Preservando identidades em um abrigo

Um dos desafios mais difíceis para todas as instituições de educação é a privacidade das crianças – um direito fundamental para a formação do indivíduo e de sua singularidade. Nos abrigos, porém, as dificuldades são ainda maiores. Pensando em tornar observável para as educadoras essa necessidade das crianças e jovens, concebi um projeto que teve como produto a organização e o uso de uma caixa individual de segredos.

Caixa de segredos

“Pensando em tornar observável para as educadoras essa necessidade das crianças e jovens, concebi um projeto que teve como produto a organização e o uso de uma caixa individual de segredos.”

Um dia, estava na instituição começando meu trabalho com as crianças, quando encontrei um dos meninos. Ele me deu um porta-jóias de presente. Perguntei se era seu e ele me disse que o havia encontrado no corredor e que o provável dono não soubera guardar. Achei o fato curioso. Este episódio reforçou a necessidade de tocar na questão do direito à privacidade, ignorada pelos abrigos. Lá, tudo costuma ser coletivo: as roupas, os sapatos, os brinquedos e até mesmo as camas. Não há um lugar individualizado para dormir. Muitas vezes as crianças fazem verdadeiros “malabarismos” para conseguir manter um objeto pessoal: inventam esconderijos, enrolam nos cobertores, nas roupas, escondem bem no fundo da mochila da escola. Tentam preservar algo pessoal, embora esta não seja uma tarefa fácil. Acredito que a única forma de revertermos esta lógica é tornar observável a necessidade de privacidade das crianças e dos jovens.

Por isso, meu projeto nesse abrigo teve dupla intencionalidade: esclarecer e informar os educadores, ao mesmo tempo criar de forma efetiva um espaço para cada criança guardar seus pertences, seus segredos, suas histórias e suas memórias, tudo enfim que julgassem importante naquele momento de vida. Por isso, tomei a decisão de organizar com as crianças as caixas de segredos . A adesão foi imediata e começamos a elaborar atividades com o objetivo de compor o conteúdo das caixas.

As Caixas de Segredos

(em setembro)

Li o livro “Rei dos Cacos”, que trata de uma história na qual dois irmãos
buscam cacos de louças no fundo de um rio e guardam esses cacos numa caixinha porque os julgam belos e valiosos, mesmo sabendo que são cacos. Eu tinha escondido um pedaço de caco azul no meio do livro e, quando terminei a leitura, o caco caiu! As crianças adoraram a brincadeira e principalmente a história. Pedi que fizessem a capa de um caderno que seria um diário para guardar desenhos, poemas, fotografias, colagem ou qualquer outra coisa que quisessem. Entreguei um papel cartão, giz de cera, lápis e canetinha, e todos capricharam muito nos seus desenhos. Colaram as capas nos respectivos cadernos para guardá-los nas caixas de segredos. Estes “baús de memórias” contêm nossas quinquilharias mais importantes: fotos, velas de aniversário, cartas, lembranças de passeios e outros momentos que desencadeiam belas recordações.

Como essas crianças são despojadas de seus objetos pessoais, pensei que não teriam como juntar as quinquilharias. Levei vários cartões-postais, desses que são distribuídos em restaurantes, cinemas, tipo cards, e disse que poderiam escolher um e guardar como lembrança. Contei-lhes que às vezes algumas pessoas colecionam coisas e que eu tenho mania desses cartões. Sempre pego muitos de um mesmo tipo, porque penso em dar para as crianças com quem trabalho, mas acabo esquecendo-os na minha casa; por isso tenho muitos cartões repetidos. Eles adoraram e pediram para que eu autografasse. Escrevi coisas bem positivas e alegres. Eu me senti o máximo e eles também!
É impressionante como trabalhar em abrigo pode fazer com que oscilemos de uma depressão desalentadora a um otimismo desmedido. A gente até sai dando autógrafo!!! Puxa, acho que extrapolei!

O grupo trabalha unido

(um dia, outubro)

Chegou o dia de pintar as caixinhas de madeira que haviam sido confeccionadas especialmente para isso. As crianças estavam super empolgadas. Todas ajudaram a organizar o espaço, distribuir tintas em potinhos, forrar o chão etc. Durante a semana tinham feito estudos sobre como queriam enfeitar suas caixinhas; algumas seguiram à risca, outras mudaram de idéia. Foi uma delícia de atividade. As produções ficaram maravilhosas! Tirei muitas fotos. Achei que não conseguiria trabalhar com tantas crianças juntas, mas estava equivocada: todos se comportaram maravilhosamente bem e nos ajudaram muito. Que maravilha! Estou apaixonada novamente!

Quem pegou as argolas?

(outubro chega ao fim)

caixa de segredos

“Quando todos estavam de posse de suas caixas e cadeados, subiram correndo e foram experimentando o que guardar, e eu vi de tudo: calcinhas, desenhos, balinhas, fotos, brinquedos, desodorante, figurinhas, pijama, meias, lápis, tinta, documentos, dinheiro…”

Depois de pintar as caixinhas, tentamos fazer os chaveiros, mas no dia previsto descobrimos que as argolinhas que eu comprei tinham
sumido.

– Foi o A – disse um deles.

– É mesmo, foi ele – continuou o amigo.

– Esperem um pouco, vamos procurar primeiro. Que história é essa de ficar acusando o amigo? – questionei.

– Mas foi ele que eu vi. Ele estava dando para quem quisesse e até fez brinco – confirmou um do grupo.

Realmente as argolinhas haviam sumido, e descobrimos mais tarde que uma das crianças havia pego o material de dentro do armário e o distribuído para todo mundo. O mais incrível é que todas as crianças sabiam do acontecido, mas nenhum adulto tinha qualquer informação.
Coisas de abrigo.

Na falta das argolas, confeccionamos os chaveiros de borracha. Eram lindos, mas sem a tal argolinha e a correntinha ficaram presos na chave e assim perderam o balanço, mas cumpriram o seu papel de identificação. Cada um ganhou a sua caixinha e seu respectivo chaveirinho, e foi uma grande alegria. A coordenadora contou-me que nessa noite todos andavam com seus chaveiros no pescoço e suas caixas nas mãos, e por diversas vezes ela presenciou uma mesma criança mexendo em suas lembranças e trocando os objetos que guardara por outros. Quando todos estavam de posse de suas caixas e cadeados, subiram correndo e foram experimentando o que guardar, e eu vi de tudo: calcinhas, desenhos, balinhas, fotos, brinquedos, desodorante, figurinhas, pijama, meias, lápis, tinta, documentos, dinheiro, perfume e muitas outras coisas.

Uma cena foi inesquecível: T., que é um menino da pá virada, com seus 13 anos, foi guardar, imaginem, seu patinho de pelúcia! Eu vi a criança que se escondia naquele adolescente rebelde!

Pactos de confiança entre as turmas

(início de novembro)

De repente, ai! Vi um menino abrindo a caixinha de uma colega com sua chave e me deu um grande desespero, e a coordenadora avisou-me que esquecera de comprar os cadeados diferentes, conforme eu havia solicitado. Isso rapidamente foi descoberto por todos. A privacidade tinha ido para as “cucuias”! Chamei todos e fizemos um pacto de não abrir as caixas dos outros. Saí de lá com o coração na mão. Já estava vendo uma invasão total, roubos, sumiços; mas quando retornei, no encontro seguinte, descobri que nada disso acontecera. As crianças que tinham os cadeados com os mesmos segredos passaram a ser guardiãs das caixas dos outros companheiros, e isso fez com que alianças se formassem: “as turmas dos cadeados iguais”. Contaram-me que uma vez um menino foi tomar banho e pediu para o outro pegar o seu sabonete, dizendo-lhe:

– Vai lá na minha caixinha e pegue meu sabonete.

– Mas ele não pode mexer na sua caixa! – comentou uma criança que ouvira o papo.

– Mas ele é da minha turma do cadeado e estou pedindo para ele abrir.

Eis um novo pacto dentro da instituição, o pacto da confiança. O projeto valeu por isso! Tomara que tenha também contribuído para que as crianças gravem em suas memórias afetivas a possibilidade de confiar umas nas outras.

Já dá para ver as mudanças

(chegou dezembro, finalmente)

Uma coisa bacana que aconteceu no final foi que a coordenadora começou a perceber a importância da escolha por parte das crianças. Isso se tornou visível na atividade de confecção de bijuterias para guardar na caixa:
– Eu percebi que elas podiam escolher, porque você dava algumas opções e a partir disso elas escolhiam, nunca tinha pensado assim. A gente escolhe a partir de algumas coisas e somos nós, educadores, quem temos que ofertar essas coisas para as crianças e deixar que elas optem…
A partir disso ela começou a organizar a sessão de vídeos da seguinte maneira: três crianças vão à locadora uma vez por semana e escolhem três fitas para quem quiser assistir. Há um rodízio semanal de crianças. O mais bacana é que elas estão indo sozinhas à locadora.

Um outro ponto importante é que trabalhamos juntas com a nova organização do guarda-roupa das crianças, para ver se finalmente acabávamos com a rouparia coletiva, permitindo que finalmente as crianças pudessem escolher suas próprias roupas. Quando estávamos discutindo isso, a coordenadora pesquisou e descobriu que as crianças não tinham pijamas e nenhuma outra peça que fizesse as vezes disso. Ou seja, só trocavam de roupa na hora de ir para a escola. Ela nunca tinha prestado atenção nisso, mas decidiu investir na desmontagem da rouparia e no uso dos guardaroupas que as crianças já tinham mas não utilizavam. O trabalho no abrigo continua, ainda há muito o que fazer. Temos enfrentado os dias apostando que nossos esforços são importantes, porque resultam num melhor atendimento.

As crianças podem esperar pela decisão da justiça, mas não podem esperar para aprender e serem vistas como pessoas capazes, interessantes, aptas, desde já, a intervir nesse mundo e melhorar sensivelmente sua qualidade de vida.

caixa de segredos

“Eis um novo pacto dentro da instituição, o pacto da confiança. O projeto valeu por isso! Tomara que tenha também contribuído para que as crianças gravem em suas memórias afetivas a possibilidade de confiar umas nas outras”

(Márcia Cristina da Silva)

O que são abrigos

Os abrigos se caracterizavam pelo acolhimento das crianças de forma precária. Chamados de orfanatos, lares substitutos, essas instituições, muitas vezes, possuíam um funcionamento similar ao das prisões ou hospitais psiquiátricos, onde criança, – assim como presos e pessoas com necessidades especiais – eram trancafiadas e isoladas do mundo. A tendência era que a criança tivesse o menor contato com o mundo externo, inclusive, com sua família. A separação da vida externa incluía também a eliminação dos objetos pessoais. Muitos abrigos guardam, ainda hoje, resquícios desse passado ainda recente. As crianças que moram nos abrigos, em geral, carregam consigo histórias pessoais marcadas por traumas, por quebras abruptas de vínculos e, por isso, apresentam grandes dificuldades em confiar no outro. Como, no mais das vezes, foram vítimas de situações profundamente desrespeitosas, desconhecem o que é respeito. Os vínculos que conseguem estabelecer quase sempre são marcados pela agressão. Mais do que qualquer outra, essa criança precisa ser compreendida pelo educador e levada em conta na hora dele planejar suas propostas.

O que caracteriza o trabalho dos abrigos

Após a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente, o abrigo, que acolhe a criança 24 horas por dia, deve desempenhar a função familiar e, ao mesmo tempo, a educativa. Deve possibilitar o acesso das crianças aos recursos da comunidade, como escolas, centros esportivos etc, e precisa contemplar as necessidades de uma criança que está em sua casa – o próprio abrigo é – e que tem alguns deveres: estudar, fazer lições, organizar suas coisas. As crianças precisam ter também um tempo livre para escolher fazer ou não determinadas atividades. Os adultos podem lhes oferecer opções as mais diversas, entre livros, gibis, bons vídeos, materiais de arte, para expressarem o que quiserem, brinquedos, TV livre (com acompanhamento do adulto na escolha da programação adequada à idade), jogos de mesa, culinária, ir à casa de amigos, dormir, ouvir e fazer música, dançar, praticar esportes, passear pela comunidade, enfim, atividades que a criança possa escolher fazer pelo simples desejo. Além disso, um abrigo pode oferecer um trabalho sistemático com o grupo que, de forma lúdica, possa tocar nas questões delicadas que as crianças enfrentam.

Penso que as atividades a serem desenvolvidas pelos educadores que trabalham em abrigos devem propiciar a construção do vínculo com o outro, a construção do respeito mútuo, auxiliar o desenvolvimento da singularidade de cada criança e a observância de valores essenciais para a convivência. Mas, para tudo isso acontecer, é preciso que o educador e demais funcionários promovam um ambiente de respeito pelas individualidades e que isso apareça nas ações cotidianas, na relação com as próprias crianças. Também é essencial que todos possibilitem e valorizem o que essas crianças têm a dizer sobre o que as rodeia e mantenham, de fato, uma atitude compreensiva para com suas emoções e sentimentos.

Para saber mais:

  • • Febem, Família e Identidade, o Lugar do Outro. Isabel da Silva Kahn Marin, ed. Escuta, São Paulo, fone: (0XX11) 3865.8950 /3675.1190.
  • Série Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente. IEE
    (Instituto dos Estudos Especiais) – PUC e CBIA (Centro Brasileiro
    para Infância e Adolescência). São Paulo, fone: (0XX11) 3871-4429
  • Série Estatuto da Criança e do Adolescente, Cadernos de Ação,
    IEE-PUC e CBIA.
  • Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado, Comentários Jurídicos e Sociais, coord. por Munir Cury, Antônio Fernando do Amaral e Silva e Emílio Garcia Mendez, ed. Malheiros, São Paulo, fone: (0XX11) 3842-9205.

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #3 de abril de 2000. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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