as professoras de uma instituição de educação infantil do Rio de Janeiro um texto de que gosto muito. Arrebatadas pelo poder de Malika e outras histórias, elas iam se dando conta da importância da diversidade e qualidade dos textos. Essa experiência contribuiu para que pudessem selecionar melhores livros para as crianças
As ilustrações desta matéria são obras da artista Beatriz Milhazes. 1001 Noites às Luz do Dia, Katia Canton. Ed. Difusão Cultural

As ilustrações desta matéria são obras da artista Beatriz Milhazes. 1001
Noites às Luz do Dia, Katia Canton. Ed. Difusão Cultural

Iniciei o encontro de formação fazendo com as professoras o que mais gosto e acho importante. Levei para ler Eu, Malika Ofkir, prisioneira do rei, de Malika Ofkir e Michèle Fitoussi. É um livro autobiográfico em que Malika conta sua insólita aventura de nascer e viver no Marrocos: membro da elite militar, filha adotiva do rei Mohamed V e depois prisioneira do rei Hassan II, junto com sua mãe e cinco irmãos, por mais de vinte anos. Falei sobre o livro, minhas impressões e o forte impacto que me causou. Depois li um trecho que selecionei para a ocasião: Malika conta sobre os onze anos
consecutivos em que, durante todas as noites, contou histórias a seus irmãos, sua mãe e uma empregada que os acompanhou na prisão.

Enquanto lia, via um interesse e uma emoção nos olhos e nas expressões que me deram a certeza de que a porta de entrada para a valorização do prazer de ler na formação de leitores é essa mesma: a própria leitura. No final, falamos brevemente sobre o que a leitura havia desencadeado em nós e sobre o quanto aquela referência comum, agora posta entre nós, nos ligaria sempre e poderia ser invocada a qualquer tempo em que nos encontrássemos, porque fora compartilhada.

O segredo da formação de leitores
Terminada a leitura, chamei a atenção sobre os passos que havia seguido: a apresentação, seleção e preparação prévias do trecho lido, os motivos explicitados, a consideração do leitor, o incentivo aos comentários posteriores e o clima criado, destacando-os como intencionais, planejados, não acontecidos ao acaso. Essas são as orientações para o trabalho com leitura pelo professor. Esse o lugar e a forma da leitura na escola, especialmente na educação infantil. Intenções claras e etapas bem definidas a cumprir, num clima de respeito e interação com o texto e o leitor.

O que tem que acontecer para isso? Eu, professora, também preciso achar o texto interessante ou ter um motivo relevante para trazê-lo para as crianças. Cada texto escolhido, cada leitura feita, cada sessão de comentários, cada realidade criada, convergem para a formação de leitores atentos, curiosos, interessados e interessantes. Essa é nossa meta, nosso contrato maior: capturar os leitores para o prazer e a importância de ler.

Falando em contrato, propus trabalharmos para a dinamização e o enriquecimento das atividades de leitura realizadas na instituição. Isso implicaria em ações para ampliar e diversificar o acervo de livros e ações planejadas junto às crianças com objetivos bem definidos e estratégias pensadas para tal. Nosso trabalho durante o processo de formação1 foi conhecer e criar boas atividades para formar falantes, leitores e escritores competentes. Elas vibraram e acharam aquela tarefa muito importante e, ao menos ao ouvi-la como enunciado, comprometeram-se com ela. Gostaram da idéia de que conhecer e dominar a língua é saber usá-la, produzir e compreender textos e temas como falante, leitor ou escritor, em
diferentes situações, com diversos fins e múltiplos interlocutores.
Enquanto eu falava sobre a leitura, uma das professoras disse:

– Mas também, você escolhe cada livro! – como que dizendo “assim é fácil”.
– Esse segredo é exatamente o nosso trabalho – respondi, sorrindo –
Escolher cada texto!

Exatamente esse foi o próximo passo para aquele dia: pensar sobre os
livros a serem escolhidos para ler. Há livros e livros: quais vão para as crianças? Pedi às professoras que levassem para a reunião os livros que haviam lido para as crianças nas últimas duas semanas, aqueles que sempre lêem. Foi o melhor que podia ter feito. Foi uma excelente situação para podermos comentar e discutir a qualidade dos livros. Observei que todas tinham separado pilhas de livros o que demonstrou o envolvimento com a leitura e a importância de investir nessas atividades em sala de aula.

As professoras do berçário II mostraram livros de pequenas histórias com uma série de imagens com legendas.Trata-se de um conjunto que, a rigor, não é uma história, embora sejam chamados “livros de histórias”.Também separaram vários de plástico. Perguntei se os liam.

– Sim, e as crianças gostam muito, apontam as figuras, gostam muito de imagens.

É verdade. As crianças gostam muito de imagens. Então pedi que as
mostrassem. Conjuntos de animais, frutas, objetos de higiene, pessoas, figuras geométricas, cada página com uma figura.Atendendo à idéia de ser “educativo”, havia uma etiqueta embaixo dizendo sabonete, esponja etc. Eu também havia levado a minha pilha de livros.Tirei da minha malinha Zuza e Arquimedes da Eva Furnari. Mostrei a capa e fui folheando, pedindo que elas descrevessem o que viam.

Uma arca, um homem olhando:
Como sabem que ele está olhando? – perguntei.
– Ah, o jeito, o lado para onde a cabeça está virada – alguém respondeu.

O homem próximo da arca, a arca aberta com um monstro e ele assustado …
– Como sabem que está apavorado? O cabelo e o corpo para trás, quase levantando do chão, como que encostando em algo, os olhos esbugalhados… – e assim fomos.

O monstro sem máscara. São duas crianças. Quem serão? Elas riem. Nova
cena. Uma mulher e a arca. A arca se abre, ela se assusta, corre, as crianças riem. Nova cena. Epa! Um monstro aproxima-se! As crianças-monstro saem da arca e … todos se assustam. As crianças fogem, o monstro entra na arca, a mulher e o homem chegam dentro de um outro bichão, novamente assustam-se todos. As crianças do livro riem e riem. E as professoras, mais ainda. Adoraram e quiseram, como as crianças, ver novamente. Ótimo! Que maravilha! Gostaram? Então peguei o livro de plástico e disse:

– Agora vamos ver esse.
– Não, não – responderam, entendendo tudo.
– Por que? – perguntei.
– É muito sem graça – uma delas respondeu.
– E por que os lemos? – retornei.
– Porque são para crianças – respondeu-me a outra.
– São educativos – alguém completou.
– Hum … – disse eu, continuando nossa conversa. – Então quem escreveu pensou em ensinar. O que queria ensinar? As formas geométricas, as cores, os hábitos de higiene. E como? Uma coisa por vez, tudo bem separado para a criança poder ver bem e repetir. E é assim que as coisas se apresentam no mundo? É assim que as crianças pequenas aprendem? Vocês, todos os dias com os bebês, acham que elas olham, escutam, pensam uma coisa por vez? Claro que não, eles vêem tudo ao mesmo tempo!

E assim fomos refletindo o que se pensa sobre criança, sobre ensinar e sobre ler.

– Acham que as crianças podem entender e gostar de livros diferentes dos que eu trouxe? Então por que não lêem esse tipo de livro?
– Porque não conhecemos – disse uma professora. Chegamos, então, a um outro ponto importante: conhecer diferentes livros. Conhecer e ter, alguém acrescentou.

Quem conhece pode escolher
Com os livros na mão, fomos ainda discutindo como poderíamos levá-los às crianças, que cuidados deveríamos ter, já que estão acostumadas a puxar, morder e amassar os de plástico. Então não é mais para ter esses livros? Não, nada disso. É preciso ter o maior número e a maior variedade possíveis.

– Mas na hora da história vou ler esse – disse Nancy, apontando para o da Eva Furnari.
– Isso! Você acabou de falar algo muito importante para a segunda parte do nosso trabalho de hoje – disse eu, pedindo a Nancy que anotasse o que havia dito porque era uma orientação didática importantíssima para o trabalho com histórias – selecionar previamente os textos. Selecionar. Não se trata de censurar, proibir, coisas do gênero. Trata-se de escolher aqueles que serão objeto de maior atenção, de ações planejadas, seqüenciadas, intencionais, com objetivo definido. Além do mais, precisamos ter e conhecer diferentes livros para que possamos promover discussões, criticar nosso acervo, como fizemos juntas. Quem conhece, escolhe. Quem não conhece, é escolhido pelo livro.

Nesse tom, continuamos.As professoras do maternal, que estavam trabalhando o tema dos animais, haviam levado primeiramente alguns livros sobre o assunto. Outra versão dos de plástico. Um deles apresentava uma ovelha humanizada que contava como elas nascem, crescem, têm o pelo cortado e se transformam em lã. Tudo muito empobrecido.

Comentei o livro apontando os mesmos elementos do livro de plástico.As mesmas idéias, as mesmas concepções, o mesmo pressuposto de que a leitura é instrumental, não tem um fim em si mesma. Para tornar isso mais evidente, eu o li com uma voz meio melosa e “educativa”. Elas morreram de rir, repetindo que era muito bobo.

Para continuar, pedi a Lena, uma das professoras, que lesse um trecho do livro Branca de Neve em versão condensada que havia na instituição. Algo como:
– Havia uma menina chamada Branca de Neve que tinha uma madrasta muito má que todos os dias se olhava no espelho e perguntava: espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu? – e pronto.

Li em seguida Branca de Neve e outros contos de Grimm, com seleção e
adaptação de Ana Maria Machado:
– “Há muito e muito tempo, bem no meio do inverno, quando os flocos de neve caíam do céu leves como plumas, uma rainha estava sentada costurando junto a uma janela com esquadrias de ébano. Costurava distraída, olhando os flocos de neve que caíam lá fora e, por isso, espetou o dedo com a agulha e três gotas de sangue caíram na neve. Aquele vermelho em cima do branco …”
– Nossa! Que lindo! Que diferente! Olha, esse livro conta por que ela se chama Branca de Neve! – disse uma pessoa do grupo.
A partir daí, o grupo fez o trabalho quase que sozinho. Comparamos diferentes versões de Os três Porquinhos e outros. Foi só encantamento.

As professoras do Jardim I, II e III diziam que os seus alunos também não conheciam essas versões. Como fazer para que as apreciassem? Ler direto a versão mais longa e complexa? Contar em um dia e ler em um outro? Ler a mais simples e depois a mais complexa? Existem muitas maneiras. O importante é que as crianças têm que conhecer todos esses textos.

Combinados para garantir uma boa leitura na escola
E a biblioteca, como melhorar seu acervo? Sugeri uma campanha de livros entre os pais e amigos. No próximo encontro todas levaríamos ao menos um livro como contribuição para a biblioteca. Não importava se novo ou usado, todas nós íamos ampliar as escolhas para educadoras e crianças. Animadas, as professoras foram listando tudo o que deveria haver na biblioteca: poesias, brincadeiras cantadas, rimas, de histórias etc. Para terminar, exibi em vídeo cenas de crianças de 2 anos folheando livros, de um trio de crianças em que uma delas “lê” para as outras duas. Uma outra cena em que uma criança “lê”, folheando as páginas delicadamente e acompanhando com o dedinho a história que conta. Elas acharam que aquilo não era possível. Se não vissem, não acreditariam. Como tornar possível? O que o professor deve fazer? Fomos discutindo e pontuando a diferença entre desenvolvimento e aprendizagem.Aquelas crianças do vídeo aprenderam a folhear os livros, a manuseá-los cuidadosamente, a deleitar-se com seu conteúdo etc.

Aprenderam porque um professor ensinou. Como se ensina? O que o professor deve considerar ao planejar o trabalho com leitura de histórias? Vimos que ninguém sabia que tudo isso era tão importante. Agora que sabemos, o que o professor deve fazer? As professoras então foram ditando – e eu pondo na lousa – uma lista de orientações para trabalhar histórias (veja abaixo). Não são lindas essas professoras? Avaliação do encontro: o que aprenderam? A selecionar livros a ter olhar mais crítico, gosto pela leitura, a conhecer e se organizar antes, a importância da atitude do educador, sua postura, a manter o interesse e a atenção das crianças, a respeitar seus limites, a ter objetivos claros e a saber a importância de trabalhar desde sempre com os pequenos.Achei que valeu o meu dia, a minha semana, antes e depois, tudo.

1O projeto de formação nessa instituição tem a duração de 2 anos, com encontros mensais de 4 horas com todas as professoras,
além de outras tarefas deixadas para o mês.

(Virgínia Gastaldi, Coordenadora pedagógica da Escola Logos – educação infantil e formadora do Instituto Avisa lá.)

 

Primeiros resultados do encontro de formação

As professoras dos berçários I contaram que passaram a escolher os livros com mais cuidado. Observaram que as crianças gostaram muito de rimas, por isso leram “Rimas Infantis”, um livro que tem legendas rimadas para imagens de crianças, com figuras de bola, animais etc. Disseram que as crianças, estavam mais familiarizadas com os atos de
leitura e que gostaram muito desses momentos. Elas também se sentiram
mais animadas para fazê-lo.

Orientações didáticas para a leitura de histórias

  • Conhecer o texto e prepará-lo com antecedência.
  • Criar sistemática de leitura na rotina diária.
  • Considerar o conhecimento prévio das crianças.
  • Planejar em seqüência, em ordem crescente de desafios.
  • Adequar o tempo e o tipo de leitura à condição da criança.
  • Diversificar títulos e versões.
  • Ampliar o repertório de histórias conhecidas pelas crianças.
  • Criar ambiente agradável e aconchegante.
  • Ter atitude cuidadosa de quem lê para o outro e é referência como leitor.
  • Explicitar suas preferências.
  • Explicitar o motivo da leitura.
  • Preocupar-se com a qualidade literária e não com o conteúdo moral.
  • Garantir na rotina contato com livros de tipos e gêneros variados, para a formação de leitor crítico.
  • Fazer seqüência de planejamento ou projetos envolvendo leitura.

Ficha técnica:

Esta atividade faz parte do projeto de formação realizado por
Virgínia Gastaldi no Centro de Educação Infantil Gera-ação Extra. Apoio: Instituto Pão de Açúcar. CEI Gera-ação Extra, Av. das Américas, 2000, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ, 22640-101.
Tel.: (21) 439-4020

Para Saber Mais:

  • Eu, Malika Ofkir, prisioneira do rei. Malika Ofkir e Michèle Fitoussi. Cia. das Letras Tel.: (11) 3846-0814
  • Contos de Grimm.Vols. 1 e 2. Tradução de Maria Heloisa Penteado. Ed. Ática. Tel.: (11) 3346-3000
  • Contos de Grimm. Tradução de Tatiana Belinky. Ed. Martins Fontes. Tel.: (11) 3266-4603
  • Contos de Grimm. Tradução de Heloisa Jahn. Ed. Cia. das Letrinhas. Tel.: (11) 3846-0814
  • Livro de Histórias. Ed. Cia. das Letrinhas. Tel.: (11) 3846-0814

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #7 de julho de 2001. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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