O carteiro chegou

A proposta inesperada de enviar e receber cartas deu novo sentido e entusiasmo ao exercício da escrita e da leitura realizado pelas crianças

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A pequena Giovanna no Canto de Escrita


Aos cinco anos, as crianças começam a descobrir que podem escrever com maior desenvoltura, mas sempre demonstram a mesma preocupação: “Eu não sei escrever do jeito certo e não quero escrever do meu jeito”. Geralmente percebem que há uma escrita convencional que difere de suas hipóteses iniciais sobre a escrita. Numa das reuniões de coordenação do Colégio Nossa Senhora do Morumbi – onde sou professora de um grupo de crianças nessa faixa etária – Denise Tonello1, coordenadora pedagógica da Educação Infantil, sugeriu um canto de atividade diversificada, em que as crianças pudessem brincar de escrever.

Nessa escola, a rotina da Educação Infantil inicia-se com atividades diversificadas, organizadas em pequenos cantos. Desse modo, as crianças podem escolher de qual atividade desejam participar, exercitando a responsabilidade e a autonomia. Além disso, enquanto algumas crianças participam de atividades interagindo entre si, o professor pode realizar intervenções mais pontuais para um pequeno grupo de crianças (geralmente atividades de escrita). Na maioria das vezes, priorizamos uma atividade de jogos, uma de desenho, uma de desafios matemáticos e a outra de escrita. A partir da sugestão de Denise, criamos o Canto da Escrita, com a proposta de as crianças escreverem e enviarem cartas para pessoas conhecidas.

Para minha surpresa e entusiasmo, as crianças envolveram-se com a escrita de maneira surpreendente, até porque perceberam que escrever para amigos queridos e familiares tinha muito mais sentido do que simplesmente escrever o nome das figuras numa atividade mais formal de escrita. E, o que é mais importante: apresentaram avanços significativos em suas hipóteses num espaço muito curto de tempo.

Desvendando as letras
Todos os dias, durante as atividades diversificadas, duas ou três crianças escrevem cartas. É uma atividade bem especial e específica, por isso, é impossível fazer com todos ao mesmo tempo. Se, por algum motivo, não é possível realizar esta proposta, o grupo fica incomodado, porque todos querem participar sempre. É comum escutar comentários como: “Quando a gente manda carta, todo mundo fica feliz!” ou “Eu acho legal e fico gostando cada vez que eu recebo cartas!”.

Como o correio é uma prática social que ultrapassa os muros da escola, desperta ainda mais o interesse das crianças, além de aguçar o desejo de aprender a ler e escrever. Aproveitamos estes momentos tão significativos para fazer intervenções pontuais e individualizadas, de acordo com o que cada um está pensando sobre a escrita. Por exemplo:

Criança: – Eu quero escrever pra vovó.
Professora: – Como se escreve vovó?
Criança: Começa com “o”.
Professora: Como começa o nome do Victor?
Criança: É com “v”. Ah! Vovó é com “v” e “o”!

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É muito prazeroso observar as relações que as crianças estabelecem com as letras dos nomes – palavras estáveis, de muito significado e que são trabalhadas desde o Grupo 3 (crianças de 3 anos). Por meio de brincadeiras e jogos com nomes, o interesse pela escrita se inicia. Com o tempo, o repertório vai se ampliando e é possível perceber, como no exemplo, que o “v” de Victor também pode ser usado para escrever “vovó”.

Que diferença, né?! No nosso tempo, para aprender a “usar” a letra “v”, a gente tinha que ficar lendo e escrevendo “vovó viu a uva” muitas vezes. E a classe toda tinha que aprender a mesma coisa, do mesmo jeitinho e ao mesmo tempo. Ainda bem que tudo isso mudou: hoje todos nós entendemos que a aprendizagem percorre caminhos diferentes em cada criança. Vejam essa carta:

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A escrita nesta carta é silábica. Para a criança, cada letra representa uma sílaba. Nas próximas, a escrita também é silábica, porém com valor sonoro, ou seja, a escrita de cada letra corresponde ao som que a criança pronuncia. Por exemplo, a palavra gostei: O (gos) – E (te) – I (i)2.

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Podemos observar escritas silábico- alfabéticas. Isso quer dizer que estas crianças não se contentam com apenas uma letra para representar uma sílaba e, porque ainda não estabeleceram uma regularidade, costumam preencher esse desconforto utilizando as letras que mais conhecem.

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No próximo exemplo, a criança já entendeu como funciona a organização da língua e escreve convencionalmente.

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Você pode estar pensando: “Puxa, são pensamentos muito diferentes sobre o funcionamento da escrita. Mas será que estas maneiras de pensar a escrita mudam mesmo?” ou “Será que todos(as) vão escrever assim, em breve?”.

Todas essas diferenças são esperadas nesta faixa etária. O tempo todo, a partir de nossas freqüentes intervenções, as crianças são estimuladas a construir e reconstruir tais hipóteses. Uma pergunta pontual da professora e a parceria com um colega que está escrevendo de um jeito diferente, por exemplo, aguçam na criança a vontade de investigar, de ir além. E, desse modo, todos avançam gradativamente, cada um a seu tempo, no processo de aquisição da escrita. E como se aprende a escrever escrevendo, neste momento, o que mais nos importa é estimular o entusiasmo e a alegria de todos em escrever.

Envelopes e postais
Além de trabalhar com as questões ligadas à escrita, também exploramos a estrutura de uma carta: como ela começa, como termina, a importância de colocar o nome de quem vai receber etc. Fizemos o mesmo com o envelope. E hoje, cada um já sabe o que escrever, como começar e o que é importante colocar no envelope: “Se não tiver selo, o carteiro não leva!”, “Eu vou fazer uma letra bem bonitinha pro carteiro entender!”, “Eu vou escrever primeiro São Paulo, se eu estivesse lá no Rio eu ia escrever Rio de Janeiro!”. Também programamos uma visita ao correio, para que cada um leve sua carta.

Todos estes aspectos que foram discutidos influenciaram na produção de cada um porque, no início, as cartas eram muito mais parecidas com bilhetes, depois ficaram mais elaboradas. Podemos observar isso na carta a seguir.

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Esses pequenos escritores estão cada vez mais animados com as cartas que enviam e recebem. É impossível descrever a carinha de cada um quando alguém da escola entra em nossa classe para entregar as cartas. Todos ficam ansiosos querendo saber para quem é, quem mandou e o que escreveu! Nestes momentos, não importa o que está acontecendo, se estamos lendo histórias, pintando ou brincando no parque. É preciso parar tudo e ler a carta que foi entregue pelo carteiro.

E não são apenas cartas que recebemos, mas, também alguns postais. Já recebemos notícias até de uma viagem a Las Vegas. Agora estamos na expectativa: será que vai chegar algum telegrama? Fizemos até um livro, uma coletânea individual com o nome de “Cartas de um Pequeno Escritor”, no qual colamos xérox das cartas que as crianças escreveram e todas as cartas que receberam. Hoje, para estas crianças ainda tão pequenas, escrever é algo prazeroso. Fico pensando como será bom se, ao chegar no Ensino Fundamental, elas continuarem querendo escrever mais e mais, em vez de perguntar ao professor o número de linhas a serem preenchidas e limitarem a produção porque, na verdade, não gostam de escrever. Contribuir na formação de escritores competentes que percebem que escrever tem sentido e significado é o mais gratificante.

Além das intervenções pontuais do educador, saber para que e para quem se escreve é o que ajuda a criança a aprender a escrever. E isso eu pude comprovar na prática.

(Andréia Muller, professora de um grupo de crianças de 5 anos)

1Denise Tonello é coordenadora pedagógica do Colégio Nossa Senhora do Morumbi, na Cidade de São Paulo.

2Para cada emissão sonora, representando uma letra ou uma sílaba, a criança usa apenas uma letra.

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Canto de Jogos, com os alunos Beatriz, Isabella A., Isabella C. e Ana Paula

Ficha técnica

Colégio Nossa Senhora do Morumbi – Av. Giovanni Gronchi, 4.000 – CEP 05724-020 – São Paulo – SP – Tel.: (11) 3742-5513 E-mail: [email protected] – Site: www.nsmorumbi.com.br
Coordenadora Pedagógica: Denise Tonello

Para saber mais

Livros

  • Psicogênese da Língua Escrita. Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, Ed. Artes Médicas. Tel.: (11) 221-9033.

Filmes:

  • Central do Brasil. Direção de Walter Salles. Disponível nas locadoras em formato VHS e DVD.
  • Narradores de Javé. Direção Eliane Café. Disponível nas locadoras em formato VHS e DVD.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #30 de abril de 2007. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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