Pauta bem planejada

Planejamento é um termo bastante utilizado nas escolas e nas redes de ensino. Todos reconhecem sua importância, mas será que ele repercute efetivamente na prática pedagógica?

avisala_41_forma5 No Programa Além das Letras1, há dois importantes recursos para o planejamento das ações: a escrita do projeto de formação no início de cada ano e a elaboração das pautas dos encontros de tematização da prática e de estudo, que os formadores locais organizam para os coordenadores pedagógicos dos municípios participantes. O Programa oferece uma série de subsídios organizados como pautas para apoiar os formadores locais nesse trabalho. A singularidade é dada pela maneira como a equipe local estuda e se empenha para planejar bem e refletir com propriedade sobre as especificidades. Embora a pauta contenha sempre uma lista das atividades a serem realizadas, ela é muito mais do que isso. Quando bem feita, revela a escolha cuidadosa do conteúdo (o que os coordenadores precisaram aprender para trabalhar com os professores), mostra clareza quanto ao objeto de ensino em questão, antecipa as possíveis dúvidas e, principalmente, elege as estratégias adequadas. Há real intenção formativa e, por isso, os formadores estudam o conteúdo e o foco a ser desenvolvido, pensam a respeito das situações-problema que serão apresentadas e planejam possíveis intervenções.

O formador, diante de uma pauta, deve assumir o lugar de quem se questiona sobre o que será proposto nas atividades. Se for realizar uma leitura, precisa decidir qual será, com que propósito e qual a demanda do seu grupo. É fundamental conhecer o que propõe e o grupo com o qual vai trabalhar. O trabalho apresentado pelas formadoras da cidade de Tupã, em São Paulo, mostra como se organizaram para estudar a pauta que receberam do Programa como subsídio para expor à consultora que estava a distância as dúvidas e a busca das informações necessárias à sua formação. Portanto, elas transformaram a pauta em objeto de estudo e de formação.

Certamente, é possível que se questione a razão de tanto preparo, uma vez que receberam do Programa uma sugestão de pauta. Aí está o diferencial impresso em cada ação local quando se pensa em uma intervenção planejada, que leva em conta as demandas específicas. Quando a problematização é o eixo condutor das reflexões, a possibilidade de o grupo usar seus conhecimentos faz com que um planejamento padrão ganhe singularidade. Acompanhe, a seguir, o trabalho de Adriana Arroio e Sirlene Teixeira.

1. Objetivo do encontro

  • Refletir sobre os comportamentos, propósitos e procedimentos utilizados pelo leitor proficiente durante a leitura, já que o tema ainda gera muitas dúvidas.

2. Conteúdos

  • Comportamentos, propósitos e procedimentos leitores.
  • Formação de formadores.

3. Leitura em voz alta pelo formador

  • Livro Atrás da porta, de Ruth Rocha2.

4. Indicação literária

  • Espaço para que os coordenadores pedagógicos indiquem o que estão lendo.

5. Leitura do registro reflexivo

6. Compartilhamento da pauta

7. Desenvolvimento

Atividade 1: na sala de aula

Leitura do livro Atrás da porta, de Ruth Rocha, a ser realizada em dois momentos. A primeira parte será interrompida no clímax da história e retomada após o almoço para finalização.

Atividade 2: retomada da ação de formação na escola

Construção de um quadro-síntese com observações e possíveis encaminhamentos. A intenção é saber o que o grupo pensa e consegue constatar. É importante combinar com o grupo que o quadro poderá ser retomado ao longo da formação para acrescentar informações, rever encaminhamentos, bem como alterá-los ou excluí-los, conforme o nível de conhecimento alcançado. É fundamental não intervir nas respostas. A seguir, o formato do quadro feito com papel pardo, fixado na parede.

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Essa proposta evidencia um importante princípio da formação: a provisoriedade do conhecimento. Isso quer dizer que os conhecimentos são provisórios, portanto não existem verdades absolutas nem permanentes e, sim, a possibilidade de interpretar a realidade por meio de conhecimento disponível no momento. (Observação de Débora Rana)

Atividade 3: análise de uma situação de leitura
Organização dos coordenadores pedagógicos em pequenos grupos para:

1. Analisar algumas situações de leitura desenvolvidas pela professora Cleide3, a partir das questões indicadas em cada uma delas. Essas situações demonstram decisões tomadas pela professora antes, durante e depois da leitura.

1ª situação – na sala de aula
A professora, sentada em roda com os alunos, apresenta um livro de histórias de Monteiro Lobato, que será lido. Ela explica os motivos da escolha. Revela seu interesse pelo autor e comenta sobre as histórias maravilhosas e interessantes que ele escreve. Informa que a biblioteca da escola tem alguns exemplares, além de ter recebido uma caixa com vários outros títulos do autor. Mostra a obra, lê o título e, em seguida, narra a história.

Pergunta:

  • Por que a professora explica o motivo de sua escolha e conta sobre seu particular interesse pelo autor, assim como comenta o que pensa sobre as histórias que ele escreve?

Nesse momento, ao comentar sobre sua escolha e o livro que lerá, a docente explicita um comportamento leitor. Ela também amplia as informações acerca da obra e do autor, dando conta do contexto de produção.

2ª situação – na biblioteca
A professora Cleide escolhe ler para seus alunos histórias de Monteiro Lobato e leva-os à biblioteca. Os estudantes sentam-se em roda e ela mostra os livros do autor que constam do acervo, além de outros que a escola ganhou. A educadora lê para a turma trechos da biografia que ela acha importantes e, em seguida, oferece diversos livros de Monteiro Lobato para o manuseio.

Perguntas:

  • O que as crianças podem aprender nessa situação?

Elas conhecem o autor, suas obras, as características de um determinado gênero, e podem antecipar o que encontrarão no texto. Também aprenderão mais um comportamento leitor.

  • Qual a importância de a educadora informar aos alunos sobre a vida do autor e possibilitar que eles manuseiem outros livros?

Quando a professora estuda com as crianças a vida do autor, ao apresentar o contexto de produção, ela propicia à turma conhecer com propriedade o estilo e o gênero abordados, aproximando-as do autor, ao possibilitar a comparação com outros escritores e obras.

Quanto mais informações o leitor tiver do livro e do autor, mais ele poderá dialogar e interagir com o texto. Isso também amplia o campo de sentido para ele, que é mais um comportamento leitor. (Observação de Débora Rana)

3ª situação – na sala de aula
Antes de iniciar a leitura, a professora Cleide mostrou o livro para as crianças e perguntou o que elas imaginavam que iria acontecer na história de Monteiro Lobato. Ela abriu espaço para que os alunos falassem, comentassem e dessem opiniões, sem se preocupar com certo ou errado. Eles imaginaram as mais diversas situações e se divertiram com as ideias diferentes.

Perguntas:

  • Por que, antes de iniciar a leitura, a professora perguntou para as crianças o que elas imaginavam que poderia acontecer na história?

Ela utilizou uma estratégia de leitura – a antecipação –, para que os alunos fizessem antecipações cada vez mais adequadas às características do gênero em estudo.

  • O que os alunos podem aprender com essa situação?

As crianças exercitam e colocam em jogo seus conhecimentos sobre a obra e o gênero que vem sendo estudado, tornando-se leitoras proficientes. Elas também descobrem o sentido da antecipação.

Para antecipar também é possível utilizar algumas pistas, como o título, as ilustrações, o nome da editora etc. (Observação de Débora Rana)

4ª situação – na sala de aula
A professora leu a história e propôs aos alunos que a comparassem com outra história do mesmo autor lida em outro momento. O principal objetivo, aqui, foi estimular os comentários, a emissão de opiniões e a troca de pontos de vista.

Pergunta:

  • De que maneira essa conversa após a leitura pode contribuir para a formação de leitor?

Essa atitude permite que os alunos atribuam sentido à leitura, relacionando os fatos da história, desenvolvendo a criticidade, a autonomia e as opiniões acerca do que foi lido. Eles aprimoram seus comportamentos leitores, imprescindíveis à vida social.

O leitor proficiente estabelece relações a partir do que lê, mas isso também se aprende. Grande parte das pessoas entende que o que o escritor escreveu é incontestável, ignorando sua interpretação pessoal, inclusive quando não gosta de um livro. Daniel Pénnac ajuda a entender os direitos do leitor. (Observação de Débora Rana)

2. Socializar as respostas dos grupos, sem considerar o certo ou o errado.

3. Propor a leitura do texto: Leitura do mundo, leitura da palavra, leitura proficiente: qual é a coisa que esse nome chama?, de Kátia Bräkling, e solicitar aos coordenadores pedagógicos, nos mesmos grupos, que identifiquem e grifem, ao longo do texto, os trechos que:

a) justifiquem as decisões tomadas pela professora Cleide.

  • Explicar os motivos da escolha do livro.
  • Levar os alunos à biblioteca e mostrar as obras do autor.
  • Ler trechos da biografia.
  • Permitir que as crianças manuseiem os livros.
  • Fazer antecipações sobre a leitura.
  • Ler em voz alta.
  • Proporcionar um momento para comentários sobre o que foi lido.
  • Comparar histórias do mesmo autor.
  • Propor uma conversa sobre o que foi lido.

b) evidenciem a importância dessas ações para a aprendizagem dos alunos.

4. Propor que cada grupo apresente os trechos identificados.

5. Sistematizar com todo o grupo os conteúdos da leitura.

Até esse momento da pauta, confundíamos comportamentos com procedimentos leitores. Após ler os textos indicados, chegamos a algumas conclusões.

  • Propósitos leitores, que se referem aos objetivos de leitura de um texto: estudar, se divertir, se informar…
  • Procedimentos leitores, aqueles que estão relacionados ao uso do texto. Por exemplo, se for para estudo, fazer anotações e grifos; se for um romance, ler por capítulos.
  • Comportamentos leitores, que estão ligados à socialização, à interação dos comportamentos, ou seja, dizer o motivo da escolha, fazer inferências, atribuir sentidos, antecipar, indicar a obra a alguém…

O propósito leitor e os procedimentos estão ligados entre si de modo mais orgânico. O comportamento leitor é mais amplo e pessoal, além de permitir diferenciar os propósitos e procedimentos leitores. O leitor tem mais uma série de comportamentos, tal como os que exemplificaram, que o tornam um leitor proficiente. (Observação de Débora Rana)

Atividade 4: discussão sobre a pauta e análise dos procedimentos do formador
Registro de comentários sem nenhuma interferência e entendimento de como o grupo pensa uma pauta. Nesse momento, propor às coordenadoras pedagógicas que analisem cada proposta.

  • Ler a pauta e pedir que destaquem as atividades propostas. As falas devem ser registradas.
  • Solicitar que comentem a intenção de cada atividade proposta. Conforme a discussão, os comentários devem ser registrados.
  • Finalizar com os comentários necessários.

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Atividade 5: elaboração da pauta para os professores
Início de planejamento de uma pauta de formação (HTPC), de planejamento de uma situação de leitura em voz alta, considerando a importância de:

  • definir o objetivo da leitura;
  • comportamentos leitores e procedimentos envolvidos;
  • planejamento da leitura de acordo com o conteúdo a ser trabalhado com as crianças.

Nesse momento, tivemos dúvida de como conduzir a pauta. As coordenadoras pedagógicas poderiam utilizar as estratégias desse subsídio também com os professores, a exemplo da professora Cleide, ou a proposta era criar uma situação que contemplasse os mesmos objetivos?

Débora Rana, mais uma vez, nos socorreu. Leia abaixo a resposta:

Elas podem utilizar o mesmo exemplo. O que ocorre é que, por vezes, elas têm exemplos do próprio cotidiano, que preferem usar. Como puderam observar, esse subsídio é bastante contundente no que se refere a marcar a concepção de leitura. Dessa maneira, é um momento de muita discussão embasada teoricamente de incorporação de novos conhecimentos. (Observação de Débora Rana)

Atividade 6: ação de formação na escola

  1.   Planejamento com o professor de uma situação de leitura, considerando o propósito e os comportamentos leitores que ele queira ensinar.
  2. Observação da aplicação da atividade pelo professor.
  3. Registro da atividade observada a ser compartilhada no próximo encontro.
  4. Para subsidiar o planejamento, indicar a leitura do texto E depois de ler, fazer o quê?4, de Maria Virginia Gastaldi, com as seguintes questões norteadoras:

a) Como se ensina comportamento leitor?
b) Qual é a articulação entre comportamento e propósito leitor?

A leitura e as questões servem para nortear o estudo do coordenador pedagógico antes do planejamento com o professor.

Atividade 7: avaliação

  • O que foi possível aprender?

De fato, a pauta é um modelo de estudo. Aguardo ansiosa o retorno dessa atividade. Se depender do planejamento da pauta e do preparo de vocês, com certeza todos vão aprender muito. (Observação de Débora Rana)

(Adriana Arroio e Sirlene Teixeira, formadoras locais da Secretaria Municipal de Educação de Tupã-SP e Débora Rana, consultora do Instituto Avisa Lá)

2 O Programa Além das Letras é uma iniciativa do Instituto Avisa Lá e do Instituto Razão Social, com o apoio da Avina, UNICEF, Undime e Ashoka. É composto de uma premiação e de uma rede de formadores, que conta também com a tecnologia da IBM, por meio da iniciativa Reinventando a Educação.

3 Atrás da porta, de Ruth Rocha é uma publicação da Editora Salamandra: São Paulo, 1997.

5 Revista Avisa lá no 26-Abril/2006

Encontro de formação de supervisores (acervo pessoal das formadoras)

Encontro de formação de supervisores (acervo pessoal das formadoras)

Subsídio para a elaboração da 4ª pauta – Leitura em voz alta pelo professor

Neste subsídio, daremos continuidade ao papel pedagógico da leitura em voz alta, considerando os comportamentos e propósitos que envolvem as situações de leitura. Se a finalidade do trabalho com leitura na escola é aprender a participar das práticas sociais de leitura que acontecem em todos os espaços – mesmo externos à escola –, então, deve-se trazer para as salas de aula as práticas de leitura relevantes para a efetiva participação cidadã. À semelhança do que já se disse, ler é importante na escola porque é importante fora dela, e não o contrário. Mas a escola deve trazer tais práticas para o seu interior com uma finalidade didática clara: ensinar aos alunos a delas participarem, possibilitando a eles aprenderem a mobilizar todos os conhecimentos com os quais um leitor proficiente opera nas práticas sociais de leitura.

Dessa forma, à escola cabe, inicialmente, reconhecer quais os conteúdos fundamentais de leitura, reconhecendo a dimensão individual e social dessa prática. Quais sejam: comportamentos leitores, procedimentos e capacidades de leitura. (Trecho extraído de Leitura do mundo, leitura da palavra, leitura proficiente: qual é a coisa que esse nome chama?, de Kátia Bräkling)

O texto acima traz uma visão de formação de leitores que ultrapassa o senso comum, que basta ler ou mesmo ouvir uma leitura para que o sujeito se forme leitor. Ao reconceitualizar o que é ler, Kátia abre uma reflexão sobre o que é necessário cuidar quando se pretende formar leitores. Nessa perspectiva, retoma o conceito de comportamento leitor, modalidade de leitura e propósito leitor. (Observações de Débora Rana)

Fonte: Programa Além das Letras. www.alemdasletras.org.br

Ficha técnica

Programa Além das Letras
Coordenadora: Beatriz Gouveia
Consultora: Débora Rana
Formadoras locais: Adriana Arroio e Sirlene Teixeira
E-mails: [email protected] e [email protected]
Responsabilidade técnica: Instituto Avisa Lá
Desenvolvimento: Secretaria Municipal de Educação de Tupã (SP)
Endereço: Avenida dos Universitários, 145 – Jardim Ipiranga – Tupã –SP – CEP: 17607-220 Tel.: (14) 3404-3550, ramal 3558
E-mail: [email protected]
E-mail: educacã[email protected]

Praça em homenagem ao centenário da imigração japonesa, em Tupã – SP (www.nossosaopaulo.com.br)

Praça em homenagem ao centenário da imigração japonesa, em Tupã – SP (www.nossosaopaulo.com.br)

Para saber mais

Livros

  • Como um romance, de Daniel Pénnac. L&PM Editores. Tel.: (51)3225-5777. Site: http://www.lpm.com.br
  • Leitura do mundo, leitura da palavra, leitura proficiente: qual é a coisa que esse nome chama?, de Kátia Bräkling. Revista Aprender Juntos. Edições SM, 2008.Tel.: (11) 2111-7400.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #41 de fevereiro de 2010. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF através de nossa loja virtual – https://loja.avisala.org.br

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