Uma cabana no deserto

A partir do interesse das crianças por animais, a formadora de apoio, Silvana Augusto, propôs uma viagem por um mundo diferente: o deserto. Durante três meses, as crianças do centro de educação infantil meu abacateiro, na capital paulista, pesquisaram, desenharam, escreveram, brincaram e aprenderam sobre a relação dos animais, vida humana e meio ambiente.

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Mesquita


As crianças pequenas são muito atraídas pelo mundo dos bichos, sejam domésticos ou selvagens, pequenos ou gigantes. Descobrir a diversidade da vida animal pode ser um tema interessante e legítimo para ampliar o entendimento sobre o que é a própria vida. Uma criança de dois anos, por exemplo, pode com muita naturalidade confirmar que um carro é vivo só porque se mexe. Ela ainda não sabe que ser vivo requer outros atributos além da mobilidade.

Ficam encantadas quando descobrem que seres vivos têm pernas, boca, orelhas, e podem ser mamãe e filhote, características que as crianças conhecem bem. “Estudar” a vida dos bichos é fonte de prazer e curiosidade para os pequenos. Há muitas maneiras de trabalhar o tema, e eu escolhi apresentar-lhes os bichos nos ambientes em que vivem, e não apenas como organismos vivos isolados. Eu imaginava que o tema dos animais deveria aparecer em um contexto que incluísse o ser humano, afinal, o meio ambiente também contém a cultura de um povo.

Na Amazônia, por exemplo, macaco, onça pintada, arara convivem com índios, seringueiros, etc. Tudo num ambiente está relacionado. E como seria no deserto? Essa foi a minha pergunta ao grupo e à professora Sônia Boaventura. Para tanto, trilhei os caminhos do jogo simbólico e da própria pesquisa. Queria mostrar como seres humanos e animais vivem em diferentes partes do mundo. Queria apresentar não só a diversidade animal, mas também a integração da vida.

Para as crianças pequenas, que estão aprendendo papéis e organização das famílias, é muito interessante mostrar um Outro diferente de seu contexto próximo. Saber como se organiza a vida humana em outros ambientes e em outras culturas é um assunto legítimo porque toca imediatamente nas questões da identidade.

Construindo cenários
Iniciamos as pesquisas trazendo para a sala textos de revistas de divulgação científica e muitas imagens dos desertos mais famosos do mundo. Nosso propósito era construir cenários para a brincadeira das crianças. Todas as questões pesquisadas sobre o jeito como seres humanos e animais convivem no deserto serviriam para enriquecer a brincadeira. Sônia se animou com a idéia.

O contato com o texto informativo de caráter científico teve como objetivo o conhecer para brincar. De qualquer forma, era um estudo e precisava ser tratado como tal: daí a necessidade de registrar sistematicamente com as crianças o que o grupo aprendia, para que depois pudessem ensinar aos demais colegas da creche. Foi assim que os pequenos se motivaram a conhecer mais sobre a vida no deserto.

Levei um livro que retratava situações da vida dos nômades do deserto e propus a pesquisa: imaginei que os pequenos pudessem inferir muitas informações a partir de uma leitura visual. Por isso, escolhi livros ricamente ilustrados, com muitas fotos de boa qualidade. Quando virava uma das páginas, mencionei a palavra “deserto” e as crianças imediatamente associaram ao livro da Sylvia Orthof, Maria-Vai-Com-As-Outras1, que traz uma passagem das ovelhas pelo deserto, sob o sol escaldante. Aliás, esse era um dos trechos favoritos da turma.

Assim, a partir das imagens e dos conhecimentos que elas já possuíam, as crianças conseguiram tirar informações básicas sobre esse ambiente:

– Faz muito quente, é sol, fica suado e até pega insolação – comentou Letícia.

Depois observaram as ilustrações e enriqueceram detalhes:

– Ichi, que roupa esquisita! – disse ela, rindo.
– É velha, tudo velha – completou Alessandro.
– Num é velha nada – disse Letícia.
– A casa é de pano – constatou Johnne
– É barraca – corrigiu Letícia.
– Ih, vai molhar quando chover. Cai água na casa dele – disse Wilton preocupado.
– Mas no deserto chove? – perguntei.
– Não! Ah!, é mesmo né? Lembra da Maria? – perguntou Letícia.
– A Maria vai com as outras – completou Wilton.

Resgatei os detalhes que elas já sabiam da história da Nuriar2: tapetes mágicos, véus, etc., e propus, então, que juntássemos panos velhos para montar uma barraca do deserto, bem grande, para todo mundo entrar. Inventamos, ainda, tapete mágico, cabana, camelos e tudo o mais que era necessário para viver na areia. As crianças embarcaram na hora!
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Observando camelos

Outro dia, levei para a roda uma pasta cheia de materiais sobre nosso estudo, entre eles, uma revista National Geographic que trazia ilustrações de um palácio e o desfile de camelos de Omã, que muito chamou a atenção das crianças:
– Quanto cavalo! – comentaram Luciano e Cirlene.
– Um monte, olha! – disse Alê.
– Não é cavalo, não tá vendo que não é cavalo, é camelo? – retrucou Letícia.
– Parece cavalo Letícia, o que vocês acham pessoal? Que lugar deve ser esse?
– É camelo, tão no deserto – afirmou Hallan.
– É camelo mesmo olha, tem cabelo – retomou Letícia.
– É, olha, nessa foto dá para ver melhor, o homem vai subir no camelo.
– Ele tá deitado?
– Sentado! Não tá vendo? – colocou Letícia.
– É, ele tem que ficar assim para o homem subir nele. O que será que ele come?
– Mato!
– Comida.
– Carne.
– Mato, pessoal? E no deserto tem mato?
– Tem, olha! – disse Johnne mostrando na foto ao lado uma ramagem seca.
– Ele come isso?
– É, come isso. Ele come essa planta que tem espinho, é meio dura.
– Credo, é ruim.
– Espeta a boca, machuca – comentou Johnne.
– Tem que levar remédio. Mas o homem não dá comida pra ele?
– Às vezes dá comida, mas água não porque ele agüenta ficar até uma semana sem beber água, é o que está escrito aqui. Vou ler um pedaço…

Depois da conversa, as crianças pediram para ver a revista de perto. Deixei que ela circulasse na roda enquanto mostrava duas fotos de tipos diferentes de camelos. Ficamos ainda um bom tempo olhando os livros e lendo trechos de um ou outro.

Viagem numa cabana
Depois, perguntei se eles queriam viajar para o deserto. Todo mundo vibrou:
– Então, o que a gente precisa levar?
– Brinquedo!
– Comida!
– Espera pessoal, vamos escrever tudo aqui neste papel pra gente não esquecer de nada. Vocês vão falando e eu vou escrevendo a lista.

Então, começaram a falar tudo de novo.

– Espera, fala devagar porque eu tô escrevendo.
– Comiiida.
– Ááááágua.
– Carro.
– Dá pra andar de carro na areia?
– Xiii, não dá. Cameeeelo.
– Que comida que tem que levar?
– Cachorro-quente.
– Cachorro-quente? Sabia que os homens que viajam para o deserto só levam carne e arroz?
– Só? E colher?
– Colheeeer.
– Praaato.

Fizemos uma lista enorme. Eu disse que providenciaria tudo para a viagem, enquanto isso, eles poderiam desenhar. Depois, fomos terminar de montar a cabana.

Eles ajudaram a erguer os panos, e é claro que virou uma bagunça saudável, mas bagunça, sim. Cirlene e Luciano apagavam e acendiam a luz para dizer quando era de dia e quando era de noite. À noite, faziam fogueira e dormiam, de dia andávamos.

Johnne cozinhava carne noite e dia; arrumou seu cantinho no fundo da tenda e nem quis saber da fogueira. Numa das noites, juntei todo mundo na tenda para ler a história do Camelo Melquior, que era um livro que Everton achou na estante da sala e trouxe só porque era do deserto. O dia passou rápido, fizemos muitas coisas. No final da manhã, Sônia sentou-se com as crianças para registrar as aventuras no diário de bordo da viagem.

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Ilustração da revista O Correio da UNESCO. Ed. Brasileira. Ano1 – nº 1 – jan 1973


Escritos e desenhos
Na semana seguinte, Sônia apresentou ao grupo os volumes da enciclopédia que já havia separado. Rose, a coordenadora, já tinha me contado que estava animada com o interesse das crianças, que estão adorando estudar os bichos, que sabem muitas coisas. Sempre que ela entra na sala, alguém a chama para mostrar alguma coisa do livro sobre os bichos do deserto que a sala está montando, com todos os textos coletivos e desenhos pesquisados pela turma.

No início foi difícil escrever um texto informativo bem interessante: esse trabalho exigiu circulação de informação, discussão, reelaboração e transposição para a escrita. Com isso, as crianças aprenderam muito sobre os processos da escrita, seus usos e funções. Mas não devíamos pensar na escrita como única forma de registro das crianças: era preciso também explorar as possibilidades do desenho. Por isso iniciamos uma série de desenhos de observação.

Cada mesa ganhou um xerox colorido e ampliado da foto do bicho que tinha de desenhar. Esse foi o material de consulta. É bem interessante notar o esforço das crianças para figurar o tal bicho, principalmente das crianças que ainda garatujam, como é o caso do Wesley, Johnne e Letícia. Depois de socializar todos os detalhes, propus que cada criança desenhasse seu próprio camelo numa cartolina. Depois recortaram, e eu e Sônia ajudamos a colocar encaixes inferiores para que os camelos ficassem de pé. Eles fariam parte da maquete do deserto, resultado de um estudo científico, mas também um brinquedo divertido.

Moradias do deserto
Outro assunto que despertou a curiosidade do grupo foi a moradia. Levei para a roda um material que permitia às crianças observar tipos de casa que existem no mundo inteiro. Marquei páginas da enciclopédia que eles têm na sala e conversamos sobre isso. Mostrei castelos medievais, palácios orientais, casas parecidas com as deles, casas inglesas de três andares. Por fim, perguntei se dava para morar em cima da água, e isso gerou uma conversa interessante:

– Não, molha – disse Bruno.
– Não, o tubarão pega – completou Elivelton.
– É, o tubarão e a baleia – concordou Johnne.
– Mas e se eu quisesse fazer uma casa em cima da água, poderia. Como tem que fazer, dá para fazer de bloco como a de vocês?
– Nãao … afunda – disse Bruno.
– Papel – sugeriu Alessandro.
– Molha – contestou Bruno.
– O tubarão pega, ele come a casa toda – falou Hallan.
– Já sei. Tem que colocar pedra dura na frente porque aí quando o tubarão vem ele páaa, bate e morre – explicou Johnne.
– Mas será que a pedra não afunda na água?
– Mas o tubarão morre…

Bruno estranhava, achando muito improvável tudo o que os amigos diziam. Quando mostrei as ilustrações das palafitas, avançaram para o centro da roda. Bruno ainda inconformado acrescentou:

– Eu não quero morar na água não.
– Olha, o homem pescando.
– Ele vai de barco.
– Roupa pendurada…
– Se o tubarão vier aqui ele acaba com essas casas?
– Não, olha o portão – disse Letícia apontando para uma cerca de troncos à frente das palafitas.
– Pessoal, aqui não é muito fundo, tubarão não vive aqui, só no alto mar. Vejam no livro depois…E agora, pessoal, como são as casas do deserto? A gente podia escrever sobre elas no nosso livro. O que podemos dizer sobre elas? Como elas são, o que precisa para fazer?
– De pano.
– Mas todas as casas do deserto são de pano?
– É, cabana, com pano, cobertor…
– E como faz?
– Tem que primeiro fazer um quadrado assim no chão, depois pega um papel e faz um desenho assim, aí põe ferro e vai colocando os blocos – diz Johnne, que provavelmente tem um pai pedreiro.
– No deserto também faz assim, Johnne?
– É, mas põe pano.

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Produções das crianças do Centro de Educação Infantil Meu Abacateiro


Faz-de-conta que era assim
Num dos encontros, surgiu o desafio de arrumar um jeito para se salvar do escorpião. Muitos apelaram para o uso de espingarda ou revólver:
– Mas Hallan, e se o escorpião vier de noite, enquanto você estiver dormindo?
– Eu acordo.
– E se você não acordar?
– Eu mato para ele – disse Alessandro.
– E como você mata?
– Dou uma pedrada na cabeça dele.
– Mas vocês já viram como é um escorpião? Sabe o que ele faz?
– É um bicho. Come a gente.
– Então é melhor a gente estudar esse bicho para achar um bom jeito de acabar com ele.

Para cada cabana dei a ilustração, colorida e ampliada para que ficassem observando. Eles ficaram superencantados com o bicho. Tenho certeza que a qualidade da informação visual enriquece muito a pesquisa que eles já conseguem fazer. Se quisermos que as crianças apreendam a maior quantidade possível de informações, temos de cuidar para que a ilustração seja rica o suficiente para que eles possam dar conta desta pesquisa.

Depois da brincadeira, voltamos para a sala e cada criança desenhou seu escorpião, partindo da observação da figura que tinham à mesa. Percebi nessa garatuja uma qualidade diferente das que costumeiramente produzem. Em ambas, ficou registrado aquilo que mais aparecia na figura: as pernas do bicho.

Na tela com Lawrence na Arábia
Lá pelas tantas, Sonia e eu levamos as crianças para assistirem a um filme que trouxesse imagens do deserto. Naquela época, não tínhamos vídeo na creche, foi necessário levá-las até a sede da igreja. Assim, a professora Sonia, Claudia, uma outra educadora da creche e eu, nos organizamos para sair. Sonia andava na frente, confiante, com algumas crianças segurando pelas mãos. Claudia, mais preocupada, tentou organizar uma fila, o que se mostrou totalmente desnecessário: as ruas da favela são familiares, muitas crianças já estavam bem acostumadas ao percurso porque usavam aquele caminho para chegar de casa até a creche. Além disso, as ruas eram muito estreitas, portanto não ofereciam riscos.

Assim, mais soltos, andando até bem depois das vielas, pontes, ruas, quintais, chegamos à paróquia, onde encontramos uma TV tão grande para os pequenos, que mais parecia uma tela de cinema. Arrumado o lugar da platéia, conversamos sobre o filme Lawrence na Arábia. Mostrei a capa, falei sobre os atores, recolhemos as primeiras impressões, expectativas. Por fim, combinei que veríamos só algumas partes porque o filme era muito longo. Escolhi trechos que traziam muitas informações sobre o que estudávamos, mas que também contribuíam para o entendimento da história.

As crianças mostraram-se muito atentas e identificaram nas imagens muitas coisas que já tínhamos lido nos livros, principalmente sobre a vestimenta dos beduínos. Logo no início, uma cena mostra o amanhecer no deserto ao som de uma música maravilhosa. Wilton comentou:

– Ai, que medo!

Já Johnne e Hallan se admiraram:

– Olha, que bonito.
– Solzão!

Foi emocionante. Também adoraram a cena do eco que Lawrence provoca no meio das montanhas, vibraram com a areia movediça, a tempestade nas dunas, tanta coisa! Fomos conversando ao longo do filme. Eu ia fazendo perguntas, chamando atenção para algumas coisas, mas nos momentos de maior tensão, ou quando tocava a música, eles me deixavam falando sozinha, de tão envolvidos que estavam com as imagens. Outras vezes falavam alto para chamar a atenção dos amigos, conversavam entre si. Tudo isso era indício de que estavam aproveitando.

O filme acabou bem tarde, estávamos atrasados para o almoço e tivemos de voltar para a creche. Pedi a Sonia que resgatasse com o grupo as coisas que vimos, que eles registrassem as informações novas e que nas próximas brincadeiras de cabana oferecêssemos panos e outros materiais para que pudessem se produzir como o Lawrence na Arábia.

Três meses depois de muito brincar e aprender, fechamos as malas e o diário de bordo, nosso livro do deserto, que terminou ricamente ilustrado pelos desenhos de observação das crianças de todo o grupo. Durante muito tempo esse cenário foi uma referência para as crianças, até que outros projetos chegaram, outros assuntos passaram a ocupar o centro da roda e as crianças partiram para novas viagens

(Silvana Augusto, professora de Filosofia e formadora do Instituto Avisa Lá)

1Maria-Vai-Com-As-Outras, Sylvia Orthof. Ed. Ática.
2O Casamento da Princesa Nuriar – Coleção 1001 noites, Eunice Braido. Ed. FTD.

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As burcas

Hora do conto

Para cercar o imaginário sobre o deserto, selecionamos algumas histórias para os momentos da roda. Iniciamos pelo conto clássico da Princesa Nuriar e a disputa dos noivos para o casamento. Engraçado como as crianças esperaram o final feliz dos contos de fadas, no qual o bem sempre vence o mal. Aqui, é sempre a esperteza e a fortuna que determinam os destinos dos personagens. As crianças ficaram incomodadas com o final do conto, como se alguma coisa estivesse errada. Imaginei que se elas pudessem ditar essa história, seriam tentadas a alterar o final, deixando-o o mais parecido com o “felizes para sempre”, clássico de outros contos, mais familiar ao grupo.

As muitas versões do livro das Mil e uma Noites

As fábulas de Shehrazad estão no Livro das Mil e Uma Noites, que chegou ao mundo ocidental há 300 anos e, agora, pela primeira vez, foi traduzido diretamente dos originais árabes para o português, pelo professor de Língua e Literatura árabes, Mamed Mustafa Jarouche, da Universidade de São Paulo (USP). Até então, os muitos exemplares que chegaram ao Brasil eram traduzidos do francês. Há muitas edições do Livro das Mil e Uma Noites no Brasil.

Em 1882, Carlos Jansen traduziu do alemão Contos Seletos das Mil e Uma Noites. Desde então, surgiram diversas edições relacionadas ao livro. Isso sem falar nos livros infantis e desenhos animados. Mas a obra nunca havia sido traduzida diretamente do árabe. A maioria dos textos tem como base a edição do francês Antoine Galland, que viveu entre 1646 e 1715 e incorporou ao livro contos famosos como os de Sinbad e Aladim, mas que não fazem parte da história original. Além disso, Galland adaptou os enredos aos costumes ocidentais da época, como o hábito de tomar café.

Para fazer a tradução para o português, Jarouche pesquisou, durante cinco anos, manuscritos na Europa e no Oriente Médio. Consultou três volumes do texto árabe da Biblioteca Nacional de Paris e, como a leitura era bastante difícil devido a dialetos que não existem mais, aconteceram muitos erros de cópia, borrão e deterioração.

(Livro das Mil e Uma Noites. Vols. I e II, traduzido do árabe por Mamede Mustafá Jarouche. Ed. Globo. Tel.: (11) 3362-2000. Site: www.editoraglobo.globo.com)
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Mil e uma leituras

Nas rodas de “estudos”, propunha a leitura de um texto informativo e a leitura de imagens. Em geral, esta vinha em primeiro lugar, dando ocasião para as descrições, para as conversas, suscitando dúvidas que seriam respondidas com o apoio do texto que então era lido. Eu lia apenas a parte selecionada e as legendas das fotos, para enriquecer a pesquisa visual que as crianças conseguiam fazer sozinhas. Algumas perguntas eu mesma dirigia – com elas, pretendia chamar a atenção das crianças para algum detalhe muito específico do tipo: Como é a cabeça do camelo, Como são os olhos? Respondendo a essas perguntas, Luciano e Letícia rapidamente conseguiram informar aos amigos que:

O camelo tem cabelo.
É, olha a franja.
O olho tem pelinhos…, (cílios).

Lawrence da Arábia

Lançado em 1962, Lawrence da Arábia recebeu 10 nomeações para o Oscar de 1963, ganhando sete estatuetas. O argumento do filme baseia-se na biografia de T.E. Lawrence (1888-1935), descrita no seu livro Sete Pilares da Sabedoria e explora a personalidade excêntrica e enigmática de Lawrence. Jovem tenente do Exército britânico, Lawrence estava no Cairo (Egito) durante a Primeira Guerra Mundial. Pede então transferência para a península Arábica, onde vem a ser oficial de ligação entre os rebeldes árabes e o Exército britânico, aliados contra os turcos, que desejavam anexar ao seu Império Otomano a península Arábica. Lawrence, admirador confesso do deserto e do estilo de vida beduíno, oferece-se para ajudar os árabes a se libertarem dos turcos.

O filme mostra quatro episódios principais da vida de Lawrence durante a sua estada na Arábia: a conquista de Aqaba; o seu rapto e tortura pelos turcos em Deraa; o Massacre de Tafas, o fim do sonho árabe de Damasco. Apesar de ser um filme com quase quatro horas de duração, não tem nenhuma atriz. Todos os protagonistas são do sexo masculino.
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Viajando pelo deserto

Tempo previsto:

  • 3 meses

Faixa etária envolvida:

  • 3 a 4 anos

Objetivos didáticos:

  • Apresentar a diversidade de vida na natureza, a relação do homem num ambiente natural específico, as estratégias para se adaptar ao meio e sobreviver.
  • Mostrar outra forma de vida, outra cultura que habita o mesmo planeta.
  • Introduzir o hábito e gosto pela leitura de texto informativo, apresentando mais um portador de escrita: livros e revistas científicas.
  • Organizar jogo simbólico como atividade diária.

Objetivos compartilhados:

  • Construir na sala da brinquedoteca tendas e maquetes, como os beduínos no deserto, para brincar de faz-de-conta.
  • Escrever um diário ilustrado apontando tudo o que sabem sobre o assunto.


O que as crianças podem aprender:

  • A tomar contato com livros e enciclopédias. Reconhecer nos livros uma fonte de informações curiosas e interessantes, transformando a pesquisa e a leitura em parte do cotidiano.
  • A usar uma fonte de informação usando o recurso disponível em proveito de uma necessidade do grupo.
  • A sistematizar conhecimentos adquiridos na pesquisa ou no jogo, percebendo que podem depois, a partir do diário, transmitir para outras pessoas o que já aprenderam na creche.
  • A conhecer outro tipo de jogo simbólico além das profissões e da maternagem.
  • A brincar e responder às dificuldades da brincadeira, sabendo a quem recorrer e como buscar informações, perguntando, registrando, etc.
  • A conhecer novas culturas, em especial a cultura nômade beduína, sabendo sobre os lugares onde vivem, como se adaptam, se vestem, se locomovem, etc.
  • A usar observação para representação gráfica com o máximo de detalhes possível.
  • A perceber que o que está escrito no livro tem uma referência de realidade e que podem sistematizar conhecimentos partindo apenas da observação.
  • A observar e comparar estilos de vida tão diferentes dentro do mesmo ambiente.

Roteiro de atividades:

  • Conversar na roda, a partir de um conto árabe, para saber o que as crianças pensam sobre o deserto, o que já ouviram falar.
  • Mostrar ilustrações de diferentes desertos, rochosos, arenosos e de cascalho, para daí tirar o que nós vamos estudar: desertos árabes.
  • Construir a casa do deserto. Para saber como é, é preciso pesquisar. Observar nas revistas oferecidas na roda como são as casas dos beduínos e bosquímanos: Como são? Do que são feitas? Como são os móveis? Onde sentam, onde dormem? Por que eles vivem em tendas? O que precisamos conseguir para montar uma na sala? Terminado esse levantamento, dividir tarefas para erguer a tenda.
  • No final da atividade, sentar junto para contar uma história do deserto.
  • Criar painéis decorativos usando folhas de papel grandes. Com tinta guache, repetir padrões tribais para as mantas a partir da observação das fotos apresentadas. Esses trabalhos vão decorar o interior da tenda.
  • Fabricar acessórios e roupas para brincar. Para começar, observar nas revistas oferecidas a maneira como os beduínos se vestem, para fabricar as vestimentas do jogo. Por que eles se vestem assim? De que cores são os panos? Por que usam óculos? Os homens usam as mesmas roupas das mulheres? De que material precisamos para fazer uma roupa igual?
  • Pesquisar nos livros qual é o meio de transporte usado no deserto. Quais são os tipos de camelo, caracterizá-los. Saber por que eles são o meio de transporte mais importante. Confeccionar com cabos de vassoura e trapos um camelo para o jogo.
  • Propor um jogo de trilha do beduíno, simples, com um dado e sem obstáculo. Esse jogo pode e deve ser retomado durante a semana na atividade permanente de jogo.
  • Pesquisar outros tipos de camelo e lhamas, propor desenho de observação para compor um painel de fundo.
  • Organizar uma visita ao zoológico para enriquecer os estudos sobre o camelo.
  • Propor estudo sobre os escorpiões, um dos maiores perigos do deserto. Observar um escorpião de verdade, preso num vidro, para extrair daí a maior quantidade de informações possíveis, para confirmar ou enriquecer o que já viram no livro.
  • Propor novo desenho de observação.
  • Repetir a seqüência de estudos e registro de observação, agora sobre as aranhas.
  • Enriquecer a pesquisa dos bichos com a apresentação de bichos mais esquisitos ainda, como, por exemplo, o peixe-da-areia.
  • Repensar o jogo de trilha, agora aumentando regras de acordo com os perigos que podem se apresentar ao homem do deserto, que é o personagem do percurso: foi picado por um escorpião, espere uma jogada enquanto tira o veneno, por exemplo.
  • Propor um experimento com água para suscitar as especulações sobre evaporação e chuvas.
  • Enriquecer o trabalho mostrando um oásis verdadeiro: Marrocos. Observar ilustrações e comentar o que vêem, comparar a vida no deserto e no oásis.
  • Ouvir músicas, comparar os tipos, as diferenças, experimentar sons diferentes.
  • Experimentar tâmaras e tahine. Pedir para o pessoal da cozinha ajudar com o preparo.
  • Fazer uma festa no final da viagem, convidar outras crianças para brincar junto. Em outro dia, convidar outras pessoas da creche para ler o diário e aprender com eles como viajar pelo deserto vencendo todos os perigos e ameaças.

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Ensaios de portas de mesquita, tendas e camelo


A cada etapa do trabalho, é importante:

  • Concluir com um registro coletivo escrito e ilustrado no diário de viagem no deserto, deixando-o disponível para manuseio na sala. Nas rodas de conversa é importante ler diários de viagem de outros aventureiros para melhorar a produção do próprio.
  • Permitir que as crianças brinquem de faz-de-conta no deserto. É importante que a professora brinque junto e faça o jogo crescer, oferecendo a maior quantidade possível de informação e problematização, sugerindo sempre uma pesquisa para resolver um problema, como nos seguintes exemplos: se o beduíno for picado por uma cobra ou um inseto, o que ele deve fazer? Como viver sem beber água? O que acontece? Desidrata? O que é isso? Como resolver? Nesse caso, as crianças podem entrevistar a profissional da área de Saúde para responder.


Materiais necessários:

  • Canetinha colorida
  • Lápis preto 6B (grosso para desenho)
  • Canetas pretas de ponta fina para desenho de precisão
  • 100 folhas de papel sulfite
  • 5 folhas de papel cartão
  • Cola e tesoura
  • Panos, cobertores, trapos para as tendas, tapetes e camelos
  • Barbante e pregadores para armar a tenda
  • Espelho e maquiagem para se fantasiar na tenda
  • Material a ser estudado com as crianças
  • Material de estudo para a professora

Ficha técnica

Programa Capacitar Educadores
Iniciativa: Instituto C&A
Responsabilidade Técnica: Instituto Avisa Lá
Realização: CEI Meu Abacateiro – Rua Ana Maria, 36 – Jardim Ubirajara – São Paulo – SP. CEP: 04458-000 – Tel.: (11) 5614-3700 [email protected]
Formadora de apoio: Silvana Augusto
Equipe – Diretora: Regina Cardoso Guimarães;
Coordenador pedagógico: Mário Augusto de Oliveira Machado;
Educadoras na época do projeto: Sonia Maria Boaventura da Silva e Rosemar da Silva Queiroz

Para saber mais

Livros:

  • Aladim e Outros Contos de as Mil e Uma Noites, Rosalind Kerven. Ed. Cia das Letrinhas. Tel.: (11) 3707-3500.
  • O Casamento da Princesa Nuriar – Coleção 1001 Noites, Eunice Braido. Ed. FTD. Tel.: (11) 3253-5011.
  • As Mil e Uma Noites – Coleção Reencontro, Julieta de Godoy Ladeira. Ed. Scipione. Tel.: (11) 3990-1778.
  • Atlas Visual – Plantas, Ed. Ática. Tel.: (11) 3990-2100.
  • Contos Árabes, Jamir Almansur Haddad. Ed. Ediouro. Tel.: (21) 3882-8200.
  • Maria-Vai-Com-As-Outras, Sylvia Orthof. Ed. Ática. Tel.: (11) 3990-2100.
  • Os Sete Pilares da Sabedoria, Thomas Edward Lawrence. Ed. Record. Tel.: (11) 3286-0802.

Revistas:

  • Revista Caminhos da Terra – http://www2.uol.com.br/caminhosdaterra/index.shtml
  • Revista National Geographic – http://nationalgeographic.abril.com.br

Filmes:

  • Lawrence da Arábia. Direção: David Lean. Disponível nas locadoras.
  • Vídeos da série National Geographic. Disponível nas locadoras.
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O camelo


Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #26 de abril de 2006. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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