O que os muros contam sobre a cidade

As cidades brasileiras convivem, nos últimos anos, com a poluição visual em seus muros.Tem de tudo: anúncios, grafites e pichações as mais variadas. Estas últimas são as mais agressivas, feitas por gangues juvenis que buscam essa forma de expressão para dar vazão à sua rebeldia. As casas, prédios e escolas também sofrem essa ação. Em um centro de juventude, no bairro de Pedreira, na cidade de São Paulo, depois que banheiros e demais dependências amanheceram pichados, educadoras desenvolveram um projeto que buscou dar sentido e significado ao desejo de expressão dos jovens.

Os muros do bairro

Tínhamos como objetivo a valorização do ambiente do centro pelas crianças e, por conseguinte, que elas pudessem respeitar e cuidar dos muros da cidade. Procuramos focar o trabalho na área de artes, com conteúdos específicos, tais como: misturar e preparar tintas, ampliar desenhos, trabalhar esboços, estudar fundos, contornos. Além disso, buscamos ampliar o conhecimento das crianças sobre as diferenças entre pichar, grafitar e fazer pintura mural. Procuramos também introduzir informações sobre artistas reconhecidos que usaram muros como suporte para suas obras. Como o objetivo compartilhado com as crianças era pintar um dos muros do nosso C.J1, o São João Batista, quisemos estudar mais sobre o uso desse suporte de pintura. Saímos com as crianças pelas ruas do bairro para pesquisar as imagens que apareciam nos muros. Cada grupo encarregou-se de fotografar o que encontrou. Discutimos as fotos nas rodas de conversa que temos usualmente. Descobrimos que existe uma grande diversidade de marcas e imagens nas paredes do nosso bairro. Fomos pesquisar as diferenças entre elas e chegamos aos seguintes tipos: pichação, grafitagem, tags e outras pinturas. Levamos, então, os livros sobre Diego Rivera e Siqueiros, grandes muralistas, para que pudéssemos conhecer outros tipos de produção em mural.

Na verdade, educadores e crianças se encantaram com suas obras, e decidimos em comum acordo que nosso muro teria uma pintura de cunho social, a exemplo da obra de Rivera. Portanto, precisávamos escolher o assunto.

O povo nas ruas

Queríamos um projeto que pudesse contar as conquistas dos movimentos sociais que marcaram a história do nosso bairro, tal como fizeram os muralistas mexicanos. Realizamos, então, um levantamento dos movimentos significativos que aconteceram aqui e escolhemos o Movimento Saúde Pedreira Cupecê. Para iniciar a pesquisa, mostramos às crianças alguns vídeos que contavam episódios da luta pelo hospital e propusemos a elaboração de roteiros de perguntas para entrevistar um dos membros do Movimento Saúde. Descobrimos que o primeiro movimento para a construção desse hospital aconteceu em 1984. Como a prefeitura ainda não havia assumido nenhum compromisso, no dia 20 de setembro de 1987 o povo acampou no local onde deveria ser construído o hospital: homens, mulheres e crianças deram as mãos, conseguindo cercar o local onde seria construído o hospital, gritando o lema “povo unido, jamais será vencido”. Dois anos depois, iniciaram-se as obras, num ritmo bastante lento. Em 1995, o movimento conseguiu que as autoridades responsáveis assinassem uma carta de compromisso que garantisse a construção do hospital. Essa obra só foi concluída em 1998, 14 anos depois da primeira reivindicação. No dia 26 de junho desse mesmo ano a população comemorou a inauguração da tão esperada obra: Hospital Pedreira Cupecê. Tínhamos então nosso tema para o mural.

mural do CJ

“Povo unido jamais será vencido” Detalhe do mural do CJ

O povo no muro

Numa visita ao hospital, as crianças puderam trabalhar seus esboços tendo em vista aquele espaço e sua história. A prática do esboço nos pareceu uma boa maneira de ajudar as crianças a analisar as próprias produções, podendo errar, corrigir, ensaiar e melhorar. Nos desenhos que elas fizeram, dos momentos da história do hospital, puderam experimentar algumas das técnicas que Diego Rivera e Siqueiros utilizavam nos muros que pintavam. O estudo do volume da figura foi fundamental. Também pedimos ao artista plástico Carlos Alonso que fizesse uma oficina ensinando o grupo a elaborar moldes e outras técnicas usadas nesse suporte. Concluída a fase dos esboços, pedimos ao grupo que seqüenciasse todos os desenhos, recontando, por meio deles, a história da luta do povo pelo hospital. Propusemos ainda a análise daquelas produções para que pudessem escolher algumas que seriam transpostas do papel para o muro. Divididas em subgrupos, as crianças se organizaram para preparar a tinta, ampliar o desenho na parede e, finalmente, concluir os murais.

O resultado final agradou a todos, crianças, educadores e visitantes. O projeto Pintura Total ofereceu inúmeros conhecimentos sobre pintura mural e possibilitou às crianças o contato com as organizações de bairro e os movimentos sociais. Elas puderam conhecer as maneiras pelas quais os cidadãos lutam e reivindicam seus direitos e ainda puderam comunicar todas essas idéias por meio da expressão plástica.

1 Centros de Juventude são instituições educativas que atendem crianças de 7 a 14 anos, com função complementar à escola.

Vocabulário pesquisado pelas crianças

Pichação: é a marca na parede, sem nenhuma elaboração, em geral com uma única cor. São nomes de gangues, palavras, rabiscos etc. Não tem propósitos artísticos, seu principal objetivo é desafiar a ordem social, viver uma aventura enfrentando perigos, por isso seus autores buscam lugares proibidos e inóspitos, como prédios altos e pontes.

Tag: termo surgido entre os grafiteiros americanos que serve para designar a pesquisa gráfica sobre as letras.

Grafitagem: é uma marca mais elaborada, que tem propósitos artísticos. Origina-se nos anos 80, atendendo ao objetivo de tirar a arte dos museus e colocá-la na rua, garantindo o acesso a todos. Geralmente é colorida, feita com tinta spray e máscara (molde vazado), que permitem uma rápida aplicação.

Diego Rivera e a Pintura Muralista Mexicana

Sexta-feira Santa no Canal de Santa Anita, Rivera

Rivera, do ciclo Visão Política do Povo Mexicano: Sexta-feira Santa no Canal de Santa Anita, 1923-1924. Um dos 235 murais do edifício da Secretaria de Educação Pública, Cidade do México; 456 x 356cm.

A pintura em paredes tem suas origens num tempo remoto, desde a pré-história, nas cavernas. Na Antiguidade e Idade Média, essas pinturas ocupavam aposentos e fachadas de palácios, pórticos e tetos de igrejas. Essas produções também são encontradas na América Latina.

No México, a pintura muralista ganhou muita força com o crescimento dos movimentos sociais do início do século. Em meio a efervescência revolucionária, surge Diego Rivera (1886-1957), artista de formação acadêmica, engajado em seu tempo, que se dedicou à elaboração de enormes painéis cuja função era exaltar o povo mexicano e os ideais socialistas e humanitários das revoluções populares. Seus murais, medindo de 2 a 6 metros, aproximadamente, estão em muitos lugares públicos, como a fachada de um teatro no México, fachadas e alas internas de prédios onde funcionam o poder público, museus, centros culturais, etc.

Ficha Técnica

Esse projeto foi elaborado e desenvolvido por Amélia de Oliveira Mello e Natil Fernandes Rafael, realizado no Centro Educacional São João Batista, da Obra Social Santa Rita, no segundo semestre de 98, e dele participaram crianças de 10 a 14 anos. Apoio: Instituto C&A.

Para saber mais:


Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #3 de abril de 2000. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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