Ver além dos rabiscos

Uma das competências mais importantes de um professor de educação infantil é saber observar as crianças com o suporte de um apoio teórico consistente. Neste relato, a professora conta como acompanhou atentamente os desenhos dos alunos eduardo e vitória

Nas primeiras atividades desenvolvidas com o grupo de crianças na faixa etária de quatro anos, me senti frustrada por ver apenas alguns rabiscos que para mim nada diziam. Porém, com os textos que passei a estudar, fui compreendendo o exercício do desenho. A partir daí comecei a observar as crianças individualmente e percebi que a maioria delas já modificava a garatuja e que nem todas permaneciam na mesma linha de conduta. Muitas estavam no movimento longitudinal1 desordenado e não tinham apropriação na forma de segurar o lápis, mas algumas faziam círculos soltos e já enovelavam. Vale lembrar também que todas nomeavam os desenhos. Com base no que fui aprendendo, escolhi as produções do Eduardo e da Vitória, ambos com quatro anos, para relatar a evolução dos desenhos.Continue lendo >

O que nos contam as caveiras

Ao aproveitar o interesse das crianças pelas horripilantes histórias de caveiras e esqueletos, professoras de são paulo encontram maneira criativa de pesquisar e vivenciar o corpo humano
Desenhos feitos pelas crianças da Escola de Educação Infantil Recreio e retirados da Revista Avisa Lá, nº 15, junho/2003

Desenhos feitos pelas crianças da Escola de Educação Infantil Recreio e retirados da Revista Avisa Lá, nº 15, junho/2003

O projeto Caveiras Imaginárias, Esqueletos Científicos foi desenvolvido ao longo do 2º semestre de 2006 com crianças de cinco anos, na Escola de Educação Infantil Recreio, na cidade de São Paulo. Ao longo deste texto, relataremos nosso percurso, explicitaremos os objetivos e compartilharemos alguns frutos colhidos ao final da trajetória.

Antes de se configurar como um tema de estudos, o esqueleto humano despertava grande interesse no grupo, associado às “horripilantes” histórias de terror, bastante requisitadas pelas crianças! O livro Contos de enganar a morte, de Ricardo Azevedo, reinava soberano em nossas rodas de história, trazendo caveiras em suas ilustrações, além da temática recorrente do moço esperto que não quer “bater as botas” e, para tanto, inventa criativas estratégias para enganar a “marvada” e adiar sua partida “desta para melhor”.

Desmistificando a associação do esqueleto humano com histórias de terror, fantasmas e assombrações, propus às crianças a idéia de estudarmos o corpo humano de maneira científica. Um desafio e tanto, que logo contou com a adesão animada do interessado grupo de crianças.
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Vamos ler para aprender

Ao refletir sobre o papel do formador de apoio, a autora dá o exemplo de como ajudar os professores a redescobrir a leitura como ferramenta de estudo

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O processo de formação de um professor envolve inúmeros aspectos ligados à dimensão pessoal, profissional e organizacional. Segundo António Nóvoa1:

“O professor é pessoa. E uma parte importante da pessoa é professor. Urge por isso (re)encontrar espaço de interações entre as dimensões pessoais e profissionais, permitindo aos professores apropriar-se de seus processos de formação e dar-lhes um sentido no quadro das suas histórias de vida”.

Isso quer dizer que, para um professor de fato se envolver num processo de formação continuada, ele precisa passar por intervenções nestes âmbitos, além de construir sua identidade profissional e pessoal de uma maneira complementar. Assim, formadores de professores têm um grande desafio pela frente: despertar um interesse pessoal do professor pela formação, envolvendo-o nos aspectos profissionais e institucionais. Não é algo simples, mas é possível, como relato a seguir, a partir da experiência que vivi como formadora de professoras de três CEIs2 em São Paulo.
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Que choro é esse?

Elemento constante da vida das crianças pequenas e, portanto, da rotina dos educadores, o choro revela sentimentos e necessidades das crianças e exige um ouvido atento de quem quer ajudá-las a se desenvolver bem

Embora haja muita produção acadêmica sobre desenvolvimento infantil, nem sempre é possível derivar do material acadêmico uma prática que apóie as questões interpessoais e emocionais enfrentadas pelos professores. Faltam mais relatos sobre situações reais vividas, pois explicitar determinados episódios cotidianos ajuda na reflexão. Portanto, a decisão de publicar o material a seguir visa contribuir para ampliar o olhar sobre o tema. No CEI Grão da Vida, no qual supervisiono1 um grupo de estagiárias de enfermagem da Universidade Santos Amaro – UNISA, a coordenadora pedagógica Vera Figueiredo – Teca, ao conduzir um grupo de educadores no estudo de alguns capítulos do livro Ética na Educação Infantil2, identificou como tema importante para estudo as necessidades individuais das crianças pequenas.

Algumas situações relatadas ao longo dos grupos de estudo ajudam a pensar sobre a questão.
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O carteiro chegou

A proposta inesperada de enviar e receber cartas deu novo sentido e entusiasmo ao exercício da escrita e da leitura realizado pelas crianças

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A pequena Giovanna no Canto de Escrita


Aos cinco anos, as crianças começam a descobrir que podem escrever com maior desenvoltura, mas sempre demonstram a mesma preocupação: “Eu não sei escrever do jeito certo e não quero escrever do meu jeito”. Geralmente percebem que há uma escrita convencional que difere de suas hipóteses iniciais sobre a escrita. Numa das reuniões de coordenação do Colégio Nossa Senhora do Morumbi – onde sou professora de um grupo de crianças nessa faixa etária – Denise Tonello1, coordenadora pedagógica da Educação Infantil, sugeriu um canto de atividade diversificada, em que as crianças pudessem brincar de escrever.

Nessa escola, a rotina da Educação Infantil inicia-se com atividades diversificadas, organizadas em pequenos cantos. Desse modo, as crianças podem escolher de qual atividade desejam participar, exercitando a responsabilidade e a autonomia. Além disso, enquanto algumas crianças participam de atividades interagindo entre si, o professor pode realizar intervenções mais pontuais para um pequeno grupo de crianças (geralmente atividades de escrita). Na maioria das vezes, priorizamos uma atividade de jogos, uma de desenho, uma de desafios matemáticos e a outra de escrita. A partir da sugestão de Denise, criamos o Canto da Escrita, com a proposta de as crianças escreverem e enviarem cartas para pessoas conhecidas.Continue lendo >

Os seis desafios do formador

Formar professores exige saberes refinados, que a formadora Cristiane Pelissare traduziu em um conjunto integrado de desafios a serem continuamente perseguidos

Tornei-me formadora de professores um pouco por acaso. Esses acasos que com o tempo, e sem a gente perceber, ganham espaço, despertam o desejo, provocam mudanças e se transformam em casos definitivos. Com o tempo, descobri que ser formador de professores1 não é uma tarefa fácil. O ato de formar é complexo, nem sempre linear ou totalmente prescritivo. Constituir-se formador é processual, o que significa, entre outras coisas, tempo, investimento pessoal e disponibilidade para rever-se. Aprender novas formas de ensinar professores pressupõe tempo para testá-las, avaliar seus efeitos, realizar ajustes, reavaliá-las. É preciso ter a oportunidade de trabalhar com seus pares – dentro e fora da escola – partilhar, além de idéias e conhecimentos, os sucessos e as dificuldades desse ofício especializado em transformar práticas de professores.

Constituir-se formador implica desenvolver, progressivamente, um corpo específico de saberes. Saberes esses que nem sempre coincidem com aqueles do ofício de professor (origem profissional da maioria dos formadores de professores). E quais são esses saberes? Que competências, habilidades específicas, capacidades necessitam desenvolver os formadores para que suas ações representem mudanças efetivas dentro das instituições às quais estão vinculados? Na tentativa de dialogar com essas questões e com reflexões de alguns formadores experientes, arriscome a elencar seis desafios que considero postos hoje ao contexto da formação continuada de professores e, especialmente, aos formadores de professores.
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Saúde todo dia

O CEU CEI Aricanduva, na Zona Leste paulistana, investe na formação dos educadores para uma efetiva promoção de saúde no cotidiano escolar das crianças
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Além do filtro no refeitório, foi implantado um bebedouro na área externa

Num Centro de Educação Infantil (CEI), educar e cuidar das crianças são faces da mesma moeda. Integra o tempo de a criança ser acolhida, cuidada, alimentada, de ela repousar, aprender a cuidar de si própria e conhecer mais sobre o mundo que está ao seu redor. Neste processo, o educador exerce um papel fundamental: ele cuida e educa especialmente seu grupo de crianças, acompanhando o desenvolvimento de cada uma, construindo parcerias com as famílias, acolhendo e negociando os conflitos que surgem no dia-a-dia. Acreditando na importância da formação desse educador, iniciamos uma parceria com o Programa Capacitar Educadores – Promoção de Saúde no Centro de Educação Infantil – CEI1 em 2006, contribuindo para a implementação do nosso projeto de educação permanente dos profissionais, integrando cuidar e educar.

A participação no projeto é coordenada pelo Instituto Avisa Lá, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação da cidade de São Paulo (SME) e financiada pelas empresas Gerdau e C&A. Esta parceria resulta do nosso compromisso em atender o direito das crianças a uma educação de qualidade. Tanto a direção quanto a coordenação pedagógica identificam que o principal caminho é a formação continuada, para subsidiar e operacionalizar o projeto pedagógico, tendo em vista mudanças efetivas na qualidade do atendimento destinado às crianças.
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Redescobrir o lugar da leitura na escola

Um diagnóstico inicial sobre a situação de leitura nas escolas municipais levou a equipe técnica da Secretaria de Educação de Umuarama, no Paraná, a repensar a formação dos coordenadores pedagógicos
Mãe e filha encantadas com a leitura de um livro durante a inauguração da Biblioteca Gerdau

Mãe e filha encantadas com a leitura de um livro durante a inauguração da Biblioteca Gerdau

Com o apoio do Programa Além das Letras1, iniciamos em 2006 um projeto de formação de coordenadores pedagógicos para implantação de novas práticas de leitura nas escolas de Ensino Fundamental e de Educação Infantil. Elaboramos um diagnóstico da situação de leitura dos professores e dos alunos nas séries iniciais. Ficamos perplexas com os resultados descritos, pois pensávamos que, com os cursos e as formações anteriores, a importância da leitura para a inserção plena na cultura escrita estivesse internalizada. Mas que decepção: a leitura, na verdade, estava sendo realizada, na maioria das vezes, apenas como instrumento para o desenvolvimento da escrita e muito pouco com a finalidade de desenvolver práticas com propósitos explícitos como buscar informação, estudar ou, ainda, pelo prazer literário, como acontece fora da escola.Continue lendo >

Criar uma escola para todos

É possível mudar verdadeiramente o olhar? Quebrar padrões dentro de nós? Permitir que a singularidade e a subjetividade dos alunos, e também dos professores, encontrem espaço para uma experiência transformadora? Somos capazes de criar uma escola para todos? Perguntas como essas têm nos ajudado a fazer e a pensar o programa plural da Associação Rodrigo Mendes1

O Programa Plural da Associação Rodrigo Mendes – ARM tem como objetivo colaborar com a inclusão por meio da Arte. Com a intenção de multiplicar o aprendizado acumulado nos doze anos de existência da ARM, o trabalho de formação de professores nasceu em setembro de 2005, com o Curso Plural 1. O curso começa com o resgate da memória de infância dos professores em relação à deficiência e à arte.

“Tive uma colega com paralisia infantil e ninguém sentava perto dela.”2

“No meu bairro, tinha um menino deficiente que a gente tinha medo, falavam que ele era perigoso.”

“Meu pai tinha uma deficiência e a minha experiência é de conviver com um exemplo de grande superação.”

“Ia ter um irmão, estava muito feliz. Quando nasceu, todos só falavam que era Síndrome de Down. Então perguntei: – Não era Jorge o nome dele?”Continue lendo >

Arte: base do projeto na escola

Na Escola Grão de Chão, a proposta pedagógica é guiada pela arte. Oficinas diárias com diferentes linguagens artísticas favorecem um trabalho estético de alta qualidade, e a cada ano uma caprichada exposição revela a consistência do trabalho realizado. Em 2006, o encanto ficou por conta de uma instalação com móbiles produzidos pelas crianças e professores

O projeto educativo da escola Grão de Chão1, que já completou 22 anos de atuação na cidade de São Paulo, tem como objetivo desenvolver habilidades, competências afetivas das crianças por meio de projetos cuidadosamente planejados, com ênfase no jogo/brinquedo e nas artes, em suas diferentes linguagens: Teatro, Música e Artes Visuais. As linguagens artísticas e o brincar permeiam o dia-a-dia da escola e estão garantidos nos tempos e espaços que são organizados pelos coordenadores e professores. A opção de trabalhar com a arte e o brincar, no entanto, não impede o desenvolvimento das outras áreas do conhecimento como a Língua Portuguesa ou a Matemática, por exemplo, já que os projetos são interdisciplinares.Continue lendo >