Um começo que instiga

Ampliar o repertório de imagens pode contribuir para que as crianças se expressem de forma mais consistente e singular
Foto: Valéria Pimentel

Foto: Valéria Pimentel

O que fazer para ampliar o repertório de produção de imagens dos alunos? Há um universo de variações para encaminhar e propor desafios relacionados a esse conteúdo. Em muitas escolas, os professores respondem a essa pergunta planejando atividades que permitam aos alunos:

  • apreciar e refletir sobre as imagens feitas pelas próprias crianças e por outros produtores, artistas ou não;
  • fazer imagens a partir da observação de outras, sejam elas produções artísticas ou não;
  • produzir a partir da própria imaginação e também da lembrança de algo que já se viu;
  • produzir uma imagem a partir da continuação de outra incompleta.

O procedimento de criar uma imagem dando continuidade a outra que está incompleta vem sendo utilizado pelos educadores há mais de vinte anos. Surgiu numa época de reformulação do Ensino da Arte, momento em que se questionou a validade da livre expressão ou autoexpressão1 do aluno como sendo o procedimento para a aprendizagem desta área.

Assim, nos anos 1980, chegou-se ao conceito dos eixos básicos da aprendizagem da Arte, ou seja, o que todo aluno faz quando aprende sobre esta área: aprecia, reflete e produz. Com esta conclusão, seria preciso, então, alimentar o repertório de produção de imagem desse aluno com questões artísticas que não partiriam somente dele próprio, como acontecia no conceito da livre expressão. Dessa forma, começaram a habitar as aulas de Arte atividades que tratavam de conteúdos da própria arte visual culta e popular, do artesanato, de imagens da mídia, da arquitetura e da propaganda.

Alimentando o repertório de imagens
Foi nesse contexto que se criou a proposta de continuar fazendo uma imagem que já estava iniciada, divulgada com o nome de desenho com interferência. Nessa nova concepção de ensino, em que fazer, refletir e apreciar compreendiam os eixos básicos a serem trabalhados, os modelos eram bem-vindos, pois alimentavam o repertório de imagens dos alunos. No entanto, na livre expressão, esta proposta não estaria respeitando a tão valorizada criação espontânea, já que se teria de partir de algo criado por outro, que geralmente era uma colagem de revista ou uma parte de um desenho colocado no suporte pelo professor. Não se concebia este tipo de interferência na produção do aluno.

Mas hoje, passados vários anos de prática desta atividade, está comprovada sua validade. Sabe-se que ela é adequada e possibilita resolver questões da Arte no nível da produção que outro tipo de atividade não permitiria. Ou seja, quando um aluno recebe de seu professor um suporte com algo em sua área a ser continuado, no mínimo terá de se perguntar: Como eu dou continuidade a isto? E esta situação-problema mobilizará os conhecimentos de Arte que ele já possui para conseguir resolvê-la de forma própria.

Nos anos 1990, a prática do desenho com interferência foi se disseminando entre os educadores, ajudando-os a criar novos desafios para seus alunos. No entanto, o desenho com interferência abarcava apenas a produção de uma modalidade, neste caso, bidimensional. Ou seja, no suporte era colocada uma colagem, um desenho ou mesmo uma pintura, que deveria ser continuada pelo aluno fazendo uso da modalidade do desenho.

Muitos educadores encaminhavam atividades utilizando suportes com alguma imagem já colada, e o aluno deveria dar continuidade a ela, usando-se também da modalidade de colagem. Ou então, continuar a representar o corpo de uma mulher a partir de uma cabeça recortada da revista e colada no suporte, usando, para isso, a modalidade de pintura. Ou seja, embora essas atividades também fossem chamadas de desenho com interferência, a modalidade desenho nem sempre era empregada.

Na tentativa de se encontrar um termo mais correto e abrangente para a atividade que propõe a continuidade de uma imagem a partir de outra, chegou-se à expressão interferência gráfica. Não é possível precisar quando e onde ela surgiu, mas certamente foi criada para adequar as possibilidades criativas deste tipo de proposta a essa nova denominação.

Não há dúvida de que essa busca por um termo mais adequado foi um avanço, já que ele abrange todo tipo de modalidade bidimensional. Mas ainda é possível perguntar: E as modalidades tridimensionais cabem neste termo? Não, elas ainda não entram nas propostas de atividades de interferência gráfica.

Foto: Valéria Pimentel

Foto: Valéria Pimentel

Atividade já iniciada
Há dezesseis anos a Escola Verde que te quero verde… utiliza a expressão atividade já iniciada, equilibrando prática e conceito para nomear atividades bi ou tridimensionais, com o objetivo de ampliar as possibilidades de criação das imagens feitas pelos alunos por meio da continuação de uma imagem, completando sua representação.

Para possibilitar aos professores a compreensão dos objetivos específicos deste tipo de atividade, de sua adequação aos diferentes grupos de alunos e demais questões, tanto na Educação Infantil quanto nas aulas dadas pelo especialista de Artes Visuais, a coordenadora pedagógica da Escola os atende semanalmente em reuniões individuais, além de filmar e fotografar atividades para serem analisadas em tematizações.

Um exemplo de atividade já iniciada feita com modalidade de colagem tridimensional, numa sala de G2 (crianças de 4 a 5 anos), foi a seguinte: a partir de uma colagem tridimensional feita com palitos de sorvete coloridos produzida pelo aluno, ele deveria, em outro dia, continuá-la usando outros tipos de palitos.

Os alunos dos quintos anos foram desafiados de forma diferente: outra proposta era partir de alguns canos de PVC, já encaixados pelo professor de Artes Visuais, interferindo no espaço de parque da escola. O grupo deveria fazer uma instalação, dando continuidade à imagem já feita por ele, usando também os canos de PVC. Nesse caso, o desafio era descobrir como compor uma imagem tridimensional com um material já pronto que se encaixava formando linhas no espaço.

Esta imagem deveria ser criada considerando o que já existia no local, além de fazer os alunos pensarem em como compor as linhas tridimensionais e deixá-las na posição desejada: questões puramente artísticas relacionadas à modalidade instalação. O diálogo e a combinação de ideias também eram questões fundamentais a ser tratadas pelo grupo, até chegarem ao produto final. Nestes dois exemplos, as imagens oferecidas aos alunos eram tridimensionais e não gráficas. Assim, a atividade não poderia ser oferecida com o nome de desenho com interferência nem interferência gráfica, mas sim como atividade já iniciada.

Então o que vem a ser atividade já iniciada? Qualquer atividade que proponha a continuação de uma imagem já iniciada pelo professor, pelo próprio aluno ou pelo seu colega. Essa continuação pode ser feita por meio de modalidade bi e tridimensional.

Ampliação do conceito
Considerar que a continuação de uma imagem pode ser feita por uma modalidade diferente daquela usada inicialmente amplia ainda mais as possibilidades de questões artísticas a serem encaminhadas neste tipo de atividade. Por exemplo, continuar um desenho usando a colagem. É importante esclarecer também que oferecer um suporte recortado diferentemente do padrão retangular, como um sulfite em forma de ameias em um dos lados, não faz da proposta de desenhar neste suporte uma atividade já iniciada, a não ser que uma imagem tivesse sido feita dentro do perímetro do suporte.

Ou seja, além deste suporte ser recortado num formato diferente, também teria em sua área, por exemplo, uma linha tortuosa e preta previamente desenhada para que os alunos pudessem dar continuada a ela. Pensando neste conceito, o professor pode sugerir diversas questões artísticas para o aluno resolver por meio de uma atividade já iniciada2. Para isso, é necessário:

  1. Considerar a capacidade de produção de imagens dos alunos;
  2. lembrar-se de conferir o que eles já conhecem sobre produção de imagens;
  3. ter clareza daquilo que se espera que o aluno aprenda com a atividade;
  4. considerar o número de alunos, agrupamento (sozinho ou em grupos), os materiais, o espaço físico, o tempo para a atividade ser encaminhada;
  5. Elaborar a atividade já iniciada combinando os seguintes aspectos:
  • modalidades: modalidades artísticas bidimensionais como desenho, pintura, colagem,gravura e fotografia;
  • modalidades artísticas tridimensionais como esculturas e instalações; mistura de modalidades artísticas;
  • quem inicia a atividade: atividade já iniciada pelo professor;
  • atividade já iniciada pelo próprio aluno;
  • atividade já iniciada por outro aluno; materiais: meios (aquosos ou secos), instrumentos e suportes bi ou tridimensionais.

Para finalizar é sempre bom lembrar que:
…a arte leva os indivíduos a estabelecer um comportamento mental que os levam a comparar coisas, a passar do estado das ideias para o estado da comunicação, a formular conceitos e a descobrir como se comunicam esses conceitos. Todo esse processo faz com que o aluno seja capaz de ler e analisar o mundo em que vive, e dar respostas mais inventivas.

O artista faz isso o tempo todo, seja para melhor se adequar ao mundo, para apontar problemas, propor soluções ou simplesmente para encantar, que é uma das formas de tirar você das mazelas do dia a dia. A arte não tem certo ou errado, o que é muito importante para as crianças que são rejeitadas na escola por terem dificuldade de aprender, ou problemas de comportamento. Na arte, eles podem ousar sem medo, explorar, experimentar e revelar novas capacidades.
(Trecho de entrevista de Ana Mae Barbosa concedida ao repórter Flávio Amaral. In. Revista de Educação. Disponível em: revistaeducacao.uol.com.br/textos/97/artigo233134-1.asp)

Agora, crie suas atividades já iniciadas! Seguramente elas ajudarão a ampliar o repertório de criação de imagens dos alunos e, por consequência, sua capacidade de ensinar Artes Visuais.

(Valeria Pimentel, coordenadora pedagógica da Escola Verde que te quero verde… em São Vicente-SP)

1A autoexpressão se desenvolveu nos Estados Unidos da América a partir dos anos 1930 e no Brasil, nos anos 1960, atingindo o auge nos anos 1970. Acreditava-se que a autoexpressão abrangia todo o universo da Arte, especialmente para as crianças mais novas, e que os professores deveriam deixar as crianças se expressar e, dessa forma, seu compromisso com o ensino já estaria realizado. Havia a ideia de que o valor mais importante do ensino da Arte era a autoexpressão, e a apreciação da Arte era mais bem desenvolvida pela experiência criativa do aluno.

2Não abordaremos aqui os aspectos relacionados à adequação e significação das variações deste tipo de atividade. A Revista avisa lá apresentou inúmeros artigos que abordaram esse tema: Conhecendo a criança – bem traçadas linhas do desenho num percurso criador, de Valéria Pimentel (nº 2, janeiro/2000), Interferência gráfica, desenho infantil (abril/2001) e Interferências gráficas como apoio para o desenho infantil, de Daniela Pannuti (janeiro/2008)

Foto: Valéria Pimentel

Foto: Valéria Pimentel

Atividade já iniciada de argila e palito de sorvete colorido

1) Considere a capacidade de produção de imagens dos alunos.

2) Lembre-se de conferir o que eles já conhecem em relação à produção de imagens: são crianças de cinco anos, que já fizeram várias atividades com argila, modelando-a com a mistura de materiais como tampinha, gravetos, papelão, palito de sorvete, entre outros. Também já possuem habilidade manual suficiente para articular estes dois materiais com intencionalidade. Nesta idade, as crianças podem representar imagens figurativas ou não, inclusive com estes materiais.

3) Tenha clareza daquilo que você quer que o aluno aprenda com a atividade: se pretende que ele consiga combinar dois materiais – a argila e o palito –, partindo de uma imagem tridimensional já iniciada pelo professor (uma bola de argila com um palito enfiado), que não deverá ser modificada, mas sim continuada, será preciso que ele experimente procedimentos de furar a modelagem para fazer sua imagem e que trabalhe também com o equilíbrio. Como a proposta é de tema livre, o aluno poderá representar algo figurativo, ou somente representação de linhas e volumes no espaço.

4) Considere o número de alunos, o agrupamento de alunos (sozinho ou em grupos), os materiais, o espaço físico, o tempo para a atividade ser encaminhada:

  • Número de alunos: 4 a 20 crianças.
  • Atividade individual.
  • Alunos sentados em mesas de quatro cadeiras.
  • Cada aluno recebe um papelão para apoiar a atividade que irá fazer, com a atividade já iniciada de bola de argila com palito enfiado, colocada sobre ele. No centro da mesa são dispostos os materiais de argila e palitos suficientes para que o aluno crie à vontade.
  • Duração: 40 minutos.

5) Elabore a atividade já iniciada combinando os seguintes aspectos:

  • Modalidades: escultura (sem mistura de outras modalidades).
  • Quem inicia a atividade: o professor.
  • Materiais: neste caso os meios são o próprio suporte tridimensional: argila e palitos.

Atividade já iniciada de desenho no suporte pintado pelos alunos

1) Considere a capacidade de produção de imagens dos alunos.

2) Lembre-se de conferir o que eles já conhecem em relação à produção de imagens: são crianças de três anos, que toda semana recebem propostas de pintura e desenho, variando meios, instrumentos e suportes, inclusive com variação do suporte bidimensional no espaço (grudado na parede, colocado no chão, sobre a mesa e até grudado embaixo da mesa). Elas estão aprendendo a usar os materiais sem estragá-los, sem colocá-los na boca e sem fazer do corpo o suporte, a não ser que esta seja a proposta. São crianças que estão em plena exploração das possibilidades de sua produção artística, isto é, fazer para ver o que acontece.

3) Tenha clareza daquilo que você quer que seu aluno aprenda com a atividade: se pretende que o aluno, além de explorar as possibilidades de combinar cores que já estão na pintura com as que usará para desenhar, consiga dar continuidade à pintura que ele fez com os colegas, usando, para isso, a modalidade de desenho e os procedimentos de rabiscar, fazer formas, explorando os espaços ainda vazios do suporte ou desenhando sobre a tinta. Como o suporte é grande, o aluno também pode experimentar movimentos variados de mão e de corpo para fazer suas marcas. E poderá vivenciar combinações com seu colega de onde desenhar, pois a atividade já iniciada é coletiva.

4) Considere de que maneira será organizado o agrupamento de alunos (sozinho ou em grupos), os materiais, o espaço físico e o tempo para a atividade ser encaminhada:

  • Número de alunos: 5 a 20 crianças.
  • Atividade coletiva.
  • Grupos de cinco alunos colocados em frente do suporte pendurado na parede. No chão, ao lado das crianças, são colocados dois potinhos com os meios a serem usados.
  • Duração: 30 minutos.

5) Elabore a atividade já iniciada combinando os seguintes aspectos:

  • Modalidades: pintura iniciada e continuidade da imagem com desenho (com mistura de outras modalidades).
  • Quem inicia a atividade: os próprios alunos.
  • Materiais: o meio é o pastel oleoso colorido; o suporte, o papel pardo pintado com tinta branca, rosa e amarela.

Ficha Técnica

  • Verde que te quero verde…
    Endereço: Rua Pero Corrêa, 519/533 – Itararé. CEP: 11320-140 – São Vicente – SP
    Tel.: (13) 3324-3624
    Direção: Sylvia Anne Timm Freire
    Coordenação: Valéria Pimentel
    E-mail: [email protected]
    E-mail: [email protected]

Para saber mais

Livros

  • Para gostar de aprender arte, de Rosa Iavelberg. Porto Alegre: Ed. Artmed, 2003. Tel.: 0800-703-3444. Site: http://www.artmed.com.br
  • Ensino de arte no Brasil, de Ana Mae Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2011. Tel.: (11) 3885-8388. Site: http://www.editoraperspectiva.com.br

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #50 de maio de 2012. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual –
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