O desafio de formar…formando-se

Após freqüentarem curso do Programa Além das Letras1, participantes revelam que as transformações se deram em relação à aprendizagem escolar e (principalmente) em suas vidas
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Museu Imperial de Petrópolis (Imagem: www.flickr.com)

Trabalho com alfabetização há muitos anos. Já dei aula para crianças e hoje leciono para adultos, formando professores. Também fui coordenadora geral do Programa de Formação de Professores Alfabetizadores (Profa), do Ministério da Educação. Atualmente, coordeno o Programa Além das Letras, que consiste na formação continuada de profissionais de redes municipais de ensino em leitura e escrita. A última turma atendida pelo Programa na cidade de Petrópolis, que fica a 72 quilômetros da capital fluminense, foi formada por orientadoras pedagógicas2 e diretoras. O compromisso dessas profissionais não se restringia apenas a acompanhar o curso. Elas também tinham de atuar como formadoras de suas equipes escolares.

Ao longo de todos os 17 anos de experiência nessa área, várias questões me inquietaram e deram origem ao meu mestrado3 em Educação. No capítulo 6 da dissertação, por exemplo, discorro sobre o quanto é reflexivo e complexo formar docentes. Além disso, revelo avanços em relação às concepções teórico-metodológicas e a evolução na utilização da escrita como instrumento de análise e reflexão pelo ser humano. Ao redigir, uma pessoa elabora um entendimento sobre si mesma. Por isso, solicitei a algumas alunas do Além das Letras que produzissem registros reflexivos sobre seus percursos, de 2005 a 2007, durante a capacitação. Dentre as dez selecionadas para essa pesquisa, duas não participaram por questões de saúde. De posse dos depoimentos, encontrei três eixos em torno dos quais desenvolvi algumas reflexões. O primeiro deles nomeei de Processo interno (interior e subjetivo) de formação, por indicar que as profissionais haviam estabelecido relações entre o desenvolvimento e o amadurecimento pessoal, construídos a partir da experiência e de seus desempenhos nas escolas. O segundo batizei de Ações externas (os objetivos) alcançadas nas escolas como locus de formação, por revelar a transposição dos conteúdos aprendidos para as instituições de ensino. Ao terceiro, chamei de Prescrições e recomendações, que são as soluções encontradas pelas integrantes para fazer chegar ao espaço escolar os novos conhecimentos.

Mudanças internas
Ao analisar os relatos, constatei que os aspectos internos e subjetivos das educadoras apoiaram e sustentaram a transformação de suas ações profissionais com suas respectivas equipes. Isso fica claro nos trechos extraídos dos textos de Tatiana do Sacramento e Sônia Cristina Pereira Grazinolli Lobato.

Às vezes, me sentia um pouco insegura. Mais tarde, ganhei autonomia para elaborar as pautas e não dependia do material oferecido no curso. Já era capaz de pesquisar e estudar sozinha. Aprendi a trabalhar com situações-problema, a fazer a leitura do grupo e a solicitar avaliação das reuniões que eu organizava, que direcionava cada vez mais o planejamento dos futuros encontros e as intervenções na prática de cada um. (Tatiana do Sacramento)

O processo me possibilitou um repensar sistemático e reflexivo sobre minha ação e isso causou transformações que não se deram apenas no campo profissional. Também foram pessoais. A formação é um movimento que se dá de dentro para fora. (Sônia Cristina Pereira Grazinolli Lobato)

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Da esquerda para a direita: Lina, Marcela e Raquel, formadoras da Equipe de Educação Infantil

O testemunho de Bianca Eckhardt, por exemplo, denunciou sua emancipação em relação às idéias e atitudes diante dos demais agentes na escola. É possível perceber que ela se reconhece outra pessoa e outra profissional após a recente experiência.

Ser orientadora pedagógica significava um grande desafio à medida que eu precisava dar conta de todas as situações que envolviam alunos, professores, dificuldades de aprendiza-gem, entre tantos outros afazeres. Hoje, reconheço a importância de estar à frente dessas situações, porém atuando de forma coletiva e formativa, mostrando aos professores que as respostas não estão fora da sala de aula, que precisamos dialogar e construir juntos as soluções. Durante esse período, muitas dúvidas se instauraram, muitos conhecimentos se construíram e a grande certeza que carrego é que não sou mais a mesma. Estou caminhando, estudando e investindo muito no desejo de me tornar uma grande formadora. (Bianca Eckhardt)

Outro aspecto observado foi o reconhecimento do grupo sobre o tempo dispendido ao estudo. Ele foi reconhecido como fator importante para assegurar o avanço e a evolução de todos os envolvidos.

Constituir-se como formadora demanda tempo, investimento, estudo e muita reflexão. Ações que procuro desenvolver diariamente na minha rotina. (Bianca Eckhardt)

Bianca Caetano estabeleceu relação entre a proposta de formação e a reformulação de suas ações na escola. Ela relatou que o apoio recebido pela diretora não era suficiente para garantir que suas novas tarefas estivessem asseguradas, mas, aos poucos, conseguiu definir e instituir uma rotina de atuação.

Gradativamente, passei a selecionar os problemas do cotidiano escolar. Aqueles que não eram realmente da minha atribuição, encaminhava para os outros membros da equipe (diretora, professoras, merendeiras e inspetor). Outro fator importante que contribuiu para o crescimento de todos foi eu ter amadurecido no sentido de esperar e respeitar o tempo de construção do conhecimento de cada um.(Bianca Caetano)

Transformações externas
Os depoimentos revelaram a transposição dos conteúdos estudados no Programa para as unidades de ensino, com os docentes e alunos. Cláudia Guedon Tobler e Bianca Eckhardt fizeram importantes reflexões sobre o tema. Elas revelaram a ampliação de uma rede de formação, que gerou avanços em relação às concepções e às ações desenvolvidas.

À criança, que é dado o direito de conviver com bons textos, será dada a oportunidade de escrever bons textos também. Na Escola Santa Maria Goretti, já vemos resultados positivos nas práticas de leitura na sala de aula e estamos percebendo a relação direta da leitura com a produção textual. Mesmo encontrando algumas resistências no início, todas as professoras vêm buscando inserir em seus planejamentos a leitura diária. A partir da proposta do Programa Além das Letras, estamos abandonando velhas concepções sobre o ensino de Língua Portuguesa. Aprender as regras de linguagem se torna muito mais consistente a partir da contextualização e do conhecimento da função social. (Cláudia Guedon Tobler)

Trabalhar com situações-problema tem feito com que os professores da minha escola se desestabilizem, repensem seus conceitos e queiram buscar as respostas. Outra conquista foi conseguir fazer as aulas como objeto de análise para as reuniões, garantindo a discussão dos propósitos e encaminhamentos que permeiam as atividades. (Bianca Eckhardt)

Magda Braga Zanatta Bastos, diretora de escola, fez alusão à necessidade de se programar ações voltadas aos dirigentes, pois, segundo ela, os desafios são muitos e a construção da Educação necessita da participação de todos.

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Professoras e formadoras em ação: Suzana, Vivian, Bianca, Cintia, Ana Claudia, Eliane e Rosilene (fotos: arquivo de Rosilene Ribeiro)

Vejo a importância da formação do orientador pedagógico ou do diretor de escola para que se perceba um estudioso permanente, problematizador, reflexivo de sua prática e de sua equipe, mediador, transformador, pesquisador, enfim um articulador de idéias e ações. Esse pensamento vem mudando a escola, com as práticas pedagógicas mais pensadas, particularmente no que diz respeito à leitura e produção textual. (Magda Braga Zanatta Bastos).

Marcela Teixeira Majella resgatou, em seu relato, alguns aspectos importantes tomados como objetos de reflexão e reconhecidos por ela como desafios. Além disso, considerou que o tempo prolongado da proposta contribuiu para que a mudança ocorresse nas instituições.

Redes que se abriram e se abrem para o conhecimento… partilhas… desafios constantes… gestão do tempo… organização da rotina de formação nas instituições a que estou vinculada… desafio de pensar coletivamente. Dispositivos para que a formação contínua perdure, se entranhe no espaço escolar, caracterizando uma organização que aprende e muda. 2005, 2006, 2007… formação que se constrói a longo prazo. (Marcela Teixeira Majella)

Apropriação das conclusões
Conscientes de suas aprendizagens, as participantes apontaram uma série de prescrições e recomendações que, em seus entendimentos, favorecerão os avanços sobre as condições necessárias para a transposição didática dos conteúdos adquiridos nos ambientes de trabalho. Nessa perspectiva, apresento as escritas de Cintia Chung e Bianca Caetano.

Não basta apenas imaginar. É preciso incorporar a idéia de que além das inúmeras tarefas que temos na escola, a capacitação de nossos professores se torna imprescindível se desejamos a melhoria das práticas pedagógicas. Enquanto educadores/formadores, temos sempre de aprofundar nossos conhecimentos, nos inteirando dos avanços e inovações que o mundo globalizado nos oferece, das exigências de um país em crescimento e das grandes dificuldades que um sistema educacional ainda nos disponibiliza. Precisamos levar essas questões para serem analisadas e refletidas no ambiente de trabalho e assim contribuir para a melhoria da Educação no Brasil, especialmente no que se refere à leitura e à escrita. (Cintia Chung)

Sei que tenho muito para melhorar e aprimorar, principalmente em relação ao registro da prática docente. Esse é o meu objetivo primeiro para o próximo ano. (Bianca Caetano)

A análise dos aspectos observados nos testemunhos me possibilitou desvelar a relação estabelecida por elas a partir do saber promovido pela capacitação. Elas reconheceram uma proposta que deve ser desenvolvida por um longo período, direcionada a um grupo restrito de pessoas, comprometida com a ação formadora de professores nas unidades escolares e sustentada por uma concepção de profissionais reflexivos, pesquisadores e autônomos, capazes de construir uma prática questionadora e avaliadora. O modelo privilegia ainda um conteúdo específico, que é a leitura em voz alta na sala de aula, o que favorece o aprofundamento e a apropriação dos conhecimentos.

Momentos de estudo: Suzanai, Bianca, Cintia, Ana Claudia, Lina e Eliane

Momentos de estudo: Suzanai, Bianca, Cintia, Ana Claudia, Lina e Eliane

Foi relevante descortinar os modos bem diferenciados de atribuição de sentidos expressos nos registros. Sentidos esses reveladores da autoria de cada integrante sobre sua própria formação e da identidade sobre a apropriação dos conhecimentos em cada sujeito. Considerando que a construção de significados exige uma relação recíproca entre falantes e ouvintes, no grupo do Além das Letras, essa ação foi favorecida pela interlocução presente naquele espaço, que assegurou o fluxo das informações pertinentes aos conteúdos apresentados, mas, sobretudo, atribuição de sentidos à experiência por parte de cada um.

Ao concluir meu estudo, cabe ressaltar que o Programa Além das Letras segue seu percurso de continuidade e que as contribuições decorrentes desse modelo possibilitaram à Secretaria Municipal de Educação de Petrópolis a definição de princípios mais claros, atualmente norteadores das demais ações voltadas aos educadores. A partir da implementação da proposta, em 2005, e da avaliação sobre os alcances obtidos, foi possível definir uma estrutura institucional direcionada aos professores da rede de ensino, pela constituição de uma equipe que atua no Centro de Capacitação em Educação Frei Memória exclusivamente dedicada a esse propósito.

(Rosilene Ribeiro, diretora do Centro de Capacitação em Educação Frei Memória – Secretaria Municipal de Educação de Petrópolis e professora da Pontifícia Universidade Católica de Petrópolis)

1O Programa Além das Letras é uma iniciativa do Instituto Avisa Lá, do Instituto Razão Social e do Grupo Gerdau, com o apoio da Avina, do Unicef, da Unesco, da Undime, da Ashoka e da Fundação Victor Civita. Compõe-se de uma premiação e de uma rede de formadores, que conta também com a tecnologia da IBM, por meio da iniciativa Reinventando a Educação.

2Na rede municipal de Educação de Petrópolis, a nomenclatura para coordenadora pedagógica é orientadora pedagógica.

3Além das Letras: sentidos e significados de um projeto de formação de professores em Petrópolis – RJ. Rosilene Ribeiro. Dissertação de mestrado defendida em 30 de janeiro de 2008, na Pontifícia Universidade Católica de Petrópolis, sob a orientação da professora Dra Marlene Alves de Oliveira Carvalho

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Leitura e reflexão: Patricia, Cristina e Claudia

Ficha técnica

Programa: Além das Letras
Coordenadora e consultora: Beatriz Gouveia
Responsabilidade técnica: Instituto Avisa Lá
Realização: Secretaria Municipal de Educação de Petrópolis – RJ
Endereço: Rua da Imperatriz, 197 – Centro – Petrópolis – RJ. CEP: 25685-320
Cordenadora do Centro de Formação: Rosilene Ribeiro
Tel: (24) 2246 8674 / 2246 8678 – E-mail: [email protected]

Para saber mais

Site


Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #35 de julho de 2008. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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