Vai e Vem Poesia

Poesia tem idade? A escola de Educação Infantil Criarte1, em São Paulo, mostrou que poesia pode ser apreciada desde muito cedo. Conheça uma maneira de apresentar esse gênero para crianças de 2 a 3 anos.

Desenho de criança

“Poesia é voar fora das asas”
(Manoel de Barros, O Livro das Ignorãnças)

Grupo: minigrupo (2 a 3 anos)

Âmbito de experiência: Formação pessoal e social e conhecimento de mundo.

Eixo de trabalho: Linguagem oral e escrita.

Tempo previsto: 3 meses.

I – Objetivos Didáticos: Apresentar a poesia; ampliar o repertório de textos memorizados pelas crianças, incentivando a prática de recitar poesias.

II – Seqüência prevista de atividades: Organização do espaço e do tempo na rotina pedagógica:

  • Ler poesias na roda duas vezes por semana;
  • Pedir para as crianças trazerem livros de poesias. Para isso, será preciso escrever com elas um bilhete para os pais;
  • Montar uma prateleira para a coleção de livros de poesias;
  • Organizar um rodízio (Vai e Vem Poesia) para que as crianças possam levar os livros para casa toda sexta-feira;
  • Preparar uma pasta para cada uma;
  • Sortear uma criança a cada semana para levar o gravador para casa. Junto com os pais, a criança escolherá uma poesia e fará uma gravação para a turma;
  • Tirar xerox das poesias preferidas e pedir que as crianças ilustrem, montando assim uma coleção das preferidas do grupo;
    Propostas com o gênero literário:
  • Trazer para as rodas de leitura de poesias os apoios necessários (livro, ilustração);
  • Conversar sobre a poesia, pesquisando as palavras que combinam (rimas);
  • Brincar com as crianças, pesquisando outras palavras que não estão na poesia mas que rimam com algumas das encontradas;
  • Gravar diferentes poesias para que possam conhecer diferentes ritmos;
  • Colecionar as poesias favoritas para memorizar e “recitar quando quiserem”;
  • Fazer sempre referência aos autores das poesias.
    Ficha Técnica:
    O projeto foi realizado na escola Criarte, São Paulo, de agosto a outubro de 1999, e dele participou a professora Tatiana S. Pina, sob a coordenação pedagógica de Adriana Klysis.

“Eu quero o livro da Cecília Meileles!”

(André, 2 anos)

Bárbara (2 anos)

Bárbara (2 anos) “lendo” na sua escola

Eu pensava que o universo das poesias era algo muito distante para crianças de 2 anos, mas ao iniciar as atividades do projeto “Vai e Vem Poesia” felizmente percebi que poesia não tem idade. A seguir vou relatar algumas atividades que venho desenvolvendo com o Minigrupo, a fim de compartilhar nossas experiências e descobertas.

A idéia de desenvolver atividades com poesias no Minigrupo surgiu depois que tive acesso ao trabalho de outra professora, que destemidamente realizou um projeto de poesias com crianças de 2 anos2. Na reunião
pedagógica da escola, em que foi socializado3 esse trabalho, todas as professoras estranharam, inclusive eu: poesia com crianças tão pequenas? É mesmo difícil encontrar para essa faixa etária atividades que não sejam experimentação e exploração de materiais. Ambas são imprescindíveis às crianças, mas não se pode ficar apenas experimentando e explorando o tempo todo. Como todos os aprendizes,
as crianças de 2 anos são construtoras de conhecimento, sujeitos da
aprendizagem.

É claro que o jeito de aprender dessas crianças é diferente do jeito de uma criança de 5 ou 6 anos, mas não se pode subestimar seu potencial; os pequenos, de quem sou professora, vêm me ensinando todos os dias. Assim, resolvi experimentar. Além da minha vontade de desenvolver atividades com poemas, era necessário que também as crianças demonstrassem interesse pelo tema, o que eu supunha que aconteceria, pois esse grupo aprecia muito ouvir histórias, além de se interessar por propostas de música. Ora, poesia não é propriamente música, mas envolve musicalidade, ritmo, rima etc. No final do primeiro semestre, comecei a levar alguns livros de poesias para o grupo e percebi o quanto as crianças estavam gostando.

Como tudo começou

A primeira apresentação de poesias foi feita pelo livro Boi da Cara Preta
(Sérgio Caparelli). A capa do livro revelou-se bastante significativa para as crianças, que logo lembraram da música “Boi boi boi/ Boi da cara preta/ Pega esse menino/ Que tem medo de careta…”. A primeira leitura foi a poesia “Os Dentes do Jacaré”, que se tornou uma das preferidas do grupo. Nas rodas de poesia que se seguiram, começaram a surgir inusitados pedidos: “a do dente do jacalé! (jacaré)”.

As férias se aproximavam e eu decidi organizar, para o segundo semestre, uma seqüência de atividades em que as crianças tivessem oportunidade de conhecer o universo das poesias e ampliar seu repertório, por meio de leituras e outras atividades cuja referência fossem os poemas.

Iniciei o segundo semestre retomando o já conhecido livro “Boi da Cara Preta” e introduzi outro: “Ou isto ou aquilo” (Cecília Meireles) com os poemas “Tanta Tinta” e “Flor Amarela”. Na semana seguinte, li “Moda da Menina Trombuda”, que foi bastante significativo para as crianças, sobretudo as ilustrações do livro. Sempre que vêem o livro “Ou Isto ou Aquilo”, elas falam: – “Menina Tombuda”. Interessante as crianças terem percebido que as poesias estão nos livros. Com crianças de 2 anos, a ênfase está na aproximação com esse gênero literário. E se queremos que as crianças sintam prazer com a leitura de poesias, é fundamental que sejam escolhidos textos significativos, interessantes e de boa qualidade.

"Flor amarela" desenho de criança

“Olha / A janela / da bela / Arabela.
Que flor / é aquela / que Arabela / molha?
É uma flor amarela”(“A Flor Amarela”, Cecília Meirelles – Ou Isto ou Aquilo)

Organização do espaço

À medida que os livros chegavam, fui fazendo referências a quem os havia trazido. Sempre perguntava para as crianças se queriam deixar o livro na escola e todas permitiam. Como foram muitas contribuições, precisávamos de um espaço maior para guardar nosso acervo de livros de poesias, então pedimos ao Arnaldo, funcionário da escola, para fazer uma prateleira. Escolhi textos de boa qualidade4 e deixei-os separados dos livros de história para evidenciar que são de gêneros literários diferentes.

A descoberta da rima e do movimento nas poesias

Refletindo sobre as rodas de poesia e o retorno das crianças, pensei em enfatizar poesias com rimas bem marcadas e/ou repetição de palavras. Reli “O Chão e o Pão”, do livro “Ou isto ou aquilo”, dessa vez na edição antiga, que possui ilustrações muito boas. Tive que ler a poesia três vezes na roda, em função dos pedidos das crianças. A Bárbara, que gosta muito de brincar com as palavras, riu bastante no final da poesia, quando surgiu a pergunta: “O pão no chão? / Não.” Escolhi depois o livro Você Troca? (Eva Furnari). Como as rimas envolvem humor, as crianças riram muito e brincaram bastante durante a leitura. Em outras ocasiões conversamos sobre palavras que “combinam”. Na semana seguinte, a Thalita chegou com um novo livro: Não Confunda (Eva Furnari). O livro é da mesma coleção que o Você troca?, e as crianças tornaram a rir bastante com a leitura e as ilustrações, mas, como da outra vez, não atentaram ainda para as rimas das palavras.

Li também outros dois poemas Samba e Quem me achaambos de Almir Correa. Selecionei esses poemas porque possuem uma repetição grande de palavras que provoca um ritmo particular à leitura. Como em toda leitura que faço, apresentei o livro, lendo o nome do mesmo, o do autor e ilustrador. Após ter lido o título do poema (Samba), comentei que essa poesia tinha muitas palavras iguais e, antes mesmo de eu começar a ler, a Marcela estava de pé dançando, ou melhor, sambando. Falei com ela que era isso mesmo, o samba se dançava daquela forma. A Yasmin também se levantou para experimentar e, depois disso, iniciei a leitura. As crianças foram se agitando à medida que eu lia e, novamente, a Marcela se levantou para sambar. Achei bárbaro, afinal a leitura envolve a repetição do verso “no batuque” muitas vezes, o que provoca uma “batucada” de palavras, não sendo à toa o título do poema ser Samba.

Samba - Poemas Malandrinhos, Almir Correia

Nesses momentos, vejo como nós estamos nos divertindo com as leituras e que mesmo crianças tão pequenas podem perceber a
intenção do autor, ainda que a seu modo, isto é, dançando e não discutindo sobre as palavras. O envolvimento das famílias no trabalho das crianças Estruturei as rodas de poesia duas vezes por semana e enviei um bilhete para os pais, pedindo contribuições para nossa biblioteca. Os livros começaram a chegar à escola; as crianças ficaram orgulhosas. Os pais estão indo às livrarias com elas e, a cada semana, mais poesias chegam. O André foi à livraria com os pais e gostou tanto dos seus livros que não quis deixá-los na escola. A Roberta trouxe poesias que sua mãe pesquisou na Internet.

Com o objetivo de ampliar ainda mais o repertório de poesias das crianças e envolver os pais nesse projeto, organizei um rodízio de livros que vem acontecendo toda sexta-feira. Cada criança escolhe um livro e leva para casa na sua pasta para ler com os pais no fim de semana, devendo devolvê-lo na segunda-feira. As crianças costumam chamar o rodízio de “toca-toca” [troca-troca]. E assim vem acontecendo. Em nosso primeiro “troca-troca”, quando comecei a distribuir as pastas de cada criança, o André falou: “– Tatiana, eu quero o livo (livro) da Cecília Meileles (Meireles)!” Surpreendente! Atendi ao pedido desse iniciante, mas exigente leitor, e não pude deixar de me entusiasmar com esta fala. Todos saíram com suas pastas e outro fato inesperado aconteceu. Assim que encontrou sua mãe (cujo nome é Rita), o André quis mostrar o livro que havia escolhido, dizendo que era da “Pipoca” (como brincamos de chamar a Ilana). Depois, ele olhou para mim e disse: “– Tatiana, a minha mãe se chama Ritoca”, surpreso por ter encontrado uma rima.

Fizemos também gravações com as crianças e com os pais. Uma vez por semana (na sexta-feira), uma criança foi sorteada e levou o gravador para casa. Os pais escolheram com elas um poema, que pôde ser ouvido em nossa roda de poesias na segunda-feira. Fizemos depois gravações com as crianças e um livro com nossas poesias preferidas, ilustrado pelas próprias crianças.

A importância dos autores nas rodas de leitura

Gostaria de fazer um comentário a respeito da importância que os autores vêm assumindo para o Minigrupo. Em toda roda de história ou poesia, sempre lia o nome da história, autor e ilustrador. No início do ano, as crianças pareciam não estar atentas a esses dados, mas mesmo assim eu achava importante que tivessem acesso a essa informação. No segundo semestre, elas estão demonstrando que já começam a perceber que os livros não são escritos pelas mesmas pessoas e que cada história ou poema é diferente do outro. Ainda não se referem ao nome correto do livro, poema ou história, mas utilizam recursos adequados à sua idade e assim pedem, por exemplo, que eu leia a poesia do “roque roque”, referindo-se ao poema Rato Roque (Boi da Cara Preta) ou, então, “a da casinha”, referindo-se à poesia A Casa (Arca de Noé).

Outro fato que ilustra a percepção das crianças sobre esse aspecto aconteceu em uma roda de história, quando mostrei ao grupo um livro já conhecido deles – Trucks –, dizendo que a pessoa que o escreveu era a mesma que
havia escrito o livro que a Thalita trouxe – Não Confunda. A fala da Thalita no momento foi: “Eva Funali (Eva Furnari)”. É claro que para Thalita seu livro tem um significado especial, mas ela já está atenta à autora do mesmo.

Avaliação e intervenção da professora

Comentarei por fim duas rodas de conversa que tivemos a respeito das poesias preferidas e, em seguida, deixarei indicados os encaminhamentos que desenvolvi com o grupo. Pretendo fazer uma coletânea dos poemas mais significativos para as crianças para que possamos fazer ilustrações ou mesmo brinquedos (ex.: a boneca da menina trombuda). Primeiramente, tive a intenção de fazer coletâneas individuais e, no momento da roda, perguntei a cada criança qual era a poesia de que ela mais gostava.

Não foi uma roda fácil, as crianças estavam dispersas e não responderam como eu esperava. O que uma criança dizia, as outras repetiam e o assunto não interessou ao grupo. A partir dessa roda, que não deu certo, pensei em organizar nossa conversa a respeito dos poemas mais significativos ao grupo e não a cada criança. Percebi também o quanto era difícil para elas lembrar dos poemas lidos há mais tempo. Tive a idéia de levar os livros mais conhecidos do grupo para a roda, para que pudessem servir como apoio de memória. Mostrava livro por livro, conversando sobre as poesias que conheciam. Dessa vez, a roda funcionou bem melhor. Nessa idade, os objetos e imagens são recursos muito importantes. Estando com os livros na roda, foi bem mais fácil para as crianças lembrarem-se dos poemas que já conheciam.
E assim esses pequenos aprendizes vêm descobrindo o mundo das poesias e eu, junto com eles, também aprendo sobre orientações didáticas, intervenções, encaminhamentos e, claro, poesia. É como disse o poeta, “tudo vale a pena se a alma não é pequena…”

O repertório conhecido das crianças

Desenho de criança

Com o livro Boi da Cara Preta na mão, perguntei ao grupo que poesias eles conheciam daquele livro:

– Dente do jacalé – disse Yasmin

– Que outra poesia a gente conhece? – perguntei.

– Roque roque– respondeu Ilana.

– Olha, a Ilana lembrou da poesia do Rato Roque! – disse aos outros, dando corda para nossa conversa.

– Menina ‘tombuda’ – acrescentou Yasmin.

– A poesia da menina trombuda é do livro Boi da Cara Preta? – perguntei a ela.

– Não! – disse a leitora convicta – Da Cecília ‘Meileles’ [Meireles].

–E esse aqui, Ou isto ou aquilo, quem escreveu?

– Cecília ‘Meileles’ – sabia bem, o André.

– Menina tombuda – quis acrescentar, Gabriel.

– Tem outra poesia que a gente conhece deste livro? – continuei.

– Tanta tinta – disse Thalita.

– A das bolhas – acrescentou André.

– E esse aqui? – perguntei.

– A de Noé – disse Yasmin.

– Isso mesmo, Mimi, é o livro Arca de Noé, do Vinícius de Moraes. Muitas poesias desse livro se transformaram em música. O Vinícius de Moraes gostava muito de música e de poesia. Que poesia a gente conhece daqui? – perguntei.

– Da casinha – disse Marcela.

– Da foca – completou Yasmin.

– Do pato – falou Ilana.

– Pato pateta – corrigiu Marcela, confirmando que esse é mesmo um livro muito conhecido dessa turma.

(Tatiana S. Pina)

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2 Esse trabalho foi inspirado nos relatórios de prática da professora Daniella Panutti, da escola Logos, levados para a reunião pedagógica pela coordenadora Adriana Klisys.

3 A socialização do conhecimento é fundamental para os alunos e também para os educadores. Por meio da discussão e reflexão da prática pedagógica podemos questionar, criticar, construir o conhecimento sobre a sala de aula e as orientações didáticas mais adequadas.

4 Os melhores livros são os menos infantilizados, que não minimizam a inteligência das crianças e apresentam o melhor que o gênero pode oferecer. Ao final da matéria a professora dá suas sugestões.

Para saber mais:

  • Poemas para Brincar, José Paulo Paes, ed. Ática
  • Olha o Bicho, José Paulo Paes, ed. Ática
  • Poesias, Mário Quintana, ed. Globo
  • A Arca de Noé, Vinícius de Moraes, ed. José Olympio
  • Caprichos e Relaxos, Paulo Leminsky, ed. Brasiliense
  • Tigres no Quintal, Sérgio Caparelli. ed. Kuarup
  • Limeriques, Tatiana Belinky, ed. FTD
  • Reunião, Carlos Drummond de Andrade, ed. José Olympio
  • Não Confunda, Eva Furnari, ed. Moderna
  • Ou isto ou Aquilo, Cecília Meireles, ed. Nova Fronteira
  • Poemas Sapecas, Rimas Traquinas, Almir Correa, ed. Formato
  • Poemas Malandrinhos, Almir Correa, ed. Formato
  • Boi da Cara Preta, Sérgio Caparelli, L & PM Editores
  • Você troca?, Eva Furnari, ed. ModernaNa rede:
    www.secrel.com.br/jpoesia/infan.html

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #2 de janeiro de 2000. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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