Quero passear!

Passeios com as crianças ao zoológico, parques, museus, praças, feiras etc. são comuns em muitas escolas. Mas qual é, afinal, a intencionalidade educativa que está por trás deles? Por que muitos professores têm receio de sair com seus alunos, que cuidados são imprescindíveis serem tomados? Conheça, nesta matéria, as particularidades dos passeios e saídas a campo, tão necessários à prática educativa.
As crianças apreciam o jardim, guiadas pelas professoras

As crianças apreciam o jardim, guiadas pelas professoras
(Silvana Augusto)

Recentemente, estive a serviço em uma cidade fora do Estado de São Paulo, e ao almoçar no shopping vi um grupo de crianças pequenas passeando, acompanhadas por suas professoras. As crianças, que tinham aproximadamente entre 3 e 5 anos, vestidas com uniforme da escola e portando crachás andavam em fila liderada pela professora. Pareciam excitadas, algumas conversando entre si, outras olhando ao redor. Outra professora acompanhava no final da fila, garantindo que todas as crianças acompanhassem o grupo. Posteriormente observei as crianças comendo numa lanchonete. Pareciam muito felizes. Depois do lanche, brincaram no playground plastificado da lanchonete.

Aquela cena, a princípio, me chocou. Mudanças culturais inevitáveis? Saudosismos de minha parte? Utopia de que existiria um lugar mais adequado e ideal para os passeios das crianças? Fiquei pensando se haveria outro local onde elas pudessem passear. Bem, talvez fosse preconceito de minha parte, eu não conhecia muito bem a cidade, fiquei pensando no motivo da programação daquele passeio. Seria uma pesquisa? Seria um shopping novo que não fosse conhecido da maioria das crianças? Seriam crianças que residiam longe da cidade e não tinham oportunidades de vir ao shopping?

Talvez, se as encontrasse em um mercado municipal, desses com boxes que vendem cestos de vime, peixes, aves, grãos, frutos, legumes, eu teria ficado maravilhada com a riqueza de oportunidade de coisas diferentes para olhar, para cheirar e tocar. Mas e se aquelas crianças já estivessem muito familiarizadas com os alimentos, objetos, animais e ambiente de um mercado “à antiga”? Independentemente do objetivo do passeio, passei a pensar na forma de organizá-lo. Seria aquela a melhor forma de manter a segurança das crianças? Em fila? Num centro comercial confinado?

Recentemente, lembrei-me desta cena, ao ler uma matéria no jornal sobre passeios escolhidos pelas famílias
– shopping ou praças? Museus ou parques temáticos? Pais e especialistas opinavam, citando riscos e benefícios de um ou outro local: segurança X contato com a natureza. Shoppings, com ambientes confinados, ar condicionado, plantas desidratadas, cheio de luzes, cores, sons e ruídos podem oferecer riscos ao bem estar das crianças pequenas. Elas têm mecanismos de defesa ainda em desenvolvimento. Não seria melhor a liberdade dos parques?
Nos grandes centros urbanos eles se tornam raros, o ar já não é tão puro, a temperatura pode estar elevada, há insetos, falta de segurança e de conforto.

A reportagem registrava o depoimento de mães que diziam preferir o shopping por oferecer confortáveis trocadores, com fartura de produtos de higiene, fraldas descartáveis, água corrente e água potável. Há bancos onde podem amamentar enquanto observam as vitrines e os passantes. Alguns também oferecem salas com jogos para montar, papel e lápis de cera para desenhar, pequenos playground plastificados e seguros.

Fruto de uma transformação econômica e cultural, os shoppings nada mais são do que novas formas de organização social dos centros de compra que outrora eram constituídos pelos mercados municipais, pelas feiras livres, pelos armazéns. Eu, por exemplo, tenho recordações muito ricas das lojas de armarinho onde acompanhava minha mãe para comprar linhas, botões, rendas e fitas para suas costuras. Os tecidos, com a riqueza de suas texturas e cores, ainda
povoam meus sonhos.

Então, o que pode ser melhor: aventurar-se pela natureza e ampliar os horizontes ou manter-se seguro? Qual é o papel dos passeios organizados pelas escolas?

As crianças vão à Bienal e experimentam passear sozinhas

As crianças vão à Bienal e experimentam passear sozinhas

Passeios organizados pela escola

Para discutir a questão dos passeios numa instituição educativa, comecei a pensar sobre as diferenças entre os passeios escolares e aqueles que as crianças fazem com suas famílias, já que é papel da escola ampliar os horizontes das crianças para além das experiências familiares.

A diferença começa pelos objetivos que geram um passeio. Muitas famílias programam passeios com seus filhos tendo como objetivo o lazer, que sem dúvida não está dissociado das oportunidades de aprendizagem, mas nem sempre é o principal foco. Já na escola o foco é outro. Passeios e visitas a lugares como parques, museus, feiras etc. demandam dos professores a clareza dos objetivos que querem alcançar com as crianças. Em geral, esses passeios estão a serviço dos projetos ou seqüências de atividades que estão sendo realizadas na escola. Funcionam, portanto, como uma espécie de saída a campo, em que o que está em jogo é a pesquisa e o conhecimento.

A outra diferença é que a família procura conciliar o interesse dos vários membros de diferentes idades e nem sempre as crianças pequenas têm oportunidade de vivenciar situações interessantes para sua idade, indo “a reboque” dos mais velhos. Em outras ocasiões as famílias, com o tempo cada vez mais curto para o lazer, associam as compras com momentos de descontração – os gerentes das lojas e supermercados, sabendo disso, planejam um ambiente para manter e formar novos consumidores. E como dizia um desses gerentes, as crianças são consumidoras em potencial. A escola, como sabemos, deve oferecer opções diferentes das do consumo, posto que esse papel, de um jeito ou de outro, será assumido pela família.

A terceira diferença está na possibilidade de transporte e cuidado individualizado das crianças pequenas. Os pais podem levá-las para passear no colo ou nos carrinhos que já estão disponíveis em parques, shoppings, supermercados etc. Isso possibilita um conforto tanto para a criança quanto para o adulto. Podem fazer pausas para trocar, oferecer suco e papinhas com maior tranqüilidade e de acordo com as demandas de suas crianças. Já a escola deve considerar que, quanto menor a criança, mais cuidados individualizados vai exigir: hidratação, lanches, trocas, repouso. Um número elevado de crianças por educador pode impedir a identificação e o atendimento das necessidades individuais de cada uma. É fundamental providenciar carrinhos para transportar as crianças menores quando elas cansarem de andar. Da mesma forma, é imprescindível providenciar lanches em quantidade suficiente, água, material para trocas, primeiros socorros e medicamentos que não possam ser deixados de ser oferecidos em determinados horários.

As crianças aprendem a usar o corrimão

As crianças aprendem a usar o corrimão

Como definir o passeio na escola

Ao planejar atividades externas e passeios, o educador deve responder às seguintes questões:

  • Qual o objetivo do passeio – diversificar e ampliar as experiências das crianças, apresentar-lhes pessoas, alternar atividades em ambientes ao ar livre com ambientes fechados ?
  • O passeio atende às necessidades de cuidado e aprendizagem de quais faixas etárias?
  • Estes objetivos podem ser alcançados com a mistura de crianças de diferentes faixas etárias ou deve haver programações especiais para cada idade?
  • Quais os critérios de participação das crianças nesses eventos?
  • Os pais concordam com o passeio? Devem ser convidados a participar? Como podem ajudar ou participar?
  • Existem entre as crianças algumas que precisam de cuidados especiais? Por exemplo, crianças com restrições alimentares, diabéticas, asmáticas, ou outras patologias que precisam de cuidados específicos. Como incluí-las no passeio? Caso haja necessidade de uma criança permanecer na escola, devido à sua condição temporária e riscos à sua integridade, como explicar isso a ela e aos companheiros, e como planejar atividades para que permaneça bem, sem que se sinta excluída?
  • Existem casos de doenças transmissíveis, como conjuntivite, meningite, hepatite A, tanto na comunidade em geral como na instituição de educação, que desaconselhem nesse momento o agrupamento de muitas crianças em determinadas condições? Convém programar passeios nessa ocasião? Quais cuidados tomar? Um olhar especial para esses itens ajuda a avaliar as condições de execução dos passeios, tanto materiais quanto humanas, adequando melhor os objetivos do passeio com o processo de crescimento e desenvolvimento do grupo de crianças.

(Damaris Maranhão, consultora em saúde, professora de enfermagem e trabalha em projetos de formação de professores)

Um passeio engajado no projeto pedagógico:
uma experiência realizada por crianças italianas

Muitos professores valorizam o que é especial nos espaços que cercam suas escolas, considerando-os como a extensão do espaço da sala de aula. Por isso, parte do currículo inclui levar as crianças para explorarem a vizinhança e os marcos da cidade. Um exemplo de extensão da escola é um projeto levado avante por muitos meses pela escola Villetta, durante o qual as crianças saíram para explorar o modo como a cidade se transforma durante os períodos de chuva. Esse projeto orientou as crianças e os professores a explorarem juntos primeiro a realidade da cidade sem chuva, tirando fotografias em locais tanto conhecidos quanto menos familiares e formulando hipóteses sobre como a chuva poderia mudá-los. Como naquele ano, em particular, depois de iniciado o projeto, a chuva levou várias semanas para chegar, as crianças tiveram muito tempo para preparar as ferramentas e o equipamento que consideravam úteis para observarem, coletarem, medirem, fotografarem e registrarem tudo sobre a chuva. Nesse meio tempo, as expectativas das crianças cresciam imensamente. Todos os dias os professores e elas iam até o terraço da escola para observar esperançosamente o céu, ganhando muito conhecimento acerca de formação de nuvens e direção do vento.

Quando uma boa chuvarada finalmente chegou, a experiência foi febril e exultante. As crianças perceberam como as pessoas mudavam o ritmo e a postura ao caminhar, como os reflexos brilhantes e os esguichos das poças mudavam as ruas, como a somatização das gotas diferia ao cair no pavimento, no
capô dos automóveis ou nas folhas das árvores. Então, após experimentarem a primeira chuva e após o procedimento costumeiro em Reggio Emilia, engajaram-se em representar muitos de seus aspectos. Isso, por sua vez, levou a questões adicionais, a hipóteses e a exploração que a professora e a atelierista2 documentaram fartamente.

Toda a exploração foi registrada em “A Cidade e a Chuva”, segmento da exposição As Cem Linguagens da Criança, e serve para contar-nos sobre as muitas maneiras como o espaço familiar da cidade pode tornar-se o palco e o tema de atividades e de explorações construtivistas (Departamento de Educação, Cidade de Reggio Emilia, 1987).

As Cem Linguagens da Criança, págs.148-149, Ed. Artmed

2 Professor com formação em arte que se encarrega do ateliê e acompanha o desenvolvimento dos projeto

Para saber mais:

  • As Cem Linguagens da Criança, a abordagem de Reggio Emilia na educação da primeira infância. Carolyn Edwards, Lella Gandini, George Forman. Ed. Artmed. Tel.: (0XX11) 3083-6160

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #6 de abril de 2001. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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