Uma casa para brincar – Gera discussões ambientais e soluções matemáticas

Crianças de 4 e 5 anos de uma escola municipal de educação infantil da cidade de são paulo aprendem a projetar e construir coletivamente uma casa de brinquedo1, utilizando embalagens recicláveis a possibilidade da brincadeira no espaço a ser criado movimenta o desejo de aprender das crianças

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Fotos: Margareth Buzinaro


O Projeto Casa de Brinquedo, que envolve prioritariamente conteúdos da matemática e meio ambiente, nasceu da necessidade real das crianças de incrementar o acervo lúdico da Escola Municipal de Educação Infantil João Mendonça Falcão, localizada na zona leste da capital paulista.

Pensamos no projeto, quando a escola recebeu um kit com geladeira, fogão, pia, mesa e cadeirinhas. As crianças, quase que em coro, disseram: “Que pena que não temos uma casinha para colocar tudo dentro”. Sugeri então: “E se nós construíssemos uma casinha com caixinhas de leite?”. Essa conversa desencadeou toda a ação.

Discuti com as crianças sobre o que queriam e, principalmente, as formas de colocar em prática seus objetivos, aproveitando para trabalhar com diferentes conteúdos de forma significativa.

O Projeto nas mãos das crianças
Combinamos, primeiramente, como fazer para arrecadar as caixas. Propus a elaboração coletiva de um cartaz, pedindo que outras crianças da escola também trouxessem caixinhas vazias de leite:

“Estamos precisando de caixinha de leite Longa Vida para construir uma casinha de brinquedos. Precisa ser limpa e não pode ser amassada. Quem quiser ajudar é só trazer as caixinhas e entregar na sala 3”

Elaboramos e revisamos coletivamente o texto do cartaz, fixando-o no portão da escola, cuidando para não esquecer de explicar sobre os cuidados necessários com a limpeza das caixas.

Crianças tomam decisões
Esperamos que as caixas fossem chegando para realizarmos novas rodas de conversa e tomarmos algumas decisões sobre a coleta e o armazenamento, a partir das questões concretas que foram surgindo e que não foram antecipadas propositalmente:

  • Como receber as caixas, diariamente, sem causar tumulto;
  • Onde guardar;
  • Como guardar;
  • O que fazer com as caixas que viessem com restos de leite.

Passados três dias do pedido de arrecadação, estávamos diante de um problema: decidir o que fazer com a quantidade diária de caixas de leite que chegavam à escola. Precisamos tomar algumas decisões, discutidas com as crianças, para que elas fossem entrando em contato com as questões práticas que surgem quando nos propomos a realizar ações transformadoras. Estávamos amontoando as caixinhas de leite conforme chegavam, dentro de sacolas plásticas, em nossa sala, e o volume das caixas começou a tomar conta do espaço.

Com as crianças na roda, conversamos sobre como armazenar as caixas até o momento da confecção propriamente dita da casa de brinquedo. Chegamos às seguintes soluções, que fui registrando na presença das crianças:

  • Colocar uma caixa no pátio para recolher o material. Assim as crianças de horários diferentes fariam diretamente a entrega sem precisar ir à nossa sala, interrompendo-nos, porque às vezes estávamos lendo uma história, ou conversando;
  • No final de cada dia, algumas crianças de nossa turma desceriam para buscar as caixas, que ficariam armazenadas em nossa classe;
  • Para melhor acomodação, as caixas de papelão foram colocadas em cima de um armário;
  • As caixinhas de leite que viessem sujas, seriam lavadas na nossa pia.

Fazendo estimativas e contagens
Propus uma série de situações nas quais as crianças foram convidadas a levantar hipóteses sobre quantidades, com registros feitos por elas ou propostos por mim. Em uma roda, na qual circulava uma boa quantidade de caixas (60, ao todo), as crianças precisavam responder às seguintes questões:

  • Quantas caixas já temos?
  • Será que esta quantidade de caixas é suficiente para construirmos nossa casinha?

As respostas foram as mais diversas: de dez a 2 mil caixas seriam suficientes. Fui registrando em um papel pardo o que elas diziam, destacando nomes e quantidades que cada criança ia sugerindo, com cores diferentes um do outro, de maneira que ficamos com colunas distintas de nomes e quantidades.

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Pedro


Conversamos muito, comparamos os registros de uma e outra quantidade, até que separei em um pequeno monte dez caixas, que fui contando junto com eles e, em seguida, reformulei a pergunta inicial:

“Se neste monte temos dez caixas, quantas será que temos neste outro monte que sobrou?”

O fato de determinar a quantidade de uma parte das caixas fez com que as crianças reelaborassem a estimativa inicial. Algumas sugeriram que eu organizasse outros montes de dez e, no final chegamos a contar as 60 caixas que tínhamos ao todo. Anotamos este número em outra folha de papel pardo e combinamos que diariamente contaríamos as caixas coletadas. Começamos também a ensaiar a construção da casa. Como fazer para deixar as caixas de leite mais firmes e fortes para construirmos nossa casinha? Vazias, eram leves demais.

No pátio da escola, espalhamos todas as caixas no chão, como peças de montar, para que as crianças “ensaiassem” empilhá-las, como se fossem iniciar a construção. Rapidamente descobriram que as caixas eram leves demais e que não seria possível construir uma casinha assim. Pensaram então: empilhar ou enfileirar? Como começar?

Brincadeira e questão ambiental
As sugestões foram muitas para resolver o problema de construir uma casa resistente: enchêlas de pedras, terra, areia. Para cada qual fomos discutindo prós e contras. Lembramos, então, de uma peça teatral sobre reciclagem de lixo que assistimos e na qual aprendemos que, enchendo caixas de leite com jornal, poderíamos construir vários brinquedos. Então tomamos a decisão de enchermos as caixinhas com jornal amassado para ver se ficaria melhor.

Essa foi nossa primeira conversa sobre o lixo que pode ser reaproveitado. Em matéria de preservação do ambiente, é importante agir de acordo com os três “Rs” da ecologia: Reduzir o consumo, Reutilizar (ou reaproveitar) e Reciclar os materiais. Aplicar estas idéias no dia-a-dia escolar é uma forma das crianças aprenderem, por meio de atitudes cotidianas, sobre como cuidar de seu ambiente.

Uso social da matemática
O próximo passo foi descobrirmos quantos jornais seriam necessários para que cada caixinha ficasse bem firme. Já tínhamos jornais em grande quantidade. Fizemos algumas estimativas e discutimos como fazer para ter certeza da quantidade a ser utilizada. Algumas crianças sugeriram que experimentássemos uma a uma as folhas. Foi o que fizemos: primeiro com as folhas duplas, depois com as simples. Registramos para não esquecer. A solução foi sete folhas duplas ou 14 simples.

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A doação das caixinhas mobilizou a escola inteira


Pensando nas metragens
Começamos a pensar, então, em quantas caixas seriam necessárias para construir nossa casinha. Como descobrir? Queríamos que os móveis coubessem dentro dela. Fomos todos para o pátio pensar, olhando para os móveis e para as caixinhas. Mais estimativas, mais contagens. Quantas caixas por fileira? Quantas caixas por coluna? Quantas caixas por parede? E como registrar todos os lados da casa? E decidir onde seriam as portas e janelas? Foram muitas as idéias, os cálculos e os registros. Ao final chegamos a um número. Entre uma atividade e outra, fomos enchendo as caixinhas com jornal, lembrando da quantia certa de folhas, de manter a estrutura da embalagem, sem amassá-las, garantindo a forma geométrica, parecendo um tijolo.

Construção da casa
Depois do intenso trabalho e contando com uma armação de madeira pronta, feita por um voluntário, voltamos a pensar em forma, quantidade, planejamento das paredes, portas e janelas. Finalmente tínhamos caixas suficientes. Divididas em grupos, as crianças fizeram uso de experiências anteriores. Primeiro enfileiraram caixas ao lado da armação de madeira e, em seguida, procuraram empilhar, formando colunas. Contaram, então, fileiras e colunas inteiras e foram decidindo como montar no chão, cada uma das paredes da casa, considerando suas hipóteses de quantidade.

Finalmente a construção
Chegou o grande dia de iniciarmos a construção de nossa casinha de brinquedo. É claro que precisamos de ajuda de outros adultos, mas todas as crianças puderam colar os tijolos de caixa de leite. Como não era possível que todos participassem ao mesmo tempo, as crianças foram divididas em grupos, sendo que cada um tinha uma tarefa: selecionar as caixas, recortar calços e enfeites, acabamento para o telhado, organizar o espaço, entre outros.

(Margareth Buzinaro, professora da Rede Municipal de Ensino da cidade de São Paulo)

1Projeto pensado por Margareth Buzinaro para ser desenvolvido com crianças de 4 e 5 anos. Com agradecimento especial à professora Rosa Maria Antunes de Barros, que colaborou no esboço da primeira versão deste trabalho.

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As caixinhas, que em geral vão para o lixo, podem virar material de ensino

Reciclagem

A reciclagem é umas das alternativas para o tratamento do lixo urbano e contribui diretamente para a conservação do meio ambiente. Ela trata o lixo como matériaprima que é reaproveitada para fazer novos produtos e traz benefícios para todos, como a diminuição da quantidade de lixo enviada para aterros sanitários, a diminuição da extração de recursos naturais, a melhoria da limpeza da cidade e o aumento da conscientização dos cidadãos a respeito do destino do lixo.

Existem diversas tecnologias disponíveis para a reciclagem das embalagens da Tetra Pak. Conheça as formas de reciclagem no site: www.tetrapak.com.br/home.html.

Educação Ambiental

A prática da Educação Ambiental passa necessariamente por uma educação da sensibilidade, já que estamos falando de valores, atitudes, conceitos que não se transformam a partir de uma simples informação, mas sim pela percepção daquele valor ou atitude como algo importante para o bom desenvolvimento da relação homem-meio. (Ferreira Santos, 2001)
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Matemática

Os domínios sobre os quais as crianças de 0 a 6 anos fazem suas primeiras incursões e expressam idéias matemáticas elementares dizem respeito a conceitos aritméticos e espaciais. Propõe-se a abordagem desses conteúdos de forma não simplificada, tal como aparecem nas práticas sociais. Se, por um lado, isso implica trabalhar com conteúdos complexos, por outro lado, traz implícita a idéia de que a criança vai construir seu conhecimento matemático por meio de reorganizações ao longo da sua vida.

Complexidade e provisoriedade são, portanto, inseparáveis, pois o trabalho didático deve necessariamente levar em conta tanto a natureza do objeto de conhecimento como o processo pelo qual as crianças passam ao construí-lo.
(Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. / MEC – Vol 3, pg. 217)

Projeto Casa de Brinquedo

Áreas

  • Matemática
  • Conteúdo transversal
  • Meio ambiente

Faixa etária

  • 4 a 5 anos – Turma com 30 crianças

Duração

  • Agosto a outubro/2004

Produto final

  • Casinha de brinquedo confeccionada com caixinhas de leite

Justificativa
A brincadeira é reconhecidamente um dos mais importantes conteúdos da Educação Infantil. Tudo vira brinquedo nas mãos das crianças. Qualquer caixa ou pedaço de papel pode se tornar brinquedos interessantíssimos no delicioso jogo simbólico com o qual estão sempre envolvidas. Sabendo que enquanto brincam as crianças aprendem, podemos organizar situações nas quais estas brincadeiras intermedeiem a aprendizagem de outros conteúdos que também precisam estar contidos no universo do que se pretende ensinar para elas, como matemática ou cuidados com o meio ambiente.

Foi essa idéia que nos mobilizou a construir, junto com nossos pequenos, uma linda casinha de brinquedo que já poderia ser brinquedo antes mesmo de estar pronta, ainda que envolvendo muito trabalho sério.

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Trabalho concluído: casinha de brinquedo confeccionada com caixinhas de leite


Objetivo do professor
Matemática: Envolver as crianças em diversas situações-problema, diante das quais precisassem tomar decisões, levantando hipóteses, fazendo uso de seus conhecimentos prévios sobre todos os conteúdos envolvidos em cada atividade proposta. Situações nas quais as crianças pudessem realizar e registrar (convencionalmente ou não):

  • Contagens;
  • Estimativas e cálculos mentais simples;
  • Comparações de diversas grandezas;
  • Medidas de comprimento, peso e volume;
  • Exploração e identificação de propriedades geométricas: formas, tipos de contorno, faces planas, lados retos.

Meio ambiente: Organizar momentos de trocas de informações sobre o destino de materiais recicláveis e algumas boas razões para se reciclar o lixo, além de aprender a reaproveitar materiais que poderiam ir para o lixo.

Objetivos para as crianças
Construir uma casinha com caixas de leite para colocar a mesinha, o fogãozinho, a pia e a geladeira que a escola ganhou de presente, e poder brincar com muitas panelinhas, comidinhas e bonecas; porque é mais gostoso brincar dentro de uma casinha.

Ficha Técnica

Projeto Casa de Brinquedo
Realização: Escola Municipal de Educação Infantil João Mendonça Falcão – Rua Coronel Mursa, 167 – Brás São Paulo – SP. CEP: 03043-050
Equipe
Diretora: Maria Cecília P. Cricelli
Coordenadora: Pedagógica Ana Lúcia
Educadora: Margareth Buzinaro
Colaborador Voluntário: Professor Antonio Buzinaro Filho

Para Saber Mais

  • Manual de Reciclagem – Coisas Simples que Você Pode Fazer, The Earth Works Group. Ed. José Olympio. Tel.: (21) 2585-2061
  • O Outro Lado do Meio Ambiente – Uma Incursão Humanista na Questão Ambiental, Ávila Coimbra. Ed. Millenium. Tel.: (19) 3274-1879

Sites:

  • www.tetrapak.com.br/home.html
  • www.reciclar-t3.org.br/html/pt/fazemos.php
  • www.cempre.org.br/manuais.php

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #24 de outubro de 2005. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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