Diálogos formativos

Ações formativas nos municípios do Programa Além das Letras são apoiadas a distância pelos consultores. Devolutivas, reuniões online, indicação de textos e vídeos alimentam o processo local a cada encontro de formação
Polyana Contarato

Polyana Contarato

Apoiar os planejamentos dos encontros de formação que se realizam nos municípios é uma das principais ações do programa Além das Letras1. O desafio é estabelecer ao mesmo tempo unidade de ação entre os diferentes municípios e possibilitar que as especificidades de cada grupo de profissionais sejam consideradas. Sem dúvida, o respeito ao pilar básico da metodologia que incentiva a reflexão sobre a prática pode auxiliar a possível contradição entre objetivos e metas do programa e a autonomia dos municípios. Mas abandonar uma prática tradicionalmente transmissiva para evitar o “democratismo” de só atender àquilo que cada professor manifesta como necessidade formativa é bastante difícil. Para uma ação formativa atrelada às questões de salas de aula que envolvam leitura e escrita, ponto central do programa Além das Letras, discussões sobre as estratégias de formação mais eficientes e sobre o papel do formador de coordenadores pedagógicos (CPs), e destes com os professores, são bastante relevantes.

As questões pertinentes que precisam ser respondidas são:

  • Como assegurar que o coordenador pedagógico e o professor construam conhecimento sobre o objeto de ensino em questão e reflitam acerca das condições didáticas necessárias para desenvolver atividades que propiciem aprendizagens dos alunos?
  • Como definir boas situações-problema na formação? Ou seja, como definir situações que desafiem os participantes a avançar em suas hipóteses sobre ensino e aprendizagem, de modo a desestabilizar conceitos e criar novas formas de pensar e de agir em educação.

Nossa intenção aqui é responder principalmente à primeira questão.

Começo promissor
A parceria entre os consultores do Instituto Avisa Lá e os técnicos da Secretaria de Educação do Município de São Mateus, em Espírito Santo, com acompanhamento e devolutivas por escrito, propiciou aos profissionais da cidade consideráveis avanços em relação à forma de conduzir as situações de formação. Esse processo permitiu compartilhar ações, buscar encaminhamentos mais eficientes, mapear condições importantes ao desenvolvimento de planejamentos consistentes para os encontros de formação.

Para ilustrar, selecionamos trechos de relatórios das formadoras Polyana e Maristela, de São Mateus. Elas planejaram encontros centrados em conteúdos sobre leitura e na organização de boas estratégias formativas com vistas a oferecer às coordenadoras modelos de práticas consistentes e a suscitar reflexões.

Encontro de formação de coordenadores (foto: Claudia P. de Alvarenga Pandolfi)

Encontro de formação de coordenadores (foto: Claudia P. de Alvarenga Pandolfi)


Ler para os participantes

Se um dos objetivos do programa é que as escolas, por meio dos professores, ampliem comportamentos leitores nos alunos, é preciso cuidar para que os coordenadores pedagógicos e os professores também sejam bons leitores. Portanto, a boa leitura nas situações de formação é uma constante. Ler alto para os coordenadores, para que façam o mesmo com os professores no início dos encontros de formação, é prática usual2.

Iniciamos o encontro comentando sobre o centenário da morte de Machado de Assis e das homenagens na FLIP – Festa Literária de Parati e fizemos a leitura em voz alta do conto Cantiga de esponsais, retirado do livro do escritor Ivan Marques. (Relatório de 19/06/08)

Iniciamos fazendo a leitura em voz alta da crônica Bons Dias, de Machado de Assis, e relatamos alguns fatos da vida do autor. Aproveitamos o momento para apresentar alguns livros da Biblioteca Gerdau, pois estivemos na es cola que recebeu o acervo e elegemos alguns títulos para apresentar ao grupo. (Relatório de 04/08/08)

Maristela e Polyana, excelente escolhas e encaminhamentos. O movimento de relatar fatos da vida do autor, localizá-lo em seu tempo aproxima o grupo do indivíduo ampliando a possibilidade das coordenadoras terem vontade de “mergulhar” na leitura machadiana. Importante também a apresentação de livros da biblioteca. Quem atua com formação precisa conhecer os recursos que estão à mão, para que organizem bons momentos de leitura, pois isto ajudará as coordenadoras e professoras a saber quais são as melhores formas de trazer a leitura para dentro da sala de aula como algo interessante e prazeroso. Jane Padula.


Lugar do estudo

Retomamos a tarefa de casa, socializando o texto de Délia Lerner: O sentido da leitura na escola: propósitos didáticos e propósitos do aluno, por meio dos questionamentos:

  • Do que fala o texto?
  • Quais as informações apresentadas pela autora sobre a leitura devem ser trabalhadas atendendo à diversidade de modalidades, diversidade de leitura e diversidade de textos?

As coordenadoras mencionaram a relevância dos conteúdos do texto para a prática da leitura na escola:

O texto fala da importância da leitura como recurso didático comunicativo, que a leitura deve estar próxima às situações reais que o aluno encontro ao ter que ler e que cada tipo de texto tem uma função e a escola precisa trabalhar essas funções.

Outra coordenadora disse que nunca tinha pensado na palavra propósito como foi exposto no texto. Relataram ainda as ações ligadas à leitura que as escolas desenvolvem que foram objetos de análise durante as formações.

Meninas,
Este é um momento especial da formação: o grupo começa a articular o que discute na formação com as práticas da sala de aula. Começam a refletir sobre o planejamento das situações de leitura, considerando os propósitos ao planejá-las e realizá-las. É a teoria articulada ao contexto de trabalho. A sequência seguinte de análise de situações do vídeo se constituiu em excelente estratégia, dando continuidade a discussão deste conteúdo e o mais importante, dialogando com o que já realizam nas escolas. Jane


Análise coletiva

Exibimos diversas situações de leitura, utilizando o vídeo 6, módulo 2, do Programa de Formação de Professores Alfabetizadores – PROFA – Aprender a linguagem que se escreve e pedimos que registrassem durante a exibição:

  • Quais os propósitos social e didático implícitos em cada uma das cenas?
  • Como esse vídeo pode ser utilizado por você, coordenadora pedagógica, num planejamento com os professores de sua escola?

No momento da exibição, discutimos sobre as cenas que mais chamaram a atenção das coordenadoras e algumas considerações bem interessantes foram feitas, como por exemplo:

Aprendi que ler é diferente de contar. Há a necessidade também de se entender e diferenciar a linguagem falada da linguagem escrita, para que as crianças se apropriem disso. Achei interessante a abordagem que o vídeo faz sobre a importância do modelo do professor que lê alto, a partir do qual a criança construirá o seu jeito de ler. Diferente do modelo pelo modelo como cópia. Os textos que os alunos têm contato fora da escola, infelizmente em muitas realidades, não entram na escola com propósitos didáticos e sociais.

Com relação ao trabalho de produção coletiva as formadoras julgaram interessante e ressaltaram a fala da professora de que o que está em jogo não é o sistema de escrita em si, mas sim o que se sabe sobre os textos, e para isso é necessária muita leitura para que os alunos apropriem-se dessa linguagem. A criança mesmo não lendo ou escrevendo convencionalmente ao ser colocada para fazer isso, já vai conseguindo dominar um bom repertório e entende o processo de construção de um texto.

Pedimos que em pequenos grupos fizessem a correlação entre o texto lido na tarefa de casa, o vídeo assistido e as respostas pessoais, pensando sobre as seguintes questões:

  • Por que os professores devem ler e compartilhar textos com seus alunos de uma maneira estruturada? CPs – Para permitir ao aluno uma apropriação mais ampla da leitura e com duplo propósito, o social e o didático. – Para que os alunos se apropriem da leitura desenvolvendo as habilidades de leitor e escritor. – Para que, além da leitura, o aluno perceba as funções sociais de cada portador de texto, fazendo assim a sua apropriação da escrita.
  • Quais os cuidados que o professor deve tomar ao fazer um trabalho de leitura com seus alunos? CPs – Levar em conta as características do grupo, contemplar a diversidade de propósitos, diversidade de modalidades de leitura e diversidade de textos. – Respeitar as diferenças do seu grupo; saber escolher os diferentes gêneros textuais; dar oportunidade para que a criança se expresse em relação à leitura feita. – Ele precisa fazer as devidas entonações ao texto que está lendo para que os ouvintes realmente se interessem pela leitura.
  • Como se ensina comportamento leitor? CPs – O professor sendo “modelo” de leitor, oportunizando situações diversas de leitura para o aluno se expressar. – Professor como referencial de leitor para seus alunos, por meio de sua postura na sala de aula. – Através de uma motivação interna oriundo dos estímulos oferecidos pelo educador, pois ele será um importante referencial (modelo).
  • Qual é a articulação entre comportamento leitor e propósito leitor? CPs – O comportamento leitor e o propósito leitor devem estar alinhados. – É quando o professor se utiliza de recursos de leitura para aplicar em sua prática um comportamento leitor. – A partir do momento que já se tem um comportamento leitor, fica muito mais fácil se obter um propósito leitor. Percebemos um certo incômodo no momento da apresentação das respostas, a impressão que tivemos foi a de que elas não haviam pensado antes sobre propósito e comportamento leitor, mas mesmo assim não queriam errar. Uma coordenadora inclusive se confundiu no entendimento dos dois (última resposta) e outra nos questionou: Se ensina comportamento leitor?
Foto: Sancleya Azevedo Quantezani

Foto: Sancleya Azevedo Quantezani

Formadoras

Essa pergunta foi o ponto alto do encontro. Estão como se diz popularmente, com a” faca e o queijo nas mãos.” Ótimo que tenham devolvido a pergunta ao grupo, mas precisam retomar no próximo encontro, organizando as ideias e possibilitando a reflexão coletiva. Não há dúvidas que vocês fizeram perguntas difíceis. Talvez se pedissem às CPs para localizar nas práticas de leitura das suas escolas se o professor manifesta comportamentos leitores e compreende que há diferentes propósitos leitores, talvez ficasse mais tranquilo para o grupo. E seria uma forma de articular mais a formação ao contexto de trabalho delas.

É notável a competência de vocês, com intervenções muito adequadas e importantes no sentido de direcionar a discussão do grupo para sua atuação enquanto formadoras de professoras. Na verdade, este encontro aponta uma série de desafios em relação à leitura e ao mesmo tempo inicia uma outra discussão importante sobre o papel da coordenadora enquanto formadora, explicitando também as estratégias de formação. Abraços, Jane Padula

Comportamento leitor se ensina
No 3º encontro, além de questões ligadas ao registro e estratégias formativas, seguimos aprofundando conhecimentos sobre propósito e comportamento leitor com a atividade de preenchimentos dos quadros em duplas, retomando o cartaz das Práticas do Professor. Voltamos ao questionamento do encontro passado e perguntamos novamente ao grupo: Se ensina comportamento leitor?
– Luciana (fez outra pergunta): O que é ensinar?
Se podemos considerar que ensinar é vivenciar, propiciar, observar, desenvolver, formar, en tão os professores ensinam comportamento leitor aos seus alunos.
– Penha: Eu escuto sempre a frase que o professor leitor forma aluno leitor, então eu acredito que se ensina sim o comportamento leitor.

O restante do grupo respondeu que sim, então demos continuidade ao estudo tirando da caixinha as frases selecionadas da reunião online, porém achamos que se a coordenadora que fez o questionamento no encontro anterior tivesse se pronunciado negativamente a discussão teria sido mais abrangente, mas mesmo assim o momento foi bom. Já quase finalizando o encontro, fizemos a leitura do texto Leitura em voz alta como estratégia de formação e começamos questionando:

  • Qual a finalidade da leitura em voz alta numa situação de formação?
  • Para que o formador lê textos literários para o seu grupo?

A coordenadora Laudinéia relatou que num planejamento coletivo leu o texto Palavras de Mariana Colasanti e que o grupo não correspondeu de maneira positiva, alguns sequer prestaram atenção… Ao final aproveitamos para indagar que tipo de leitura as coordenadoras escolhiam, como escolhiam para ler para os professores. Quatro delas ressaltaram que escolhiam texto com mensagens edificantes para alimentar reflexões no decorrer do encontro.

Perguntamos se elas sabiam quais são os autores preferidos dos professores? Elas responderam que não. Chegamos então à conclusão, juntas, de que as coordenadoras precisam das seguintes ações para que a leitura em voz alta seja realmente uma estratégia de formação e para que também chegue nas crianças:

  • Selecionar melhor os textos/livros para serem lidos.
  • Que se possível leia-se a partir do livro e não de cópia, que se fale sobre o autor, etc.
  • Uma sugestão é pedir aos professores para que levem no próximo planejamento um livro que gostem muito e indiquem para os demais professores a sua leitura.

Finalizando o encontro fizemos a avaliação e as considerações das coordenadoras foram:

O que aprendemos?

  • A ser mais criteriosas na escolha de textos para se fazer a leitura em voz alta para o grupo de professores.
  • Que o nosso conhecimento sobre a leitura em voz alta pelo professor está se ampliando mais a cada encontro realizado.

O que aprofundamos?

  • O conceito e o entendimento de propósito leitor e comportamento leitor.
  • As novas estratégias de formação.

Formadoras

Fica evidente neste relatório o fato de colocar no centro das discussões e reflexões, a prática do coordenador enquanto formador e a prática do professor, analisando o conteúdo didático e o objeto de estudo, no caso a aprendizagem da leitura. Só a formação continuada permite esta articulação, pois se percebe a partir do relatório, que ao partir de uma tarefa pessoal, trazê-la como análise e a cada reflexão, direcionar a discussão para as situações do cotidiano onde a leitura se apresenta é que faz emergir as concepções, os objetivos presentes na realização das ações de ensino e os objetivos em relação à aprendizagem das crianças. A seguir um texto de Miriam Nemirovisky sobre processos formativos que aconselho vivamente para vocês.

Para avançar nas estratégias formativas Uma das discussões de mais impacto para os coordenadores envolvidos com o programa Além das Letras tem sido refletir sobre como organizar encontros com situações-problema (ver texto abaixo) para os participantes. Embora esta discussão já se faça há algum tempo, quando se dirige o olhar para o planejamento dos encontros de formação percebe-se que há muito por fazer.

Criar situações formativas que permitam aos professores pensar mais analiticamente sobre a prática, tenham decisões a tomar e sejam desafiados a colocar em jogo tudo o que sabem, mobilizando e ressignificando o conhecimento, é ainda um grande desafio.

Minha proposta para o próximo encontro, portanto, é que utilizem a estratégia “tematização da prática”, analisem algumas situações em vídeo de práticas de leitura, realizando uma discussão que possibilite tornar observável as aprendizagens envolvidas nas leituras em questão. Abraços e bom trabalho! Jane Padula

(Jane Padula, formadora do Instituto Avisa Lá; Maristela Salvador e Polyana Contarato, formadoras da Secretaria Municipal de Educação de São Mateus – ES)

1O programa Além das Letras é uma iniciativa do Instituto Avisa Lá, do Instituto Razão Social e do Grupo Gerdau, com o apoio da Avina, UNICEF, Undime, Ashoka e MBC. É composto de uma premiação e de uma rede de formadores, que conta também com a tecnologia da IBM, por meio da iniciativa Reinventando a Educação.

2Chama-se a isto homologia dos processos, conceito desenvolvido por Donald Schön. É uma estratégia que busca a coerência entre a formação recebida pelos coordenadores e professores e a didática adotada para o trabalho docente.

A escolha de bons títulos para a leitura dos professores (foto: Sandra Adriana Scarpati)

A escolha de bons títulos para a leitura dos professores (foto: Sandra Adriana Scarpati)

Comportamentos do leitor

  • Ações que implicam interações com outras pessoas acerca dos textos: Comentar ou recomendar o que se leu.
  • Compartilhar a leitura.
  • Confrontar com outros leitores as interpretações geradas por um livro ou notícia.
  • Discutir as intenções implícitas em manchetes de um determinado jornal.
  • Antecipar o que segue no texto.
  • Reler um fragmento anterior para verificar o que se compreendeu ao se detectar uma incongruência.
  • Saltar o que não se entende ou não interessa e avançar para compreender melhor.
  • Identificar-se com o autor ou distanciar-se dele assumindo uma posição crítica.
  • Adequar a modalidade da leitura – exploratória ou exaustiva, pausada ou rápida, cuidadosa ou descompromissada – aos propósitos que se perseguem e ao texto que se está lendo…

(Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário, de Delia Lerner)

Foto: Polyana Contarato

Foto: Polyana Contarato

Formando-se leitor e formando leitores

Trecho extraído do subsidio do Além das Letras encaminhado ao município
A prática de leitura na escola precisa se assemelhar à prática de leitura fora dela. As crianças precisam saber que lemos pelas mais variadas razões e que não lemos os textos da mesma forma. Para comunicar aos alunos os comportamentos típicos de leitor é necessário que o professor “os encarne” em sala de aula, que ofereça a eles a oportunidade de participarem de atos de leitura que ele próprio está realizando, que estabeleça uma relação de “leitor para leitor”.

Antes de ler um texto para a classe, o professor precisa conhecê-lo. Assim, será possível falar o porquê de sua escolha e demonstrar seu interesse de leitor em compartilhar suas descobertas. Mesmo quando as crianças ainda não sabem ler, a sala de aula deve ter um espaço com livros, revistas, jornais, folhetos e histórias em quadrinhos, para poderem folhear à vontade, sem que ninguém fique perguntando o que estão entendendo. É importante, nesse momento, que o professor também leia um livro, uma revista ou um jornal. É imprescindível que as crianças percebam que ler é uma atividade importante e que o adulto também sente prazer nisso.

Dicionários especializados, enciclopédias, textos de livros, revistas, jornais, Internet, folhetos, entre outros materiais, devem fazer parte da vida das crianças, para que possam ir construindo argumentos, formulando hipóteses, dialogando com o mundo da informação, da forma como ele está organizado no texto impresso.

Foto: Sancleya Azevedo Quantezani

Foto: Sancleya Azevedo Quantezani

Evolução das perguntas evolução da aprendizagem3

[…] Neste contexto, assumimos que a variável tempo desempenha papel decisivo no processo de aprendizagem. Embora cada sujeito, por diversos fatores, necessite de um tempo maior ou menor para avançar em seu processo de aprendizagem, poderíamos dizer que são processos de médio e de longo prazos, e inclusive deveríamos precisar que é necessário no mínimo um ano de trabalho para começar a notar certos avanços entre os participantes do grupo com menor grau de dificuldade para modificar seu ponto de vista a respeito da alfabetização. Isso porque modificar ao mesmo tempo a concepção de leitura e de escrita e a de sua aprendizagem, e também a concepção do papel do professor, do grupo e da escola no que diz respeito ao ensino é extremamente complexo. Além disso, não podemos nos esquecer que nem sempre esse processo é complementado ou apoiado pelas demandas e expectativas de outras instâncias educativas, o que faz com que o professor enfrente, em muitos casos, inúmeras frentes simultaneamente: suas próprias concepções e ainda as pressões externas (autoridades, companheiros, pais…). É evidente, então, que ele necessita não só de apoio e de orientação a respeito de como ensinar a ler e a escrever, mas também de apoio e incentivo para seguir adiante. (Myriam Nemirovsky4)

3Texto publicado em abril de 2001, na revista La formación del profesorado – Proyectos de formación en centros educativos/Série Claves para la inovación educativa, da Editora GRAÓ, Barcelona ([email protected]). Tradução de Maíra Libertad Soligo Takemoto e copidesque de Rosaura Soligo.
4Assessora e coordenadora de processos de formação dos professores.

Resolução de situações-problema

Nas atividades propostas pela formação, os educadores precisam ter decisões para tomar, ações para realizar, desafios que os mobilizem colocar em jogo tudo o que sabem. Assim o formador busca criar situações nas quais os educadores possam articular diferentes respostas, construídas na própria dinâmica de sua prática educativa. Tais situações são contextualizadas nas tarefas que tenham a ver com as questões que os educadores encontram no seu cotidiano de trabalho. Apoiados pelas orientações que lhes são fornecidas, eles põem em ação competências e capacidades que já possuem para adquirir outras novas. Assim, a transposição de um obstáculo representa um patamar no desenvolvimento profissional.

Para estabelecer uma relação propícia à aprendizagem e ao pensar reflexivo, o formador precisa estar atento para não falar ou pensar no lugar dos educadores, controlando sua compulsividade de oferecer soluções. É necessário cultivar a capacidade de suportar estados de dúvida e impaciência, ouvir o que os educadores têm para dizer, encorajando-os a assumir o que realmente pensam, ajudando-os a formular suas questões, levando-os a construir respostas para as suas dúvidas, manifestando respeito e interesse por suas idéias e, mais do que isso, querendo conhecê-las.

Como definir boas situações-problema
Uma boa situação-problema deve reunir algumas condições. A pertinência da proposta está subordinada à qualidade da avaliação diagnóstica realizada pelo formador: o que os profissionais sabem, o que não sabem, o que precisam aprender a fazer para aprimorar suas práticas. Deve ter sentido no campo de conhecimento do profissional, porém não deve ser solucionado apenas com os recursos que ele já possui. Pelo contrário, tem de permitir que se ponham em prática os esquemas de assimilação já construídos para, com base neles, construir novos conhecimentos, estabelecer novas relações. Os problemas colocados pelos formadores são sempre abertos, ou seja, permitem a escolha de procedimentos ou caminhos diferentes. A mesma ação deve ocorrer em relação às crianças.
(Bem-vindo, mundo! Criança, cultura e formação de educadores, de Silvia Carvalho, Adriana Klisys, Silvana Augusto – orgs, pg. 69.)

Refletir sobre a prática da leitura (foto: Polyana Contarato)

Refletir sobre a prática da leitura (foto: Polyana Contarato)

Ficha técnica

Programa: Além das Letras
Coordenadora: Beatriz Gouveia
Consultoras: Débora Rana
Responsabilidade técnica: Instituto Avisa Lá
Desenvolvimento: Secretaria Municipal de Educação de São Mateus – ES
Endereço: Av. Jones dos Santos Neves, 905 – Sernamby – São Mateus/ES – CEP 29930-445 – Tel.: (27) 3767-8887 – E-mail: educaçã[email protected]

Para saber mais

Livro

  • Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário, de Délia Lerner. Artmed Editora. Tel.: 0800-703-3444.
  • Bem-vindo, mundo! Criança, cultura e formação de educadores, de Silvia Pereira de Carvalho, Adriana Klisys e Silvana Augusto (orgs.). Editora Peirópolis. Tel: (11) 3816-0699.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #38 de maio de 2009. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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Jane Padula, Maristela Salvador e Polyana Contarato

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