Comunidade de leitores – Idéias para quem quer ensinar a gostar de ler

É inegável que se aprende a ler, lendo. Sendo assim, uma criança que vive num ambiente onde não há leitores terá mais dificuldades de encontrar um bom modelo a seguir. Não me refiro aquele leitor que lê apenas quando necessita e busca informações, mas ao que consegue divertir-se, chorar, admirar-se diante de um texto envolvente. Formar esse leitor é desafio importante para todo professor.

Sobre Fábulas Italianas. Italo Calvino. Companhia das Letras. Ilustrações: crianças da Escola Logos e CEI Gera-Ação Extra

Não muito tempo atrás, a escola se preocupava apenas em ensinar o leitor a decodificar o texto. Leitura em voz alta dos textos ditos “escolares” era a atividade mais freqüente. No entanto, como nos diz Isabel Solé, “… a leitura não é somente um dos instrumentos mais poderosos de que dispomos para ter acesso e apropriar-nos da informação; também é um instrumento para o ócio e a diversão, uma ferramenta lúdica que nos permite explorar mundos diferentes dos nossos, reais ou imaginários; que nos aproxima de outras pessoas e de suas idéias, que nos converte em exploradores de um universo que construímos em nossa imaginação.”1

À luz de novos estudos, a escola hoje repensa a forma de ensinar a ler, partindo do pressuposto de que a leitura não é decifração, mas construção de significados. Projetos e atividades permanentes visam alcançar diversos propósitos sociais da leitura: ler para resolver um problema prático, para escrever, para buscar informações necessárias, para ingressar em outro mundo possível. A educação infantil pode ser incluída também nesse contexto. No trabalho com as crianças pequenas o professor deve assumir o papel de intérprete para que os alunos leiam por meio dele. Por isso é tão
importante o valor que se dá às diferentes instâncias da leitura. É claro que contamos com um fator positivo: as crianças pequenas se deixam facilmente seduzir diante de uma boa leitura, uma boa história, contada por alguém que também se encanta com o poder das palavras e não tem a preocupação de controlar a plena compreensão de cada um.

Sobre “O Pequeno Príncipe. Antoine de Saint-Exupéry. Ed. Agir”

Ler para apreciar
Na escola, as crianças devem aprender sobre o código, buscar informações, mas principalmente precisam ocupar-se com as tramas da imaginação que a leitura propõe. Na Escola Logos, onde sou professora do grupo 5 (5 anos), realizamos rodas de histórias todos os dias. As crianças adoram e aguardam com entusiasmo esse momento. Lemos contos, fábulas, mitos, poesias, criando climas de mistério, curiosidade e diversão.

Funciono como uma interpretante do texto, já que as crianças não lêem
convencionalmente. Para além da gratificação esse momento diário de entrega à magia e ao encantamento, havia a intenção de inserir as crianças em uma comunidade mais ampla de leitores, para que se percebessem como leitores críticos, capazes de avaliar suas escolhas, estabelecer critérios para argumentar sobre elas e trocar impressões.

Notamos logo: sempre que fazíamos algum comentário sobre a história lida (até mesmo antes de lêla, ao expor os motivos de nossa escolha), as crianças colocavam suas impressões sobre o texto: algumas associavam-no a experiências vividas, outras lembravam-se de histórias semelhantes. No entanto, nem todas passavam da frase: “É legal!”, para definir a história de que haviam gostado. Criamos, então, outras situações nas quais pudéssemos observar e acompanhar diferentes preferências e interesses das crianças, auxiliando-as para que pudessem recomendar ou desaconselhar a leitura segundo argumentações que fossem além do “gostei” ou “não gostei”.

Aproveitamos o momento semanal de biblioteca, no qual as crianças, mesmo tendo sugestões de determinados títulos, retiram os de sua preferência. Propusemos discussões e conversas sobre as impressões que tiveram da leitura. As crianças faziam suas indicações para as outras turmas da escola depois de estabelecer e discutir critérios para tal.

Idéias de criança
A leitura dos livros que as crianças escolhiam e levavam para casa era muito importante, porque também tinha um caráter afetivo, de um tempo compartilhado com os pais, que faziam em casa o papel de leitores para elas. Além disso, nos permitiu trabalhar com a amplitude e a diversidade dos textos trazidos pelas crianças. Percebíamos os avanços nas conversas que elas estabeleciam entre si.

Criança 1: “Esse livro não é legal…Não tem história, só umas coisas
escritas.”
Criança 2: “Eu acho que é para os bebês!”
Criança 3: “É, deve ser mesmo! Ele fica na prateleira dos nenês!”
Criança 4: “Tem pouquinha coisa escrita… O meu tem 14 páginas, não 8 como eu falei… Eu contei de novo.”
Criança 1: “Eu não indico esse livro, eu não gostei.”
Criança 3: “Esse livro deve ser muito ruim! Ninguém conseguiu ler!”
Criança 1: “Não é, não, eu não sei se é ruim… Minha empregada guardou na prateleira e eu não consegui ler…Esqueci.”
Criança 5: “É, eu também esqueci.”
Criança 3: “Se fosse bom, alguém tinha lido.Você retirou, o Lucca.”
Criança 4: “Eu já tirei quando estava no Grupo 4, mas acho que eu
também não li… Eu não me lembro.”
Criança 3: “Tá vendo, ninguém consegue ler!”

Sobre “Contos Tradicionais do Brasil”. Câmara Cascudo. Coleção Terra
Brasilis. Ed. Ediouro

À medida que as retiradas e discussões iam sendo feitas, os argumentos foram se aprofundando:

Criança 6: “Eu gostei muito porque a Margarida não ficou mais com frio, porque a menina cuidou dela e as duas ficaram amigas. Eu gostei que elas ficaram amigas, aí a menina e a Margarida não ficaram mais sozinhas.”
Luciana: “Você gosta de ter amigos?”
Criança 6: “Eu gosto muito… de todos os meus amigos.”
Criança 7: “Essa história é legal, né?”
Criança 8: “Não, é engraçada.”
Luciana: “Por que é engraçada?”
Criança 8: “Porque todo mundo achou que ela estava fantasiada de onça e ela não estava, não… Aí ela ganhou o troféu e levou pra floresta.”

As impressões sobre os textos eram mesmo engraçadas. Conversando sobre os livros do Ziraldo, O Joelho Juvenal e Dodó, duas crianças disseram:

Criança 3: “Acho que o meu joelho não gosta muito de ser meu joelho, não… Eu vivo caindo, me machucando todo.”
Criança 4: (sentado) “A nossa bunda é que não deve gostar nada, a gente vive amassando ela!”

E as indicações mais pertinentes para os outros grupos:

Criança 7: “Acho que os pequenos não vão gostar desse livro porque é
muito comprido, eles vão ficar cansados.”
Criança 8: “Mas a professora pode contar pra eles.”
Criança 7: “É claro que alguém vai ter que contar pra eles!”
Criança 3: “Não… a Alice falou pra contar, não ler, entendeu?”
Criança 7: “Mesmo assim, demora muito pra contar essa história, tem muitas partes, só se contar em muitos dias.”

Conhecer o amigo, seus gostos e interesses também ficou mais fácil:

Criança 7: “Esse livro só pode ter sido o Lucca que pegou, ele gosta dessa coleção.”
Criança 1: “Eu também gosto, lembra? Eu já retirei quase todos dessa coleção.
Criança 3: “O André Mendes também gosta.”
Criança 1: “Não, ele gosta só daquele que tem a Medusa.”
Luciana: “O de mitologia grega… É verdade, ele gosta mesmo.”
Criança 2: “Eu também já retirei um livro da Medusa, mas não é dessa
coleção.”

Uma comunidade de leitores
Ainda com o intuito de ampliar a relação das crianças com a leitura,
propus que contassem as histórias preferidas para os outros grupos. Para isso, cada criança tinha que preparar a leitura, memorizá-la integralmente, se fosse um texto curto, ou trechos, se fosse muito longo, ensaiando e recontando primeiro para os colegas de classe.A turma deveria avaliar, dizendo quando o texto já podia ser lido ou recontado para as outras turmas.As crianças adoraram a idéia. Sentiram-se importantes. E são mesmo, afinal eles é que serão os responsáveis por inserir os outros colegas nesse mundo imaginário e cheio de aventuras.

O trabalho ganhava corpo e as crianças se entusiasmavam. Laura, a bibliotecária, funcionava como interlocutora das outras crianças da escola. Mas como chamar o resto da comunidade escolar, fazer com que os outros chegassem até nossa sala, trocassem impressões, pedissem sugestões de boas leituras? Um informativo com uma caixa de correio para que professores, pais, alunos e funcionários pudessem se comunicar conosco pareceu-me uma boa sugestão.A idéia foi prontamente aceita. Publicamos um informativo quinzenal. O primeiro foi sobre um livro de que o grupo gostou muito: A mulher que matou os peixes, de Clarice Lispector. O segundo apresentou os livros Dodó, de Ziraldo, e Quem está em casa?, de Maggie Silver.

Algumas das indicações que as crianças fizeram foram para longe: um grupo de leitores do Centro de Educação Infantil Gera-ação Extra, no Rio de Janeiro, recebeu e aceitou as sugestões das crianças daqui. Em troca, enviaram comentários e novas indicações para nossa turma. Dessa forma, vamos estabelecendo novos vínculos e ampliando nossa comunidade de leitores.

1Estratégias de leitura. Isabel Solé.

(Luciana de Oliveira Camargo, Professora de educação infantil na Escola Logos e no Colégio Santa Cruz)

Sobre “Quase de Verdade”. Clarice Lispector. Rocco para Jovens Leitores

Ficha técnica:

Este trabalho foi desenvolvido pela professora Luciana de Oliveira Camargo para as crianças de 5 anos da Escola Logos, no segundo semestre de 2000. Laura Lucia Leardini é bibliotecária e parceira de Luciana nas rodas da biblioteca. Além das crianças da Logos, participaram deste trabalho as crianças de 4 a 5 anos das professoras Kelly da Silva Teperino e Daniele de Araujo Silva e as de 5 a 6 anos das professoras Raquel Souza da Conceição e Lauriê Ramos de Lemos do Centro de Educação Infantil Gera-ação Extra. Virgínia Gastaldi, formadora no CEI e coordenadora pedagógica na Escola Logos, fez a troca de indicações de leitura entre as duas turmas.

  • Escola Logos.Avenida Rebouças, 2416, São Paulo, SP, 05410-300. Tel.: (11) 3081-4077 – www.logos.com.br – e-mail [email protected]
  • CEI Gera-ação Extra,Av. das Américas 2000, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ, 22640-101.Tel.: (21) 2439-4020

Bibliografia

  • Estratégias de leitura. Isabel Solé. Ed. Artmed.Tel.: (11) 3062-9544
  • Interpretação, intérpretes e interpretantes. Emília Ferreiro. In Piaget e Vygotsky. Castorina. Ed.Artmed.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #7 de julho de 2001. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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