Bem traçadas linhas

Trajetória do desenho num percurso criador

A diversidade e a riqueza do desenho infantil têm sido objeto de muito estudo. Os professores procuram saber o que influencia a produção de imagens da criança; o que essa produção pode nos revelar; como as crianças chegam a essas produções. Conhecer a criança por meio de suas produções artísticas, na perspectiva de um percurso de criação na área, é o desafio que propomos.

As crianças pensam e pesquisam muito, quando têm oportunidade de desenhar freqüentemente. Alimentam a imaginação e o pensamento, apreciam, elaboram idéias, projetos e pesquisas, aprendem a fazer escolhas, formam gostos, desenvolvem preferências e muitas competências. Mas, ao contrário do que muitos pensam, a produção das crianças não é espontânea nem original: é fruto de muito trabalho. Vamos acompanhar o desenvolvimento dos rabiscos de uma criança, Guilherme. Seus traços, dos 2 aos 6 anos, nos revelam muita pesquisa, pensamento e criação envolvidos em anos de dedicação. É o que vamos conferir a seguir.

Numa tarde na escola, Guilherme viu uma folha limpa sobre a mesa. Tinha apenas 2 anos. Com um giz que a professora lhe ofereceu e a vontade de experimentar, ele marcou a folha, num dos primeiros registros conseguidos na escola: uns rabiscos em ziguezague e outros em diagonais. Também arriscou um exercício circular. À primeira vista, parecem parcos rabiscos, soltos à toa. O que pouca gente sabe é que todos esses rabiscos são alguns dos recursos gráficos que ele usará para o resto da vida. Aqueles rudimentares rabiscos diagonais já são um procedimento para preencher espaços de cor e o exercício circular, um ensaio do que será mais tarde a forma arredondada, célula inicial de muitas composições.

Guilherme, 2 anos

2 anos, hidrocor sobre papel camurça,
31.5 x 21.5cm.

Um mês depois, encontramos Guilherme bastante preocupado com a ocupação do espaço: estuda o campo todo do papel, repetindo o exercício anterior. O movimento circular bem no centro da folha vai virando um retângulo, explorando toda a borda do papel, reconhecendo seu perímetro. Guilherme se esforça para conquistar a forma, dominar o traço, saber fazer. Um traço simples e único, de círculo e de quase retângulo também. Essas são as células iniciais do desenho de Guilherme. Nesse momento, sua trajetória se bifurca. Partindo dos mesmos rabiscos iniciais, Guilherme vai desenvolver duas vertentes de pesquisa gráfica: uma delas trará como resultado figuras mais orgânicas e a outra, mais geométricas.

 

Vertente orgânica do desenho de Guilherme

Guilherme, 2 anos

2 anos, guache e caneta hidrocor fina sobre cartolina, 30 x 24cm.

Acompanhando um desses traços, o arredondado, encontramos uma seqüência de ensaios que vai resultar em formas mais orgânicas. Numa atividade já iniciada1 , Gui faz um verdadeiro ensaio sobre bolinhas. Ele quis primeiro pintar todo o fundo de guache e, só no dia seguinte, pensou a figura. Retomou a pintura e, com a caneta Futura, elaborou seu exercício, uma combinação de formas predominantemente circulares, quase um conjunto: bolinhas dentro de bolas, ocupando todo o espaço do papel, como no desenho anterior

Com 3 anos de idade, numa outra atividade já iniciada com um círculo no centro da folha colado pela professora, Guilherme optou novamente por uma imagem circular. Mas, dessa vez, o vemos mais preocupado com as cores. Verde, cor-de-rosa… uma sobreposição de todas elas.

Guilherme, 3 anos

3 anos, Hidrocor grossa e fina sobre papel sulfite, 31,5 x 21,5cm.

Em outra oportunidade, diante de dois círculos iguais sobre o papel, encontramos Guilherme trabalhando de outra maneira: usa formas para compor um desenho. Várias formas interligadas. Ele vai separando-as pela linha e pela marca de cor. A aprendizagem do preenchimento vai aparecendo no seu percurso, sem que a professora precise criar uma atividade só para desenvolver essa habilidade, como víamos nos clássicos exemplos das folhas mimeografadas com desenhos prontos para a criança pintar dentro. Ao contrário, Guilherme está aprendendo significativamente, dentro de um contexto, usando esse recurso na hora em que precisa dele. Nesse caso, existe para ele uma razão para preencher a forma com a cor, por isso empenha-se ao máximo para fazer de um jeito que resulte no efeito desejado: não deixa sair do traço, cobre com azul cada espacinho branco, até não sobrar nada. Podemos ver que está exercitando o conhecimento que tem da forma circular, combinando círculos e rabiscos únicos, retos, até chegar à representação da figura humana, essas carinhas que aparecem no canto.

Normalmente as professoras esperam que haja uma seqüência linear das formas circulares para a figura humana porque pensam que esse é um percurso natural. Na verdade, a criança rabisca, preenche o espaço de cor, faz diferentes formas, podendo usar esses conhecimentos como quiser e não só no desenho figurativo. Veja a seguir, por exemplo, o desenho que Guilherme fez com 4 anos de idade. Olhando rapidamente, parece mesmo um rabisco rudimentar. Olhando melhor, podemos perceber a sobreposição de cores e de formas: há um desenho organizado nesses traços cor-de-rosa que estão no centro. Não quer dizer que ele não saiba figurar, mas sim que decidiu preencher o espaço de uma maneira diferente dos outros: antes preenchia cobrindo quase toda a cor do papel e aqui preenche com rabiscos circulares, ziguezague de novo e diagonais, formando texturas que deixam aparecer a cor do papel, mostrando que existe mais de um jeito de ocupar o espaço delimitado. Como já sabe muitas coisas, pode optar. É o que vemos nesse trabalho, já iniciado com os retângulos:ele optou por fazer algo que não saísse do papel nem riscasse sobre as imagens existentes, usando apenas o espaço que sobrou

Guilherme, 4 anos

4 anos, Hidrocor fina sobre papel sulfite (caderno de desenho), 27,5 x 20cm.

No próximo desenho, vemos que ele volta a preencher o campo inteiro do papel, já com muito conhecimento de formas, figuras e de combinação: faz carrinhos, foguetes, combinando retângulos e círculos, dispondo o círculo por todo o papel, usando apenas algumas cores.

Mais tarde, aos 5 anos, vemos Guilherme usando a forma circular de outro jeito: faz combinações de retas com as bolinhas. Trata-se de um trabalho muito mais orgânico que se repete aqui: vemos uma imagem muito bonita, em forma de ameba em dois tons de azul.

Guilherme, 5 anos

5 anos, Hidrocor sobre papel sulfite, 31,5 x 21,5cm.

Guilherme, 6 anos

6 anos, Hidrocor fina sobre papel sulfite, 31,5 x 21,5cm.

Finalmente, um dos pontos de chegada, quatro anos depois dos primeiros rabiscos. Uma produção feita por Guilherme aos 6 anos mostra todo o conhecimento que construiu. Usando tudo o que aprendeu a fazer, ele ocupa o campo inteiro do papel com círculos e com tantos outros jeitos de preencher o espaço que experimentou na escola, ao longo dos anos.

Vale lembrar que ele não terminou esse trabalho num único dia, porque é muito cansativo. Aliás, o desenvolvimento de um percurso exige tempo; isso ele aprendeu na escola. Há artistas, por exemplo, que demoram muito tempo para concluir uma única obra, e anos para desenvolver uma pesquisa. Às crianças também deveria ser oferecida a oportunidade de retomar o trabalho em um outro dia, acrescentar elementos e reelaborar a produção.

 

Vertente geométrica do desenho de Guilherme

Daqueles primeiros rabiscos iniciais também surgiram outras imagens,
mais geométricas, mostrando a diversidade da produção infantil numa mesma época. Reencontramos Guilherme, no desenho seguinte, novamente preocupado com o tamanho do suporte: ele reproduz seu formato num esforço motor, tentativa de dominar o gesto. Sua professora não precisou propor exercícios de coordenação motora para que ele conseguisse fechar essas formas. Aqui ele está investindo nesse exercício de outra forma, com mais envolvimento, colocando em jogo o melhor que pode fazer, porque isso tem um sentido para ele, dentro de sua trajetória de pesquisa.

Num outro dia, Gui desenvolveu uma proposta de colagem. Vemos que ele tem aqui uma preocupação com a estrutura. Ele optou por formas mais retas, compondo elementos em blocos, o mesmo princípio que vai predominar nos trabalhos dessa seqüência.

Guilherme, 3 anos

3 anos, Hidrocor fina sobre papel sulfite, 31,5 x 21,5cm.

Guilherme trabalha linhas, formas, cores, compondo blocos diversos, organizando em figuras. Seu tema preferido são os carros e outros meios de transporte. Faz um caminhão-trem, transpondo as figuras em diferentes suportes. Figuras circulares coladas numa folha, como proposta de trabalho já iniciada pela professora, sugeriram a ele as rodas do trem.

No dia seguinte, experimenta um outro tema: dessa vez, os dois recortes retangulares sugeriram uma repetição. Estudou o contorno, percorrendo com a canetinha toda a volta do papel, desenvolvendo um outro tema que não tinha aparecido e que não sabemos se poderia um dia aparecer sem a intervenção pedagógica da professora ao dar esse papel, recortado dessa forma. Ele fez uma moradia. Essa composição ainda não tinha aparecido no seu percurso. Preocupado com sua pesquisa de transporte, encontra nessa proposta um novo problema, num papel recortado. Guilherme teve de pensar como resolver: uma casa lhe pareceu um bom jeito.

O conhecimento que temos acerca da produção do Guilherme, até o momento, nos permite ver que ele vai e volta, e que nessa trajetória, como na de todas as crianças, não existe uma linearidade. Ao analisarmos o desenho abaixo diríamos, se não conhecêssemos toda a pesquisa de Guilherme, que ele não figurou nada. Isoladamente parece até uma criança que não sabe figurar. Porém, o que vemos ali é uma imagem muito bonita, uma tremenda organização de formas, de texturas e uma preocupação com o equilíbrio.

Atenta ao trabalho que essa criança vem desenvolvendo, a professora continua propondo desafios. O tamanho do suporte e a qualidade do papel impõem pensar em alternativas gráficas que ele talvez não dominasse2 Num papel muito comprido (0,66 m x 0,12 m), estica o desenho o máximo possível, porque gosta de aproveitar todo o papel. Depois, num fundo preto, precisa resolver a proposta usando apenas a tinta branca. Esse exercício trabalha um contraste do negativo para o positivo que possibilita à criança a construção da noção de fundo. Essa foi, sem dúvida, uma proposta bastante interessante, já que, sem a referência de outros fundos, ele provavelmente não teria como comparar e distinguir.

Guilherme, 7 anos

7 anos, Giz de cera, lápis de cor, esferográfica, hidrocor grossa e fina sobre papel sulfite (caderno de desenho), 20 x 27,5cm.

Mais uma vez, ao final dessa seqüência, vemos todo o conhecimento que Guilherme adquiriu em seus rabiscos, experimentação de texturas, as bolinhas e, como não poderia deixar de ser, um meio de transporte também. Ele já tem 7 anos e desenha o Titanic, na época em que o filme estava em cartaz. Inevitável aceitar o repertório que as crianças trazem de casa, afinal elas se alimentam de tudo! Pais, escola, rua, televisão…Com os elementos que vê no mundo, com o que aprendeu na escola e com a paciência que desenvolveu, Guilherme elaborou uma figura com fundo numa abrangente pesquisa de materiais: usa caneta hidrográfica grossa e fina, caneta esferográfica, pastel oleoso, lápis de cor, numa composição rica, interessante, bonita.

Resta ainda dizer que Guilherme, assim como todas as crianças, não sabia, obviamente, aonde iria chegar com seus traços, ou seja, ele não teve a intenção prévia de chegar aonde chegou. Contudo, não nos permite concluir que sua criação vem do nada ou que foi feita por acaso. É importante, como se vê, levar em consideração todo o conhecimento prévio que a criança possui, ensinando-a a ver o que criou, educando seu olhar e alimentando o seu fazer, componentes imprescindíveis num processo de criação.

(Agradecemos ao Guilherme por ter cedido sua produção, à escola Verde Que Te Quero Verde por ter organizado todo esse material e, finalmente, à Maria Teresa, mãe do Guilherme que, com seu cuidado em guardar tudo isso durante anos, nos possibilitou saber tanto sobre o desenho infantil.)

(Valéria Pimentel, professora de artes visuais, coordenadora de área na Escola Verde Que Te Quero Verde3, formadora e consultora de escolas de educação infantil.)

1 A atividade iniciada é um tipo de proposta em que a criança continua o trabalho iniciado anteriormente. Em outros casos, a própria professora inicia algo que a criança deverá concluir, desafiando-a a buscar soluções para resolver problemas. Podem apresentar desafios uma figura colada sobre um canto do papel, um papel vazado, uma figura colada, um trabalho iniciado por outra criança, entre outros.

2 A escolha de tipos, tamanhos, formas e cores de papéis ou de outros suportes, bem como a escolha e a oferta de diferentes materiais, são possibilidade de interferências que ajudam as crianças a avançar no seu percurso de criação, aprendendo mais sobre os materiais e seu próprio desenho.

3Escola Verde Que Te Quero Verde, Rua Pero Correia, 533 – Itararé – São Vicente – CEP 11320-140 – Tel: (0xx13) 468-9370 – www.verde.com.br

A influência da cultura

A arte da criança, desde cedo, sofre influência da cultura, seja através de materiais e suportes com que faz seus trabalhos, seja através de imagens e atos de produção artística que observa na TV, computador, gibis, rótulos,
estampas, obras de arte, vídeo, trabalhos artísticos de outras crianças etc. A criança é autônoma ao fazer seus trabalhos artísticos, embora os faça de maneira cultivada, ou seja, denotando a influência cultural que recebe e revelando:
a) o local e a época histórica em que vive;
b) suas oportunidades de aprendizagem;
c) suas idéias ou representações sobre o trabalho artístico que realiza e sobre a produção de arte à qual tem acesso;
d) seu potencial para fazer trabalhos artísticos e refletir sobre a produção de arte.
A criança tem suas próprias idéias, interpretações, representações ou teorias sobre a produção de arte e o fazer artístico. Tais construções são edificadas a partir de experiências – que tem ao longo de sua vida – que envolvem a reação com a produção de arte, com o mundo físico e com
o seu próprio fazer. A criança age, reflete, abstrai sentidos de sua experiência. A partir disso constrói significações sobre como se faz,
o que é, para que serve e sobre outros conhecimentos a respeito de arte.

A importância da orientação educativa

O papel da escola é fundamental na formação artística, pois favorece para a criança a ordenação e a continuidade da experiência com a arte. Sabemos que a orientação educativa é um fator de aprendizagem que promove o desenvolvimento do aluno na área, e que a falta de oportunidades educativas adequadas gera diferenças qualitativas na produção e na reflexão sobre a arte entre crianças com o mesmo potencial para aprender e criar. Em outras palavras, a orientação educativa transforma, dinamiza e promove o desenvolvimento artístico da criança.

(Rosa Iavelberg: Pedagogia da Arte ou Arte Pedagógica: um alerta para a recuperação das oficinas de percurso de criação pessoal no ensino da arte. Pátio, revista pedagógica, ano I, nº 1, maio / junho de 1997, ed.Artes Médicas)


Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #3 de abril de 2000. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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