Uma carta para Inos Corradin – O artista que não pára de pintar

Aproximar crianças da produção dos artistas já é uma prática bastante comum na educação. Nomes como Picasso, Miró, Volpi e Tarsila são freqüentemente explorados e trazem um fato em comum: todos produziram num tempo passado. Será que as produções artísticas são mais consideradas depois que seu autor morre? E as obras de arte produzidas por artistas vivos? Essas preocupações das educadoras levaram crianças de 4 a 5 anos a conhecerem Inos Corradin, artista que trabalha nos dias de hoje.


Larissa e sua versão de “Flores Com Fundo de Mar”

Por que é importante que a criança entre em contato com as obras dos artistas? Essa é a pergunta de muitos educadores. Para responder, podemos recorrer a uma comparação: vamos pensar em situações de leitura. Ninguém duvida que, para uma criança se tornar uma leitora interessada e poder escrever textos com qualidade, ela precisa conhecer diversos textos. O mesmo acontece com a capacidade de representar por meio de linguagens plásticas: para construir modos diferentes de pintar, desenhar, esculpir, modelar, pensar e fazer em arte, a criança precisa entrar em contato com a diversidade de produções artísticas. O repertório de imagens é, para a criança, uma fonte de referência muito importante.

Ao conversarmos sobre o modo como determinado artista fez seu trabalho, ao experimentarmos seus procedimentos, damos às crianças mais uma oportunidade de alimentar um repertório interno que será fonte inspiradora para novas pesquisas sobre desenho, pintura, escultura etc. Muitos educadores, reconhecendo essa necessidade, tratam de apresentar às crianças alguns dos nomes mais famosos do mundo da arte: Miró, Picasso, Tarsila, Volpi, entre outros. Essas propostas ficam, muitas vezes, restritas à observação e ao conhecimento da arte constituída como tal, reconhecida pelos críticos e pela história da arte. Tal iniciativa, quase sempre, leva a trabalhar com artistas que já morreram. Mas será que a pintura, por exemplo, só vira obra de arte depois que seu autor morre? E toda a produção de arte e da pesquisa em ateliês que acontecem hoje? Essa produção também deve estar no horizonte da criança para que possa ampliar o conceito de arte e reconhecê-la como uma manifestação presente no seu tempo, que continua a movimentar-se e não está apenas nos museus e nas páginas dos livros. No contato com o artista, podemos ouvir e ver sua própria análise do que faz, seus problemas, suas soluções.

Essa reflexão levou Ana Benedita Guedes Brentano, formadora do Instituto Avisa lá, e Maria Helena da Silva, professora da creche Mão Cooperadora, a procurarem outras referências possíveis e interessantes para as crianças. Foi assim que encontraram Inos Corradin. A seguir, a professora Maria Helena nos conta como promoveu esse encontro:

“Para apresentar Inos Corradin àscrianças, levamos para a sala do grupo algumas de suas imagens, em xerox colorido, e as distribuímos entre elas.

– Que feio ! – disse Regiane, uma das crianças da turma, estranhando a

“O Equilibrista”, por Regiane

reprodução de O Equilibrista – Olha! Ele tem um passarinho no pé!

– Eu também posso pôr um passarinho no meu pé – disse Larissa.

– Você não pode, o passarinho voa! – retrucou Alessandro, provocando a turma, que se pôs a imitar o equilibrista andando com um pé só.

Mas o que a turma gostou mesmo, foi de Flores com Fundo de Mar.

– Como ele pintou no fundo do mar? – quis saber Raquel.

– Já vi um homem dentro de uma caixa no mar. O Inos deve ter feito o
mesmo – disse Gabriel. As crianças desenvolveram tanta intimidade que o chamavam de Inos.

Depois de algum tempo apreciando e pintando sob a inspiração de suas
obras, resolvemos escrever uma carta ao artista contando que já o conhecíamos e que gostávamos de sua pintura. As crianças ditavam o que queriam escrever na carta e eu ia colocando na lousa. Terminada a escrita, passamos a limpo numa folha de papel e pedimos a um funcionário da creche que digitasse no computador. Lemos o texto uma última vez para que o grupo revisasse. Assinamos a carta e junto enviamos duas fotos da turma e duas das pinturas feitas pelas crianças naquele mês.

Não esperávamos que ele pudesse de fato responder, pensávamos que deveria ser muito ocupado. Mas foi uma surpresa geral quando o carteiro veio à creche trazendo o envelope. Estava escrito no lugar do remetente: Inos Corradin.

Levamos a carta para a sala de aula e a lemos para as crianças (veja texto abaixo). Animados com o resultado de nosso trabalho, organizamos, no final do semestre, uma exposição com todas as pinturas das crianças. E ficou muito bonita! Obrigada, Inos Corradin!”

(Denise Nalini e Maria Helena da Silva)

“Queridos meninos e queridas Mônica e professoras,
Não respondi antes a gratificante carta que vocês me mandaram e que me entusiasmou muito porque estava viajando no exterior com uma exposição (Vou novamente, agora, dia 31 de agosto, numa exposição na Austria). Agradeço infinitamente e me sinto orgulhoso que vocês gostem da minha pintura. Quando voltar de viagem me porei de novo em contato com vocês e quem sabe, nós nos conhecemos pessoalmente. Darei para vocês bastante material sobre a minha carreira artística. Prometo também um quadro para a escola logo depois que voltar, em outubro. Bons estudos e grandes beijos a todos vocês junto com as professoras.
Do amigo, Inos Corradin
Ps. Parabéns para Larissa por seu belo quadrinho “Flores com Fundo de Mar” e para Regiane por seu “Equilibrista”.
Beijos, Inos Corradin

 

Inos Corradin, o artista que responde às crianças

Inos Corradin

Vivo e atuante, Inos Corradin nasceu na Itália em 14 de novembro de 1929, e por lá iniciou seus estudos de pintura com grandes mestres italianos.Aos 21 anos mudou-se para o Brasil e instalou-se em Jundiaí, São Paulo, tendo, logo cedo, integrado o grupo de pintores cooperados de diversas regiões. Em 1953 sua carreira deu um importante salto com a viagem à Bahia: seu objetivo era apresentar sua obra, Trinidade Leal, mas sua estada por lá acabou lhe rendendo muitos outros frutos. Manteve contato com músicos e artistas plásticos atuantes na época, um grupo do qual faziam parte Mario Cravo Jr., Rubens Valentin,Aguinaldo dos Santos, Caribé, Dorival Caimmy, Jenner Augusto,Wilson Rocha e Mirabeau.

No ano seguinte, recebeu uma proposta que abriu novas portas para seu trabalho: foi convidado para fazer parte do grupo que concebeu a cenografia para o Balé do IV Centenário de São Paulo. Depois de anos de trabalho como cenógrafo, Inos mudou-se para Ibiúna, no interior de São Paulo, onde retomou a pintura. Casou-se, teve três filhos e continua trabalhando até hoje.

Suas obras estão espalhadas pelo mundo todo, fazendo parte de coleções particulares na Itália, França, Holanda, Bélgica, Alemanha, Suíça, Israel e Áustria, onde esteve recentemente, como contou para as crianças da creche da entidade Social Mão Cooperadora.

Ficha técnica:

As reproduções de Inos Corradin foram levadas pela formadora Ana B. Guedes Brentano, do Instituto Avisa lá, como parte do projeto de formação que desenvolve na creche da Mão Cooperadora, Obras Sociais e Educacionais. Maria Helena da Silva é a professora do jardim, responsável pelo trabalho da turma desde a escrita da carta até a exposição final, contando com o apoio da coordenadora pedagógica Mônica G. Alves.

  • Mão Cooperadora Obras Sociais e Educacionais: Rua Prof. Francisco Marques de Oliveira Junior, 151, Jd,Três Corações, Santo Amaro, 04855-340 Tel.: (11) 5933-3982, fax 5528-5738, [email protected]

Bibliografia:

  • Brazilian Art Book. G&A editorial. Tel.: (11) 3811-9550

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #8 de outubro de 2001. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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